segunda-feira, 30 de julho de 2018

Perfil tático: Lucas Torreira no Arsenal

A temporada 2018/19 será de grandes expectativas para o Arsenal. Pela primeira vez, desde 1995, o clube não terá mais, sentado no banco de reservas, o treinador Arsène Wenger. Em seu lugar, assumiu o comando da equipe Unai Emery. São esperadas mudanças na forma de jogar da equipe e, até agora, imagina-se que a principal delas se dará no meio-campo. O setor recebeu um reforço de peso. Valorizado após a Copa do Mundo, o uruguaio Lucas Torreira chega para ser o cão de guarda dos Gunners.


Foto: Arsenal FC/ Getty Images



Quando o clube inglês obteve verdadeiro sucesso pela última vez, na inesquecível temporada 2003/04, havia dois paredões no meio-campo. Eles tinham categoria, mas sabiam fazer, exemplarmente, as tarefas sujas. Patrick Vieira e Gilberto Silva formaram uma das melhores duplas de volantes que o futebol inglês já conheceu.

Ela esteve em altíssimo nível durante um bom tempo. Mas acabou em 2005, quando Vieira partiu para a Juventus. Daí em diante, sem seu parceiro, Gilberto passou a ter mais importância, mas duas temporadas depois já começou a viver queda física e técnica. Nos tempos que se seguiram, nunca mais o torcedor teve uma parceria de meio-campistas em que pudesse de fato confiar.

Não é que não tenham passado bons jogadores pelo setor. 

Por lá, Cesc Fàbregas e Jack Wilshere brilharam em alguns momentos. Mikel Arteta e Alex Song também. Aaron Ramsey, que ainda hoje atua no clube, é outro que teve ótimas fases. Mas nenhum deles conseguiu a solidez que aquela famosa dupla entregou. A necessidade de um volante com maior poder defensivo foi tão grande em alguns momentos que levou os londrinos a aproveitar gente de qualidade questionável, como Francis Coquelin e Mathieu Flamini.

Os guardiões de Emery

Foto: Stuart MacFarlane/ Arsenal FC
Por sua vez, Emery sempre contou com volantes em quem podia confiar. No Valencia, teve o experiente David Albelda. No Sevilla, contou com a força de Stephane Mbia, Grzegorz Krychowiak e Steven N’Zonzi.

Em seu último ano no Paris Saint-Germain, teve a experiência de Thiago Motta e, em algum momento, chegou a precisar se reforçar com o experiente Lass Diarra. Nunca viveu sem volantes com saída e pegada.

Talvez tenha sido esse o motivo pelo qual buscou a contratação de Torreira.

Já faz algum tempo que o treinador espanhol mostra uma prevalência pela utilização de três meio-campistas. Dependendo das características dos jogadores, a leitura tática tem revelado os esquemas 4-2-3-1,  4-1-2-2-1 ou 4-3-3. Mas sempre houve três jogadores na meia-cancha.

No Sevilla, aos volantes de unia Ever Banega. Na França, eram Marco Verratti e Adrien Rabiot (às vezes Giovani Lo Celso), as peças que completavam o setor — até Dani Alves jogou por ali.

Por sua vez, no Arsenal, a titularidade de Aaron Ramsey e Granit Xhaka, considerando os dois em plenas condições físicas, sempre foi uma realidade e essa segue sendo uma tendência para a temporada que vai se iniciar em breve.

Faltava, porém, alguém capaz de dar maior consistência ao setor. Essa peça tende a ser Torreira, diante da necessidade da equipe e do estilo de preferência do novo treinador. As últimas duas temporadas foram extremamente desapontantes para o Arsenal, ficando fora da disputa da UEFA Champions League e, necessariamente, o clube precisa retomar o bom caminho em 2018/19. Parte disso passa, diretamente, pela escalação de um meio-campo mais equilibrado, defensiva e ofensivamente.

O que Torreira traz ao clube?

O garoto uruguaio se tornou a menina dos olhos da Sampdoria nos últimos dois anos. Baixinho, confortável com a bola nos pés e dono de uma capacidade impressionante para ler o jogo, provou-se especial em interceptar a bola aos adversários e desarmá-los. 

Na última temporada (considerando apenas meio-campistas), apenas Valon Berahmi, Lucas Leiva e Allan registraram média melhor que ele em desarmes por jogo na Itália (média de 2,8). Nas interceptações, só Milan Badelj, Rolando Mandragora, Federico Viviani e Miralen Pjanic foram melhores (média de 2).

Já na última campanha do Arsenal, o melhor desempenho de interceptações foi de Xhaka (2,1), assim como de interceptações (uma ao lado de Ramsey).

Foto: Marco Canoniero/ LightRocket/ Getty
O Arsenal teve, disparadamente, a pior defesa dentre os clubes que figuraram nas seis primeiras colocações da última Premier League. Sofreu 51 gols em 38 jogos — treze gols a mais que Liverpool e Chelsea, que vêm logo atrás. Era evidente que mudanças precisariam ser feitas, e não só na zaga, mas sobretudo em sua proteção.

Em Torreira, o Arsenal ganha um reforço especialista na recuperação da bola, mas que também é útil ao fazer a saída da defesa (acertou 87,2% de seus passes na última edição do campeonato italiano e distribuiu em média 2,5 passes longos por jogo). O uruguaio se mostrou incansável, uma formiguinha trabalhadora. Capaz de permitir maior liberdade aos meias, dar mais segurança à zaga e oferecer cobertura aos laterais.

Com ele, Ramsey e Xhaka ganharão mais liberdade para explorar sua vocação ofensiva, sem prejudicar o time defensivamente. Torreira traz ritmo ao meio e deve dar a segurança que tanto tem faltado nos últimos tempos. Isso já é meio caminho andado para um time que quer voltar a estar nas cabeças.

Tecnicamente, não deixa a desejar. Defensivamente, agrega imenso valor. Coletivamente, dá uma segurança que o clube não tem desde os tempos de Patrick Vieira e Gilberto Silva. Sua chegada é o primeiro forte sinal dos novos tempos. E, tendo apenas 22 anos, pode ser a chave para muitos anos de bons resultados no estádio Emirates.

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