segunda-feira, 9 de julho de 2018

Euro 96: muito prazer, Croácia

“Sabíamos que éramos a primeira geração a jogar pela nova Croácia. Sabíamos que tínhamos uma guerra sangrenta por trás de nós. [Franjo] Tudjman [ex-presidente da Croácia] nos disse que éramos como embaixadores da Croácia. Mas [em 1998] não havia nacionalismo extremo. Em 1996, ok. Havia motivação extra ao ouvir o hino nacional e, especialmente, quando se via as reações em casa”— Slaven Bilic, em entrevista concedida ao jornalista Jonathan Wilson e veiculada no livro Behind The Curtain.


Foto: Getty Images



A Croácia chegou às semifinais da Copa do Mundo de 2018. E não foi com muita surpresa. Afinal, subestimar uma equipe capaz de alinhar, dentre outros, Luka Modric, Ivan Rakitic, Ivan Perisic ou Mario Mandzukic não seria um ato são. Tal campanha, mais uma vez, coroa o futebol de um país que ainda supera os horrores do início dos anos 90. Premia, também, uma escola de futebol. A única de sua região que conseguiu, de fato, obter sucesso após o desmembramento da Iugoslávia.

De 1987 a 1996

A República da Croácia foi proclamada em 1991. A guerra contra o exército iugoslavo durou até 1995. Em meio a isso, uma geração de talentosos jogadores revelou sua qualidade pela Europa. Grande parte deles havia participado da histórica campanha iugoslava no Mundial sub-20 de 1987 — gente como Robert Jarni, Igor Stimac, Zvonimir Boban, Robert Prosinecki e Davor Suker. Até então, todos defendiam equipes iugoslavas.

Nove anos mais tarde, esses cinco já atuavam por Real Betis, Derby County, Milan, Barcelona e Sevilla, respectivamente. Já eram futebolistas conhecidos e gozavam da companhia de outras peças de qualidade, como o zagueiro do West Ham, Bilic, e o atacante da Lazio, Alen Boksic. Assim, a chegada à primeira competição oficial, a Euro 96, do ponto de vista meramente futebolístico, foi natural.

Nas eliminatórias, os croatas já haviam mostrado seus grandiosos propósitos. Membros de um grupo dividido com Itália, Lituânia, Ucrânia, Eslovênia e Estônia, passaram em primeiro lugar, empatados em pontos com a Squadra Azzurra, então a vice-campeã do mundo. A Croácia sofreu apenas uma derrota no período (para a Ucrânia), tendo vencido, inclusive, os italianos fora de casa. Aliás, ninguém marcou mais gols do que Suker nas eliminatórias — foram 15, dois a mais que Hristo Stoichkov e três em relação a Jürgen Klinsmann.


Desde 1994 comandada por Miroslav Blazevic, o excêntrico treinador lembrado por Bilic e adepto de formações com três defensores, a seleção croata viajou à Inglaterra, sede da competição, com gana. “Não digo que era bom ou mau treinador, mas era o ideal para nós [...] Ele era o pai de todos, um grande motivador”, relatou o defensor.

Durante todo o período de unificação da Iugoslávia, o esporte foi tratado com cuidado. Marechal Tito, o responsável pela manutenção da unidade dos Bálcãs até 1980, enxergava no futebol uma ótima oportunidade para diminuir as tensões nacionalistas: “O esporte precisa ser esporte, e deve ser livre de paixões negativas e comerciais. É especialmente perigoso permitir hostilidades nacionalistas”.¹

Tito faleceu. A Iugoslávia desfaleceu. Mas o futebol se manteve importante na região, senão vital. Daí Tudjman considerar os jogadores croatas embaixadores da nação. Esse era o espírito carregado pelo time que, pela primeira vez, pôde representar o país independente.

Embaixadores da Croácia na Inglaterra

A estreia do selecionado eslavo foi contra uma fraca Turquia (a despeito das presenças de Rustu Recber e Hakan Sukur), que retornava à disputa de torneios internacionais, depois de uma longa espera — desde a Copa do Mundo de 1954. Não foi um jogo particularmente bom, com o site oficial da UEFA reconhecendo que “muitas de suas estrelas [da Croácia] não corresponderam às expectativas”. Ainda assim, tardiamente, aos 86 minutos, o reserva Goran Vlaovic anotou o gol que tirou o sufocado grito dos croatas da garganta.

Foto: Getty Images


O encontro que se seguiu já foi mais tranquilo, com a presença de Vlaovic no time titular. Embora enfrentasse a atual campeã europeia, Dinamarca, a estreante não se amedrontou e lhe aplicou um sonoro 3 a 0. Suker, autor de dois gols, havia despertado. Nem a reconhecida defesa escandinava, nem o goleiro Peter Schmeichel foram capazes de evitar seu ocaso.

Então, veio o primeiro sinal de alerta. Se a Croácia contava com uma geração que mostrara talento na conquista do Mundial sub-20 de 87, Portugal vinha com a geração vitoriosa de 1991. O esquadrão de Luís Figo e Rui Costa goleou o modificado time eslavo (3 a 0). Classificada, a seleção de Blazevic permitira-se o luxo de poupar, dentre outros, Suker, Boban e Aljosa Asanovic.

O vencedor nem sempre é quem joga melhor

O avanço aos mata-matas na segunda colocação do Grupo D sentenciou a seleção croata a enfrentar a Alemanha, líder do Grupo C. Em Old Trafford, estádio do Manchester United, a Croácia foi valente. Teve a iniciativa do jogo. Porém, não foi capaz de evitar o avanço dos eficientes germânicos.

Os eslavos foram à luta desde o momento inicial. Todavia, naquele que foi o primeiro ataque alemão, Klinsmann converteu uma penalidade máxima concedida por Nikola Jerkan. 

Suker até empatou o certame, pouco depois do início da segunda etapa, mas tudo ficou mais complicado quando Stimac foi expulso e, três minutos depois, Matthias Sammer devolveu a liderança à Alemanha.

A Croácia foi eliminada, mas voltou com honra. Na oportunidade, o El País reportou que: 

“[A Croácia] mostrou os melhores jogadores da tarde, fez o único futebol e colocou muito mais ambição, mas se traiu em duas jogadas decisivas: uma absurda mão de Jerkan dentro da área e uma entrada brutal de Stimac [...] A Croácia se autodestruiu com o pênalti e a expulsão. Dois convites ao gol, que a Alemanha aproveitou quase sem querer, porque o time de Berti Vogts nunca teve outra intenção que não fosse a de se refugiar”.


Seja como for, a partir de então o mundo conhecia a Croácia. Sabia de sua força. A Copa do Mundo de 1998, com a terceira colocação, só confirmou tal realidade. Nela, aliás, veio a vingança dos croatas, que eliminaram a Alemanha nas quartas de final com um impiedoso 3 a 0. 

Desde então, ninguém nunca mais olhou com os mesmos olhos para a Croácia. Mesmo que tenha demorado um pouco a aparecer outra grande geração, a ameaça de 98 nunca foi esquecida. Tudo começou na Euro 96.
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¹ Kajtezović, A. The disintegration of Yugoslavia and football. University of Northern Iowa, 2015. P. 56.

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