quarta-feira, 6 de julho de 2016

Seleções de que Gostamos: Paraguai 1998

Na continuidade da coluna “Seleções de que Gostamos”, recorda-se uma equipe que não ficou marcada por belos gols e encanto, mas pela marcação forte e leal. Falo do Paraguai que viajou à França para a disputa da Copa do Mundo de 1998.

Paraguay 1998 World Cup
Em pé: Arce, Gamarra, Ayala, Chilavert, Sarabia, Cardozo, Caniza.
Agachados: Benítez, Brizuela, Paredes, Enciso.

Seleção: Paraguai

Período: 1998

Time base: Chilavert; Arce, Ayala, Gamarra, Sarabia, Campos (Caniza); Paredes, Enciso, Acuña; Benítez e Cardozo. Téc.: Paulo César Carpegiani

Conquista: Oitavas de finais da Copa do Mundo de 1998

Campeão da Copa do Mundo de 1994, o Brasil não participou das eliminatórias para a Copa do Mundo de 1998. Era previsível a chegada da seleção argentina à primeira colocação, sem quaisquer problemas. Mesmo havendo conflitos, alguns estapafúrdios, entre o treinador Daniel Passarella e parte do elenco, a Albiceleste realmente terminou com a liderança, mas apenas um ponto a separou de uma das equipes que se confirmaria surpresa no Mundial da França: o Paraguai.

Com um setor defensivo brilhante, a Albirroja perdeu somente cinco partidas das 16 que disputou nas qualificatórias — sempre pela margem mínima: 1 a 0 para a Colômbia e Peru; 2 a 1 diante de Chile, Equador e Argentina. Apenas o encontro com os Hermanos aconteceu em terras paraguaias e, além disso, os Guaranis tiveram o recorde de vitórias da disputa: nove.

Paraguay Spain 1998

Contando com jogadores que o torcedor brasileiro conheceu muito bem — casos de Francisco Arce, Carlos Gamarra, ou, ainda, de Julio César Enciso —, os paraguaios somaram impressionantes 29 pontos. Campanha histórica.

Foi assim que, treinado pelo brasileiro Paulo César Carpegiani, o Paraguai chegou à França bem cotado, mas em um grupo equilibrado, com Espanha, Nigéria e Bulgária. Favoritos, os espanhóis do craque Raúl González não conseguiram tirar o zero do placar contra a Albirroja. Os fortes e talentosos nigerianos, liderados por Nwankwo Kanu, outro atleta conhecido do brasileiro, perderam por 3 a 1; e os búlgaros encararam o mesmo fim da Fúria. Com uma vitória e dois empates, os sul-americanos terminaram o Grupo D com a vice-liderança e avançaram às oitavas de finais

O duro destino, todavia, colocou os Guaranis frente a frente com os anfitriões franceses, que dispunham de um time talentosíssimo – como o Brasil viria a notar na sequência. Quase intransponível, a defesa paraguaia resistiu à força ofensiva de Thierry Henry, David Trezeguet e Youri Djorkaeff até o minuto 114, já na prorrogação. Ironicamente, o gol da eliminação paraguaia seria marcado por um zagueiro: Laurent Blanc. Ao final do certame, ao lado da algoz e eventualmente campeã França, o Paraguai se confirmou a melhor defesa da competição, com apenas dois gols sofridos.

"Eu tinha uma última substituição a fazer [...] Ele [Gamarra] veio falar comigo: 'Não consigo mais'. Eu precisava fazer uma outra substituição. Tinha o Rivarola no banco. Era fazer a simples troca. E eu disse para ele, me recordo muito bem: 'Gamarra, é minha a responsabilidade. Eu preciso fazer uma outra coisa, senão nós não vamos aguentar isso' [...] é um erro que eu carrego até hoje [...] A jogada foi em cima dele", comentou o Carpegiani, sobre a partida contra a França, em entrevista ao SporTV, anos mais tarde.

Chilavert Paraguay

Defendendo a meta paraguaia, estava o polêmico goleiro José Luis Chilavert. Fisicamente robusto, excêntrico e de personalidade fortíssima, cobrador de faltas e pênaltis, mas, acima de tudo, um arqueiro de grande qualidade, era a garantia de que, se por um acaso a bola passasse pela linha de defesa, a meta seguiria limpa. Ao lado de Fabien Barthez, foi o goleiro menos vazado da Copa do Mundo de 1998. No total de seu tempo como jogador da Seleção Paraguaia, disputou 75 jogos e marcou oito tentos. El Buldog, como ficou conhecido, era também o capitão da equipe e sua maior referência moral.

Pela lateral direita, o time possuía um de seus melhores jogadores. Velho conhecido das torcidas de Grêmio e Palmeiras, Francisco Chiqui Arce foi um dos melhores de seu tempo. Equilibrado, ia bem à frente e era seguro atrás, possuindo ainda um grande diferencial: a capacidade para bater na bola, com passes perfeitamente arqueados, que consagraram vários centroavantes. Seus venenosos cruzamentos, lançamentos e cobranças de faltas o tornaram um jogador fundamental à equipe. Com a camisa da Albirroja, disputou 61 jogos e marcou seis gols.

Gamarra Paraguay

O miolo de zaga era o maior diferencial do time. Isso se devia à presença de um dos grandes zagueiros da história do futebol mundial: Gamarra. Ele não era especialmente alto (1,80m), mas sua impulsão o fazia voar; e, no solo, beirava a perfeição, com um jogo limpo e entradas com timing exemplar. Dificilmente cometia uma falta e não porque sua marcação fosse falha, mas pelo exato contrário, com desarmes e antecipações bem calculados — a partir de seu tempo de bola. 

O brasileiro o conheceu muito bem, uma vez que o beque atuou por Internacional, Corinthians, Flamengo e Palmeiras. Pela Albirroja, jogou 110 jogos e balançou as redes 12 vezes, afirmando-se o quarto atleta que mais vezes defendeu seu país. No Mundial de 1998, conseguiu passar quatro partidas completas sem cometer uma falta sequer.

Um de seus habituais companheiros era Celso Ayala, defensor que teve passagem ruim pelo São Paulo, mas marcou seu nome na história do River Plate. Como Gamarra, não se impunha tanto pela estatura (1,83m), tendo estilo de jogo semelhante ao de seu companheiro, embora menos refinado. Defendeu o Paraguai em 85 ocasiões, anotando seis tentos. Ainda pelo setor, outra opção era Pedro Sarabia. Conquanto não tenha obtido o destaque de seus companheiros, fez longa e vitoriosa carreira, marcado por um perfil sério e determinado, destacando-se em River Plate, Cerro Porteño e Libertad. Por fim, Carpegiani podia contar também com os préstimos de Rivarola, então no Grêmio.

Denis Caniza Paraguay

Para o flanco esquerdo da defesa, o treinador dispunha dos serviços de dois jogadores com características muito distintas. Se precisasse de um time com melhor saída ofensiva, apostava suas fichas em Jorge Luís Campos; caso contrário, optando por uma estratégia mais conservadora, tinha em Denis Caniza sua melhor escolha.

Originalmente, Campos era meia esquerda. Em razão disso, confirmou-se opção pela ala, no esquema com três zagueiros. Fez 47 partidas pelo selecionado, mas não ganhou notoriedade além-continente. Caniza era de fato um lateral, lembrado pelo esforço e a liderança. Anos mais tarde, herdaria a braçadeira de capitão da Albirroja, alcançando 101 jogos e marcando seu nome na história como o atleta que mais representou sua nação em mundiais, entrando em campo em quatro edições.

À frente, o meio-campo tinha, habitualmente, três jogadores. Ex-atleta do Internacional, Julio César Enciso era uma deles. Volante versátil, atuava pelo lado direito, oferecendo qualidade na saída de bola. Ainda que não fosse exímio marcador, era importante ao escrete guarani. É outro jogador que fez bonito por seu país, integrando também o time que ganhou medalha de prata nas Olimpíadas de 2004. 

Roberto Acuña Paraguay

Ainda na contenção, jogou Carlos Paredes, conhecido como El Señor de la Mediacancha. Marcador forte, com apurado senso tático e personalidade imponente, era uma das peças mais importantes do esquadrão paraguaio. Grande ídolo do Olimpia, era dos mais jovens entre os atletas paraguaio. Disputou um total de 76 jogos pelo Paraguai, marcando 10 gols.

Completando o meio-campo, com a camisa 10, atuou Roberto Acuña. Jogador de estilo aguerrido e bom passe, El Toro era a principal referência do setor. Argentino de nascimento, atuou durante quase 20 anos pela seleção paraguaia, alcançando 100 jogos e marcando cinco tentos. Atuou até os 45 anos e, após, passou a jogar Beach Soccer.

No ataque, com a tarefa de marcar gols, havia duas figuras de diferentes estilos e que se completavam. De um lado, o baixinho e veloz Miguel Ángel Benítez, atacante muito mais afeito à preparação de jogadas do que propriamente à conclusão; do outro, o goleador José Cardozo, um dos maiores artilheiros da história do Paraguai. O primeiro não atuou tantas vezes pela Seleção, com 29 partidas e 11 gols marcados. Já o segundo envergou o manto Albirrojo em 84 jogos, marcando 25 gols.

José Cardozo Paraguay

Contestado no Brasil, Paulo César Carpegiani foi o técnico responsável pela montagem do ferrolho defensivo que caracterizou a equipe paraguaia. Além dos seus habituais titulares, havia outros atletas interessantes como opções para o treinador, casos, por exemplo, dos atacantes Julio Cesar Yegros e Hugo Brizuela. 

Se esbarrava na falta de talento puro e de jogadores habilidosos, a seleção paraguaia de 1998 deu uma das maiores lições de que qualidade defensiva, organização tática e dedicação podem levar um time à frente.

Ficha técnica de alguns jogos importantes nesse período:


Primeira fase da Copa do Mundo de 1998: Espanha 0x0 Paraguai

Estádio Geoffroy-Guichard, Saint-Étienne

Árbitro: Ian McLeod

Público 30.600

Espanha: Zubizarreta; Aguilera, Abelardo (Celades), Alkorta, Sergi; Etxeberría, Hierro, Amor, Luis Enrique; Juan Antonio Pizzi (Morientes) e Raúl (Kiko). Téc.: Javier Clemente

Paraguai: Chilavert; Arce, Gamarra, Ayala (Yegros), Sarabia, Caniza; Enciso, Acuña, Campos (Paredes); Benítez e Rojas (Ramírez). Téc.: Paulo César Carpegiani

Primeira fase da Copa do Mundo de 1998: Nigéria 1x3 Paraguai

Estádio de Toulouse, Toulouse

Árbitro: Pirom Un-prasert
 
Público 33.500

Gols: ‘1 Ayala, ’58 Benítez e ’86 Cardozo (Paraguai); ’10 Oruma (Nigéria)

Nigéria: Rufai; Okafor, West, Eguavoen, Iroha; Oliseh (Okpara), Oruma (Finidi), Lawal, Babangida; Yekini e Kanu. Téc.: Bora Milutinovic

Paraguai: Chilavert; Arce, Gamarra, Ayala, Sarabia, Caniza (Yegros); Enciso, Paredes; Brizuela (Rojas), Benítez (Acuña) e Cardozo. Téc.: Paulo César Carpegiani

Oitavas de finais da Copa do Mundo de 1998: França 1x0 Paraguai

Estádio Félix-Bollaert, Lens

Árbitro: Ali Bujsaim

Público 31.800

Gol: ‘114 Blanc (França)

França: Barthez; Thuram, Blanc, Desailly, Lizarazu; Deschamps, Petit (Boghossian); Diomède (Guivarc’h), Trezeguet, Henry (Pirès), Djorkaeff. Téc.: Aimé Jacquet

Paraguai: Chilavert; Arce, Gamarra, Ayala, Sarabia, Campos (Yegros); Enciso, Paredes (Caniza), Acuña; Benítez, Cardozo (Rojas). Téc.: Paulo César Carpegiani

* O texto foi atualizado em 3 de fevereiro de 2022, para adicionar a declaração de Carpegiani

11 comentários:

  1. Muito bom texto. Essa Seleção ficou na história, até hj torço pelo Paraguai por causa de 1998. Espero que o Paraguai volte a fazer frente. Obrigado pelo texto. Abraços

    ResponderExcluir
  2. Ótima redação. Lembro que era criança e passei a gostar do Paraguai por causa dessa seleção.

    ResponderExcluir
  3. Carlos Gamarra foi uma das maiores lendas do futebol. Não digo que foi o maior zagueiros que vi jogar, porque vi também Franco Baresi e Ronald Koeman e eu não saberia entre esses quem realmente foi melhor zagueiro

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pela ordem: Baresi -Gamarra- Koeman.
      Mas o melhor de todos os tempos Franz beckembauer

      Excluir
    2. Pela ordem Baresi- gamarra- Koeman (foi bom zagueiro,só isto- no Brasil tem vários que foram melhor do que ele: Aldair, Mauro Galvão , os dois Ricardos, Mozer, Oscar.
      Mas o melhor de todos é Franz beckembauer.
      Mas não posso esquecer de Luis pereira ( um monstro)
      ,kroll o melhor Holandês

      Excluir
  4. Só essa de Gamarra ser considerado um dos maiores zagueiros da história do futebol é muita viajem. Foi um grade zagueiro, agora menos, bem menos

    ResponderExcluir
  5. Eu era criança nessa época, mas lembro que tinha o maldito Golden Goal. Deu dó vendo o choro dos paraguaios após o apito final

    ResponderExcluir
  6. Desde a Copa de 1998 eu tenho o Paraguai como segunda seleção sul-americana. Time macho esse de 1998!
    Essa linha de defesa do Paraguai eu nunca vi outra tão eficiente, com o Gamarra jogando 4 partidas e mais uma prorrogação sem fazer uma falta sequer.
    Gamarra e o chileno Figueroa (ex-Inter), os melhores zagueiros sul-americanos de todos os tempos. Aliás, o Figueroa foi ganhou o título de Melhor Jogador do Continente por 3 vezes. E nessa ele tinha como concorrentes: Zico, Rivelino, Falcão... Só isso!!! Querem mais?

    ResponderExcluir
  7. Lembrando que figueroa foi o melhor zagueiro central da historia da america e ao lado dele passarella na quarta zaga.gamarra domingos da guia nazassi e outros vem depois.falando do paraguai esse time era bom nos penais e na defesa se elimina a franca poderia ter chegado entre os quatro.

    ResponderExcluir
  8. Excelente matéria!!!!!! Parabéns.

    ResponderExcluir

Agradecemos a sua contribuição! ⚽