O incrível embate entre Liverpool e West Ham na final da FA Cup de 2005-06

quarta-feira, 22 de abril de 2020

O incrível embate entre Liverpool e West Ham na final da FA Cup de 2005-06

Fazia 26 anos que o West Ham não alcançava a final da FA Cup — ao lado da Recopa Europeia de 1964-65, a maior conquista da história dos Hammers. Do outro lado, estava um time acostumado aos pódios. O Liverpool havia vencido a Liga dos Campeões no ano anterior e, apesar da escassez de títulos ingleses, era favorito. Em reconstrução, o estádio de Wembley perdeu uma das melhores finais da história em 2005-06.

Liverpool West Ham FA Cup Final 2006
Foto: Wales Online/Arte: O Futebólogo

Caminhos duros para os dois


A rota rumo à final preparou desafios robustos para os dois disputantes. Ambos só deixaram de enfrentar clubes da Premier League na primeira fase.

Enquanto o West Ham despachou o Norwich, 2 a 1, o Liverpool passou pelo Luton Town com um placar bailarino, 5 a 3, com dois golaços de Xabi Alonso. Aqueles eram times de nível semelhante, como ficou claro na disputa da segunda divisão. O primeiro ficou com a nona posição. O segundo acabou com a décima.


A seguir, o time do leste de Londres teve logo uma pedreira. Comandado pela técnica do então promissor David Bentley, o Blackburn era um competidor forte; terminaria a Premier League em sexto, assegurando vaga para a Copa da Uefa. Em um jogo maluco, o West Ham reverteu uma desvantagem que veio desde o primeiro minuto, quando Bentley abriu o marcador para os Rovers. Liderados pelo veteraníssimo Teddy Sheringham e por Bobby Zamora, o Hammers viraram e avançaram com um 4 a 2.

Por sua vez, o Liverpool superou o Portsmouth, treinado por Harry Redknapp: 2 a 1. Steven Gerrard e John Arne Riise deram a vantagem para os Reds, que viram Sean Davis diminuir a contagem. O jogo, talvez mais duro do que o esperado, tendo o time do sul da Inglaterra ficado próximo do descenso no campeonato nacional, foi a preparação para um desafio dos mais duros.

Dérbi e play-off; massacre e passagem na conta do chá


No dia 18 de fevereiro de 2006, a Inglaterra parou. Em Anfield Road, o Liverpool recebeu o Manchester United, para mais um clássico nacional. Um solitário tento de Peter Crouch, completando cruzamento de Steve Finnan, foi o suficiente para aplacar a potência de um ataque mancuniano que contava com um quarteto avassalador: Ruud van Nistelrooy, Wayne Rooney, Ryan Giggs e Cristiano Ronaldo. O jogo também ficou lembrado por conta de uma fratura na perna de Alan Smith, polivalente peça dos Red Devils.


“Estou muito feliz por Peter Crouch, porque atacantes precisam de gols. Mas foi um bom desempenho coletivo. Foi difícil manter o clean sheet, porque eles tinham quatro ou cinco atacantes no fim do jogo”, falou Rafa Benítez, o treinador do time de Merseyside, à BBC.

Paralelamente, fora de casa o West Ham segurou o ímpeto do Bolton, de Jay-Jay Okocha. Com o 0 a 0 no marcador, precisou de um play-off. Em Boleyn Ground, só conseguiu avançar na prorrogação. Aos '96, Marlon Harewood fez o gol do 2 a 1 que classificou os Irons

Na sequência, o Liverpool massacrou o rebaixado Birmingham fora de casa, 7 a 0, e o West Ham confiou em dois gols de Dean Ashton para superar o Manchester City, 2 a 1.

Benayoun West Ham Manchester City FA Cup 2006
Foto: Action Images/Reuters/Arte: O Futebólogo

Semifinais de tirar o fôlego


Para chegar à decisão, outra vez Reds e Hammers foram colocados à prova. Os liverpuldianos tiveram pela frente o Chelsea, de José Mourinho, em Stamford Bridge. Ante a crescente animosidade entre o português e Rafa Benítez, aquele encontro era visto como uma final antes da hora.

Em uma falta marcada pelo árbitro Graham Poll e contestada pelo Chelsea, Riise pegou Carlo Cudicini desprevenido e fez o primeiro dos visitantes. Depois, Luis García fez, por cobertura, o segundo. Didier Drogba ainda se aproveitou de uma bola mal afastada pela retaguarda vermelha para diminuir. Insuficiente, o Chelsea caiu em casa. 


“Se jogarmos assim na final, levantaremos a taça. Fomos melhores por uma hora, mas sabíamos que a investida deles viria… e veio. Mas o grito de guerra surgiu de Jamie Carragher, para que ficássemos juntos — e ficamos”, disse um orgulhoso Gerrard ao Mirror.

Na outra metade das semifinais, o West Ham teve dificuldades ante o Middlesbrough. Novamente socorrido por Harewood, o time fez apenas o necessário: 1 a 0. A vitória veio de uma finalização com raiva. Um petardo de perna canhota que nenhum goleiro do mundo evitaria. Vale ressaltar que, naquela altura, o Boro, comandado por Steve McClaren, se preparava para a disputa da final da Copa da Uefa, contra o Sevilla.

“Os caras deram seu máximo e eu consegui o gol. Mal posso acreditar. Estou adorando isso. Estivemos esperando eras por isso. Era uma oportunidade que não poderíamos perder”, falou Harewood à BBC.


Hammers com tudo


No dia 13 de maio de 2006, Liverpool e West Ham subiram ao gramado do Millenium Stadium, em Cardiff. A casa provisória da FA Cup estava abarrotada. 71 mil pessoas preenchiam as arquibancadas com esperança. Os Reds sabiam de sua condição de favoritismo. Não dava para ser diferente. 

O repórter Jonathan Stevenson, da BBC, deixou isso claro ao repercutir a decisão: “A configuração foi perfeita: uma final de copa entre favoritos e outsiders, entre um dos aristocratas da esporte bretão e um de seus mais famosos underdogs [...] Se eu assistir outras 100 finais de FA Cup, tenho certeza de que nenhuma será melhor do que essa”.

West Ham Scores FA Cup Final 2006
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo
Faminto, o West Ham tentou amassar o Liverpool no início. Aos 21 minutos, Ashton encontrou Lionel Scaloni aberto pela direita. O argentino cruzou e Carragher fez contra, o primeiro tento dos Irons. Sete minutos mais tarde, aquele que parecia ser o dono da noite voltou a aparecer. Ashton aproveitou falha feia de Pepe Reina após chute de Matthew Etherington e aumentou para o time treinado por Alan Pardew.

Nervoso, o Liverpool só ganhou um motivo para respirar com calma aos ‘32. Iluminado, Gerrard acertou um lançamento de 50 metros que encontrou Djibril Cissé na área londrina. O francês, em grande fase às vésperas da Copa do Mundo de 2006, cumprimentou as redes do goleiro Shaka Hislop. E assim os times foram para os vestiários. Com Ashton, Etherington, Yossi Benayoun e Harewood em ótima noite, os Reds foram para o intervalo com a sorte de perder por apenas um gol de diferença.

O resgate do soldado Gerrard


Steven Gerrard Liverpool FA Cup Final 2006
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo
O Liverpool voltou da parada diferente, mais combativo. E, como se aquilo fosse o prenúncio de algo grandioso, Gerrard empatou o jogo aos ‘54. Justamente no mesmo minuto em que havia marcado o primeiro de seu time na incrível virada contra o Milan, na Liga dos Campeões de 2004-05. Xabi Alonso lançou a bola na área, Crouch escorou e, da marca do pênalti, Steven ofereceu um chute fortíssimo. Era o 2 a 2.

O empate acordou o West Ham, que, em um feliz acaso, chegou ao terceiro tento. Lançado pela ponta esquerda, o lateral Paul Konchesky cruzou. Reina errou o tempo de bola e viu aquela tentativa de alçar a bola na área terminar com o esférico dentro de sua meta: 3 a 2. Três vezes, o Liverpool era penalizado por suas próprias falhas. O que persistiu até os acréscimos.

Aos ‘91, quando os Reds só tentavam abafar seu adversário, a bola sobrou próxima à área londrina. Momo Sissoko não a atacou. Gerrard, sim. O pombo sem asa acertou o canto de Hislop e ressuscitou o Liverpool. Ali, já estava claro quem seria o novo protagonista da tarde, roubando os holofotes de Ashton. Após uma prorrogação marcada por tensão e cansaço, o jogo foi para os pênaltis. E, confirmando a profecia, os vermelhos de Merseyside venceram.


“O West Ham foi brilhante, nos entregou um grande jogo. Mas nós tivemos a atitude de não desistir nunca [...] Nossa melhor chance eram os pênaltis, já que não tínhamos mais nenhuma energia. Sentíamos que tínhamos o melhor goleiro nos pênaltis. Ele [Reina] tem um ótimo histórico e fez defesas fantásticas no final da prorrogação”, disse Gerrard à BBC.

De fato, o West Ham foi brilhante. Tal como Steven Gerrard. Assim, aquele dia passou à história. Sempre lembrado como uma das mais emocionantes finais que o futebol inglês já viu.

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