segunda-feira, 17 de setembro de 2018

A frustrante passagem de Lothar Matthäus por Nova York

A ida de craques veteranos para mercados de menor qualidade técnica ainda causa alguma curiosidade, apesar de já não se tratar de um fenômeno recente. Muitos nomes mantêm bom nível, a despeito da idade. Outros vão na via contrária, não apresentando nem sombra da qualidade que marcou suas trajetórias. Alguns simplesmente se mostram desinteressados. Nesse sentido, um dos maiores expoentes acabou sendo o do alemão Lothar Matthäus, que partiu para a Major League Soccer em 2000.


Foto: Henny Ray Abrams/AFP/Getty



Um craque como há muito não se via nos EUA

Ninguém representou tantas vezes o manto da seleção alemã quanto ele. Foram 20 anos de serviços prestados ao seu país, 150 jogos e cinco Mundiais (1982, 86, 90, 94 e 98). No contexto de clubes, foi reverenciado vestindo três camisas: de Borussia Mönchengladbach, Bayern de Munique e Internazionale. Mas toda grande carreira acaba em algum momento e, aos 39 anos, o germânico entendeu que as cortinas começavam a se fechar para si. Houve tempo ainda para uma nova aventura.

O meia que foi só descendo no terreno — terminando a carreira como líbero — ainda tinha alguma lenha para queimar quando desembarcou em Nova York, apesar da idade. Havia sido utilizado em 15 das 23 partidas do Bayern na Bundesliga de 1999/00, quando firmou contrato com o MetroStars (hoje New York Red Bulls). Também fora eleito o jogador da temporada alemã no ano anterior.

Apesar disso, sua passagem acabou sendo uma desilusão. Foi da euforia à decepção em muito pouco tempo. Disseram as más línguas que a mudança para a América também se deu para auxiliar a namorada em sua trajetória como modelo. E ainda há um detalhe adicional: o clube já havia vivido um desgosto recente com outra grande contratação, a do brasileiro Branco. 

Foto: Getty Images
O acerto aconteceu em agosto e o anúncio em novembro de 1999, mas a passagem começou de fato em março de 2000. Quando foi anunciada a contratação, o NY Times enfatizou que o MetroStars havia contratado seu “salvador”. A publicação disse também que “sua chegada lembrou a excitação gerada por Pelé e Franz Beckenbauer no Cosmos, duas décadas atrás”. Não demorou muito, porém, para o furor arrefecer.

Desinteresse e pouco futebol

Em 30 de abril de 2000 os ingleses do Guardian já anunciavam: “Lothar descobre que Nova York não é Hollywood”. Sua estreia acontecera pouco mais de um mês antes, no dia 25 de março, contra o Miami Fusion, treinado pelo brasileiro Ivo Wortmann. Parecia o prenúncio de um tempo para se esquecer, com a derrota por 3 a 1. O alemão disputou os 90 minutos, mas nada pôde fazer para evitar o insucesso. 

Nos quatro jogos que se seguiram, o MetroStars ganhou apenas uma vez, 3 a 2, contra o DC United. Perdeu para San José Earthquakes, Columbus Crew e Kansas City. O alemão não marcou qualquer gol nessas partidas. Não foi por acaso que o periódico britânico levantou a hipótese de que Matthäus parecia “pensar que cometeu um erro” ao partir para os Estados Unidos da América. No campo estava arisco, irritadiço, aparentava não querer estar lá. E a má fase continuou.

Até o final de maio, foram mais cinco jogos: uma vitória, novamente contra o DC United, três derrotas e um empate. Matthäus não vinha jogando nada e não tinha simplesmente “esquecido” como jogar. 

Ruim com ele, melhor sem ele

Convocado para a disputa da Euro 2000, foi titular nas três partidas que a Seleção Alemã disputou na malfadada trajetória germânica, com um empate e duas derrotas. Ainda assim, considerando a realidade de um dos países mais fortes do contexto do futebol, a titularidade sinalizava que Matthäus passava longe de estar acabado. O desinteresse era problema nascido do baixo nível de futebol que se praticava na MLS.

Foto: Getty Images
Detalhe: enquanto ele esteve fora, o time melhorou. Em sete jogos, conquistou cinco vitórias, um empate e perdeu só uma vez.

Na sequência do ano, com a volta de Matthäus foram mais sete encontros: três vitórias, dois empates e duas derrotas. O alemão seguiu sem anotar um gol sequer. 

Ainda assim, o clube chegou aos Playoffs. Duas vitórias contra o Dallas Burn levaram o MetroStars às semifinais do certame, mas o time não foi páreo para o Chicago Fire de Hristo Stoichkov, DeMarcus Beasley, Carlos Bocanegra e do treinador Bob Bradley, perdendo por 3 a 2 na soma das duas partidas.

Chuteiras penduradas

E foi assim que terminou a passagem de Matthäus pelo clube estadunidense. Em meio à debilidade de seus companheiros, o alemão sucumbiu. Não fez qualquer diferença; ficou muito aquém da expectativa de quem esperava receber um Pelé ou Beckenbauer. Sem foco, viveu um final de carreira melancólico. 

Nova York podia ser uma cidade cheia de estímulos e vivacidade, com seus múltiplos restaurantes, apelo às artes e repleta de oportunidades e possibilidades, mas para o ex-capitão da Seleção Alemã foi só um lugar cinzento, onde viu a sua estrela se apagar, pondo fim a uma trajetória longeva e brilhante.

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