segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Robert Enke, vítima do silêncio de uma doença que mata

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Embora o maior expoente da história do futebol alemão seja Franz Beckenbauer, os germânicos sempre foram lembrados pela capacidade de lançar grandes goleiros. A memória remete facilmente a Sepp Maier, Harald Schumacher ou Oliver Kahn, enquanto o presente revela a figura de Manuel Neuer. Em meio aos ídolos que a história não permite o esquecimento, outros arqueiros se destacaram. Um desses foi Robert Enke, arqueiro que representou a Mannschaft na Copa das Confederações de 1999 e na Euro 2008. Para esse, também há lugar na eternidade, mas por outro motivo: o trágico fim de sua vida.


Robert Enke Germany Depression
Foto: John MacDougall/Agence France-Presse/Getty Images


O goleiro nascido na cidade de Jena, na Turíngia, começou a carreira no modesto FC Carl Zeiss Jena, hoje na terceira divisão alemã. Foi ser internacionalmente reconhecido pela primeira vez vestindo a camisa do Borussia Mönchengladbach. Naquela instância, quando era decorrida a metade final da década de 1990, também jogou pelas equipes de base e olímpica da Alemanha. Isso o levou, pouco antes de completar 22 anos, ao Benfica. No entanto, o jejum encarnado (os portugueses ficaram longe do título nacional entre 1993-94 e 2004-05) era longo; o momento para afirmação de um jovem, difícil, já que a sombra de Michel Preud’homme pairava sobre o Estádio da Luz.

Nada disso foi capaz de impedir o alemão de se destacar, ainda que os títulos não tenham vindo. Até os dias atuais, a torcida das Águias tem a figura do goleiro em alta conta, a mesma que levou o Barcelona a contratá-lo em 2002.

Robert Enke Benfica
Foto: Getty Images/ Alexander Hassenstein
Mesmo tendo falhado ao Mundial daquele ano, perdendo a concorrência para os excepcionais Kahn e Jens Lehamnn e para o competente Hans Bütt, arqueiro de um ascendente Bayer Leverkusen, Enke convenceu os catalães a investirem em seu futebol. Mas ali, viveu seu primeiro inferno; foi mais um nome que fracassou na sucessão de Andoni Zubizarreta. Oportunidades foram poucas (duas) e sem bom desempenho. Passaria ainda por Fenerbahçe (outro tempo para esquecer) e, brevemente, pelo Tenerife, clube em que foi bem na segunda divisão hispânica, antes de retomar o curso de sua carreira.

Em 2004, com quase 27 anos, voltou à Alemanha. Já não era, porém, um jovem talento, mas uma aposta arriscada. O garoto que rodara pelo futebol português, espanhol e turco, passando rapidamente pela seleção alemã, perdera prestígio. Assim, Robert firmou contrato com o Hannover 96. 

Com a camisa dos Roten, Enke renasceu para o futebol. No entanto, desde os tempos de Barça, já dava sinais, em silêncio, do que viria a acontecer. Lembrado em um sem número de reportagens como uma pessoa de destacada generosidade, mas complexado com a perfeição, o alemão sofria.

Não era dado a luxos, não tinha vícios, entretanto era sério, reservado e rigoroso com si mesmo. Seus amigos e conhecidos confirmam essas situações em uníssono. Paulo Madeira, seu ex-colega no Benfica, diria ao Observador que: “[Enke] não tinha as conversas da maior parte dos jogadores, não falava só de carros, mulheres ou futebol [...] não havia cá brincadeiras [...] Tinha de ser muito profissional.” 

Seu amigo e alemão Per Mertesacker, em recente e emocionada carta, também confirmou tal realidade:

“Ele radiava calma e determinação. Ele persistia. Eu acho importante lembrar isso, não para glorificar Robert, mas para deixar claro que pessoas que sofrem com depressão não são, de maneira alguma, fracas [...] Como era possível que este equilibrado e reflexivo amigo estava, aparentemente, tão doente que tirou a própria vida? [...] Aprendi que ocultar faz parte da doença”.

Depressão: foi ela a algoz de Enke — um adversário mais duro do que sua abordagem, muitas vezes banalizada, sugere; um atacante mais ameaçador do que qualquer outro que o alemão enfrentou durante a carreira. O amigo Mertersacker não entende como não percebeu. A verdade é que, provavelmente, não havia meio de o saber, até porque, debaixo dos postes, o goleiro vivia seu esplendor técnico.

Com a camisa do Hannover, Robert Enke voltou aos grandes dias do início de sua carreira. Retomou sua confiança, tornou-se referência, e voltou à Mannschaft. Porém, perfeccionista que era, nunca deixou de se ressentir, por exemplo, de seus períodos em Barcelona e Istambul — atribuía a si mesmo seus fracassos. 

O fantasma daquelas passagens ruins seguia a assombrá-lo, mesmo que, já no primeiro ano de retorno ao seu país, tenha sido eleito o melhor goleiro da Bundesliga, pela revista Kicker, o que se repetiria na campanha de 2008-09.

Robert Enke Hannover 96
Foto: Getty Images
Na esfera privada, sua filha Lara também ia se superando em procedimentos cirúrgicos. Eles se revelaram necessários para corrigir um problema cardíaco. Todavia, em 2006, a pequena perdeu a batalha e a conta da vida voltou a cobrar um preço que Enke não podia pagar. Dessa vez, a escuridão não nasceu do que acontecia nos campos, mas de fora deles.

O goleiro foi lembrado para a disputa da Euro 2008 e era considerado peça certa no Mundial de 2010, na África do Sul. Aos 32 anos, estaria vivendo sua maturidade e era esperado que fosse o titular.

Após o torneio europeu de 2008, Lehmann se aposentou da seleção alemã e Enke foi o sucessor escolhido. Defendeu seu país em sete jogos. Naquela altura, disputava a titularidade com René Adler e um garoto de nome Neuer. Liderava a batalha, e acabou por perder. No momento em que deveria gozar de seu êxitos, e da superação das crises de sua carreira, tornou-se ainda mais exigente e introspectivo. Temia não ser capaz de exibir o nível dele esperado e, em seguida, de arcar com as responsabilidades; estava deprimido.

Tudo isso culminou em seu suicídio. A notícia de sua morte foi uma desgraça, abalou o mundo da bola. Ninguém entendia. Contudo, incompreensível mesmo é o fato de que essa realidade não precisa de explicação. Alguém pede esclarecimentos quando o câncer mata? Não, pois é um doença e doenças matam. No caso de Enke — e de vários outros à margem dos milhões do futebol —, o problema é que a patologia que o acometeu nem sempre é tratada como tal. E ela mata independente de estatuto social, fama ou glória. Normalmente, em silêncio. No caso do goleiro, nos trilhos de um trem.

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