segunda-feira, 20 de agosto de 2018

O Bordeaux que pôs fim à hegemonia do Lyon

A história do futebol registra a existência de grandes hegemonias. São longos períodos de domínio de uma equipe sobre as demais; anos em que se escrevem páginas eternas nos contos das quatro linhas. Mas que têm fim, ainda que possa parecer que não. Na França, os anos 70 devem ter durado uma eternidade para o torcedor do Lyon, que via seu rival, o Saint-Étienne, levar para si uma infinidade de troféus. Esse período passou e, no início do século XXI, foi o próprio Lyon que provocou a inveja alheia, vencendo sete títulos nacionais em seguida. Mas isso também acabou.


Foto: AFP/ Pierre Andrieu

No espaço entre essa hegemonia e a que o Paris Saint-Germain constrói desde que foi comprado por investidores catarianos, alguns times viveram dias de glória. O primeiro deles foi o Bordeaux. A equipe girondina não tinha craques como os de outrora — figuras como Zinédine Zidane, Jean-Pierre Papin, Alain Giresse ou Jean Tigana. Porém, contava com alguns jogadores no auge de suas carreiras e a inspiração de um camisa 8, que poucas vezes entregou o contributo dele esperado, mas vivia o seu momento. Era aquela a temporada 2008/09.

Os sinais já estavam lá no ano anterior

Em 2007, o Bordeaux anunciou uma mudança de rumos e apostou no novo. Trocou o treinador brasileiro Ricardo Gomes por Laurent Blanc, zagueiro titular da Seleção Francesa campeã mundial em 1998. Aquele era seu primeiro trabalho como treinador profissional e ele tinha como missão recuperar o futebol ofensivo de outros tempos. Para bem exercer suas funções recebeu algumas contratações cruciais, dentre as quais as mais importantes acabaram sendo de Alou Diarra e Souleymane Diawara. Fortalecendo suas fundações, começou a ser construído o time da vitória.

Foto: Icon Sport
Ainda que o time tenha negociado Julien Faubert e Rio Mavuba, estava tudo sob controle. Aquele time misturava a experiência de jogadores como o goleiro Ulrich Ramé, do lateral direito Franck Jurietti e do meia Johan Micoud com a juventude de peças como a dos atacantes Fernando Cavenaghi e David Bellion, que empilharam gols. 

E, além disso, dando o equilíbrio necessário, havia muita gente vivendo o auge de suas competências. Os brasileiros Wendel, campeão brasileiro com o Cruzeiro em 2003, e Fernando Menegazzo, convocado algumas vezes por Dunga, além dos próprios Diarra e Diawara, acabaram formando um time extremamente sólido. 

A despeito disso, em 2007/08, não foi possível apanhar o Lyon. Adiantou pouco ter o segundo melhor ataque da competição, quando o melhor coube ao campeão. Mas o segundo lugar anunciou que coisas boas estavam por vir. A vantagem de apenas quatro pontos obtida pelo campeão também sinalizou que o fim de seu domínio estava próximo.

Para 2008/09, o time negociou Alejandro Alonso ao Monaco, mas relevante mesmo foi apenas a perda de Micoud, que pendurou as chuteiras. Para o seu lugar, entretanto, chegou a peça que viria a ser o maior destaque do time: emprestado pelo Milan, Yoann Gourcuff assumiu a criação girondina.

Consistência e perfeição em casa

Não foi difícil saber a escalação habitual do Bordeaux, em 2008/09: Ramé; Chalmé, Diawara, Planus, Trémoulinas (Jurietti); Diarra, Fernando, Wendel (Jussiê), Gourcuff; Cavenaghi (Chamakh) e Gouffran . A defesa era muita sólida e tinha saída com os laterais (que entregaram onze assistências em toda a temporada). Contudo, era o meio-campo o grande trunfo do time.

Diarra era muito, muito bom na recuperação da bola. Não foi por acaso que disputou as Copas do Mundo de 2006 e 2010, além da Euro 2012, pela França. Fernando também era forte na marcação, mas chegava mais à frente.

Entretanto, a melhor saída era a de Wendel. A constante movimentação, aproximação entre os setores defensivo e ofensivo, e o chute forte de perna esquerda o tornavam peça fundamental. Em 2007/08, já vivera ótimo ano, com 12 gols e sete assistências. Na campanha seguinte, foram sete tentos e onze assistências.

Foto: Getty Images
E havia Gourcuff. Jogando o que se sabia que era capaz, mas que raramente havia conseguido mostrar. Destilando requinte técnico e criatividade, foi a cabeça pensante daquele time. Ele resolveu muitos jogos sozinho. Nas 49 partidas em que atuou, balançou as redes 15 vezes e construiu 14 assistências. Foi o recordista em ambas as estatísticas. 

Lá na frente, Cavenaghi e Chamakh deram conta do recado, vencendo os goleiros adversários 15 e 14 vezes, respectivamente.

O equilíbrio do time o levou a ter a terceira melhor defesa da Ligue 1 e o segundo melhor ataque. Parece pouco para um campeão? Talvez. Mas foi o suficiente, sobretudo porque aquele time entendeu com perfeição a lógica dos torneios de pontos corridos, em que empatar não é um bom negócio. Acabou sendo o time que mais venceu (24 vitórias), e o segundo que menos empatou e perdeu (oito empates e seis derrotas).

Aliás, vendeu muito caro as derrotas. Exceção feita ao 3 a 0 imposto pelo Toulouse, as outras cinco foram pela margem mínima de um gol. Todas elas fora de casa. Em seus domínios, no estádio Matmut Atlantique, o time chegou perto da perfeição com 14 vitórias e cinco empates. Ou seja, com incrível consistência, o time roubou 33 pontos fora de casa e computou outros 47 em seus domínios. 

Os 80 pontos foram impressionantes (a título de comparação, o Lyon, em seu período mais glorioso, só superou a marca em dois dos sete títulos nacionais vencidos).

11 rodadas incríveis

A luta pelo título, todavia, foi ferrenha. O Lyon, mesmo tendo ainda Juninho Pernambucano e apostando suas fichas em Karim Benzema — vice-artilheiro daquela Ligue 1, com 17 gols — ficou para trás. O grande perseguidor do Bordeaux foi o Olympique de Marseille, que venceria no ano seguinte. Aquela equipe tinha muito poder de fogo, com a criação das jogadas recaindo sobre Mathieu Valbuena, Hatem Ben Arfa e Bakary Koné e a finalização dessas ficando a cargo de Mamadou Niang (não por acaso os marselheses tiveram o melhor ataque do certame).

Para vencer o título, o Bordeaux precisou ser perfeito. Principalmente porque na rodada 23 os girondinos haviam sido derrotados pelo OM, por 1 a 0. O time sequer era o líder naquela instância. Aliás, só tinha estado no topo da tabela na primeira rodada. Porém, aparecia lá em cima. 

Então, depois da mencionada e pesada derrota para o Toulouse, o time acordou. Tinha em mãos a grande chance de conquistar um título que já fazia uma década que não lhe chegava.

Era aquela a 28ª rodada e o time era o quinto colocado quando a chave virou. Nice, Le Havre, Nancy, Auxerre, Lyon, Rennes, Sochaux, Valenciennes, Le Mans, Monaco e Caen: nenhum desses times entendeu muito bem o que os atingiu. O fato foi é que o Bordeaux foi subindo. Degrau por degrau. Na 29ª, assumiu a quarta posição. Na 30ª a terceira. Passadas outras três, na 33ª, veio a vice-liderança. A primeira posição só veio na 37ª. Foi uma verdadeira epopeia, com 11 êxitos consecutivos.

E não pense que foi fácil. Houve momentos realmente emocionantes no curso desses jogos. Contra o Rennes, no 33ª encontro, a vitória por 3 a 2 só veio aos 93 minutos, com Gourcuff indo ao socorro do time. 


Na última rodada, bastava um ponto para a consagração e, com gol de Gouffran, o Bordeaux venceu o Caen.

"Trabalhamos muito duro em nossa forma física em janeiro, para estar em forma nessa fase [final] da temporada. Isso acabou sendo o que fez a diferença" — Laurent Blanc.

Com a conquista também da Copa da Liga Francesa, em goleada impiedosa de 4 a 0, perante o modesto Vannes, o ano acabou sendo incrível para o Bordeaux. Embora muito tenha sido dito sobre o Marseille jogar o futebol mais bonito da competição, há pouca dúvida de que título da Ligue 1 2008/09 ficou em boas mãos.

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