terça-feira, 6 de novembro de 2018

Elementos da final do século: River Plate e Boca Juniors

Controvérsia à parte, River Plate e Boca Juniors, os poderosos rivais da capital argentina, Buenos Aires, chegaram à final da Copa Libertadores da América. A partir do momento em que se confirmou o encontro, o mundo do futebol foi forçado a virar sua atenção para o confronto; trata-se de um dos maiores clássicos do planeta e de uma final histórica — seja pela disputa, em si, ou pelo fato de que será a última final com partidas de ida e volta. Assim, o que se pode esperar do superclássico do século?


Foto: AFP

Um River que procura controlar

Um dos principais elementos, dentro do campo, que torna a finalíssima um jogo tão interessante são os distintos estilos de jogo que apresentam os rivais portenhos. O River Plate do treinador Marcelo Gallardo, no clube desde 2014, tem uma tendência a atuar sempre no esquema tático 4-4-2. O elenco d’El Muñeco oferece possibilidades, mas a ideia de jogo raramente se modifica. 

A defesa tem sido composta pelos laterais Gonzalo Montiel, pela direita, e Milton Casco, à esquerda, além dos zagueiros Jonathan Maidana e Javier Pinola. A despeito da juventude do primeiro ala, é uma defesa experiente, com média de idade de 30 anos. Se por um lado é importante contar com jogadores vividos, por outro o acúmulo de idade tem seu preço. Especialmente no caso dos zagueiros, nota-se, claramente, alguns problemas que passam pelo lado físico. Lentidão é um deles, o outro é a falta de eficácia na bola aérea.

Os Millionarios, alcunha do River, sofreram nas semifinais da competição com o jogo por cima do Grêmio e deixaram evidente tal problema. Por outro lado, tanto Maidana quanto Pinola atuaram como laterais em momentos de suas carreiras, o primeiro pela faixa destra e o segundo pela canhota; ambos têm qualidade para passar a bola e são úteis à saída de bola do time. Ainda no setor, o que se verificou em alguns turnos foi a descida do primeiro volante e capitão do time, Leonardo Ponzio, mais para perto da zaga, com os laterais alargando o campo e oferecendo saída eficaz pelos flancos. Isso não deverá ocorrer tanto na final, entretanto — o que se explicará adiante.

Foto: River Plate


Na meia-cancha, Ponzio é o pilar defensivo e titular absoluto. Sua companhia é que varia. O experiente Enzo Pérez, o garoto Exequiel Palacios e Nacho Fernández são todos atletas de bom trato da bola, que oferecem combatividade, movimentam-se e circulam bem a redonda. São alternativas de controle. Em nível de qualidade inferior, Bruno Zuculini também é. 

Um pouco à frente, Pity Martínez e o colombiano Juan Quintero são os criadores do jogo do River. São bons passadores, também. Porém, utilizam tal recurso muito mais objetivando a desconstrução das defesas do que a circulação da redonda. Apesar de por vezes atuarem um pouco deslocados pelos flancos, não são pontas e permitem espaços para a ultrapassagem dos laterais.

Já as alternativas de ataque também atuam mais pela faixa central. Nos últimos jogos, o colombiano Rafael Santos Borré se firmou titular, com Ignacio Scocco e Lucas Pratto lutando pela outra vaga. 

Nenhum deles é um centroavante estático, visto como alvo em bolas longas e que se presta às funções de ser o jogador de toque final ou pivô. Apesar disso, Pratto é quem oferece algo diferente, justamente por conta de sua imposição física (que não impede que o jogador tenha mobilidade). O atacante circula muito e é importante também para abrir espaços a seus companheiros, recuando com frequência e permitindo que seu parceiro de ataque se infiltre no espaço deixado por si.

Um Boca mais pragmático e que parece ter se encontrado

Talvez o principal dilema pelo qual o treinador Guillermo Barros Schelotto, no clube desde 2016, passa no comando do Boca Juniors passe pela utilização de dois ídolos da torcida Xeneize, como é conhecido o clube. Carlos Tévez e Fernando Gago são jogadores de categoria indiscutível, mas que não se encaixaram na proposta de seu chefe e têm problemas físicos. Depois de tentar muito alocá-los, sobretudo o primeiro, em um esquema 4-2-3-1, o técnico parece ter se dado por vencido e definido que é no 4-3-3 que o time alcança seu melhor nível.

Os defensores são atletas sem grande distinção técnica, e que, via de regra, limitam-se a exercer as tarefas básicas. Habitualmente, vê-se em campo o lateral direito Leonardo Jara, os zagueiros Carlos Izquierdoz, Lisandro Magallán e o ala canhoto Lucas Olaza, que ascendeu após a lesão do colombiano Frank Fabra. Como a retaguarda do River, a do Boca não é muito alta e não se sai particularmente bem no jogo aéreo.

Foto: Boca Juniors


É o meio-campo que é garantido o desempenho do clube Azul y Oro. Diferentemente do rival, o Boca Juniors escala normalmente jogadores de maior poder defensivo. Todos eles têm qualidade técnica com a bola nos pés, boa movimentação e alguma capacidade no passe, mas seu perfil é diferente. Wilmar Barrios é o volante mais recuado. O colombiano é o melhor recuperador de bolas do time, sendo excepcional nos desarmes. Peca, às vezes, na distribuição de bolas e comete muitas faltas.

Nahitan Nández também vai bem nas roubadas de bola, mas se movimenta mais, em geral pela direita, e tem o passe um pouco mais qualificado. Ainda no setor, cabe ao capitão Pablo Pérez as maiores capacidades técnicas. Além da liderança que exerce, o camisa 8 é quem dá ordem às ações do time. É dele o melhor passe, a maior capacidade de criar chances de gol, oferecendo, também, um bom chute de média distância. É quem mais carimba bolas para os pontas, peças fundamentais do time.

Considerando que a escalação de Ramón Ábila é uma tendência — dado o potencial que tem de causar problemas à defesa do River, pelo porte físico, presença de área e capacidade no jogo aéreo — há uma dúvida quanto aos demais parceiros. 

É quase certa a escalação de Cristian Pavón, titular durante a campanha, mas não é possível dar certeza a respeito do lado em que atuará. Para alargar o campo, Schelotto pode entrar com Pavón pela esquerda e o colombiano Sebastián Villa pela direita. São os jogadores mais extremos que o treinador tem. Com característica mais atacante, também pode ser usado Mauro Zárate, o que deslocaria Pavón de um flanco para o outro. Difícil mesmo é imaginar a escalação do decisivo Darío Benedetto e do ídolo Tévez (opções para o curso dos jogos).

Desfalques e duelos importantes

O grande problema do Boca Juniors é a ausência do goleiro Esteban Andrada, lesionado desde as quartas de finais. E esse é um diferencial da partida, porque seu substituto, Agustín Rossi, além de não ter a mesma qualidade, não passa confiança. Por outro lado, Franco Armani, arqueiro do River é apontado como o melhor argentino em atividade e, para alguns, o melhor da América. Andrada pode até disputar a segunda partida, mas está vetado para a primeira.

Foto: Getty Images
O River também tem um grande problema, porém. Ponzio, o coração do time, sofreu um lesão muscular nas semifinais e está fora do jogo de ida — aguarda-se seu retorno na volta. Isso indica a provável utilização de Enzo Pérez em seu lugar. O que se ganha em termos técnicos, perde-se em combatividade e, sobretudo considerando que o capitão é o volante de mais forte marcação, isso pode trazer dificuldades aos Millionarios

O meio-campo é provavelmente o setor que definirá os rumos do jogo. Apesar das características dos times serem diferentes nessa faixa de campo, é ali que se deverá notar a maior disputa pela bola e se perceberá com mais clareza as tradicionais garra e raça do futebol argentino. Ali se decidirá tudo, mesmo porque a chegada da bola às pontas do Boca passa pelo meio-campo e aos atacantes do River pela influência que jogadores como Quintero e Martínez consigam exercer. 

Em especial, alguns duelos tendem a ser interessantes. Em primeiro lugar, a disputa de Ábila com a zaga do River Plate, de notória fragilidade pelo ar. Outra curiosidade fica a cargo da postura que os laterais Millionarios vão adotar, tendo que lidar com a forte ameaça oferecida pelo Boca Juniors pelos lados. 

Além disso, os compatriotas Wilmar Barrios e Juan Quintero também tendem a efetivar um embate crucial para os rumos da partida. A superioridade de um sobre o outro pode ser fundamental para o título da Copa Libertadores. Por fim, é de se notar que a possibilidade de o River tentar ser dominante no meio, em números, é real. Além de já atuar com quatro peças por ali, tem em Pratto uma alternativa para congestionar ainda mais o setor e dificultar o trabalho do Boca.

Como sinalizou o polêmico presidente do país e ex-mandatário do Boca, Mauricio Macri, “quem perder demorará 20 anos para se recuperar”. Por seus diversos elementos, a final se candidata a ser o maior confronto da história da Copa Libertadores. É certo que será um jogo duro, possivelmente violento, mas de extrema competitividade e que coroa dois times que têm seus méritos, bons elencos e ideias diferentes.

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