sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Mantorras, um ídolo maior que suas lesões

Era julho de 2001 quando a Revista Placar redigiu uma pequena nota: aos 19 anos, o capitão da Seleção Angolana Sub-20 representaria as cores do Benfica, depois de brilhar no Alverca. No Brasil, para muitos amantes do futebol, essa foi a primeira vez que se ouviu falar daquele atleta. Para outros, pode ter sido na Copa do Mundo de 2006, quando já representava seu país no escalão profissional — em um feito inédito e histórico. Se ainda há dúvida, o personagem em questão é Pedro Mantorras.


Foto: Agencia Lusa


“Podia ter sido um dos melhores do mundo”

Em 2012, já aposentado, o atacante angolano foi entrevistado pelos portugueses do Expresso. Foi na oportunidade que fez a forte afirmação: “podia ter sido um dos melhores do mundo”. Colocando seus números em perspectiva, parece um absurdo tal fala. Algo sem pé nem cabeça. Afinal, quem diabos é esse jogador que mal entrava em campo para dizer que poderia ter figurado no rol dos maiores?

A história, contudo, não é bem assim. Antes de fechar contrato com o Benfica, Mantorras foi fortemente especulado por clubes como Milan e Barcelona. E isso não é qualquer coisa. Firmou com o clube lisboeta, permanecendo em Portugal, mas dando salto de qualidade. Os dribles, a ginga e os gols rumaram para o estádio da Luz. Apesar disso, exceção feita a uma excelente primeira temporada, foram escassamente notados.

Foto: Getty Images/Icon Sport
Não é preciso ver muitos lances do atacante para perceber o tanto que ele e bola eram amigos. E não é para menos. Filho da Guerra Civil Angolana, que começou em 1975 e, cessares fogo à parte, só terminou em 2002, teve na pelota desde sempre sua grande companheira. 

Ela era a portadora do sonho por dias melhores. E eles acabaram chegando. Em 2001/02, a primeira temporada de Mantorras com a camisa encarnada, foram 33 jogos disputados e treze gols marcados.

“Nunca sonhei que iria ser um ídolo no Benfica e emocionar e levantar 80 mil pessoas na velha Luz”, disse ao Correio Sport, em 2012.

E houve momentos de esplendor. Como o dia 24 de agosto de 2001. O Benfica vivia dias difíceis, à margem de seus rivais. E era mesmo complicado acreditar em melhora. Principalmente quando a temporada começa com um empate contra o Varzim. Mas naquela data, que marcou a terceira rodada do campeonato nacional, o clube lisboeta recebeu o Vitória de Setúbal.

As coisas iam mal, com os visitantes saindo na frente, mas Mantorras foi ao socorro do time. E fez um hat-trick. O Benfica venceu aquele jogo. Era só o começo para aquele que ficou conhecido como a “Alegria da Luz” — um jogador que bastava ir para o aquecimento que as arquibancadas, por mais inóspitas que pudessem estar em tempos de crise, já mudavam suas reações.



O algoz: o joelho direito

A história de Mantorras não é, contudo, um conto de fadas. Muito pelo contrário. Em 2002, sofreu a lesão que acabou com a sua carreira. Esse problema o levou à mesa de cirurgia quatro vezes entre a data da desgraça e o ano de 2004. E ele nunca mais foi o mesmo. Pouco jogava e, mesmo quando tinha oportunidades, elas costumavam ser breves. Em 2002/03, jogou só oito vezes. Em 2003/04, não entrou em campo uma vez sequer.

Enfim, em 2004/05 voltou aos gramados. Aquele foi um ano feliz para o clube, que, depois de longa espera, conquistou o campeonato português. Mantorras jogou só 15 vezes, mas fez cinco gols. E isso pode parecer realmente pouco. De fato é. Mas não mede seu grande impacto.

Ele jogou apenas 355 minutos, ou seja, precisou de apenas 71, em média, para ir às redes. Definitivamente, ele não era um qualquer. E por mais que o joelho o obrigasse a aparecer pouco, ainda o permitia se destacar quando em campo.

Foto: Nuno Ferreira Santos/publico.pt
O jogador se tornou um atleta para 20, 25 minutos. Não mais, para a tristeza da torcida. Até foi à Copa do Mundo de 2006, mas, mesmo diante de um quadro em que não havia fartura de talentos, acabou no banco. Todavia, valia a pena tê-lo no elenco, nem que fosse para jogar pouco… os tais 20, 25 minutos.

Ele permaneceu no elenco benfiquista até a temporada 2009/10, em que jogou um jogo apenas. Não tinha nem 30 anos quando, em 2011, decidiu pendurar as chuteiras. Não havia valentia ou coragem que permitissem seguir vivendo aquele suplício. Sua situação foi de uma gravidade tal que, após batalha judicial, Mantorras assegurou para si o recebimento de uma pensão vitalícia, paga por seguro desportivo.

Ídolo apesar de tudo

Apesar da falta de assiduidade, Mantorras virou uma bandeira do Benfica. A relação com o torcedor era estreita e ele se confirmou um exemplo: talento nato, de batalha constante e intensa. 

Já naquele julho de 2001, quando Placar comentava o acerto entre jogador e clube, também deixava claro que ele era órfão de pai e mãe e precisava sustentar seus cinco irmãos mais novos. Em uma vida movida a sacrifício, nem o mais insensível dos amantes da bola conseguiria ignorar o brio e o brilho do angolano.

Na altura da exibição das homenagens e despedida de Mantorras dos torcedores, Luís Felipe Vieira, presidente do Benfica, expressou em poucas palavras o pensamento quase unânime a respeito do atacante:

"O futebol teve dias inesquecíveis quando Pedro Mantorras passou por ele e merecia o ter tido por mais tempo”.

Houve altura em que recaiu sobre si o peso de comparações com Eusébio. Absurdas? Talvez. A verdade é que Mantorras nunca pôde dar resposta a isso. O que não o impediu de se tornar um dos jogadores mais populares nas arquibancadas. Por mais triste que sua trajetória tenha sido, ele nunca deixou de ser a alegria da Luz.


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