quinta-feira, 2 de agosto de 2018

A última decepção de Roberto Baggio

Os dois maiores protagonistas da Copa do Mundo de 1994 ficaram de fora do Mundial de 2002. Oito anos na vida de um atleta profissional são uma quantidade de tempo significativa. Romário e Roberto Baggio já eram veteranos quando o maior torneio de futebol do planeta finalmente foi sediado na Ásia (dividido entre Japão e Coreia do Sul). Mas ainda jogavam muito. O brasileiro foi pedido pela opinião pública. O treinador Luiz Felipe Scolari vetou o Baixinho e dificilmente terá se arrependido, tendo vencido o torneio. Roby viveu situação parecida na Itália, porém sua ausência teve repercussão diferente.


Foto: Reprodução/Fantasista10



A falta de sorte em Mundiais

A trajetória de Roberto Baggio no futebol é uma verdadeira montanha russa. Ele vestiu as três camisas mais pesadas da Itália (Juventus, Internazionale e Milan). Viveu altos e baixos em quase todos os times por onde atuou. Fez gols majestosos. Ficou famoso pelo característico rabo de cavalo. Deixou torcedores pasmos com dribles e cobranças de falta perfeitas. Sofreu lesões que muitas vezes o afastaram dos campos. Viveu decepções. 

Foto: AFP
Na Copa do Mundo de 1990, começou na reserva e ganhou a titularidade na última partida da fase de grupos. Isso tudo para voltar ao banco na semifinal — derrota nos pênaltis para a Argentina. Quatro anos mais tarde, Baggio foi brilhante durante a maior parte do Mundial dos Estados Unidos. Mas perdeu o pênalti, na final contra o Brasil, que condenou a Itália a uma espera de mais 12 anos pelo tetracampeonato.

Em 1998, na França, sofreu com a convicção do treinador Cesare Maldini: para ele era impossível escalar Roby e Alessandro Del Piero juntos. Assim, o craque mais veterano começou o torneio como titular, inclusive marcando, de pênalti, contra o Chile. Na segunda partida, foi substituído no decorrer da partida. Por quem? Del Piero. 

No terceiro jogo, o técnico inverteu. Lançou Alessandro de início e o trocou por Roberto no curso do jogo, vendo-o marcar o gol da vitória contra a Áustria. De nada valeu, pois o astro continuou na reserva no triunfo marginal contra a Noruega, nas oitavas de final — e não entrou. Sua última partida em mundiais acabou sendo a eliminação perante a França, nas quartas. Ficou mais uma vez banco, mas substituiu Del Piero. 

Ironicamente, sua última lembrança acabou sendo uma penalidade máxima. Dessa vez convertida, mas, em mais uma ocasião, inútil. Foram três Copas perdidas na marca da cal.

Calmaria em Brescia

Baggio chegou à Copa do Mundo de 98 depois de viver uma temporada excelente no Bologna. Após viver dias difíceis no Milan, conseguiu a redenção com a camisa rossoblu. Foram 22 gols em 30 partidas do campeonato italiano 1997/98. Tal desempenho o colocou novamente em alta e o levou à Inter. A sorte, entretanto, nunca esteve ao seu lado nas duas temporadas em que defendeu os Nerazzurri.

Em seu primeiro ano, conviveu com lesões. No segundo, voltou a ter problemas com um velho nêmesis. Marcelo Lippi, o treinador que acabou com seus dias na Juventus em 1995 (em prol, justamente, de Del Piero), estava de volta. 

Foto: Getty Images/Claudio Villa/Grazia Neri
O time de Milão tinha fartura de boas opções para o ataque — Álvaro Recoba, Ronaldo, Ivan Zamorano e Christian Vieri. Sobrou para Baggio, que foi escanteado. Disputou apenas 18 jogos do campeonato nacional. Minutos foram apenas 762. A relação dos dois se deteriorou com uma série de ataques e revides de parte a parte. Era insustentável a permanência do craque ao final do ano.

Mas quem apostaria em Baggio aos 32 anos? Juventus e Milan não voltariam a tentá-lo. A Fiorentina tinha Rui Costa. A Roma já contava com Francesco Totti, enquanto a Lazio gozava do prazer de ter jogadores como Pavel Nedved e Roberto Mancini.

Então, Roberto Baggio partiu para o Brescia, onde foi amado. Em sua estada na Lombardia, já não tinha as mesmas condições físicas de outrora, sofreu mais uma vez com lesões, mas foi excepcional enquanto esteve em campo. No clube, obteve a segunda melhor média de gols de sua carreira (0,45 gol/jogo — 46 gols em 101 jogos —, inferior apenas ao 0,57 dos tempos de Juventus).

Foi fundamental para levar o Brescia a um inesperado oitavo lugar no campeonato italiano de 2000/01. Também teve importância na carreira de Andrea Pirlo (como era impossível os dois atuarem como meias ofensivos juntos, Pirlo foi recuado à posição que acabou o consagrando). E, nos três anos que se seguiram, foi vital para evitar que o time fosse rebaixado.

Recuperação em tempo recorde e decepção

Nesse período, depois de uma temporada 2000/01 surpreendentemente boa, começou o clamor popular pelo retorno do jogador à seleção — que já não representava desde 1999. Mas sua carreira havia sido acidentada demais para que esse processo se desse tranquilamente. Baggio viveu mais um revés.

Era o final de janeiro de 2002 quando Roby lesionou o joelho esquerdo. Cinco dias mais tarde, estava na mesa de cirurgia. 76 depois, em uma recuperação formidavelmente rápida, já tinha condições de jogo. Para o país, o significado disso ficou traduzido na capa do Corriere dello Sport: “Roberto Baggio está de volta! Aleluia!”. Mas dizem que quanto maiores são as expectativas, também maiores podem ser as decepções.

No anúncio da convocação do treinador Giovanni Trapattoni, o Guardian anunciou que “O sonho de Copa do Mundo de Baggio acabou”. O ídolo da nação ficou fora do grupo que viajou ao oriente, preterido uma vez mais por Del Piero e, agora, também por Totti. A marca dessa decepção foi profunda. 

Oito anos mais tarde, em entrevista concedida à Vanity Fair e reproduzida pelo site Football Italia, o craque deixou clara a mágoa. 

“Considerando a carreira que eu tive, eu tinha o direito. Eles tinham que ter me levado junto e me dado essa chance, mesmo que eu estivesse em uma cadeira de rodas”.

Foto: ACMilan.com


Ele só voltou a vestir o manto da Azzurra em uma oportunidade, sua despedida. Em 2004, ainda sob a direção de Trapattoni, enfrentou a Espanha. O 1 a 1 foi insosso. No segundo tempo, o craque teve a chance de marcar. Primeiro, driblando Iker Casillas, mas chutando para fora. Depois, cobrando falta para a defesa de Santiago Cañizares. 

Antes do apito final, saiu para a entrada de Fabrizio Miccoli. Foi ovacionado, as lágrimas brotando, sobriamente, de seus olhos.

A cena voltaria a se repetir ao final da temporada, com a camisa do Brescia. O palco? San Siro, em jogo contra o Milan. Pouco importou a derrota por 4 a 2. Ter sido, mais uma vez, aplaudido de pé por um estádio completo, e fora de casa, foi um encerramento suficientemente digno para a carreira do craque. O que não muda o fato de que ela poderia ter sido ainda mais bonita.

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