A ira de Zvonimir Boban e a Guerra de Independência da Croácia

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

A ira de Zvonimir Boban e a Guerra de Independência da Croácia

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O mito conta que foi durante um dérbi entre Dinamo Zagreb e Estrela Vermelha, em 1990, que tudo começou. Em que pese o fato de a Guerra de Independência da Croácia ter se iniciado apenas no ano seguinte, a situação na Iugoslávia já se mostrava insustentável desde a década anterior — sobretudo após o falecimento do Marechal Tito, o líder político-militar da supernação e principal artífice de um forçado senso de unidade nacional. Ante a profusão de grupos paramilitares e o desenvolvimento de relações intrincadas com as torcidas organizadas locais, aquele clássico ganhou ares de guerra, foi palco de selvageria dentro e fora das quatro linhas e elevou Zvonimir Boban ao patamar de ídolo nacional na Croácia.


Boban Zvonimir Dinamo Zagreb Red Star 1991 Maksmir
Foto: Desconhecido/ Arte: O Futebólogo


Mais nacionalista do que nunca, Croácia vai atrás de sua independência


O dérbi em questão aconteceu no dia 13 de maio de 1990. Uma semana antes, entre os dias 6 e 7, ocorrera o segundo turno das eleições para o parlamento croata. O Partido Comunista da Iugoslávia, que liderara de forma exclusiva em tempos de unipartidarismo, havia se fragmentado em 1990, a partir do avanço de dissidências por todo o território iugoslavo. Desse modo, a partir do 14º Congresso do aludido partido, voltara a ser admitido um cenário de pluripartidarismo.

O resultado disso foi uma votação histórica. Ante o iminente fim da Iugoslávia, um país governado com mãos de ferro, acusado de privilegiar a Sérvia em detrimento das outras nações, e marcado pela diversidade étnica e religiosa, o desenvolvimento de movimentos nacionalistas encontrou solo fértil.

Com 205 cadeiras, a União Democrática Croata subjugou o Partido Social-Democrata da Croácia (o sucessor do Partido Comunista). 

Franjo Tudjman foi eleito o primeiro presidente da Croácia, fazendo uso do famoso símbolo do tabuleiro de damas vermelho e branco, outrora utilizado pela Ustase, o grupo fascista croata que se aliou à Alemanha Nazista durante a Segunda Grande Guerra e que propagava a ideia de uma “Grande Croácia”, um país “puro” do ponto de vista étnico — conforme conta o jornalista Jonathan Wilson em Behind The Curtain.

O líder político chegou a declarar abertamente que “graças a Deus minha esposa não é judia ou sérvia”. Embora seu partido não tenha assumido condição de extrema direita, figurando mais à centro-direita, naquele momento houve exacerbado apelo ao nacionalismo.

Franjo Tudjman Croatia
Foto: Presidência Croata/Arte: O Futebólogo
Foi com esse cenário desenhado que a Guerra da Croácia eclodiu em 1991, durando até 1995 e registrando mais de 20.000 mortes ou desaparecimentos, além de um número superior a 500.000 referente a refugiados e/ou desabrigados.

Tudjman permaneceu no governo até 1999, quando faleceu, vítima de câncer de estômago, do qual decorreu também um tumor no cérebro. Segundo o Guardian noticiou à época: “Muitos dentre os 4,5 milhões de croatas veem sua morte com o alívio tácito de que o país pode, finalmente, abandonar o governo por homens fortes e se reconstituir por meio de linhas democráticas”.

Os eventos de 13 de maio de 1990


A partir da eleição de Tudjman, a Croácia entrou em erupção. Na Sérvia, era sabido que começava a ser traçado um caminho rumo à independência croata. As disputas territoriais ganhavam força sob a máscara das diferenças étnico-religiosas e as massas ganhavam voz e força — assim como as milícias. Quando se anunciou a partida entre Dinamo Zagreb e Estrela Vermelha, sediada no estádio Maksimir, na capital croata, a Delije, como é conhecido o grupo de ultras do Estrela Vermelha, viajou ao local.

Composta por vários membros da Guarda Voluntária Sérvia, grupo paramilitar liderado pelo famigerado Željko Ražnatović, ou, simplesmente, Arkan, a Delije avançou até Zagreb com objetivos destrutivos. Alegadamente, cerca de 3.000 homens estiveram na linha de frente. Lá, encontraram os não menos dispostos Bad Blue Boys, grupo de ultras que apoiavam o Dinamo e com fortes raízes nacionalistas.

Nas palavras do citado Jonathan Wilson, o conflito foi premeditado. Pilhas de pedras foram formadas e ácido foi utilizado para queimar cercas de segurança. A Delije teria, inclusive, levado placas de carros com identificação sérvia para colocar nos carros locais e levar os torcedores da casa a depredar seus próprios veículos.

Bem, isso foi o que aconteceu fora dos campos. Eventualmente, a parte interna do estádio também acabou virando praça de guerra. A origem dos eventos não é certa, mas o que se conta é que os ultras visitantes começaram um ataque contra os anfitriões, que logo invadiram o gramado, tornando o conflito em algo generalizado.

Zvonimir Boban Dinamo Zagreb
Foto: Desconhecido/ Arte: O Futebólogo

“A Delije começou a destruir a arquibancada sul, antes de os Bad Blue Boys atravessarem o campo e a polícia responder tendenciosamente, com mão pesada”, escreveu o professor Alex Bellamy, em The Formation of Croatian National Identity: A Centuries-old Dream. Foi então que apareceu a figura de Zvonimir Boban.

Então camisa 10 do Dinamo Zagreb, como todos os jogadores, Boban se viu no epicentro da confusão. Foi quando avistou um policial atacando um torcedor do seu clube e o saudou com uma joelhada histórica. Naquela noite, os jogadores do Estrela Vermelha deixaram as dependências do Maksimir de helicóptero, enquanto 79 policiais e 59 torcedores saíram feridos — sem contar uma outra centena que acabou presa.

Início da guerra?


Em meio ao caos e à cortina de fumaça que paira sobre os eventos daquele dérbi, um mito acabou fundado. Os dois lados da disputa, tanto a Delije quanto os Bad Blue Boys, gostam de admitir que naquele dia 13 de maio de 1990 teriam lutado a primeira batalha da Guerra de Independência da Croácia — em que pese o fato de o conflito armado oficial só ter se iniciado em março de 1991. Assim, na Croácia, Boban ganhou status de ídolo nacional.

É curioso notar, em uma das muitas idiossincrasias que marcaram a Iugoslávia, que, antes de fazer parte da brilhante equipe croata que surpreendeu e encantou o público na Copa do Mundo de 1998, Zvonimir defendeu as cores da Iugoslávia, entre 1988 e 1991 — inclusive, foi ele quem marcou o gol iugoslavo na final do Mundial sub-20 de 1987 e converteu a penalidade que deu o título ao país.

Ele só não disputou a Copa de 1990 porque havia recebido suspensão de seis meses após os eventos daquele clássico, não podendo atuar pela seleção.



“Lá estava eu, um rosto público preparado para arriscar sua vida, carreira e tudo o que a fama poderia trazer, tudo por conta de um ideal: a causa croata”, falou Boban à CNN.

Em termos de trajetória profissional, aquele incidente não teve grandes repercussões para Boban. Em 1991, o craque foi vendido ao Milan, vestindo o manto Rossoneri até 2001, ressalvados breves empréstimos a Bari e Celta de Vigo.

Ter iniciado uma guerra é uma conclusão que depende do ponto de vista de quem narra. No entanto, o que não se pode é relativizar o simbolismo daquele dérbi de maio de 1990 e, muito menos, do ataque de Zvonimir. Afinal, a História é marcada por momentos emblemáticos, o que é, certamente, o caso.

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