O irrepetível 1998 de um DC United impulsionado por talento boliviano

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

O irrepetível 1998 de um DC United impulsionado por talento boliviano

Pergunte a um boliviano qual o maior jogador da história de seu país. Alguns podem até tender a sugerir outros nomes, como o de Erwin Sánchez ou, até mesmo, o de Marcelo Moreno. Entretanto, o mais certo é que falem em uníssono: Marco Etcheverry. El Diablo, como ficou conhecido, foi um jogador de indiscutível talento, como ficou comprovado naquele ano de 1998, em que o DC United se deu a conhecer internacionalmente, tornando-se o primeiro clube norte-americano a vencer a Copa dos Campeões da Concacaf, popularmente conhecida como Concachampions, e depois se sagrando o grande ganhador das Américas.

DC United 1998
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Impulsionado por uma conquista caseira


Embora a competição continental das Américas Central e do Norte não seja pauta recorrente na imprensa esportiva da maior parte do planeta, há momentos de sua história que não podem ser esquecidos. A competição de 1998 é um deles.

Naquele ano, classificavam-se diretamente às quartas de finais os campeões mexicanos — dos torneios de verão e inverno — e o vencedor da MLS Cup (o título norte-americano). Por sua vez, o vice do torneio de inverno mexicano e o segundo colocado estadunidense disputavam um playoff. Além deles, avançavam duas equipes da América Central, aquelas que ficassem com a liderança de um dos dois grupos de três equipes estabelecidos. Também seguia adiante o vencedor de uma disputa entre os dois segundos colocados destes grupos, além de um convidado.

Ao final das disputas preliminares, a Copa dos Campeões da Concacaf de 1998 teve como representantes os costarriquenhos do Deportivo Saprissa e do Alajuelense, os salvadorenhos do C.D. Luís Ángel Firpo, além de Toluca, Cruz Azul e León, do México, e dos norte-americanos do DC United. E claro, do convidado: o modesto Joe Public F.C., de Trinidad e Tobago. 

Entretanto, para que aquela temporada fosse de fato especial para o time vindo da MLS, foi preciso, antes, superar desafios internos. Durante a temporada regular da Major League Soccer de 1997, a vida dos homens de vermelho e preto foi tranquila. O único time que se apresentou como um possível oponente foi o Tampa Bay Mutiny, em que atuava o astro colombiano Carlos Valderrama.

Etcheverry DC United
Foto: PA Images/ Arte: O Futebólogo
Era uma época curiosa, em que não havia empates, com todos os jogos que terminavam iguais indo para um shoot-out, uma espécie de desafio em que um atleta tinha liberdade para correr em direção ao gol e tentar superar o arqueiro adversário. Assim, o DC United somou 10 pontos a mais do que seus competidores da Conferência Leste, vencendo 17 jogos, perdendo 11 e batendo seus rivais em quatro ocasiões nos mencionados shoot-outs

Desse modo, avançou à disputa da MLS Cup, o mata-mata que determinaria o campeão nacional. Primeiro, deixou pelo caminho o New England Revolution, brilhando a estrela do boliviano Jaime Moreno, autor de dois gols na partida de ida, que terminou com vitória por 4 a 1. Adiante, foi a vez de superar o Columbus Crew, dessa vez contando com o contributo maior do salvadorenho Raúl Díaz Arce. Na final, uma vitória simples contra o Colorado Rapids, 2 a 1, bastou.


É de se ressaltar que, artilharia à parte — que ficou a cargo de Moreno, com 16 gols, seguido de perto por Díaz Arce, 15 —, foi Etcheverry o craque do time, vencendo o prêmio de gol da temporada. Outros nomes de destaque foram o zagueiro Eddie Pope, eleito o melhor defensor da disputa, e o treinador Bruce Arena, laureado como o melhor comandante.

Um título com massacre e imposição contra os mexicanos


Classificado à Copa dos Campeões da Concacaf, o DC United viveu um feliz acaso. De cara, foi sorteado para enfrentar os trinitários do Joe Public F.C., que não manifestaram qualquer oposição.

O livro Club Soccer 101: The Essential Guide to the Stars, Stats, and Stories of 101 of the Greatest Teams in the World comentou sobre o que aconteceu ali: “Eles [o Joe Public F.C.] perderam por 8 a 0. Mas não foi uma verdadeira desgraça. O Joe Public F.C. enfrentou um time realmente bom do DC United. Membro fundador da MLS em 1996, era o time a ser batido”. Não há muito o que dizer a partir de um resultado desse tamanho. O grande destaque da partida foi o atacante Roy Lassiter, autor de quatro tentos.

Na sequência, voltou a brilhar a estrela do homem-gol da partida anterior. Lassiter fez os dois gols da vitória por 2 a 0 ante o León. Aliás, é importante ressaltar que o atacante foi um negócio feito para a temporada de 1998, tendo sido contratado junto ao Tampa Bay e chegando com o cartaz de quem havia recebido o prêmio chuteira de ouro de 1996. Ele chegou para substituir Díaz Arce que partira para o New England Revolution. Com o goleador em grande forma, o DC United avançou à final, contra o time mais temido.

Etcheverry Bruce Arena
Foto: Getty Images/Arte: O Futebólogo
O Toluca era o campeão mexicano vigente e, portanto, o favorito, já que a competição é marcada por um registro histórico extremamente favorável aos mexicanos (são 35 títulos, contra 21 de todos os outros países somados). Comandados pelos gols do artilheiro paraguaio José Cardozo, os Diablos Rojos se mostraram um adversário à altura das expectativas, dificílimo. O único gol da contenda saiu aos 41 do primeiro tempo, por obra do beque Eddie Pope. O goleiro mexicano Mario Alberran se embananou após cobrança de falta de Etcheverry e a bola sobrou para o zagueiro.

“O gol de Pope, o primeiro de 1998, veio depois de o goleiro Mario Alberran quase colidir com dois de seus próprios defensores e se atrapalhar na falta de Etcheverry. Pope recuperou a bola perdida”, relatou o The New York Times do dia seguinte.


A consagração contra o Vasco da Gama


Campeão continental, o DC United experimentou uma sensação que já não se vive há tempos. Durante anos não-consecutivos, existiu uma disputa entre os vencedores da Copa dos Campeões da Concacaf e da Copa Libertadores da América, para saber quem seria o grande campeão de todo o continente americano. Em 1998, os rubro-negros tiveram pela frente a força de um poderoso Vasco da Gama, no que foi uma disputa peculiar, já que nenhum clube brasileiro ou norte-americano havia disputado esse torneio — que seria, ademais, o último da história.

Odvan Vasco da Gama Jaime Moreno DC United
Foto: MLS/Arte: O Futebólogo
O curioso é que o cruzmaltino não levou alguns de seus principais jogadores ao primeiro jogo, em Washington, e mesmo assim venceu. Com gol de Felipe, o clube carioca bateu o DC por 1 a 0. Na ocasião, Donizete criou jogada pela direita, e a bola acabou sobrando para o lateral esquerdo, que vinha pela faixa central e acertou um belo chute. Na volta, disputada na Flórida, quando o Vasco alinhou um time mais forte, com as voltas de Juninho Pernambucano e Mauro Galvão, acabou surpreendido.

Entrando de carrinho e completando uma finalização vinda do lado esquerdo, o lateral Tony Sanneh abriu a contagem para o DC United. E, no segundo tempo, os norte-americanos marcaram o segundo e consagrador tento. Em jogada ensaiada, o escanteio foi cobrado e a bola escorada para a finalização fatal de Eddie Pope, que, mais uma vez, converteu-se em herói inesperado. O DC United se fez o grande vencedor das Américas.


A bem da verdade, o ano só não foi melhor porque os norte-americanos não conseguiram renovar o título da MLS Cup. Outra vez, chegaram à decisão, mas acabaram perdendo para o Chicago Fire. Nada que diminua a grandeza do que se viveu em 1998, com feitos inéditos, apostando em uma retaguarda forte e no talento de dois bolivianos que se encontraram na capital dos Estados Unidos, com Moreno eventualmente alcançando dois registros históricos: tornando-se o jogador que mais vezes representou o clube e sendo também seu maior artilheiro, com 427 jogos e 162 gols.

Desde então, o DC United só venceu mais uma MLS Cup, em 2004. Recentemente, Bruce Arena, seu ex-treinador, falou sobre o clube e fez um prognóstico sobre a situação: 

“Eu não acho que há muita conexão com as pessoas que construíram o United. Há um distanciamento grande. O porquê eu não sei, mas não há nenhum tipo de contato ou associação [...] Eu deveria ver Marco Etcheverry e Jaime Moreno nas paredes, em algum lugar. Esse clube tem muita tradição; essa tradição deveria ser vista toda vez que se fosse ao estádio”, disse ao site oficial da MLS

Se o presente só existe por conta das páginas do passado, parece mesmo ser o caso de o DC United celebrar o seu, recordando os dias dos títulos do fim dos anos 1990, em que foi liderado pelo talento de seus craques bolivianos.

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