quinta-feira, 26 de julho de 2018

A indisciplina que encaminhou a carreira de Graeme Souness

O Liverpool teve um timaço nas décadas de 1970 e 80. Reinou em solo nacional e continental. Empilhou troféus e se consagrou um dos gigantes do futebol mundial para a eternidade. Na época, além do mítico treinador Bob Paisley — sucessor do ainda mais lendário Bill Shankly —, os Reds contavam com referências históricas dentro das quatro linhas. Uma delas vinha da Escócia e respondia pelo nome de Graeme Souness.


Foto: Reprodução/TEAMTalk


Desde a infância, o meio-campista sabia quais eram seus objetivos: em primeiro lugar, ser jogador de futebol profissional; em segundo, atuar no futebol inglês. Na adolescência, representou os times escolares de Edimburgo e da Escócia, e foi assim que conseguiu expor sua qualidade técnica. No período, chegou a treinar no Celtic, que poucos anos antes havia conquistado a Copa dos Campeões.

Recebeu, pois, convites de algumas equipes. O Celtic foi o primeiro a fazer contato, ao qual não deu continuidade. Nada que tenha representado grande peso para Souness, que realmente queria viver o sonho inglês. Porém, houve um momento em que a decisão passava por três variáveis: West Bromwich, Wolverhampton e Tottenham. Firmou pelo último, tomando o caminho do estádio White Hart Lane.

Dois grandes fatores pesaram na decisão do então jovem: a possibilidade de viver em Londres e a influência de Dave Mackay, seu conterrâneo e lenda dos Spurs. Tudo parecia indicar que o escocês teria uma carreira bonita e longeva no clube. 

O desenvolvimento de sua técnica era indiscutível, e só ficou evidenciado em 1970. No referido ano, o Tottenham venceu a prestigiosa FA Youth Cup. Foram necessárias quatro partidas, uma vez que o clube londrino bateu o Coventry City no primeiro jogo por 1 a 0, perdeu o segundo pela mesma margem e empatou o terceiro por 2 a 2. Na decisão, novo 1 a 0. Ambas as vitórias dos Spurs foram consumadas por gols de Souness.

Acontece que o meia não era um tipo dos mais fáceis. Ele queria estar entre os profissionais a qualquer custo. Mas o treinador da equipe, Bill Nicholson — outra lenda da equipe —, não facilitava. Segundo Souness, as promessas de uma oportunidade foram sendo constantemente renovadas, sem que sua situação mudasse. A paciência, aos poucos, começou a acabar.

Foto: Empics
Em certo momento, Graeme retornou à Escócia no verão e, digamos, acabou na esbórnia. Nada impressionado com isso, Nicholson suspendeu o jogador. Era o início de uma ruptura sem volta. Sua estreia acabaria acontecendo na Copa da UEFA de 1971/72, mas durou pouquíssimos minutos e foi uma cena que não voltou a se repetir. Souness nunca mais vestiu a camisa do clube.

O escocês, então, viveu outra experiência inusitada. Foi emprestado ao inexpressivo Montreal Olympique, do Canadá, que disputava a extinta NASL. Foram três meses, 10 jogos e muita, muita farra. Após o empréstimo, Nicholson estava farto de Souness, que por sua vez já não aguentava mais não fazer parte do time principal do Tottenham. O escocês acabou negociado com o Middlesbrough.

Trocar Londres por uma pequena cidade ao norte do país só não parecia tão ruim quanto trocar um time da primeira divisão por outro da segunda. Contudo, como o próprio jogador viria a reconhecer, a mudança foi o passo atrás que permitiu, na sequência, dois passos adiante.

Pouco tempo depois de assinar com o Boro, Souness passou a ser treinado por outro nome de peso no futebol inglês, um campeão mundial de 1966, Jack Charlton. “Eu tinha acabado de completar 20 anos e precisava desesperadamente da disciplina que Jack Charlton me impôs”, relatou o escocês em sua biografia, Graeme Souness — Football: my life, my passion.

Logo de cara, o novo comandante colocou o dedo na ferida: “há duas saídas para você: você pode se tornar um jogador e ter uma carreira, ou você pode ser como vários outros jovens talentosos e não fazer nada”. A mudança foi rápida e o discurso eficaz. Souness se tornou titular, mas só o conseguiu por ter se concentrado mais em sua carreira, conseguindo desenvolver o lado mais físico de seu jogo adquirindo, ainda, a malícia que o futebol da época pedia.

Foto: Empics
Então, vieram os sucessos coletivo e individual. Em 1973/74, o Middlesbrough conseguiu o acesso à elite e o jogador recebeu seu primeiro chamado à seleção escocesa. 

Até 1977/78, o Middlesbrough fez campanhas tranquilas. Não teve grandes ambições, mas também esteve longe do rebaixamento. Grande parte disso se deveu às performances de Souness, que acabaria vendido em janeiro de 1978, por um valor recorde entre clubes ingleses. Por £352.000,00 firmou com o Liverpool. O resto é história.

A bem da verdade, o jogador nunca se transformou em santo, mas entendeu que certas condutas precisariam ser mudadas para que conseguisse alcançar grandes feitos em sua carreira.

No estádio Anfield Road, o escocês conquistou cinco títulos ingleses, três europeus, três da Copa da Liga e outros três da Charity Shield. Fez seu nome e ajudou o clube a atingir o patamar histórico que carrega consigo até os dias atuais. Saiu em 1984, depois de ter sido inclusive o capitão do time. 

A vida não é feita de “se”, mas quem pode dizer o que teria sido da carreira de Souness caso não tivessem existido os eventos de indisciplina do início de sua carreira, que tanto enfadaram Bill Nicholson e levaram o jovem jogador ao transformador período no Middlesbrough? Fato é que o que veio a seguir foi tão bom que impediu quaisquer arrependimentos da parte do escocês.

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