A bola pune e a Holanda descobriu isso na Euro 2000

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

A bola pune e a Holanda descobriu isso na Euro 2000

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Anos antes de o treinador Muricy Ramalho cunhar o bordão “a bola pune”, a Holanda mostrou que a emblemática frase tem fundo de verdade. Depois de parar na marca da cal contra o Brasil, na Copa do Mundo de 1998, a Oranje teve uma chance singular de voltar a levantar uma taça. Porém, na Euro 2000, mesmo atuando em casa, esbarrou no goleiro italiano Francesco Toldo e em sua própria incompetência. Em Amsterdã, não faltaram oportunidades de manter o sonho de título vivo.

Netherlands Holanda Euro 2000
Foto: Desconhecido/ Arte: O Futebólogo

Os benefícios e dificuldades de ser anfitrião


Classificada diretamente para a Euro 2000, um dos benefícios de ser co-anfitriã ao lado da Bélgica, a Holanda chegou à competição com favoritismo. Apesar de a preparação para o certame não ter sido a melhor, um elenco com tantas estrelas não poderia desfrutar de outro estatuto.

A base do time era a mesma do Mundial da França. Novidade mesmo era o treinador: auxiliar de Guus Hiddink no campeonato do mundo, Frank Rijkaard assumira o comando laranja ainda em 1998.

Durante a preparação, a equipe chegou a passar 11 jogos sem vencer, empatando nove vezes e perdendo duas, contra Brasil e Marrocos. Ainda assim, tal não foi visto como motivo para desânimo. Não faltaram vozes para defender as performances abaixo do esperado nos 17 amistosos disputados.

Frank Rijkaard Euro 2000
Foto: UEFA.com/ Arte: O Futebólogo
Campeão europeu em 1988, Arnold Muhren apontou um fator determinante para tais insucessos: “Rijkaard tentou tantos jogadores novos em diferentes posições que ele nunca jogou com o time que tinha em mente para o europeu”.

Para Dennis Bergkamp, a falta de competitividade também influenciou: “Nossos resultados nas partidas de preparação não foram muito bons — muitos empates — e isso preocupou as pessoas, mas partidas amistosas são difíceis como preparação”. Rijkaard foi mais direto: “Você não pode julgar Pavarotti pela forma como ele canta no chuveiro”.

Apenas cinco alterações foram feitas com relação aos chamados para o Mundial e a Euro. Saíram Ruud Hesp, André Ooijer, Winston Bogarde, Wim Jonk e Jimmy Floyd Hasselbaink; entraram Sander Westerveld, Bert Konterman, Paul Bosvelt, Peter van Vossen e Roy Makaay. Nenhum titular. A nota triste foi a ausência de Ruud van Nistelrooy, que sofrera lesão grave no joelho. 

O peso do favoritismo


Mesmo sem os melhores resultados às vésperas da Euro, o favoritismo da Laranja estava na boca de grandes nomes da nação. Muhren foi um dos que apoiou a equipe:

“Penso que a Holanda é favorita a ganhar. Olhando os jogadores disponíveis e os times em que estão jogando, na minha opinião, deveriam vencer. Penso que Edgar Davids é avaliado como um dos melhores da Europa. Kluivert, que está jogando no ataque, é um goleador comprovado [...] Penso que Edwin van der Sar é um goleiro muito bom. Marc Overmars e Bergkamp estão jogando no Arsenal e têm ido muito bem. Em suma, acho que temos um time muito bom e empolgante”, disse à BBC.

O próprio Bergkamp avaliou com otimismo as chances da equipe: “Queremos vencer esse título agora. Talvez devamos isso a nós mesmos”. Desde o primeiro jogo, ficou evidente que, de fato, era esse o espírito que habitava o íntimo daquele elenco farto em qualidade e experiência.

Van der Sar; Reiziger, Stam, Frank De Boer e Van Bronckhorst; Davids, Cocu, Seedorf e Zenden; Bergkamp e Kluivert foram os escolhidos para a estreia contra a forte República Tcheca, vice-campeã em 1996.

Em Amsterdã, o time sentiu o peso de uma estreia em casa. Dominados em parte da partida pelos tchecos, inspirados por Pavel Nedved, os holandeses não cumpriram as expectativas. Ainda assim, saíram ilesos. O árbitro Pierluigi Colina enxergou penalidade em Ronald de Boer quando o relógio mostrava que faltava um minuto para o fim do tempo normal da partida. Frank, o outro dos irmãos De Boer, converteu e a Holanda venceu na estreia. A bola puniu os tchecos.


Começa o show


O encontro seguinte colocou a laranja outra vez frente a frente com a Dinamarca, que havia, nos pênaltis, eliminado a Holanda nas semifinais da Euro 1992. Agora, em Roterdã, no estádio De Kuip, a dona da casa não deu sopa para o azar e se impôs. Depois de um primeiro tempo duro, contra uma equipe escandinava bem organizada, os gols saíram. Aos 57 minutos, Kluivert pôs fim à tensão, aproveitando o rebote de uma jogada de Bergkamp.

Foto: Getty Images/ Arte: O Futebólogo
Ronald De Boer, que havia sido suplantado por Marc Overmars e vinha do banco, fez o segundo, com com assistência de Zenden. O terceiro saiu de um contragolpe brilhantemente puxado por Reiziger. Naquele momento, não parecia que o lateral direito tinha apenas dois pulmões. Zenden correu ao seu lado e recebeu a assistência. O resultado classificou a Holanda às quartas de finais. 

“É fantástico para todo o país que a festa possa começar. Essa noite foi melhor porque jogamos com pontas rápidos. Mas não é só bom futebol que conta, mas o resultado”, refletiu Kluivert após o jogo.


Classificadas, Holanda e França jogaram o terceiro jogo, com a liderança do grupo em disputa. Foi então que a Oranje, que não pôde contar com Van der Sar, provou seu potencial. Técnica e mentalmente.

Christophe Dugarry colocou os franceses em vantagem. Kluivert empatou. David Trezeguet voltou a dar a liderança aos Bleus. Porém, com um petardo de falta, Frank de Boer resgatou os homens da casa, antes de Zenden confirmar a virada.


Ascensão... 


Moralizada depois da vitória contra a campeã mundial, a Holanda chegou ao confronto ante a Iugoslávia, nas quartas, em boa forma. No De Kuip, o time de Vladimir Jugovic, Sinisa Mihajlovic, Predrag Mijatovic e Savo Milosevic não viu o que o atingiu. Os gols saíam de todas as partes e a todo tempo. Aquela partida não teve nada a ver com o duro confronto de oitavas de finais do Mundial de 1998, entre as duas nações.

Na melhor forma de sua vida, Kluivert destroçou os eslavos. Era jogado o minuto 24 quando abriu o placar, assistido por Bergkamp, que o lançou no meio da defesa rival. Como em um replay, mas dessa vez com Davids servindo de assistente, Kluivert fez o segundo, aos 38’. Assim terminou o primeiro tempo. 

Vira dois, acaba quatro? Nada disso. Vira dois, acaba seis.


Logo no início do segundo tempo, o cruzamento da direita procurou Kluivert, mas quem fuzilou a meta do goleiro Ivica Kralj foi seu companheiro Dejan Govedarica. Patrick voltaria às redes, para marcar o quarto. Na oportunidade, recebeu na pequena área um passe de Zenden. 

E coube mais. Bergkamp fez outro lance de gênio e cruzou a bola para Overmars acertar um pombo sem asa de fora da área. Não perca a conta: 5 a 0. O sexto, aos 89’, saiu também dos pés de Marc, aproveitando-se do ressalto de um chute na trave. A Iugoslávia ainda marcou um solitário tento no apagar das luzes, obra de Milosevic.

Após a partida, Rijkaard elogiou seus comandados e outrora colegas, mas deu o alerta: “A partida contra a Itália será completamente diferente, entre duas nações futebolisticamente muito interessantes. Eles jogam um futebol muito defensivo e contra-atacam brilhantemente”. Ele não estava errado, como se viu.

...e queda


Com um setor defensivo composto por Gianluca Zambrotta, Mark Iuliano, Fabio Cannavaro, Alessandro Nesta e Paolo Maldini, o treinador Dino Zoff deixou clara sua intenção de parar Kluivert e seus comparsas. Com uma pitada de sorte, alcançou seu desejo. À italiana, com drama. Se a reserva de talento da Holanda parecia inesgotável, o potencial de frustração da Azurra não era diferente. 

No tempo normal, a Laranja teve dois pênaltis para se colocar em vantagem. Primeiro, Francesco Toldo parou Frank de Boer. Depois, Kluivert acertou a trave. 

Francesco Toldo Penalty Euro 2000
Foto: Desconhecido/ Arte: O Futebólogo
O 0 a 0, que era conveniente aos comandandos de Zoff assumiu ainda mais essa condição quando Zambrotta foi expulso aos 34' da etapa inicial. E, eventualmente, se tornou realidade, apesar dos intentos neerlandeses. Então, a marca da cal se colocou outra vez como anteparo entre sucesso e fracasso. 

Historicamente, aquela era uma situação traumática para os dois países, mas, naquela circunstância, claramente favorecia aos visitantes. O apoio da torcida local virou pressão. De Boer parou em Toldo outra vez, no que foi seguido por Stam, que errou o alvo, e Bosvelt, que consagrou o arqueiro adversário de novo. Do lado italiano, apenas Maldini desperdiçou sua chance, superado por Van der Sar.

A Itália foi à final e a Holanda sequer pôde reclamar da sorte. Teve a faca e o queijo na mão. Pôde liquidar a fatura e mandar os italianos de volta ao Bel Paese. Não fez. Ao final, a bola puniu os anfitriões.

6 comentários:

  1. Só senti falta de mencionar no fim, a campeã França. De resto, mais um texto show!

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    1. Tem razão, Lucas, cabia mesmo a menção. Caso tenha interesse, já falamos sobre aquela grande seleção francesa:

      https://www.ofutebologo.com.br/2017/03/selecoes-de-que-gostamos-franca-1998-2000-2001.html

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  2. Esta talvez tenha sido a maior derrota da seleção holandesa junto da de 1974. Chance de ouro de ser campeã, jogando em casa e eles decepcionaram. Lembro que depois dessa traumática derrota a Holanda demorou bastante para se reerguer ficando inclusive de fora do Mundial de 2002. Têm derrotas que vão muito além do pós-jogo. Elas ecoam e deixam sua marca por muito tempo...

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Impressionante como essa seleção de Bergkamp n conseguiu ganhar nada. Era um time com grandes nomes na defesa, no meio e no ataque, e que jogava muito coletivamente. Talvez tenham pecado com um treinador inexperiente p essa Euro. Um pecado dos deuses do futebol essa seleção ter perdido essa Euro, e pior, não ter se classificado p a Copa do Mundo de 2002. Junto com Zidane, Romario e Ronaldo, Bergkamp foi um dos jogadores que mais marcou essa década de 90/00. Ele era um dos meus ídolos quando comecei a jogar futebol e criei gosto com o ataque.

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  5. De acordo com vocês, Júnior e Dylan. Essa foi mais uma equipe histórica da Holanda que prometeu muito, mas, na hora H, foi batida por uma escola mais pragmática (o que não é crítica, de modo algum).

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