sexta-feira, 20 de julho de 2018

Perfil tático: William Carvalho no Real Betis

Demorou mais do que era suposto prever quando o volante despontou. William Carvalho apareceu no Sporting CP na temporada 2013/14, depois de passar um tempo emprestado ao modesto Fátima e ao belga Cercle Brugge. Então, chamava a atenção a serenidade com a qual passou a reger o meio-campo do Sporting. A segurança para retomar a bola ou dar o passe mais eficaz na primeira fase da criação das jogadas de ataque lhe rendeu comparações com ícones do futebol — gente como Patrick Vieira. Sua saída do clube lisboeta parecia questão de tempo. Foi. De muito tempo.


Foto: Kiko Hurtado/Marca



Foram cinco as temporadas completas em que o volante defendeu o alviverde. Como era de se supor, seu estatuto no clube evoluiu imensamente nesse interregno. Em 2017/18, após a venda de Adrien Silva para o Leicester City, tornou-se capitão. Na seleção portuguesa também conquistou lugar cativo no onze inicial do treinador Fernando Santos. 

Entretanto, uma dúvida ficou no ar: sua evolução não estagnou, passando tanto tempo em uma mesma equipe e em um campeonato com menor competitividade do que o de alguns outros países europeus? Talvez essa seja uma das explicações pelas quais o atleta, ao sair (em parte forçado pela crise sem precedentes que se instalou no Sporting), tenha seguido para o espanhol Real Betis. 

As especulações de um futuro em gigantes da Premier League, tão comuns em seu início de trajetória, ficaram lá atrás. Apesar disso, seu novo contexto renova os desafios de sua carreira. William terá a chance de se mostrar em nível mais alto de competição e em um clube que chama a atenção de muitos. E essa é outra justificativa possível para sua escolha.

A ambição bética

Depois de chamar a atenção no comando do Las Palmas, o treinador Quique Setién chegou ao Betis na temporada 2017/18. Embora seja um tanto quando kamikaze, a proposta do treinador se mostrou atrativa ao público. Ele pratica o famigerado jogo de posição, consagrado por Pep Guardiola. Seu jogo é pelo chão e começa nos pés de seu goleiro. Há o gosto pela conservação da bola e pelo ataque a todo custo. 

Em geral, o time andaluz trabalha em um esquema tático 4-3-3 (às vezes percebido como 4-1-2-2-1 ou 3-4-2-1). O que se percebe em muitos turnos é a saída com três atletas, os dois zagueiros e um primeiro volante, com o adiantamento dos laterais e o afunilamento dos pontas para o centro do campo. Os meias centrais também têm a missão defensiva diminuída. 

As contratações recentes do clube indicam, com toda a clareza, que esse é um padrão que deve continuar. Já na última temporada, a chegada do zagueiro Marc Bartra, cria do Barcelona e com passagem pelo Borussia Dortmund, mostrava isso. Agora, a saída do goleiro António Adán, com as chegadas de Pau López e Joel Robles, também deixam isso evidente. 

Na prática, o experiente Javi García auxiliava os zagueiros a fazer a saída de bola, usualmente tendo o mexicano Andrés Guardado e o jovem espanhol Fabián Ruiz como meio-campistas já mais ofensivos, com bom passe e aptidão para avançar — os laterais, na maior parte da campanha, António Barragán, na direita, e Riza Durmisi, pela esquerda, dando amplitude ao campo. E, como os laterais esticam o campo, muitas vezes os pontas, habitualmente Cristian Tello e Joaquín, fecham pelo meio.

Com posse, atuando voltado para o ataque em grande parte do tempo, o time teve o quarto melhor ataque da liga espanhola em 2017/18. Por outro lado, alcançou também o terceiro pior registro defensivo. Atuando com posse e linhas altas, o time se expõe muito e, por isso, a tarefa do principal volante da equipe é sempre complexa. E é justamente aí que deve entrar William. 


William Carvalho no Betis

Embora possa parecer que o português chega para assumir a vaga de Fabián Ruiz, recém-transferido ao Napoli, uma análise dos predicados do novo contratado indica em outro sentido. 

Seu antecessor tinha como qualidades diferenciais a capacidade para o jogo vertical, indo de área-a-área. A despeito de ter muita técnica com a bola nos pés e força física, Carvalho não mostra tanta capacidade para avançar no campo rival e romper as suas linhas defensivas, não tem velocidade para isso. Para essa posição o clube procura outras soluções. Uma das apontadas recentemente seria a de um ex-companheiro do recém-chegado: João Mário.

Nesse sentido, o lugar do volante tende a ser o de Javi García, à frente da defesa bética e auxiliando na saída de bola. O espanhol, por outro lado, passa a ser cada vez mais uma alternativa para a zaga, setor em que já atuou em alguns momentos de sua carreira.

William acaba por ser perfeito para a execução da ideia de Setién. Isso porque tem no passe sua maior força, mas ligado à saída de bola e não à ruptura de linhas (na última temporada só construiu uma assistência).

"Foi uma decisão muito difícil, pois tinha algumas propostas [...] Escolhi o Betis pelo projeto que me foi apresentado. É um clube com muita ambição e com uns adeptos fantásticos. Foi isso que pesou na minha escolha. E também pela confiança que me deu todo o staff do clube”, disse em sua apresentação ao clube.

Conversa protocolar à parte, de fato existe um projeto sendo desenvolvido em Sevilha. E nele há uma posição que, ao menos em ideia, é perfeita para William Carvalho. Em alguma medida, até mesmo semelhante àquela que já desenvolvia no Sporting, situando-se entre as linhas de zaga e meio-campo.

Há algumas componentes desafiantes, contudo. O português terá de se adaptar a jogar em outro ritmo, mais alto, precisará descer à linha de zaga com mais frequência e terá menos margem de erro em seu passe. Também atuará em um clube que começa a sua pressão mais próxima do meio-campo (o que muda um pouco em jogos mais difíceis), algo que não lhe era habitual no Sporting, que, especialmente em jogos duros, atuava em bloco baixo ou, no máximo, médio, mas nunca alto.

Em termos de fluidez de jogo, William tem mais capacidade de agregar à proposta de Setién do que Javi Garcia — este melhor nos predicados defensivos. Diante do que o clube mostrou na última temporada e do que as carreiras desses dois volantes já mostraram, é difícil vislumbrar sua utilização conjunta. Não impossível, claro.

A contratação de William também dá mais uma mostra da ambição do Betis com o futuro e as ideias de Quique Setién. Em sua chegada, o meio-campista foi considerado uma estrela e um jogador adequado ao que o clube quer. Se não é uma transferência tão notável quanto àquelas especuladas em seu início de carreira, a mudança para a Andaluzia oferece um bom desafio, um novo cenário e mantém a certeza de que os gigantes do mundo da bola o têm sob observação — agora, em outro nível de competitividade.

2 comentários :

  1. Primeiramente parabéns pela página, gostei do conteúdo!

    Imagino que com a chegada do Inui ao time, pode ser que o Setién altere o desenho pra um 4-2-3-1 com o japa pela esquerda, sendo o ponteiro agudo que ataca em diagonal nos espaços às costas da marcação, bem como a válvula de escape para contra-ataques. Também tô sentindo que o García pode acabar no banco pro William ser o 'anchor' (termo inglês pro volante que recua até a linha de zaga) que vai habilitar as triangulações já no campo de defesa enquanto o Guardado joga mais avançado talvez até como central numa linha de três meias, com o Canales pela direita buscando o lado de dentro pra armar o jogo às costas dos volantes.

    Mas são só suposições. Eu não assisti a pré-temporada do Betis (só lembro de ver que eles venceram o Bournemouth do Eddie Howe por 2 a 0) e acho que até o início da La Liga não dá pra cravar quem serão os titulares nessa temporada. Mas enfim, acho possível.

    P.S.: Tifo Football é excelente, sempre assisto os vídeos deles também!

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