terça-feira, 25 de setembro de 2018

O primeiro título europeu de Alex Ferguson

Lenda do Manchester United, o treinador Alex Ferguson não caiu de paraquedas no clube mancuniano. Ele chegou aos Red Devils em 1986, mas foi o trabalho construído a partir da década anterior que o credenciou ao cargo. Sua trajetória até lá foi de constante evolução, com a conquista de glórias grandiosas para a realidade dos clubes que liderou. Sob sua direção, na década de 80 a Escócia voltou a ter um campeão continental, com o Aberdeen alcançando um feito inédito.


Foto: Aberdeen FC/Divulgação


Do St Mirren para o Aberdeen

Fergie iniciou sua carreira nos bancos de reservas em 1974, aos 32 anos. Uma passagem extremamente rápida pelo modesto East Stirlingshire (hoje um time de quinta divisão escocesa e então de segunda) foi seu pontapé inicial. Não obstante, foi seu tempo no St Mirren que elevou seu status nacional. 

Não é que o público não conhecesse Ferguson, muito pelo contrário. Na década anterior ele defendera o Rangers, ainda como jogador. Ainda assim, seria necessária alguma credencial, êxito ou demonstração de competência para que se desenvolvesse confiança em seu trabalho. No St Mirren, clube que assumiu ainda em 74, teve impacto rápido.

Na temporada 1974/75, o futebol escocês viveu uma mudança importante. Os 10 primeiros colocados da divisão de elite foram confirmados como os disputantes de uma renovada divisão principal. Assim, aos demais oito times que integravam o primeiro escalão se juntaram aos seis melhores da segunda divisão, para formar uma nova divisão de acesso. O St Mirren acabou sendo justamente o último qualificado e se manteve uma divisão abaixo da principal. 

Foto: Caters News Agency
Com o acesso em 1975/76 agora restrito a dois clubes, a missão do clube da cidade de Paisley era dura. O acesso não veio. Ao menos a campanha foi decente, com o sexto lugar. Tomando por base o fato de que o time foi o último qualificado à disputa, não deixou de ser um feito importante. As pretensões de Ferguson, porém, sempre foram grandes. Nessa temporada o time anotara 37 gols e também sofrera 37, sem conquistar nada. Havia um trabalho em andamento, mas com acertos pendentes. Eles acabaram acontecendo na campanha que se seguiu. 

A batalha contra o Clydebank foi ferrenha, mas os impressionantes 91 tentos marcados foram inigualáveis, bem como os 38 concedidos. A primeira colocação foi a consequência para um time que manteve o que tinha de melhor e evoluiu naquilo que era necessário. O acesso, com título, foi o primeiro prodígio do treinador Alex Ferguson. 

Em um nível de competitividade muito mais alto, o clube teve dificuldades mas fincou pé na elite. Em 1977/78, terminou uma posição acima do rebaixamento. O trabalho de Fergie estava feito: havia tirado o St Mirren da segunda divisão, colocado-o e o mantido na elite. O curioso é que acabou demitido, o que o levou a mover um processo contra o clube. 

As ambições eram de título. Porém, demasiado irrealistas, como o treinador relataria mais tarde, no livro Liderança: “o que lhe faltou [ao diretor do clube] admitir foi que, para conseguirmos isso, precisávamos de dois ou três novos jogadores que o clube não queria comprar”. Mas a próxima parada estava próxima: Aberdeen.

Saindo da fila

O desembarque na terceira cidade mais importante do país, atrás apenas de Glasgow e da capital Edimburgo, representou um desafio de outra ordem para o comandante. Não só os holofotes postos sobre seu trabalho aumentaram, como também a cobrança. Em 78, Ferguson assumiu a missão de levar o atual vice-campeão nacional ao lugar mais alto do pódio, o que acontecera pela última vez em 1955. Detalhe: ele não sucedeu um treinador demitido; Billy McNeill trocara voluntariamente os alvirrubros pelo Celtic.

Foto: Mirrorpix
Apesar de viver um contexto de exigência muito maior, ao menos fora das quatro linhas ela não era tão grande. Com o passar dos anos, Dick Donald, o dono do Aberdeen, e Ferguson desenvolveram uma relação mais forte do que a de respeito entre patrão e empregado; eles se tornaram amigos. E como o treinador relataria diversas vezes, era esperado algum sucesso do time, mas o mandatário nunca daria um passo maior do que as pernas para tanto, tampouco arriscaria fechar o mês no vermelho.

Assim, não houve grandes problemas ao final da primeira temporada do treinador no Pittodrie Stadium. O time que havia ficado dois pontos atrás do campeão um ano antes foi apenas o quarto colocado em 1978/79. Entretanto, havia crença de que a escolha feita daria certo no médio prazo. Ela era até mesmo reforçada pela qualidade dos jogadores que atuavam na equipe.

Quando Fergie chegou, pode contar com três selecionáveis escoceses que integraram o selecionado nacional na Copa do Mundo de 1978: o veterano goleiro Bobby Clark, o lateral Stuart Kennedy e o atacante Joe Harper — quatro anos mais tarde, seria a vez de o Aberdeen ceder outro goleiro, Jim Leighton (que faria mais de 90 jogos pela Escócia), o defensor Alex McLeish, o zagueiro Willie Miller e o polêmico atacante Gordon Strachan que protagonizaria polêmica com o treinador, mas não deixaria de reconhecer sua importância:

“Nos primeiros tempos, ele foi o treinador que deu a base para minha habilidade, com o padrão que ele construiu no Aberdeen, com sua disciplina e organização”, revelou o jogador à BBC, anos mais tarde.

Com o time encaixadinho, o jejum acabou na temporada seguinte. Enfim, o Aberdeen voltou a ser campeão escocês. Isso significou ao clube a disputa da Copa dos Campeões subsequente. Mas logo na segunda fase os Dons foram freados bruscamente pelo Liverpool. 

O trabalho de Alex Ferguson continuou rendendo bons frutos, apesar de o título não ter ficado com o time de vermelho no ano seguinte. Mas nada de crise: o time foi vice-campeão.

Classificado à Copa da UEFA, foi até a terceira fase, mas perdeu para o Hamburgo. Ainda não era chegada a hora de conquistar outro troféu. As glórias voltaram mesmo em 1981/82, com uma goleada na final da Copa da Escócia contra o Rangers, 4 a 1. Dessa vez, o Aberdeen se classificou para a disputa da Recopa Europeia. 

“Leve uma garrafa de uísque Macallan para Di Stéfano”

A temporada 1982/83 foi inesquecível para o torcedor do time vermelho. Primeiro porque ele defendeu o título da Copa da Escócia, vencendo outra vez o Rangers, mas dessa vez mais apertado: 1 a 0 e na prorrogação. Novidade mesmo foi o sucesso que o time viveu na competição continental que teve de disputar naquele ano. Ainda assim, início empolgante à parte, a campanha não foi fácil.

O dia 18 de agosto de 1982 certamente é guardado com carinho e a sete chaves no coração dos envolvidos na causa do Aberdeen. Ali, o clube deu uma mostra de sua força: recebeu os suíços do Sion e, inapelavelmente, sem misericórdia, enfiou sete bolas nas redes helvéticas e não concedeu nenhum tento. Na volta, o 4 a 1 consolidou a supremacia escocesa.

A sequência porém não foi tão fácil. Contra Dinamo Tirana, da Albânia, foi um gol solitário e em casa que garantiu o avanço à terceira fase. Longe do Pittodrie Stadium o zero não saiu do placar. Depois, sem muito drama, os Dons passaram pelo Lech Poznan conseguindo uma vantagem de 3 a 0, na soma dos placares das duas partidas eliminatórias. Veio então o primeiro grande desafio: o poderoso Bayern de Munique, que acabara de passar por cima do Tottenham.

O primeiro prodígio escocês veio na partida de ida, na Alemanha. O time não marcou, mas evitou que o rival construísse uma vantagem em seu território, o que já era um enorme feito. Havia, porém, a outra metade do caminho para percorrer e tudo começou mal, quando o defensor Klaus Augenthaler colocou os bávaros na frente no início do jogo. Neil Simpson empatou pouco antes do intervalo, mas na volta Hans Pflüger recolocou os germânicos à frente, ignorando o fato de que o Aberdeen já colocara duas bolas nas traves do Bayern.

Foto: Aberdeen FC/Divulgação


Uma hora, o jogo virou. De cabeça, os escoceses se aproveitaram de um lapso de concentração do rival e empataram. A renovação da confiança dos comandados de Ferguson foi diretamente proporcional ao desânimo que se abateu sobre o time de Munique. Um minuto depois veio o 3 a 2, que garantiu o avanço do Aberdeen às semifinais. Depois de suar sangue contra o Bayern, foi um alívio enfrentar os belgas do Waterschei Thor, eliminados por 5 a 2, no placar agregado.

E então veio a final. Do outro lado estava o poderoso Real Madrid. Independentemente da força do adversário, Ferguson estava disposto a impedir que qualquer coisa lhe tirasse sua primeira glória continental. Então, procurou o conselho de Jock Stein, o técnico campeão europeu com o Celtic em 1967 e de quem seria auxiliar na Seleção Escocesa. Ele teria dito ao jovem treinador que levasse uma garrafa do uísque Macallan para Alfredo Di Stéfano, o treinador madrileno. Em sua visão, os espanhóis interpretariam isso como um sinal de respeito e temor, como se a chegada à final já fosse boa o suficiente.

Foto: Reprodução / The Sun
12.000 torcedores viajaram a Gotemburgo para acompanhar de perto o final da saga do Aberdeen. O jogo foi tenso, como era de se esperar. Logo aos sete minutos, os escoceses abriram o placar no ressalto de uma jogada ensaiada em cobrança de escanteio. Eric Black foi o nome da alegria.

A vantagem durou pouco, porque aos 15 Juanito empatou de pênalti. O jogo foi para a prorrogação e o grito libertador só saiu da garganta dos escoceses aos 112 minutos, quando John Hewitt completou de cabeça um cruzamento rasante de Mark McGhee.

Título assegurado, Ferguson ordenou que descesse o espumante. Seu primeiro título continental foi comemorado como deve ser. De volta à Aberdeen, a Câmara Municipal decretou feriado municipal. Aquele foi um feito inédito e ainda único. Na sequência, com o treinador, o time até ganhou a Supercopa da Europa, batendo o Hamburgo, além de mais dois títulos nacionais e duas Copas da Escócia, mas a conquista que mais mobilizou o clube e seu treinador acabou sendo aquela do dia 11 de maio de 1983, na Suécia.

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