quinta-feira, 1 de novembro de 2018

A máquina dinamarquesa que encantou mas acabou reduzida a pó

Nos anos 80, o mundo do futebol foi forçado a notar a presença da Dinamarca. Sob a liderança do treinador alemão Sepp Piontek, nascido em território da atual Polônia, o país viu sua mais talentosa geração de jogadores nacionais surgir. Os primeiros e poderosos sinais disso vieram nas eliminatórias e na disputa da Eurocopa de 1984. Nesta ocasião, os escandinavos foram às semifinais do certame e só caíram nas penalidades máximas, perante a Espanha. Dois anos depois, fariam ainda mais barulho, para o seu bem e mal.


Foto: Desconhecido


Da Europa para o mundo

A Dinamarca chamou holofotes para si nas eliminatórias para a Euro de 84. Na ocasião, disputou a classificação a tapa com a Inglaterra. O histórico estádio de Wembley recebeu um encontro que ditou os rumos da classificação. Naquela altura, o futebol já tinha os dinamarqueses sob análise; eles vinham provocando furor entre torcedores e jornalistas. O treinador inglês, Bobby Robson, até escondeu sua escalação, mas não evitou a derrota por 1 a 0. Um feito, em se tratando de partidas disputadas na famosa casa bretã.

“O jogo foi ruim em termos de entretenimento, mas teve a tensão única que só se vê quando um time estabelecido enfrenta um recém-chegado superior [...] O ataque dinamarquês perdeu foco no segundo tempo [quando já estava um a zero]; sua concentração estava em defender sua vantagem [...] eles pareciam gostar do simbolismo de uma vitória em Wembley”, narrou o livro Danish Dynamite.

A descrição não poderia ser mais exata. Aquele time dinamarquês era isso mesmo: uma esquadra novata que trilhava um caminho entre as equipes já vencedoras e velhas de guerra. A campanha na Euro só reforçou isso, afinal na competição sediada na França, que comandada por Michel Platini seria campeã, venderam caríssima uma derrota para os anfitriões — 1 a 0 —, bateram uma vencedora geração belga, além de uma quase sempre forte Iugoslávia, antes de perder a partida semifinal na marca da cal.

Mas quem eram os operários dessa máquina que tinha um quê de carrossel, nos moldes do holandês, e a inocência que, não-raro, conquista os corações dos amantes da bola? Eles eram jogadores de primeira linha e fariam história na Copa do Mundo de 1986.

De Simonsen a Laudrup

Na reserva, Piontek contava com a referência, sobretudo moral, de um antigo vencedor do prestigioso prêmio Ballon d’Or: Allan Simonsen. Outrora astro de Borussia Mönchengladbach e Barcelona, o craque já tinha 33 anos. Mas era um dos líderes do elenco e sua presença era um must. Sofrera grave lesão na estreia dinamarquesa na Euro 84, quebrando a perna e não voltaria a ser o mesmo jogador. Daí seu lugar no banco.

Foto: Getty Images
Apesar disso, o que não faltava era jogador vivendo seu auge em grandes equipes europeias. Do Manchester United vieram o defensor John Sivebæk e o polivalente Jesper Olsen; do rival, o Liverpool, Jan Mølby. Dos alemães do Bayern de Munique, Søren Lerby, e, dos holandeses do PSV, Frank Arnesen (curiosamente, cria do Ajax). 

A eles se juntavam dois trios, o do Anderlecht, formado pelo capitão Morten Olsen, por Per Frimann e Henrik Andersen, e o dos que vinham da Itália: Klaus Berggreen (Pisa), Preben Elkjaer (Verona) e ele, Michael Laudrup (Juventus). Estes formavam a base de uma equipe completada por jogadores que ainda atuavam em solo nacional.

E não se deixe enganar pelo fato de que muitas vezes o time jogava com uma linha de três defensores. A grande força do time era o ataque, muitas vezes iniciado lá de trás, por seu formidável líbero e líder, M. Olsen. 

Os meio-campistas, independentemente de quais fossem os escolhidos, eram multifuncionais. Pareciam endemoniados a correr, ocupavam espaços com sabedoria, recuando quando necessário e se lançando ao ataque. E, para coroar tudo isso, a equipe contava com uma pitada de classe, levada por Laudrup, e com um faro de gol dos mais apurados da época, personificado por Elkjaer.

A viagem ao México que o Uruguai nunca esqueceu

Com esses predicados, a Dinamarca viajou ao segundo Mundial sediado no México — e que deveria ter sido na Colômbia, mas essa é outra história. 

Seu grupo ficou conhecido como o “da morte”, palavras que teriam saído da boca do treinador uruguaio Omar Borras. E a verdade é que ele pelo menos estava ciente de que a chance de sua nação sofrer era grande. Escandinavos e cisplatinos foram acompanhados da Alemanha Ocidental, vice-campeã da Copa do Mundo de 1982, e da Escócia, comandada por Alex Ferguson. Tudo poderia acontecer.

Foto: Per Kjaerbye
Apesar do nervosismo da estreia (histórica, já que o país nunca havia jogado uma edição sequer da competição) e da força dos britânicos, capitaneados por Graeme Souness, a Dinamarca fez o básico. Um gol que foi suficiente. Com muita objetividade e tranquilidade, o time foi tocando a bola desde a defesa, à sua maneira. Ao final, ela chegou aos pés de Eljkaer que confirmou sua fama à frente do goleiro escocês, Jim Leighton.

O segundo jogo foi contra o Uruguai e poderia encaminhar a classificação, na medida em que os sul-americanos haviam empatado com a Alemanha na partida de estreia. Tudo bem: aquela não era a melhor geração uruguaia que o mundo já havia visto, mas certamente havia jogadores de bom nível, como as presenças de Enzo Francescoli, Victor Diogo ou Jorge da Silva não nos deixam mentir. A Dinamarca podia ser favorita, mas ninguém esperava pelo que aconteceu.

O início até foi parelho, com Elkjaer abrindo o placar aos onze minutos e Lerby ampliando meia hora mais tarde, antes de Francescoli diminuir a contagem aos 45. O uruguaio Miguel Bossio também acabou expulso ainda na etapa inicial. Depois… Bem, foi um massacre impiedoso. Laudrup deu as caras aos 52, mas o protagonismo da noite caberia a Elkjaer, que cumprimentou as redes novamente aos 67 e aos 80, antes de Jesper Olsen, confirmar a demolição uruguaia, aos 88: 6 a 1. 

Os uruguaios mal entenderam o que se passou, com as constantes e rápidas trocas de bolas dos dinamarqueses. O gol de Laudrup acabou sendo um ótimo exemplo da incapacidade da Celeste para parar a rival.


Uma derrota que mudou muita coisa

Na rodada final, a Dinamarca confirmou sua força, batendo a Alemanha por 2 a 0 — gols de J. Olsen e dele, Elkjaer — e confirmando a liderança do grupo. Classificada para as oitavas de finais, deparou-se com um fantasma recente, a Espanha, responsável por sua eliminação na Euro 84 e que havia ficado com o segundo lugar do Grupo D na primeira fase do Mundial, atrás do Brasil.

Foto: Getty Images
Liderados pelos gols de Emilio Butragueño, os espanhóis vinham também em forma, tendo perdido apenas para a Canarinho e por placar mínimo, 1 a 0. Esperava-se um grande jogo, igual, semelhante ao empate de dois anos antes, decidido nas penalidades. Mas se houvesse um favorito seria a Dinamarca, que superara com 100% de aproveitamento o “grupo da morte”. E parecia que seria essa a tônica do jogo, quando Jesper Olsen, mais uma vez, marcou, inaugurando o placar.

Porém, como relata a obra citada anteriormente, o ataque dinamarquês “sempre foi uma faca de dois gumes e, finalmente, o que os matou, em um final cinematográfico, mas infeliz. A entorpecedora derrota em Querétaro foi uma conclusão adequada para sua história [...] eles se mantiveram fiéis a si mesmos até o fim, uma qualidade rara”.

Foi assim, sem renunciar ao seu jeito de jogar, que a Dinamarca foi massacrada. Butragueño empatou. Virou. Sofreu um pênalti. Consumou um hat-trick. Por fim, um poker. Fez quatro dos cinco gols da massacrante goleada por 5 a 1. Exposta, a defesa dinamarquesa sucumbiu. Denunciou, com crueldade, o que podia acontecer em um dia ruim. E acabou com o encanto.

No pós-Copa, as coisas foram mudando, passo a passo. Jogadores foram passando do auge e o jeito de jogar foi deixando de ser visto como o melhor. A Dinamáquina, com o que teve de melhor, morreu. Seis anos depois, já sem Piontek, conquistaria sua principal glória histórica. Jogando pragmaticamente, por resultado. Preterindo a presença de Michael Laudrup, mas, para todos os fins, vencendo.

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