La Liga 1996-97: um torneio pintado de verde e amarelo

quarta-feira, 24 de junho de 2020

La Liga 1996-97: um torneio pintado de verde e amarelo

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Sempre existiu demanda pelo talento brasileiro na Europa. No caso espanhol, a história recorda passagens como as de Evaristo de Macedo por Barcelona e Real Madrid, nos anos 1950 e 60, assim como as trajetórias de Didi, também no Real, e de outros nomes como Waldo, no Valencia, ou dos ex-palmeirenses Luis Pereira e Leivinha, no Atlético de Madrid. O brasileiro já era tido em alta conta quando Ronaldo, Rivaldo e Roberto Carlos desembarcaram em solo hispânico. Porém, talvez não se esperasse deles tão bom desempenho já na temporada de chegada.

Ronaldo Rivaldo Roberto Carlos Barcelona Deportivo Coruña Real Madrid
Arte: O Futebólogo

Sai Bebeto, entra Rivaldo


O Deportivo La Coruña vivia os melhores anos de sua história. As décadas de 1990 e 2000 elevaram o patamar do clube galego, que passou a espreitar os títulos de todas as competições disputadas. Quando despontou a temporada 1996-97, entretanto, o time vinha precisando se recuperar. Do vice no Campeonato Espanhol de 1994-95, somado o título da Copa do Rei, o Dépor avançara a um ano insosso em 1995-96, longe de glórias. E pior: acabara de ver Bebeto, seu grande craque, retornar ao Brasil.

Apesar disso, o time não teve tempo para lamentar a saída do atacante tetracampeão mundial com o Brasil. Logo, trouxe outro astro brasileiro para seu lugar.

Rivaldo Palmeiras
Foto: Gazeta Press/Arte: O Futebólogo
Depois de integrar o ataque do Palmeiras que marcou 102 gols no Paulistão de 1996 e, com sobras, levou o título, Rivaldo foi contratado pelos Blanquiazules. Eles pagaram um bilhão de pesetas pelos serviços do craque, que não chegou sozinho. O Deportivo também tirou Flávio Conceição do Verdão — além de Renaldo, artilheiro do Brasileirão de 1996 pelo Atlético Mineiro, na metade da temporada.

Rivaldo e Flávio Conceição desembarcaram na Galícia após a disputa das Olimpíadas de Atlanta, com a medalha de bronze no peito. O meia-atacante foi titular desde o primeiro jogo de La Liga, empate por 1 a 1, contra o Real Madrid. Na terceira rodada, marcou pela primeira vez, em vitória contra o Atlético de Madrid, o então campeão vigente. Com o time acertado na retaguarda, Rivaldo pôde brilhar.

Ao todo, o craque balançaria as redes 21 vezes, em 41 encontros. Marcaria quatro dobletes e chegaria a ter uma sequência de seis partidas marcando consecutivamente. Ele só ficaria de fora da equipe na 38ª rodada. Além disso, disputaria os 90 minutos em 34 encontros. 

Rivaldo Deportivo
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo
O Dépor terminou a disputa em terceiro lugar; garantiu 57 tentos naquela temporada, o que evidencia a importância de Rivaldo, autor de 36% dos gols da equipe, e eleito o terceiro melhor jogador do certame, pela agência EFE. Como comparativo, o Barcelona, vice-campeão, fez 102 gols, enquanto o campeão Real Madrid balançou o barbante 85 vezes.

“Se não tivesse feito o ano que fiz no La Coruña, não teria acertado com o Barcelona”, garantiu o brasileiro, em entrevista à revista Líbero. Depois desse primeiro ano de Espanha magistral, o craque acabou acertando com o Barça. Em um ano, seu valor quadruplicou, com os catalães pagando quatro bilhões de pesetas para contar com Rivaldo. Curiosamente, outra vez para substituir uma referência do Brasil.


Ronaldo, a primeira grande estrela do pós-Cruyff


A história do Barcelona se divide em alguns períodos. Um dos mais frutíferos, e que é considerado fundamental para tudo o que aconteceu nos anos que se seguiram, foi o tempo em que Johan Cruyff treinou a equipe. Aliás, dizer que ele treinou o Barça é uma simplificação, considerando o fato de que o holandês tomou conta de toda a estrutura do clube. Naturalmente, o tempo imediatamente posterior à sua partida não seria fácil. E teria sido ainda mais difícil sem a presença de um gênio brasileiro.

Ronaldo PSV
Foto: Getty Images/Arte: O Futebólogo
Ronaldo chegou à Catalunha ao custo de 20 milhões de dólares. Lá, encontrou-se com um comandante que vinha acompanhando seu desenvolvimento no PSV Eindhoven. Sir Bobby Robson havia sido o escolhido para lidar com a transição do pós-Cruyff e confiou no brasileiro para conduzir sua missão. Anos mais tarde, o craque recordaria, com carinho, a convivência com o mestre:

“Tive muitos treinadores no futebol, mas a diferença entre todos eles e Sir Bobby era a humanidade e o relacionamento que ele tinha com os jogadores. Ele era sempre como um pai para todos. No Barcelona, ele conversava comigo em português [havia treinado Porto e Sporting], porque naquela época meu inglês não era bom. Ele era muito paciente”, falou ao TalkSport.

Em sintonia com seu treinador, Ronaldo só não fez chover. Foi, com sobras, o melhor jogador de La Liga. Os 34 gols anotados em 37 encontros não são suficientes para dar a dimensão do seu futebol. Se Rivaldo conseguiu uma sequência de seis jogos marcando consecutivamente, Ronaldinho alcançou 10 — o que inclui um triplete ante o Atlético de Madrid.

Ronaldo Barcelona
Foto: Denis Doyle/AP/Arte: O Futebólogo
Com mais massa muscular do que em seu início no Cruzeiro, vivia o auge de sua explosão física que, combinada à habilidade, e o tino para o gol, fizeram dele o melhor jogador do mundo naquela temporada — mesmo não tendo conseguido levar o Barça ao título espanhol. Tinha apenas 20 anos.

Outro nome que faz coro aos fartos elogios recebidos por Ronaldo é José Mourinho, então auxiliar técnico do clube catalão: “Para mim, Ronaldo, o brasileiro [é o melhor] [...] se falarmos estritamente de talento e habilidade, ninguém supera o brasileiro. Quando estava no Barcelona, com Bobby Robson, me dei conta que era o melhor jogador que havia visto na vida", contou o treinador ao Goal. Na temporada completa, foram 47 os gols de Ronaldo, em 49 partidas. 

Como Rivaldo, ele não permaneceu em seu clube para a temporada seguinte. Partiu para a Inter. Voltaria à Espanha anos mais tarde, para o rival Real Madrid, atuando com outro brasileiro que fez ano fenomenal em 1996-97.


Contra um vazio na lateral, Roberto Carlos


A lateral esquerda do Real Madrid havia sido um problema na campanha de 1995-96. Miquel Soler e Mikel Lasa, um catalão e um basco, não se acertaram pelo setor. Tanto por conta de problemas físicos quanto pela fraca forma técnica. O primeiro, inclusive, deixaria o clube ao final da temporada, seguindo para o Zaragoza. O sexto lugar Merengue naquele ano não permitia que não fossem feitos melhoramentos para 1996-97. Assim, o time abriu os cofres e pagou 7,3 milhões de dólares à Internazionale — além da renda de dois amistosos entre as duas equipes.

Roberto Carlos Inter
Foto: Getty Images/Arte: O Futebólogo
Roberto Carlos chegou a Madrid como aposta — havia tido altos e baixos em Milão —, mas vinha se estabelecendo na Seleção Brasileira. É outro que, como Rivaldo e Ronaldo, disputou as Olimpíadas de 1996. O lateral foi um pedido do novo e importante treinador madrileno, o italiano Fabio Capello, que também receberia Zé Roberto, na metade da temporada.

“Não podia crer. Chegaram informações de que [Roberto Carlos] estava brigado com o seu treinador na Inter [Roy Hodgson]. Pouco tempo antes de chegar ao Real Madrid, um agente me disse que a Inter queria vendê-lo. Mandei um fax, falei com o presidente e, no dia seguinte, a operação estava fechada. Pode ser a mais rápida da história”, falou Capello à Fox Sports.

Como seus compatriotas, Roberto caiu como uma luva em seu novo clube. O cartão de visitas veio logo na estreia, contra o Deportivo, de Rivaldo. Foi dele o gol dos Blancos, no empate por 1 a 1. Duas rodadas mais tarde, seu canhão de perna esquerda vitimaria o Betis. O brasileiro marcaria mais três tentos em La Liga. E, com o problema da lateral esquerda resolvido, o Real Madrid reconquistaria o Campeonato Espanhol.

Foto: Getty Images/Arte: O Futebólogo
Seu desempenho também seria lembrado com o segundo lugar no ranking dos melhores do torneio, na citada eleição feita pela agência EFE. E, diferentemente de seus colegas de seleção, Roberto Carlos se tornaria uma bandeira em seu clube. O brasileiro permaneceu no Real Madrid até 2007, sendo o estrangeiro que mais representou o clube e o 12º que mais vezes vestiu a camisa Merengue, 527 vezes.


Rivaldo brilharia por anos no Barcelona, chegando a receber o prêmio de melhor do mundo, em 1999. Ronaldo também deixaria sua marca no Real Madrid, clube em que atuava ao ser escolhido o melhor do mundo pela terceira vez, em 2002. Outros brasileiros brilhariam intensamente em La Liga. É difícil mensurar o tamanho dos feitos de Ronaldinho, ou, mais recentemente, de Neymar, ambos pelo Barça.

Roberto Carlos Rivaldo Ronaldo Brazil World Cup 1998
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo
Tarefa ainda mais dura é recordar um ano em que três jogadores estrangeiros, de uma mesma nacionalidade, tenham alcançado protagonismo semelhante ao de Rivaldo, Ronaldo e Roberto Carlos, por clubes distintos — Deportivo La Coruña, Barcelona e Real Madrid, respectivamente —, e em temporada de estreia, como aconteceu na edição 1996-97 do Campeonato Espanhol.

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