Quando um jovem time do Vitória tomou o Brasil de assalto

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Quando um jovem time do Vitória tomou o Brasil de assalto

Falar dos motivos porquê o futebol é um esporte fascinante é chover no molhado. No entanto, não custa lembrar ao menos um: a constante chance de um Davi enfrentar um Golias de igual para igual. O Campeonato Brasileiro viveu uma dessas ocasiões em 1993. O Vitória vinha da segunda divisão, mas contava com um grupo de jovens destemidos que estavam em grande forma. Pouco a pouco, o time foi surpreendendo. No entanto, o desafio final era muito pesado, mesmo que o talento dos garotos baianos fosse também enorme.

Vitória Palmeiras 1993
Foto: Desconhecido/ Arte: O Futebólogo

Mais um campeonato brasileiro com fórmula bizarra


Se fôssemos comentar todos os formatos que o Campeonato Brasileiro teve desde sua criação, em 1971, perderíamos bem mais do que uma tarde, sentados à mesa de um boteco. Foram muitas as alternativas tentadas, com as mais estapafúrdias regras. 

Em 1992, ficou decidido que ninguém cairia à segunda divisão e doze clubes subiriam à primeira. Assim, o torneio seguinte inchou e perdeu equilíbrio, pulando de 20 para 32 clubes. De toda forma, caso se tivesse seguido a fórmula que vinha sendo utilizada, o torneio de 1993 já teria a presença do Vitória, uma vez que o Leão havia sido vice-campeão da Série B de 1992, atrás apenas do Paraná Clube.


Diante desse contexto, foi determinada a divisão das equipes em quatro grupos de oito. Os integrantes do Clube dos 13, mais os três melhores colocados do ano anterior, ficariam nos dois primeiros. Os demais, nos últimos. Dos grupos A e B sairiam três classificados diretamente para a segunda fase de grupos. Do C e do D, se destacariam dois de cada, só que o primeiro de um ainda teria que enfrentar o segundo do outro. Somente os dois vencedores desses playoffs avançariam à fase seguinte.

Uma vez compostos os grupos E e F, com quatro equipes se enfrentando em jogos de ida e volta, o vencedor de cada um deles faria a final do Campeonato Brasileiro. Sim, uma fórmula esdrúxula que favoreceu os integrantes do Clube dos 13 — sobretudo o Grêmio, que, sem a virada de mesa, sequer teria disputado a Série A de 1993, tendo sido apenas o nono na segundona de 1992.

O improvável rugido do Leão


No futebol brasileiro, nunca aconteceu de um time vindo da segunda divisão conquistar, logo no retorno à elite, o campeonato nacional. Quem chegou mais perto foi justamente o Vitória. Na primeira fase do certame de 1993, os baianos dividiram grupo com Remo, Paysandu, Náutico, Ceará, Santa Cruz, Goiás e Fortaleza. Era um grupo equilibrado, como a classificação final acabaria por revelar, mas o rubro-negro foi superior de ponta a ponta. 

O jogo de estreia dos baianos já foi um cartão de visitas. No Serra Dourada, o Vitória se impôs ao rival esmeraldino com autoridade: 3 a 0, com gols de Pichetti e de um dos talentos que o clube revelava ao país, o meia Paulo Isidoro (apelidado em referência ao craque brasileiro dos anos 1970 e 80). O show continuou e os garotos foram se afirmando rapidamente. O Leão só foi perder na quinta rodada, para o Paysandu. Antes, bateu Ceará e Remo e empatou com o Fortaleza.

Foto: Desconhecido/ Arte: O Futebólogo
O time do treinador Fito Neves foi sofrendo pequenas alterações em busca do ideal, mesclando a já mencionada juventude com a experiência de nomes importantes, como o dos volantes Roberto Cavalo, que estava com o pé calibrado nas cobranças de faltas, e Gil Sergipano, parte crucial no título brasileiro do rival Bahia, em 1988, ou do zagueiro João Marcelo, também com passagem pelo Tricolor de Aço. Desse modo, aquela derrota para o Papão não se fez sentir. Logo na rodada seguinte, o time voltou a vencer, batendo o Náutico, 2 a 0 nos Aflitos.

O Vitória só teria uma pequena turbulência entre as rodadas nove e onze, perdendo para Fortaleza e Remo e empatando contra o Santa Cruz, em uma sequência de jogos fora de casa. Depois, foi só correr para o abraço, com vitórias ante Ceará, Náutico e Paysandu, as últimas duas por 4 a 1 e 5 a 2. Imagine a festa.

Direto da Copinha, o Brinquedo Assassino


Quem eram os tais jovens do Vitória? Além de um certo goleiro chamado Dida, tratavam-se do lateral direito Rodrigo, que jogaria na Alemanha e rodaria por grandes clubes brasileiros, o citado Paulo Isidoro, o volante Vampeta e o atacante Alex Alves. Eles haviam chegado às semifinais da Copa São Paulo de Futebol Júnior daquele mesmo 1993, perdendo para o São Paulo, que viria a ser campeão. Tratava-se de uma geração muito especial de atletas que ganharia o apelido de Brinquedo Assassino.

“A lembrança que eu tenho é de transformação do clube. A partir dali, o Vitória se tornou referência de revelação de jogadores e melhorou sua estrutura”, lembrou o zagueiro João Marcelo, à reportagem do Correio.

Classificado para o playoff, o rubro-negro baiano defrontou o Paraná, segundo colocado do grupo D. Seu grande antagonista na Série B do ano anterior, o time paranista vendeu muito caro o avanço. Comandada por Levir Culpi, a Gralha Azul não chegou a perder para o Vitória. No Pinheirão, houve empate por 1 a 1, gols de Alex Alves para os nordestinos e de Nei Santos para os sulistas. Na volta, o zero não deixou o placar. Bastou para o avanço do Leão.


Estava tudo muito bom, tudo muito bem. Mas enfrentar o invicto Corinthians, o Santos e o campeão vigente, o Flamengo, no grupo E, não era propriamente animador. Apertada, a primeira partida foi contra o time carioca, de Júnior Baiano, Marcelinho Carioca, Renato Portaluppi e Casagrande. Roberto Cavalo, de pênalti, fez o gol do jogo. 

Perder é para os fracos


O segundo jogo foi aquele em que a confiança em um eventual sucesso passou a ser palpável. Na Fonte Nova, o Vitória recebeu o Corinthians, de Zé Elias, Rivaldo, Válber e Viola. Claudinho abriu o marcador para os anfitriões e a tensão permeou o ambiente até o lance genial de Alex Alves, no segundo tempo. Conduzindo a bola desde o seu próprio campo, o atacante deixou quatro marcadores para trás, em um gol antológico. Pouco importou o tento de Tupãzinho, no apagar das luzes.


Na sequência, um movimentado empate com o Santos, no Palestra Itália, manteve o time em boa condição. Os baianos chegaram a abrir 3 a 1, mas cederam o 3 a 3, por obra de Guga, que seria o artilheiro daquele Brasileirão. No tira-teima, houve outro empate divertido, 2 a 2. Mais uma vez, faltou fôlego ao Leão. Depois de abrir 2 a 0, com Paulo Isidoro, permitiu novo empate, com Guga e Cuca anotando para o Peixe.

Enquanto Santos, Flamengo e Corinthians se matavam, o Vitória se preocupou apenas em não perder. Nas visitas ao Morumbi e ao Maracanã, para os confrontos contra Timão e Fla, respectivamente, limitou-se a fazer o básico. Empatou: 2 a 2 e 1 a 1 — outra vez saindo na frente e chamando o adversário para cima, sem conseguir conservar a vantagem. As limitações estavam evidentes, assim como o destemor e a coragem. Aquele time foi à final.

Contra uma seleção, não houve o que fazer


Foto: Desconhecido/ Arte: O Futebólogo
Quando a decisão chegou, o Vitória sabia o que iria enfrentar e tinha consciência de era uma missão quase impossível. Na temporada, o rubro-negro já havia tido dois confrontos contra o outro finalista, o Palmeiras, e não havia tido boa sorte. Era a Copa do Brasil. Ainda que tenha vencido o jogo de ida por 2 a 1, o solitário gol de Maurílio no encontro de volta sentenciou o Vitória à eliminação, no critério do gol fora de casa.

Entretanto, o Leão já havia superado o Porco uma vez — o poderoso time de Vanderlei Luxemburgo, com Antônio Carlos, Roberto Carlos, César Sampaio, Edílson e, claro, Edmundo (cujo salário equivalia à folha salarial do Vitória) e Evair. E o destino, com seus conhecidos requintes de crueldade, penalizou os meninos do Vitória. No jogo de ida, coube a um filho da Boa Terra, mas que defendia o alviverde, dar vantagem ao Palmeiras. Edílson, o capetinha, fez o único gol da partida de ida.



Na volta, não houve hipóteses para os baianos. Logo aos quatro minutos de jogo, Roberto Carlos foi à linha de fundo e cruzou para Evair completar, 1 a 0. O golpe fatal veio aos ‘23. Com muita categoria, de trivela César Sampaio encontrou Edmundo nas costas da defesa do Vitória. O Animal não hesitou e fez o 2 a 0. Com quatro gols por fazer, não deu para os baianos. O fim foi doloroso, mas a história se consolidou, como falou Paulo Isidoro, também ao Correio.

“Não houve fracasso. Poucos acreditavam na gente. Foi tudo muito mágico. Participamos daquilo com orgulho e isso não pode passar em branco”.

Com um goleiro, um lateral, um meia e um atacante com idade para atuar no time júnior — além de Vampeta, que era um reserva bastante utilizado —, mais alguns atletas experientes para garantir equilíbrio, o Vitória foi enorme em 1993. Como dito, foi quem chegou mais perto de um feito cada vez mais improvável: deixar a segunda divisão e conquistar a primeira logo no ano de retorno.

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