segunda-feira, 13 de agosto de 2018

A última e improvável glória do Kaiserslautern

Já faz algum tempo que o Kaiserslautern não dá as caras da Bundesliga. O histórico time de Fritz Walter, um dos heróis da Alemanha campeã mundial de 1954 e que hoje dá nome ao estádio da equipe, vem tendo vida dura na segunda divisão. Porém, há pouco mais de 20 anos, a história foi diferente. E surpreendente. O time deixou o lugar mais alto do pódio da 2. Bundesliga diretamente para o posto mais elevado da elite. Em 1998, os Diabos Vermelhos venceram o Campeonato Alemão.


Foto: Getty Images


Uma referência para juntar os cacos e levar o time ao topo

É curioso pensar o choque de emoções que viveu o torcedor do Kaiserslautern na temporada de 1995/96. Naquele ano, o time conquistou um dos títulos mais importantes de sua história. Seis anos após levantar a taça pela primeira vez, venceu a Copa da Alemanha. O placar magrinho, 1 a 0 contra Karlsruher de Thomas Häßler, Torsten Fink e Jens Nowotny, foi suficiente para o êxito. 

Apesar disso, as coisas correram mal no campeonato nacional. Dois pontos separaram o Kaiserslautern, pior ataque do torneio (com apenas 31 gols marcados em 34 partidas), do St. Pauli, o primeiro time fora da zona do rebaixamento. Paradoxalmente, o time acabou tendo também a terceira melhor retaguarda do certame. Sofreu 37 tentos. Apenas Schalke 04 e Colônia concederam menos — o campeão Borussia Dortmund buscou uma bola a mais em suas redes.

Infortúnio à parte, era óbvio que aquele time não poderia ser simplesmente descartado. Ainda assim, era preciso dar uma nova direção, uma chacoalhada. Para isso, os Diabos Vermelhos apostaram em um velho conhecido. Otto Rehhagel, que havia sido um defensor respeitável do clube nos anos 60 e 70, estava de volta. Agora como treinador. Antes, vivera um período fabuloso no Werder Bremen. Foram 14 anos e vários títulos. Vinha também de um vice no Campeonato Alemão, com o Bayern de Munique.

Foto: Werner Baum/ dpa


Ou seja: era um técnico vitorioso e experimentado. Ademais, conhecia a casa cujas fundações teria que reforçar. O único jogador importante que foi perdido no descenso foi Thomas Hengen, que partiu para o Karlsruher. Seu lugar acabou ocupado por um brasileiro. Desconhecido em sua terra natal, Everson Rodrigues, o Ratinho, construiu seu nome na Alemanha, vindo do Ararau, da Suíça.

Com a confiança renovada e a manutenção da base rebaixada, o Kaiserslautern retornou ao primeiro escalão com facilidade. Somou 68 pontos em 34 jogos — 10 a mais que o segundo colocado, o Wolfsburg. Teve o melhor ataque da disputa, e a segunda melhor defesa. Somando apenas os gols marcados pelo tcheco Pavel Kuka e os alemães Jürgen Rische e Olaf Marschall, já se obteve mais tentos do que aqueles marcados na malfadada temporada anterior.

Com Rehhagel a inoperância do ataque foi resolvida e a força da defesa foi preservada.

A mescla de experiência e juventude foi fundamental

Mais uma vez, o time não sofreu baixas relevantes. E, além disso, fez uma grande contratação. Depois de passar pelo Bayern e pela Internazionale, o suíço Ciriaco Sforza retornou ao Kaiserslautern. Antes, defendera os Diabos Vermelhos entre 1993 e 1995. Também chegaram à equipe o meia Andreas Buck, ex-Stuttgart, o búlgaro Marian Hristov, e um certo garoto de 20 anos: Michael Ballack — que foi entrando gradativamente no time, conforme a temporada foi passando.

Sem o capitão e veterano Andreas Brehme, que passou a maior parte do ano no estaleiro, a retaguarda se acertou com Harry Koch, Michael Schjöngberg e o líbero Miroslav Kadlec (o pai de Michal Kadlec). A braçadeira acabou nos braços do retornado Sforza. A meta era defendida por Andreas Reinke.

Foto: Imago


No meio-campo, além do titularíssimo suíço, revezavam-se Buck, Axel Roos, Roger Lutz, Ratinho, Martin Wagner, Ballack e Marco Reich. No ataque, a referência foi Marschall, que teve Hristov ao seu lado. Já no banco de reservas, Kuka e Jürgen Rische foram reservas que entraram muitas vezes e ofereceram inestimável contributo, somando 16 gols na campanha de retorno.

A base do time era bastante veterana — o Kaiserslautern tinha a média de idade mais alta daquela Bundesliga, 27,3 anos —, mas as presenças de Reich (19), Ballack (20), Thomas Riedl (21) e Hristov (23) equilibravam a balança. Davam o fôlego necessário para aquela equipe de lutadores velhos de guerra alcançar o topo.

Eficiência contra os grandes oponentes

A campanha do título alemão de 1997/98 foi quase idêntica àquela em que obteve o acesso: 34 jogos, 19 vitórias, 11 empates e quatro derrotas. O Kaiserslautern marcou menos gols e sofreu mais. Nada de anormal, atuando em uma nível de competitividade bem mais elevado.

No ano anterior, o Bayern havia voltado ao topo, levantando a Salva de Prata. Foi seguido de Bayer Leverkusen e Borussia Dortmund (o campeão europeu da temporada). Em tese, esses eram os times por bater. Os Diabos Vermelhos foram muito bem nos seis confrontos contra essas equipes, conquistando duas vitórias, três empates e perdendo apenas uma vez, para o Leverkusen.

O primeiro jogo da campanha foi fora de casa contra o poderoso Bayern. Pragmático, o time recém-chegado venceu por 1 a 0, gol de cabeça de Schjöngberg. No segundo turno, a vitória veio por dois a zero. O Dortmund não fez um bom ano, mas ainda era um time sólido, tanto que alcançou dois empates. 

Foto: DFB.de


Já o Leverkusen acabou sendo uma pedra no sapato. Na BayArena, o placar sinalizou o 1 a 1. O que ele não revelou foi o poder de recuperação dos visitantes, que igualaram o resultado aos 86 minutos. Em casa, porém, o buraco foi mais embaixo. O 3 a 0 para os visitantes foi o ponto mais baixo daquela campanha. De resto, correu quase tudo muito bem, obrigado.

Contra o Stuttgart, quarto colocado da ocasião, foram duas vitórias. Perante o Schalke, o quinto, uma vitória e um empate. 

Como anfitrião, o Kaiserslautern venceu 13 de seus 17 jogos, empatou dois e perdeu dois. Sua casa foi uma poderosa carta na manga. E, como manda a cartilha dos campeões, não perder fora já é um enorme benefício. Apesar de ter vencido apenas seis vezes longe de seus domínios, perdeu só duas, arrancando nove empates.

Aquele era um time talhado para a vitória. Trabalhando duro e suando muito. Com boa parte do elenco no pico máximo de suas carreiras — e alguns já dando seu último suspiro —, conquistar a Bundesliga seria um grande momento. Foi. E não faltou emoção.

O emocionante apagar das luzes

O time pareceu ter cansado na reta final. A partir da rodada 29, empatou três vezes, contra Duisburg, Dortmund e Hansa Rostock. E estava perdendo em casa para o Borussia Mönchengladbach na 32ª. Os visitantes haviam aberto a vantagem de duas bolas a zero. Mas Marschall foi ao socorro. Marcou três vezes. A última delas no minuto final. Esse acabou sendo o estímulo que o time precisava para lutar até o fim.

A glória foi consumada na penúltima rodada da competição, quando os Diabos Vermelhos receberam os Lobos do Wolfsburg. O 4 a 0 foi inapelável. Enquanto isso, os bávaros do Bayern apenas empataram com o Duisburg. Nem o 1 a 1 contra o Hamburgo, na rodada derradeira, tirou o título do Kaiserslautern de Otto Rehhagel. Marschall foi o vice-artilheiro daquele ano, com 21 gols — um a menos que Ulf Kirsten, o goleador do Leverkusen.

Foto: Picture Alliance/ dpa


Depois da conquista, o time ainda fez algumas campanhas sólidas (chegou às quartas de finais da Liga dos Campeões em 1998/99 e às semis da Copa da UEFA um ano depois), mas não voltou a conquistar nem o Campeonato Alemão nem a Copa da Alemanha. Contou com boas referências, como Youri Djorkaeff, Miroslav Klose ou o brasileiro Lincoln, mas não foi mais vencedor. 

A situação se deteriorou na metade da década de 2000. O clube foi rebaixado e, apesar de ter retornado em 2010, ficou só dois anos na elite. Sua realidade tem sido a segundona.

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