Aprendendo com as derrotas: a saga de Klopp no Mainz

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Aprendendo com as derrotas: a saga de Klopp no Mainz

Jürgen Klopp caminha de um lado ao outro à beira do gramado do estádio Wanda Metropolitano, em Madrid. O apito final acaba de soar e o alemão é campeão europeu. Lembrado por seu temperamento intenso, está calmo. Aperta a mão e oferece afago ao comandante rival, Mauricio Pochettino, pois sabe exatamente o que o argentino está passando, já que foi vice em 2012-13. Depois, agradece aos membros de sua comissão técnica. Ele ainda consola os jogadores rivais, antes de, enfim, entregar-se a um emocionante abraço em seu capitão, Jordan Henderson. Ele é campeão, um vencedor que não se rendeu e aprendeu que perder é parte do jogo. A primeira lição, porém, não foi aprendida em Dortmund ou Liverpool. Ela vem do passado.

Foto: Swr.de / Arte: O Futebólogo


Assumindo o comando do Carnaval


Não se entende Jürgen Klopp por meio de um mero discurso de revoluções táticas e Gegenpressing. A base de seus trabalhos reside no compromisso com as pessoas. Para ele, liderar é muito mais que emergir ao campo de treinamento, trabalhar posicionamentos e exigir empenho extremo de seus atletas. Há um senso de confiança e cooperação por trás de tudo — com a instituição, as pessoas, a torcida e a cidade. Sem isso, não há Jürgen. Ausentes tais circunstâncias, Kloppo é apenas mais um. Bom, mas comum.


O humor autodepreciativo poderia sugerir a personalidade de alguém fadado a um senso de derrotismo. No entanto, o conhecimento das próprias limitações moldou um caráter avesso a isso. Seu encanto vem da ideia de que é sempre possível melhorar — não se entregam os pontos sem esforço. Não se verá, por exemplo, Klopp reclamar por não ter os melhores jogadores do mundo ao seu dispor. É claro que os deseja em sua equipe, mas não condiciona seus trabalhos a isso.

Não demorou muito tempo para o alemão entender que, como atleta, não teria nível para atuar no futebol de elite. Mesmo assim, daria para jogar e viver o sonho dos gramados. A carreira do atacante-ponta-lateral tomou um caminho definitivo em 1990, quando assinou contrato com o modestíssimo Mainz. Na capital do Carnaval alemão, fincou raízes. Não ganhava muito e não aspirava conquistas. Mas acabou conhecendo seu grande mentor, Wolfgang Frank, bebendo de sua fonte e passando a conviver com uma insaciável vontade de entender mais sobre o jogo. Sendo um grande líder dos vestiários. Nunca o melhor jogador, mas a pessoa em quem todos podiam confiar.

Foto: pa/dpa/ Frank May / Arte: O Futebólogo
Foi assim, diante da falta de opções e perspectivas, que em 2001 o Mainz apostou em Klopp para liderar o time em uma quase perdida luta contra o rebaixamento à terceira divisão. Com ele, os princípios de Frank foram recuperados — a eles se somando um diferencial. Se Wolfgang podia ser uma pessoa difícil, taciturna e que não lidava bem com o insucesso, ao menos externamente, Jürgen era o oposto.

Leverkusen da segunda divisão


Uma sequência impressionante de seis vitórias em sete jogos no início do trabalho livrou o Mainz do rebaixamento em 2000-01. Klopp, que era visto como uma solução emergencial, passou rapidamente ao posto de aposta válida para os (grandes) desafios vindouros. Embora, em seu íntimo, tenha carregado dúvidas e até se sentido só durante alguns momentos, para fora ele era todo excitação.

Com um time formado por “jogadores que ninguém mais queria”, conforme confessou ao livro Klopp, do jornalista Raphael Honigstein, tentou o impossível já em sua primeira temporada. Sem gastar um centavo sequer, desafiou a lógica e os prognósticos. Levou o time nanico ao impensável. Com 12 vitórias nos primeiros 15 jogos da 2. Bundesliga, conduziu o Mainz ao topo. Como era quase como um de seus atletas, não foi difícil convencê-los a seguir seu plano. 

Com atletas dispostos a deixar sangue em campo, firmou as bases de seu Gegenpressing, aos poucos confirmando a todos os envolvidos no projeto de que o sucesso viria. No final da temporada, o peso da exaustiva estratégia se fez notar e o time viveu queda de forma. Ainda assim, chegou à última rodada dependendo apenas de si para conseguir o delirante acesso. Porém, o sonho foi freado de forma brusca.

Foto: Picture Alliance/dpa / Arte: O Futebólogo
Em um ambiente inóspito, proporcionado pela torcida do Union Berlin, o Karnevalsverein perdeu por 3 a 1 e acompanhou, sofridamente, a única combinação de resultados que o tomaria a vaga acontecer, com as vitórias concomitantes de Bochum e Arminia Bielefeld. Mas o decreto de que o sonho havia acabado e que aquela tinha sido uma temporada fora da curva não veio e, no retorno a Mainz, os atletas e comissão técnica foram aclamados. A luta não havia acabado.

Reafirmada a confiança, o time voltou a ter brilho em 2002-03. A temporada começou da melhor forma possível, com troco em cima do Union Berlin. Outra campanha fortíssima indicou que, na rodada fatal, o acesso ainda era possível. 

O Mainz precisava apenas vencer por vantagem de um gol a mais que o então terceiro colocado, o Eintracht Frankfurt. Tudo ia bem, conforme o time goleava por 4 a 0 o Eintracht Braunschweig. Todavia, o rival fez o gol de honra. Enquanto isso, o Frankfurt vencia o Reutlingen por 4 a 3, até os 90 minutos, quando saiu o quinto. Nos acréscimos, veio o sofrido sexto. No fim, os dois times venceram pela mesma diferença de gols. Ainda haveria carnaval em Mainz?

Não existe sonho impossível


Tratado jocosamente por muitos como o “Leverkusen da segunda divisão”, uma espécie de time do quase”, que se aproxima dos êxitos mas não os alcança, o Mainz presenciou outra mostra de que nada havia acabado. A praça central da cidade recebeu de braços abertos seu orgulhoso clube. “Vamos nos levantar”, garantiu Klopp. E, por uma dessas irônicas obras da vida, o clube renasceu, menos dominante do que antes, mas fazendo o suficiente.

A temporada 2003-04 registrou a pior campanha do Mainz dentre as três últimas. No entanto, os 54 pontos somados bastaram. Houve drama, já que os alvirrubros só subiriam caso vencessem o Eintracht Trier e o Alemannia Aachen perdesse para o Karlsruher. Foi o que ocorreu. 

"O acesso com o Mainz sempre será minha maior conquista", disse Klopp ao site oficial da Bundesliga.

O Mainz se tornou o time de pior campanha a chegar à Bundesliga, no que seria sua estreia na elite. A bem da verdade, e daí? Foi o suficiente. Para o acesso e a reafirmação de que Klopp não só era o homem certo para o trabalho, mas também para aquela profissão. Tratava-se de um forte indício de que dias brilhantes estavam a caminho.


Foto: Getty Images / Arte: O Futebólogo
Aquilo só foi possível graças à relação especial entre Klopp e seus jogadores. Até hoje ninguém se sente indiferente atuando por nossa equipe”, revelou o ex-presidente do clube Harald Strutz também ao livro de Honigstein. Desde o início, ainda que em um esforço quase intuitivo, baseado na sua própria maneira de ser, Jürgen tinha um plano. Para obter os melhores resultados, seria necessária a maior coesão — institucional, interpessoal e, claro, no plano tático. Um âmbito não teria sido bem-sucedido sem o êxito do outro.

Klopp ainda ficou em Mainz até 2008. Fez campanhas honrosas de permanência na Bundesliga. Até voltou à segundona, após temporada ruim em 2006-07. Ficou e não conseguiu o acesso. Antes do insucesso, já estava decidido que clube e treinador seguiriam caminhos separados caso a volta à Bundesliga não se confirmasse. No entanto, as sementes de um trabalho histórico haviam sido plantadas, frutos já tinham sido colhidos e manter a vida da planta era algo que dependia apenas de uma sequência na direção correta.

Isso ocorreu. No ano seguinte, o time voltou e não mais caiu. Klopp já estava em Dortmund, ajudando a reescrever a história de um outro clube e fazendo valer, em outro nível de competição, os ensinamentos dos primeiros dias de luta, fracasso e glória — sem nunca trair os princípios e bases que lhe garantiram um lugar dentre os melhores do mundo.

2 comentários:

  1. Esse Klopp tem história marcante como jogador também, aliás,ele tem trabalho marcante onde passou.

    Mais a maior qualidade dele os Brasileiros técnicos não tem oportunidade... (Tempo de trabalho longo pra impor sua filosofia)

    Talvez uma sequência como essa faria diferença para muitos aqui no Brasil.


    Vooooa Klopp!

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