sexta-feira, 17 de agosto de 2018

É preciso falar sobre Frenkie de Jong

Pensar o Ajax como um bom lar para jovens talentos é algo totalmente apropriado. No mínimo desde os anos 60, grandes craques ganharam notoriedade defendendo os Godenzonen. Alguns foram formados pelo próprio clube, tendo em Johan Cruyff o caso mais famoso e emblemático. Outros, entretanto, chegaram à capital holandesa vindos de outras equipes, mas ainda muito jovens — gente como outro famoso Johan que o clube teve, Neeskens. Frenkie de Jong, garoto cuja qualidade é insuspeita, encaixa-se na segunda categoria.


Foto: Getty Images


Do Willem II para o mundo

Frenkie foi revelado nas categorias de base do Willem II, mas só teve a oportunidade de vestir a camisa tricolor em três ocasiões. Seu talento era grande demais para permanecer no pequeno clube de Tilburg. Logo, foi negociado com o Ajax. Apesar disso, aos 18 anos foi considerado “verde” para já ingressar no time principal. Consequentemente, passou a maior parte das temporadas 2015/16 e 2016/17 atuando no time B do clube de Amsterdã.

Na segunda divisão holandesa, como era de se supor, de Jong se destacou. Em 46 jogos, na soma das duas campanhas, marcou oito gols. Isso, reconhecendo-se no jogador alguém mais ligado ao setor defensivo, à primeira fase de construção de jogadas, é algo extremamente representativo. Em 2016/17, aliás, foi eleito o talento da temporada. No curso dela, também vale mencionar, ganhou suas primeiras oportunidades no time principal — a maior parte delas em copas.

Foto: vi.nl
A coisa realmente ficou séria na temporada 2017/18. Foi titular 16 vezes e atuou em mais seis na condição de reserva (só não esteve mais vezes em campo, porque sofreu lesão no final da campanha). Não marcou gols, mas construiu sete assistências em 1558 minutos em que esteve em campo. Ou seja: mesmo atuando como volante ou zagueiro, a cada 222 minutos Frenkie criou uma oportunidade de gol que foi convertida. No Ajax, apenas Hakim Ziyech (o líder da competição) e o brasileiro David Neres foram mais eficazes assistindo.

A intimidade que o jogador tem com a bola, a elegância e a confiança com a qual desfila na cancha saltam aos olhos. Não é por acaso que o jogador tem gerado um sério interesse da parte de vários clubes financeiramente mais poderosos que os Godenzonen, nomeadamente o Barcelona. Ídolo do clube catalão, Xavi é um dos craques que engrossam a lista daqueles que se impressionam com a qualidade do holandês:

“Eu não o vi jogar muitas vezes, mas ele se parece com Sergio Busquets em termos de estilo de jogo [...] de Jong é jovem, mas penso que ele já pode dar uma grande contribuição. Ele aparenta ter um talento bestial. É realmente um jogador para se manter sob observação, um jogador muito bom”, disse o craque ao Marca.

Zagueiro, volante, meia?

Uma análise isolada das qualidades do holandês pode indicá-lo como um meia. Um armador ou um meia atacante. Parece uma daquelas figuras que nasceram com um destino: ser jogador de futebol. Apesar disso, sua privilegiada capacidade para ler e interpretar o jogo, levou sua qualidade dos dribles para as faixas mais recuadas do campo. Mas seu jogo só parte de trás. O objetivo é sempre chegar à frente. 

Foto: Getty Images
Com passe (o atleta obteve média de 91,4% de aproveitamento no fundamento na temporada 2017/18 e ofertou 2,9 bolas longas por partida) ou condução de bola (fez, também em média, 2,5 dribles por encontro, no que foi superado apenas por Ziyech, Neres e Justin Kluivert) o jogador tem levado o clube ao ataque.

Ainda assim, sua posição mais frequente foi a zaga. Alguns comentadores entendem que ele teria sido o perfeito líbero se tivesse despontado em outro tempo. Talvez por isso, sua escalação como volante seja vista como a mais adequada. Por ali, consegue controlar melhor o jogo, interpretá-lo com mais acerto, tomar decisões melhores e ser mais influente. Já na última temporada, foi o segundo jogador com maior média de passes por jogo, 62,2. Ele é acionado a todo tempo.

Por ser tão completo, Frenkie tem seu futuro no futebol frequentemente especulado. E não só com relação a possíveis destinos. Um de seus ex-treinadores, Peter Bosz deixou clara, em certa altura, a possibilidade de o jogador deixar de ser um primeiro volante e avançar no meio-campo, firmando-se como um camisa 8 ou 10. Não há motivos para pensar nisso como delírio ou como algo impossível.

Para todos os efeitos, de Jong é, para já, alguém muito versátil. Embora Xavi tenha dito que vê no garoto semelhanças com Busquets, é possível ver similitudes do holandês com os três meio-campistas do melhor Barcelona de sempre — Busquets, Xavi e Andrés Iniesta. 

As comparações também são feitas com outros dois ícones do futebol mundial. Nacionalmente, Frank Rijkaard. Continentalmente, Franz Beckenbauer. É claro que são comparações pesadas demais para um jogador tão jovem, mas deixam a toda evidência o tamanho do talento de que se está diante.

Uma temporada para se afirmar

Reportagem recente da ESPN norte-americana indicou que Manchester City, Chelsea e Tottenham estariam de olho em seu talento. Porém, a janela de transferências de verão se encerrou na Inglaterra. Com isso, os rumores de uma transferência ao Barcelona, o destino que para muitos é o mais adequado ao seu futebol, só cresceram. Qualquer que seja seu futuro nessa temporada — permanecendo ou deixando a Amsterdam ArenA — Frenkie tem em 2018/19 uma temporada para se firmar de vez no futebol.

Foto: Shuttershock
Com o retorno de Daley Blind ao Ajax, a tendência é que a dupla de zaga seja formada pelo experiente contratado e o também jovem Matthijs de Ligt, outro talento impressionante, mas de características muito diferentes das de de Jong. Esse movimento dos Godenzonen na atual janela de transferências parece condicionar a temporada de Frenkie ao meio-campo. 

Apesar disso, na estreia na Eredivisie 2018/19 foi reserva e quando entrou atuou na zaga. O lateral esquerdo da ocasião, o austríaco Maximilian Wöber foi sacado e Blind passou a atuar pelo lado. Não obstante, em circunstâncias normais a lateral deve ser defendida pelo argentino Nico Tagliafico, com Blind na zaga. Então, a tendência é mesmo a utilização de de Jong no meio-campo.

Outra situação que não deve tardar a ser verificada é a estreia do garoto na seleção holandesa. Atualmente, depois de defendê-la nos escalões sub-15, 18, 19 e 20, veste a camisa da equipe sub-21.

Ultimamente, o treinador Ronald Koeman tem dado preferência a jogadores mais experientes como Ruud Vormer (30), Kevin Strootman (28), Georginio Wijnaldum (27) e Marten de Roon (27), mas a cada bom jogo vai ficando mais difícil ignorar de Jong— sobretudo na hipótese de confirmação de uma transferência ao Barcelona.

2018/19 tem tudo para ser o ano de afirmação de Frenkie de Jong. O talento está lá, cada vez mais explícito. A experiência de uma temporada completa como profissional também. Tendendo a atuar mais vezes pelo meio-campo, deve se colocar ainda mais em evidência. A expectativa é de que, logo, seu nome passe a ser muito mais ouvido.

2 comentários :

  1. Ajax celeiro de jovens promessas, uma pena o futebol holandês está em decadência.

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  2. É mesmo triste, João. E parece um caminho sem volta. Nos resta torcer para que ocasiões como a chegada do Ajax à final da Europa League aconteçam, de tempos em tempos.

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