quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Perfil tático: Steven N'Zonzi na Roma

Depois de ver a contratação do brasileiro Malcom fracassar, a Roma rapidamente descruzou os braços e voltou ao mercado, na busca por reforços. Vem do Sevilla um grande nome para dominar o meio-campo Giallorossi. Campeão da última Copa do Mundo, o volante Steven N’Zonzi chega para assumir a titularidade da equipe. Aos 29 anos, vive o auge de sua carreira e se confirma a contratação de maior repercussão do ano romanista.


Foto: ASRoma.com


As ideias de Eusebio Di Francesco

Desde seu trabalho no Sassuolo, tem sido bem fácil entender a forma com a qual o treinador da Roma, Eusebio Di Francesco, enxerga o futebol. Seu esquema tático de preferência tem uma defesa formada por quatro jogadores, um meio-campo com três peças capazes de desempenhar funções defensivas e ofensivas e um trio de ataque — apelando constantemente pelo uso de pontas. É um time moldado para o ataque.

Foto: ASRoma.com
Apesar disso, o funcionamento de sua ideia depende diretamente da forma como o jogo acontece na meia-cancha. Isso porque é necessária a boa circulação da bola no setor para que essa chegue em condições adequadas para os ponteiros — que podem finalizar as jogadas ou alimentar o centroavante Edin Dzeko. 

Em seu primeiro ano na capital italiana, o treinador acabou apostando, com frequência, no trio formado por Daniele De Rossi, mais recuado e centralizado, Kevin Strootman, um pouco mais à frente e à direita, e Radja Nainggolan, esse, sim, mais adiantado.

Com a mudança de temporada, esse quadro mudou e precisa ser reinterpretado. Primeiro, porque Nainggolan foi vendido à Internazionale. Em segundo lugar, em decorrência da evolução da idade de De Rossi e da queda de sua condição física. Já na última temporada isso havia sido detectado pela direção do clube, que contratou o francês Maxime Gonalons para disputar posição com o titular e capitão. Apesar disso, o jogador não correspondeu às expectativas e ficou claro que seria necessária outra contratação (Gonalons acabou emprestado ao Sevilla).

O atleta que chega para assumir esse papel é N’Zonzi. Embora o clube tenha trazido Bryan Cristante e já contasse com Lorenzo Pellegrini, nenhum desses tem as capacidades necessárias para exercer a função do líder. O grandalhão recém-chegado (1,96m) é o único que tem a aptidão para fazer o que Eusebio espera de seu primeiro meio-campista: organizar o jogo e circular a bola, tendo presença física e grande capacidade de recuperação de bola.

Novo eixo com diferentes características

Por mais que N’Zonzi seja a reposição a De Rossi, ele não é De Rossi. O francês vem para assumir a titularidade do capitão. Pelo menos na teoria, já que: 1) moralmente, o italiano sempre será considerado um titular; e 2) em alguns momentos de sua carreira, Steven já atuou ao lado de outro volante (ex: com Grzegorz Krychowiak, no Sevilla) — apesar disso, em esquema tático 4-2-3-1, o que pode até acontecer na Roma, mas não é a tendência.

Foto: ASRoma.com
O recém-chegado passa melhor do que Daniele e o supera na capacidade de vencer duelos aéreos. Embora apresentem índices estatísticos semelhantes na recuperação de bola, a forma como alcançam esse objetivo é muito diferente. Enquanto De Rossi é mais agressivo e depende mais de sua força e condição física, indo para o choque, N’Zonzi tem em seu posicionamento um forte aliado. Por isso, acaba sendo capaz de recuperar bolas sem precisar tanto do combate.

Outra diferença sensível entre os dois são os passes. Steven acerta, em média, mais toques do que o capitão Giallorossi. Apesar disso, é preciso saber o tipo de bola que tem sido entregue aos companheiros. 

Nas últimas duas temporadas, em comparação, o volante francês efetuou mais passes por jogo e com índice de precisão melhor, mas a maioria deles é curta e pelo chão. Por sua vez, o italiano faz pesada aposta nos passes longos. Na última temporada, foram mais de seis por jogo, em média. O nível de dificuldade desses é muito maior, o que interfere diretamente nos números.

Ou seja, N’Zonzi circula melhor a bola, mas faz menos passes de ruptura, aqueles que ajudam a desconstruir o sistema dos adversários e colocar os companheiros em melhor condição no ataque. Tudo isso faz muita diferença. Mesmo porque, essa não é a única mudança pela qual passa o meio-campo romanista: mais à frente, o time perdeu a fisicalidade, energia e agressividade de Nainggolan. Sua vaga deve ser ocupada pelo argentino Javier Pastore, que tem muito mais técnica, mas contribui menos defensivamente.

Adaptações à vista?

Parece claro que as contratações de N’Zonzi e Pastore têm como intuito o aprimoramento do toque de bola. Mesmo porque a peça que deve conservar a titularidade, Strootman, tem no passe uma de suas melhores qualidades — o que lhe rendeu o apelido de “Máquina de Lavar”, atribuído por seu ex-treinador, Rudi García. Ele dizia que o holandês recebia a bola suja e a entregava limpa a seus companheiros.

Embora Di Francesco admita que pode utilizar N’Zonzi e De Rossi juntos, isso importaria a mudança do time para um esquema 4-2-3-1, o que não é algo esperado, mas pode acabar acontecendo. 

O treinador já disse: “não sou um fundamentalista” (a referência feita é à preferência pelo 4-3-3). A adaptação poderia explorar o que a dupla tem de melhor e daria mais segurança a Pastore, mas forçaria a saída de Strootman, perdendo-se sua capacidade de ligar os setores defensivo e ofensivo. Ou seja: como tudo, acomodar os dois importa ajuste e tem prós e contras.

A despeito disso, sobretudo considerando o momento da carreira de De Rossi, sua presença deve acabar sendo reservada aos jogos de maior competitividade e exigência física. Tanto em razão de suas características quanto em função de sua imposição moral e ascendência sobre o elenco. N’Zonzi, que vive seu auge, deve ser mais acionado. Mas tudo é uma questão de uso equilibrado do elenco, que ganhou profundidade. A contratação é mais uma boa tacada do diretor Monchi.

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