A glória do Nantes que antecedeu uma hegemonia na França

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

A glória do Nantes que antecedeu uma hegemonia na França

Já não se encontrava muitas estrelas no Stade de la Beaujoire. A geração de Christian Karembeu, Claude Makélélé, Reynald Pedros e Patrice Loko, campeã da Ligue 1 em 1994-95, havia partido. Naquela altura, o Monaco era o campeão vigente e quem buscava se tornar a agremiação a ser batida na França era o Lyon. Apesar disso, o Nantes levantou sua voz, falando com a autoridade de quem havia conquistado a última Copa da França. Sob a regência de Éric Carrière, ouviu-se, outra vez, o canto do canário nos gramados franceses.

Vahirua Nantes 2000-01
Foto: Presse Photo/ Arte: O Futebólogo

Experiência para complementar um time formado em casa


O elenco com que o treinador Raynald Denoueix teve de trabalhar era composto por 28 atletas, com média de idade de 23,8 anos. Destes, 21 haviam sido formados na Maison Jaune. E não havia homem melhor para lidar com essa situação. O comandante crescera no seio do clube. Primeiro, como atleta, entre as décadas de 1960 e 70. Depois, a partir dos anos 80, como o responsável pelos times jovens do Nantes. Quando o vitorioso Jean-Claude “Coco” Suaudeau decidiu se aposentar, em 1997, o treinamento do time principal passou a ser sua incumbência.

Para sua sorte, aquela equipe contou com sua estrela em seu melhor. O camisa 10 dos Canários, Éric Carrière, estava em forma. Recebendo constantes cuidados em seu joelho, que sofria regularmente com uma incômoda tendinite, viu ser montado um time para potencializar seu talento e brilhou. O conhecimento de longa data a respeito de seu material, fez com que Denoueix extraísse o melhor de seus atletas, que, jovens em sua maioria — como o goleiro Mickaël Landreau e o lateral Sylvain Armand —, também tinham muito a provar.

Moldovan Saint-Étienne Nantes 2000-01
Foto: Desconhecido/ Arte: O Futebólogo
No entanto, na mudança da temporada 1999-00 para a 2000-01, o clube sofrera um golpe duro. Seu grande destaque, o homem que havia marcado os dois gols do título da recém-conquistada Copa da França, transferira-se para o Lens. Porém, por dois motivos, a saída do franco-polaco Antoine Sibierski acabou sendo um daqueles males que vêm para o bem. Sua partida permitiu que o time se remontasse ao redor de Carrière e, ademais, levou o clube a buscar um contratado que daria muito certo.

Ao custo de €5 milhões, o Nantes tirou o romeno Viorel Moldovan do Fenerbahçe. A partir de então, o torcedor dos Canários passou a contar com uma referência de ataque. Tratava-se de um homem com duas Copas do Mundo no currículo e que havia anotado 18 gols em 26 jogos na última Liga Turca. Em última instância, acabou sendo o parceiro perfeito para Carrière: “Ele era fácil de encontrar e entendia bem o meu jogo. Eu precisava do apoio de um atacante que me desse a bola antes de avançar. Não era meu estilo colocar bolas em profundidade”, disse o camisa 10 em entrevista ao Le Libero Lyon

Do quase rebaixamento ao título


Apesar de contar com o frescor da juventude e de ter encontrado uma solução em Moldovan, a realidade do Nantes não era das mais tranquilas. Título de copa à parte, o time havia se salvado do rebaixamento apenas na última rodada da Ligue 1 de 1999-00. Por um ponto. Desse modo, não existia a ideia de que a conquista do nacional fosse factível. O que ficou reforçado quando, em sua estreia no francês, o time foi superado em casa, para o Lens.

No entanto, conforme registrou Carrière na mencionada entrevista, o time não se abalou e respondeu na segunda rodada. Apontado pela imprensa como um time de baixinhos, que, como tal, não poderia alcançar sucesso, o Nantes viajou ao Principado. Lá, enfrentou o último campeão. E o Monaco foi penalizado pelas críticas feitas aos homens de Denoueix. O triunfo por 5 a 2 foi o primeiro sinal de que não era prudente descartar, de todo, aquela equipe.

Landreau Nantes 2000-01
Foto: l'Equipe/ Arte: O Futebólogo
Ainda assim, até a 10ª rodada, houve muita oscilação. Foram três vitórias, três empates e quatro derrotas, incluindo um pesado revés, 5 a 0, ante o Bordeaux, em que o português Pauleta fez um hat-trick. Porém, o time acabou se acertando, tudo começando em outro 5 a 0, dessa vez uma vitória contra o Strasbourg, já na rodada 11. Contudo, foi na 22ª que o clube enfim assumiu a liderança, após uma vitória representativa — passando por cima daquele mesmo Bordeaux.

Apesar disso, a alegria durou pouco, porque o Nantes logo empatou com o Auxerre e perdeu um jogo crucial, contra o Lyon. Caiu para o segundo lugar. E, embora não tenha voltado a perder no torneio, só recuperou a liderança contra o Metz, na 30ª rodada. E, a quatro jogos do fim, não voltou a perder o posto. Implacáveis, os Canários chegaram a vencer seus últimos oito jogos. O título veio, inclusive, de modo antecipado, contra o Saint-Étienne, no penúltimo jogo, válido pela 33ª rodada.

Os Verts, treinados por Rudi García e contando com Aloísio Chulapa e Alex Dias no ataque, viram o franco-taitiano Marama Vahirua anotar o solitário gol da contenda. Derrota à parte, para os homens do Saint-Étienne nem tudo foi problema, já que o título do Nantes impediu aquela que seria a primeira conquista de seu maior rival, o Lyon.


Um paraíso com prazo de validade


As emoções tomaram conta do treinador Raynald Denoueix quando, enfim, o apito final soou. “É um paraíso, após 33 jogos muito duros. Essa foi uma partida difícil, e vivemos muitas emoções durante os 90 minutos”, disse ao final. No entanto, aproveitou a ocasião para fazer o alerta vital: “Porém, vivemos essa experiência juntos. Espero que esses jogadores fiquem aqui, para podermos viver mais disso na próxima temporada”.

Não foi o que aconteceu. A começar por Carrière. O camisa 10, que acabaria sendo eleito o craque daquela temporada da Ligue 1, seguiu para o vice-campeão Lyon, depois de ser especulado em diversos clubes, como o Chelsea. Ao Le Libero Lyon, o meia indicou que sequer fez uma contraproposta aos Gones. Aceitou a oferta e partiu. Ainda assim, ele recorda a temporada 2000-01 como a melhor de sua carreira:

“Minha melhor temporada continua sendo no Nantes, em 2000-01. Eu fui votado o melhor jogador do campeonato porque joguei na frente de uma defesa em 4-4-2, ao lado de Mathieu Berson. O time era consistente porque, para que eu pudesse jogar ali, era necessário ter um cara pelo lado como Frederick Da Rocha, que pudesse voltar quando eu avançasse”.

Éric Carriere Nantes Saint-Étienne
Foto: Desconhecido/ Arte: O Futebólogo
Naquele ano, o time também avançou aos 16 avos de final da Copa da Uefa, sendo eliminado pelo Porto, e chegou às semifinais tanto da Copa da França quando da Copa da Liga Francesa, perdendo para Strasbourg e Lyon, respectivamente.

Porém, o que aconteceu naquele ano ficou nele. Olivier Monterrubio, o artilheiro do time na Ligue 1, com 12 gols, também saiu, rumando ao Rennes. Em 2001-02, o time até buscou soluções defensivas na argentina, trazendo de lá o colombiano Mario Yepes, ex-River Plate, e o argentino Mauro Cetto, ex-Rosario Central. Porém, o time não deu liga. Nem mesmo quando revelou Eric Djemba-Djemba, que depois seria vendido ao Manchester United. 

O 10º lugar na Ligue 1 — tendo passado as 11 primeiras rodadas sem vitórias — foi o saldo final de um time que, ademais, foi eliminado na segunda fase de grupos da Liga dos Campeões, tendo enfrentado os Red Devils, além do Bayern e dos portugueses do Boavista. 

Dali em diante, o Nantes passou a ficar constantemente no meio da tabela. Até ser rebaixado, em 2006-07. Os amarelos até retornaram no ano seguinte, apenas para cair de novo. A volta concreta aconteceu somente em 2012-13 e o time não voltou a sofrer outro descenso. Entretanto, vivendo um momento histórico completamente diferente daquele do início do século XXI, também passa longe das conquistas. Os Canários vivem um longo silêncio.

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