segunda-feira, 6 de maio de 2013

Athletic Bilbao x Real Sociedad: o dérbi do País Basco

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sigo escrevendo sobre os Clássicos do Mundo. Agora, a recordação traz o peculiar dérbi do País Basco, disputado entre Athletic Bilbao e Real Sociedad.


*Atualizado em 02 de abril de 2021

Fundado em 1898, o Athletic Bilbao, como o próprio nome denuncia, é da cidade de Bilbao, no País Basco. Por sua vez, a Real Sociedad surgiu em 1909, na cidade de San Sebastián. 

Localizado ao norte da Espanha e sudoeste da França, além de cortado pelos Pirineus, o País Basco é uma região que, há tempos, pretende se tornar independente da Espanha. Ao longo da história, tal questão ocasionou muitos conflitos, que não são estranhos às quatro linhas do futebol.

A região possui cultura rica e peculiar, incluindo idioma e tradições particulares, em relação ao restante do país. Por esse motivo, o País Basco, que foi tolhido de seus próprios costumes durante a Ditadura Franquista, que perdurou entre 1939 e 1976, defende tanto sua independência. 

Não obstante, faz-se necessário ressaltar que a luta nem sempre foi pacífica. Em sua busca separatista, a região autônoma foi palco de diversas ações do grupo ETA (Pátria Basca e Liberdade), considerado terrorista por muitas nações europeias. O citado grupo armado protagonizou cenas de cruel violência na Espanha, como no caso da explosão de um carro bomba no aeroporto de Madrid, em 2006. Apesar disso, em 2011 anunciou um cessar-fogo permanente, diminuindo a tensão na região, mas não o desejo de separação.

Voltando as atenções para o futebol, a rivalidade entre suas principais equipes começou, como várias outras, com a disputa entre cidades. Se Bilbao é uma urbe industrial de forte economia, San Sebastián é mais conhecida por suas belas praias e belezas, que a tornam um ponto turístico importante. No entanto, com o passar dos anos, a rivalidade basca não adquiriu, como muitas outras, relações de ódio profundo. Nos dérbis, há hostilidade, mas são raras as ocorrências de violência.


Em linhas gerais, observa-se que o trato amigável se deve ao fato de as equipes guardarem traços comuns, típicos da região: há, acima de qualquer coisa, a defesa do orgulho basco. Os dois clubes têm, arraigadas em si, as tradições bascas, e por defenderem algo que lhes é peculiar, unem forças em prol da região. 

O exemplo mais evidente foi aquele vivido em 1976. Na oportunidade, pouco após a morte do General Franco, as equipes disputaram um dérbi. Entraram em acordo e subiram ao campo do estádio de Atocha ostentando a Ikurriña, a bandeira basca. Foi um ato de desobediência civil, que evidenciou o senso de união existente ao redor, e em defesa, do País Basco.

Evidentemente, é grande a rivalidade no campo. Os clubes querem sempre vencer, mas, em jogo, há algo maior que as próprias equipes. Exemplo disso foi mencionado pelo famoso goleiro José Ángel Iribar, glória do Athletic, em entrevista à Deia Noticias de Bizkaia. Questionado sobre o significado do tetracampeonato espanhol dos rivais — a Real Sociedad vencendo entre 1980 e 1982 e o Bilbao nos dois anos seguintes — indicou que aquilo apenas favoreceu o futebol da região:

“Foi uma alegria para o futebol basco, nos parabenizamos mutuamente, porque era importante que esses títulos se projetassem ante os clubes com mais poderio econômico”

Até 2013, o histórico de confrontos entre as equipes contabilizava 149 partidas. A vantagem era do Athletic, vencedor de 64 confrontos, contra 47 da Real Sociedad — aconteceram também 38 empates. A maior vitória do confronto ocorrera em 1930, quando o Athletic conseguiu um sonoro triunfo por 7 a 1.

Além de nunca ter sido rebaixado para a segunda divisão, ao contrário do rival, o Bilbao tem também um número de títulos maior. São oito conquistas do espanhol, contra duas do rival.

Ikurriña athletic real sociedad

Dois outros fatos que vale a pena ressaltar e são geradores de rivalidade são as canteras e os jogadores que podem atuar pelas equipes. 

Os clubes são conhecidos pela qualidade de suas categorias de base, tendo revelado para o futebol jogadores como Xabi Alonso, Joseba Exteberría, Aitor Karanka, Julio Salinas e José Mari Bakero. Recentemente, as equipes revelaram os talentosos atacantes Iker Muniain e Antoine Griezmann, para citar apenas dois expoentes do futebol local.

Nesse contexto, há casos controversos entre essas equipes no que diz respeito ao "roubo" de jovens. O caso mais relevante foi o de Exteberría, símbolo do Athletic que aos 16 anos saiu da Real Sociedad para o rival.

Além disso, outro fato importante de ser ressaltado é o de que o Athletic só aceita atletas inseridos na cultura basca — nascidos no País Basco, crescidos envoltos à cultura basca ou filhos de bascos. Até 1989, quando o time contratou o irlandês John Aldridge, foi assim também com Real Sociedad, entretanto, hoje a equipe é aberta a quaisquer jogadores, ainda que mantenha um substancial contingente de atletas da região em seus elencos. 

Nos tempos mais recentes, os times têm alternado bons e maus momentos, com anos flertando com conquistas e outros mais próximos da perigosa zona de rebaixamento. Seja como for, Athletic Bilbao e Real Sociedad fazem um dos dérbis mais curiosos do planeta. Nunca é apenas um jogo.

4 comentários:

  1. usei trechos deste texto numa prova de geografia sobre a questao basca!!! valeu

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  2. Wladimir, só uma correção: a diferença entre a Real Sociedad e Athletic, quanto à permissão de jogadores apenas bascos é que o Athletic de Bilbao, efetivamente, só permitia jogadores nascidos na região do País Basco (atualmente, eles abriram para jogadores com descendências bascas: neste caso, temos o Amorebieta - venezolano - e o zagueiro Ramalho - nascido no Cabo Verde mas de pais bascos). Por outro lado, a Real Sociedad tinha uma patricularidade que era que eles só permitiam jogadores espanhóis nascidos na região do País Basco, porém permitiam estrangeiros (atualmente, isso mudou e permitem jogadores espanhóis de outras regiões, um exemplo é o Esteban Grenero, nascido em Madrid).

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  3. Excelente texto. Em particular, me intriga e fascina (não necessariamente de forma positiva) esse comportamento do Athletic de aceitar apenas jogadores bascos (ou "quase" bascos).

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