Defensor 1976: superando uma hegemonia e soltando a voz em plena ditadura uruguaia

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Defensor 1976: superando uma hegemonia e soltando a voz em plena ditadura uruguaia

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A equipe que se conhece por Defensor Sporting Club é o resultado de uma fusão entre o Club Atlético Defensor e o Sporting Club Uruguay, entidade que se dedicava ao basquete. Tal aconteceu em 1989. No entanto, naquela altura, os Violetas já eram famosos; os acontecimentos de 1976 não permitiriam algo diferente — pelo que aconteceu dentro e fora dos gramados uruguaios.

Defensor Uruguay 1976
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo


Um treinador influenciado e influenciador


A liga profissional uruguaia começou a ser disputada em 1932. Até o mencionado ano de 1976, nenhum time havia conseguido romper a hegemonia de Peñarol e Nacional, os dois gigantes do futebol charrua. Indo além, apenas dois intrusos chegaram ao vice-campeonato: Rampla Juniors e Cerro.

Ou seja, esportivamente falando, para uma equipe de fora da maior rivalidade do país, um clube chico, a conquista do principal torneio nacional era nada menos que fantástica. Fundado em 1913, foi o Club Atlético Defensor que desafiou os prognósticos.

O que se viveu naquela disputa só foi possível porque La Viola tinha um grande inspirador conduzindo seu leme. José Ricardo De León é lembrado como um dos mais brilhantes treinadores da história do futebol uruguaio.

Além de suas notáveis qualidades como motivador, o comandante levou ao futebol charrua ideias trazidas das quadras de basquete. Como outros homens de seu tempo, em diversas partes do globo — dentre os quais se destacam o holandês Rinus Michels e o ucraniano Valeriy Lobanovskiy —, De León entendia que, no campo de jogo, os atletas deveriam ser totais. Atacar e defender seria missão coletiva.

Em entrevista concedida à revista The Blizzard, o colombiano Francisco Maturana, famoso por seu trabalho à frente do Atlético Nacional, confidenciou que uma de suas referências foi o uruguaio, cujas ideias conheceu por meio de Martín Mojica, defensor também uruguaio que trabalhou com De León, e de Luis Cubilla, outro pupilo do mesmo mestre. O treinador cafetero ressaltou que Ricardo e Michels tinham amizade:

“Nunca me encontrei com De León naquela época [os anos 1980], mas sempre que tinha dúvidas ou precisava esclarecer algo, eu o telefonava e ele me ajudava [...] De León e Rinus Michels eram bons amigos e De León era tão entusiasmado com sua ideia que ele trouxe o ‘estilo holandês’ para as Américas”.

Ricardo De León
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo
Outro que faz coro à genialidade do comandante é Gregorio Pérez. Treinador de extensa carreira em diversos países da América do Sul, e ex-auxiliar técnico de Óscar Tabárez, o uruguaio falou ao site Futbol.uy sobre a influência de De León, que o havia treinado:

“Ele marcou um antes e depois no futebol uruguaio. Era um gênio obstinado. O tive como treinador e com ele participei de um feito histórico para nosso país: romper com a hegemonia que tinham Nacional e Peñarol [...] Depois, fui seu auxiliar e o aprendizado foi maior”.

Em outra entrevista, ao Ovación, Perez falou sobre os métodos do comandante: “Aos poucos, De León foi inculcando sua ideia. A capacidade de trabalho, a inteligência, o grande trabalho do professor César Santos na parte física, que com sua preparação tornou possível aplicar a tática do técnico”.

Ainda assim, as escolhas do treinador muitas vezes foram vistas com olhares que condenam. Para os críticos, a individualidade dos jogadores de maior talento era inviolável e não poderia ser limitada em prol do coletivo. Seu estilo foi visto por muitos como “negativo”, mas o tempo evidenciou que se tratava de um homem além de seu tempo. E, claro, atento ao seu tempo.

Homem de posições fortes também fora dos campos


As marcas de sua liderança também foram verificadas fora dos campos. Com ideias políticas vinculadas a um pensamento de esquerda e filiado ao Partido Comunista de Uruguay, De León inspirou alguns jogadores pelo que pensava em contexto mais amplo do que o da grama. Eram tempos de ditadura civil-militar (duraria entre 1973 e 1985), e Juan María Bordaberry — que logo seria subjugado — governava junto aos militares. 

Aliás, à exemplo do que se passava em todo o Cone-Sul. Sobre isso, Dom Rafael, personagem de Mario Benedetti em Primavera num Espelho Partido, diria que “o processo [ditatorial] começou muito antes, não na calma, mas no subsolo da calma”.

Contudo, em que pese seu posicionamento forte e definido, De León não era um extremista e dava prevalência aos princípios democráticos. Pode-se dizer que defendia a famosa máxima de que poderia discordar de alguém, mas defenderia seu direito de se manifestar até o túmulo. 

Juan María Bordaberry
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo
Isso ficou evidente quando pediu a contratação do veterano atacante Luis Cubilla. Seu posicionamento alinhado ao governo não lhe rendeu qualquer reprimenda do treinador, que confiou em seu talento para a missão que veio a empreender. E, apesar disso, há quem diga que De León nunca chegou a comandar a Celeste Olímpica por conta de suas ideias.

Bola no pé e marcação cerrada da ditadura


Diferentemente do que se conta a respeito do contexto de outros países que tiveram governos antidemocráticos — pode-se destacar, por exemplo, as alegações de favorecimento ao Real Madrid, durante a Ditadura Franquista, ou ao Dynamo Berlin, na Alemanha Oriental —, não há indícios de que o governo uruguaio, deliberadamente, tenha trabalhado em favor de algum time de futebol do país. O que não quer dizer que, ciente da importância social dos atores do mundo da bola, ele não estivesse atento ao que acontecia.

Não há como recordar os feitos do Defensor de 1976 sem falar na figura do volante Pedro Graffigna. Jogador de 14 aparições com a camisa da seleção uruguaia, era um dos atletas mais importantes da equipe dentro das quatro linhas. E, como o treinador, posicionava-se politicamente à esquerda. Apesar de ser uruguaio, havia feito boa parte da carreira no Chile, entrando em contato com as ideias de Salvador Allende, presidente em exercício quando do golpe militar comandado por Augusto Pinochet — o que provocou seu retorno ao Uruguai. 

Pedro Graffigna Defensor
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo
Desde 1974, Graffigna era observado de perto pelos militares. Também filiado ao Partido Comunista de Uruguay, foi preso no referido ano portando um carnê de pagamento da central sindical local e um documento de identidade chileno. Ficou 48 horas em cárcere. Não voltaria a ser duramente surpreendido — o que, para muitos, deveu-se às qualidades como futebolista —, mas também não deixaria de ser observado de perto, mesmo que, a cada gol marcado e comemorado com o punho esquerdo erguido, se opusesse ao governo vigente.

No entanto, Graffigna seria privado das viagens à argentina durante a Copa Libertadores de 1977, em que o Defensor fez parte do Grupo A, junto de Boca Juniors, River Plate e Peñarol. Em entrevista ao portal Vice, o volante falou sobre o que viveu naquela época: 

"Tenho orgulho de ter participado daquele momento [...] Muita gente me fala que fomos heróis. Outros dizem que fomos irresponsáveis, que não pensamos em nossas famílias. Acho que fomos uruguaios. Tentamos fazer o melhor por nós mesmos”. 

Ele se refere aos acontecimentos de 25 de julho de 1976, abordados a seguir.

A repressão estava até nos menores atos


Ao menos outros dois jogadores teriam sido implicados em problemas de natureza semelhante. Durante partida contra o Nacional, no Campeonato Uruguaio de 1976 — empate por 2 a 2 — o jovem atacante Julio Filippini, aos 19 anos, marcou um gol para os Violetas e sofreu o pênalti que deu origem ao outro.

Após o jogo, o garoto foi entrevistado e dedicou seu tento ao irmão: “Mando uma saudação ao meu irmão e para os companheiros da penal Liberdad”. Eduardo Filippini havia sido detido por integrar o Movimento de Libertação Nacional, grupo guerrilheiro que, dentre outros, tinha em Pepe Mujica um importante membro.

O ex-atleta, entretanto, reiterou diversas vezes que o gesto não tinha conotação política, tendo sido feito porque ele sabia que o irmão estaria com o rádio ligado. “Eu queria mandar uma saudação a ele e aos companheiros de cela que conhecia. Não tive intenção de provocar, mas percebi que talvez poderia ser interpretado como algo mais forte”, falou à Folha

Defensor 1976
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo
Procurado pelas autoridades, Filippini ficou alguns dias foragido. Depois, retornou às categorias de base e, dispensado mais tarde, não voltou a fazer outro jogo como profissional.

Quem também teve problemas foi o lateral esquerdo Beethoven Javier. Também de orientação política de esquerda, o jogador, filho de músicos, foi preso quando jogava futebol com o filho em uma praça, no Centro Histórico de Montevidéu. Ele passaria a  noite na sede dos Fuzileiros Navais e seria liberado no dia seguinte. Nunca se soube, precisamente, qual teria sido o motivo da detenção.

A volta olímpica da história


Dentro dos campos, aquele Defensor de 1976 fez uma campanha respeitável. Apesar de ter começado o Campeonato Uruguaio com derrota, logo entrou nos eixos. “A euforia nos traiu: com euforias não se ganha. Se ganha com trabalho na semana e nos jogos, com a cabeça fria e o coração quente”, disse De León, em entrevista à revista Defensor, un campeón que hace historia, publicada em 1976.

No final do primeiro turno, o time já era líder. Porém, a batalha travada contra o Peñarol foi até a última rodada. No dia 25 de julho, um ponto os separava e os dois tinham confrontos contra times de fundo de tabela.

Os Violetas enfrentaram o Rentistas, enquanto os Carboneros tinham o Sud América pela frente. Nos minutos finais de jogo, o Defensor vencia por 2 a 1, enquanto o Peñarol triunfava por 3 a 1. Se sofresse um gol, o azarão provocaria a disputa uma indesejada partida de desempate.

Vuelta Olímpica Al Revés Defensor
Foto: Defensor Sporting/Arte: O Futebólogo
Quase 15 mil pessoas (uma multidão para o estádio acanhado) estavam presentes na Rambla Presidente Wilson, Parque Rodó, no estádio Luis Franzini. E eles presenciaram, com êxtase, o momento em que o árbitro apitou o final de jogo, consagrando Alberto Santelli e Cubillas, os autores dos tentos do novo campeão uruguaio. Com 13 vitórias em 22 jogos, o Defensor quebrara a hegemonia de Peñarol e Nacional.

Então, la vuelta olímpica al revés.

Aqui, a história ganha versões. O time celebrou a conquista com o movimento que afamou seu país nos Jogos Olímpicos de 1924, só que, dessa vez, no sentido contrário: fez uma volta olímpica. Uma versão aponta para uma atitude tomada em protesto. Mas há quem diga que o feito também se deu para celebrar o fim da hegemonia dos dois maiores clubes do país. A narração de Victor Hugo Morales, lembrada pelo Globoesporte.com, aponta para a segunda alternativa.

“Começa a volta olímpica no sentido das agulhas do relógio. Está dando a volta olímpica ao contrário do que se faz. E tem razão o Defensor! Esta é uma volta olímpica ao contrário. Ao contrário da história, ao contrário de um mandato que durou quase meio século futebolístico”.

Seja como for, a volta olímpica feita no sentido contrário, oferecendo uma nova conotação a um movimento icônico, foi mais um acontecimento que tornou o título do Defensor, em 1976, algo inesquecível.

Não é sempre que a bandeira de um clube menor é hasteada no alto. Também não é comum presenciar algumas de suas personalidades defendendo, abertamente, convicções políticas de oposição a um governo. Sempre respeitando o ideal democrático e fazendo valer o nome do clube cujo orgulho carregaram a cada partida.

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