quarta-feira, 20 de junho de 2018

O azar marroquino

Foram 20 longos anos. O período entre as Copas do Mundo sediadas em França, 1998, e Rússia, 2018, foi duro para o futebol marroquino. A ausência em quatro mundiais foi sentida, assim como as sucessivas campanhas ruins nas edições de Copa Africana de Nações que ocorreram nesse tempo. Também não foi fácil ver jogadores importantes, como o zagueiro Adil Rami, trocarem o país em prol de outras nações, e tampouco foi simples gerir crises como a criada pelo abandono da seleção de Adel Taarabt, em 2011. Porém, o Marrocos conseguiu retornar aos campos mundiais.


Foto: Reuters



A sorte, entretanto, seguiu fazendo troça com a cara dos Leões do Atlas. Como em 98, quando dividiu o Grupo A com Brasil, Noruega e Escócia, os marroquinos tiveram azar no sorteio dos grupos da edição de 2018. 

Dessa vez, foram Espanha e Portugal que andaram em seu caminho, além de um pragmático — mas valente — Irã. Ainda assim, havia esperança. A geração do time africano dificilmente poderia ser melhor, com uma defesa forte e um meio campo talentoso.

Em entrevista concedida ao Guardian, o auxiliar técnico do país,  Mustapha Hadji, indicou o que significou a classificação de seu país ao Mundial: 

“Depois do islamismo, o futebol é nossa segunda religião. Marrocos ama o jogo e é realmente um país do futebol [...] As pessoas marroquinas têm esperado por isso há muito tempo — pessoas ricas, pessoas pobres, o cara do topo da montanha com sua ovelha”.

Com jogadores da qualidade do zagueiro e capitão Medhi Benatia, do jovem e polivalente lateral Achraf Hakimi, dos talentosíssimos Amine Harit, Mbark Boussoufa, Younès Belhanda e, acima de todos, de Hakim Ziyech, o treinador Hervé Renard montou um time poderoso. O líder que conduziu Zâmbia e Costa do Marfim a títulos continentais, transformou o Marrocos em um time propositivo, de bom toque de bola e com uma pitada de fantasia. Talvez tenha lhe faltado um centroavante — talvez tenha carecido apenas de um pouco de sorte.


No jogo inaugural, contra os iranianos, sabia-se que vencer era obrigação. Só assim haveria hipóteses de avanço. Com isso em mente, desde o início os marroquinos dominaram as ações. A posse de bola foi toda dos norte-africanos: 68% contra apenas 32% do time rival. Os acertos de passe também foram muitos mais de sua parte, 81% versus 57%. 

Foram também 13 as finalizações do time, contra nove dos comandos do treinador português Carlos Queiroz. Mas a partir disso se pode fazer um adendo: Marrocos só acertou a baliza iraniana três vezes, uma a mais que seu adversário. Todavia, sem conseguir ser cirúrgico. Falhando na hora H. 

Do outro lado, havia outra equipe também com suas pretensões. Não tomar as rédeas do jogo, foi sua opção clara. A questão é que isso não representou desistência quanto ao resultado. E, quando pôde, o Irã foi clínico. Anotou o único gol do jogo (mesmo que esse tenha sido contra) e colocou os marroquinos na berlinda. A obtenção de bons resultados contra Portugal e Espanha foi desde o início uma realidade tratada como difícil.

Foto: Getty Images
O curioso e irônico é que, sem saber, o auxiliar técnico de Renard profetizou quando falou ao Guardian: “O espírito está forte e isso faz uma grande diferença. Às vezes só ter qualidade não é suficiente”. Contra o Irã, de fato, não foi. Ainda que não se possa duvidar da força do espírito da equipe (Nordin Amrabat sofreu até uma concussão no jogo contra os asiáticos).

A segunda partida, contra Portugal, definiria os rumos do país na Copa do Mundo. Uma derrota, escancararia a porta de saída; garantiria o carimbo de volta nos passaportes marroquinos. E assim aconteceu, sob a supervisão de Cristiano Ronaldo, que condenou os norte-africanos já no quarto minuto de jogo, com um potente cabeceio. Foi só. O jogo esteve longe de ser uma exibição.

Mais uma vez, Marrocos teve maior domínio das ações. Desfrutou de mais tempo de posse de bola (55%, contra 45%), concluiu maior percentual de seus passes (77% versus 71%), finalizou mais (15 chutes em oposição aos 10 lusitanos) e acertou mais o gol adversário (quatro vezes contra duas). Parou no goleiro Rui Patrício, de grande exibição, e parou em sua própria limitação para fazer gols. Ainda enfrenta a Espanha, mas já está eliminado.

Diante disso, seu treinador abraçou sua equipe — depois de criticar a arbitragem no lance do gol português. “Não estou desapontado com a exibição, estou sim muito feliz com a nossa exibição. Estou muito orgulhosos dos nossos jogadores, deste país, deste staff, estou muito orgulhoso de toda a gente”, disse na coletiva pós-jogo.

A verdade é que desde o início, o sonho de avanço aos mata-matas era difícil de se tornar realidade. Portugal e Espanha foram sempre os favoritos. Sabia-se que os africanos tinham dado azar no sorteio. Mesmo assim, eles não se deixaram levar por isso. Lutaram e mostraram virtudes. Perder é parte do jogo. A esperança é a de que o bom trabalho siga sendo feito e não seja necessário esperar outros 20 anos para o país voltar aos Mundiais.

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