1973-74: O primeiro Scudetto da Lazio, entre gols, desunião e tiros

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

1973-74: O primeiro Scudetto da Lazio, entre gols, desunião e tiros

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A capital italiana não era palco de comemoração de um título italiano desde 1942, quando a Roma venceu seu primeiro Scudetto. 32 anos depois, as maiores dificuldades do pós-guerra haviam ficado para trás. Os problemas, não. Eram vividos os anos de chumbo. Movimentos sindicalistas ganhavam músculo, carregados pelo fortalecimento da consciência de classe, e, antagonicamente, ressurgiam com força grupos de extrema direita, mussolinistas. Como um microcosmo da estrutura italiana, o futebol não deixou de refletir isso. Como a Lazio provou.

Lazio 1973-1974 Foggia 1-0
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo


Um prelúdio animador


A temporada 1972-73 é uma das mais especiais da história laziale. Vivendo incômodo efeito ioiô desde o começo dos anos 1960, os homens de azul celeste viam cada vez mais distantes suas últimas boas memórias, datadas das campanhas de 1955-56 e 1956-57. Naquelas ocasiões, haviam sido, consecutivamente, os terceiros na liga italiana. 

Em 1972, o time retornava, mais uma vez, à elite, mas não voltaria a ser surrado.

Ali, a equipe da capital já era comandada por Tommaso Maestrelli. O antigo meio-campista — que, curiosamente, guardava um passado com a camisa da Roma — acabaria sendo o catalisador de uma retomada histórica para os Biancocelesti. Primeiro, com o vice-campeonato da Serie B, confirmando o retorno do time da capital à divisão principal.

Tommaso Maestrelli Lazio
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Aquela campanha já sugeria o que se veria na volta ao primeiro escalão. Apenas um ponto separou o time romano da campeã Ternana. Em 38 rodadas, a Lazio concedeu apenas 28 gols, e teve o melhor ataque do certame, balançando as redes adversárias 48 vezes — 21 delas com sua estrela maior, Giorgio Chinaglia. O Long John, apelido recebido em decorrência de uma suposta semelhança com o famoso John Charles, continuava revelando enorme poder de fogo.

A base do time sofreu algumas modificações importantes na volta à Serie A, reforços cruciais chegaram. Como o goleiro Felipe Pulici, ex-Novara. Além dele, o defensor Sergio Petrelli (vindo da Roma, após acumular problemas com o treinador Helenio Herrera), os meio-campistas Luciano Re Cecconi e Mario Frustalupi, de Foggia e Inter, e o atacante Renzo Garlaschelli, ex-Como. 

Eles se juntaram a Gigi Martini, Giancarlo Oddi, Franco Nanni, Vincenzo D’Amico e aos grandes pilares da equipe, Giuseppe Wilson, o intransponível defensor, e Chinaglia, o homem-gol — ambos trazidos do Internapoli, em 1969. Maestrelli colocou esse time na ponta dos cascos. 

Chinaglia Lazio
Foto: Alamy/Arte: O Futebólogo

Apostando em sua versão do Futebol Total, com corridas intensas e pressão constante, o treinador levou a Lazio ao terceiro lugar, ficando apenas dois pontos atrás da campeã Juventus, com aquela que foi, de longe, a melhor defesa da competição, concedendo apenas 16 tentos em 30 jogos. 

Não fossem deslizes fatais no fim da competição, empates com Torino e Bologna, além de uma derrota na rodada derradeira para o Napoli, o time poderia ter ido ainda além. Nada que diminua seus feitos, já que conseguiu a melhor campanha da história de um recém-promovido à elite.

Controlando opostos 


Engana-se, entretanto, quem pensa que essa equipe funcionava como uma unidade harmônica. No campo, sim. Fora dele… 

O elenco da Lazio era rachado, explicitamente. De um lado, dominavam Chinaglia e Wilson. Segundo conta a Calciopedia, os dois craques eram seguidos por Pulici, Oddi, Petrelli, Luigi Polentes e Garlaschelli. Do outro lado, posicionavam-se Martini, Re Cecconi e Frustalupi. Permaneciam fora do fogo cruzado Nanni e D’Amico. 

A única coisa que unia todas essas personalidades, que sequer dividiam vestiários (havia dois) no centro de treinamentos de Tor di Quinto, era a figura de Maestrelli.

A origem das disputas nunca ficou devidamente esclarecida. Rumores apontam para diferenças políticas. Tal, entretanto, soa pouco provável, já que, em 1972, Chinaglia e Wilson declararam apoio explícito ao Movimento Sociale Italiano, grupo de extrema-direita. Semelhante orientação política teriam Re Cecconi e Martini, que, inclusive, aventuraria-se na política, elegendo-se deputado pela Alleanza Nazionale, nos anos 1990 e 2000.

O mais provável é que a rixa tenha se originado da negociação de Giuseppe Massa com a Inter. Ele fora grande parceiro de Chinaglia e Wilson, também com passagem pelo Internapoli, e foi substituído justamente por Re Cecconi, que havia sido comandado por Maestrelli no Foggia.

Lazio 1973-74
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Certo é que as brigas podiam acontecer pelos motivos mais idiotas. Como uma ocasião em que o secador usado por Martini queimou e o defensor buscou um substituto no vestiário vizinho. Prontamente, Pulici foi atrás do que era seu. Logo, garrafas voavam de um lado ao outro. Apenas Maestrelli conseguia estancar a sangria. 

Aliás, a situação era tão complexa que, no costumeiro rachão prévio a uma partida, o comandante costumava colocar os dois grupos frente à frente, exigindo o uso de caneleiras e tentando, sempre que possível (quando não era demasiadamente importunado por Chinaglia), terminar a contenda com um empate.

De algum modo, como se existisse um código de ética, o cisma cessava durante as partidas. De uma forma que, se houvesse alguma altercação durante a partida, todo o elenco defenderia o homem que vestia sua camisa. Evento que evidenciou isso foi o fracasso retumbante da Lazio na Copa da Uefa de 1973-74. Depois de passar pelo Sion, o time enfrentou o Ipswich Town, treinado por Bobby Robson. 


Após sofrer uma sonante derrota por 4 a 0, na partida de ida, o time parecia ter se encontrado, ao anotar dois gols em 20 minutos, na visita dos ingleses ao Stadio Olimpico. No entanto, duas decisões polêmicas do árbitro Leo van der Kroft, anulando um gol da Lazio e concedendo um pênalti polêmico para o Ipswich, colocaram o gramado em erupção. Os jogadores investiram contra o juiz. Logo, já era o estádio inteiro que agia, em uma confusão generalizada que levaria a equipe romana a ser penalizada com uma temporada de ausência em competições continentais (após apelo, já que a punição original era de três anos).

Outra questão que unia os dois grupos era a paixão por armas. Conta-se que Chinaglia, que mais tarde seria acusado de lavagem de dinheiro e de manter ligações com a máfia, não andava sem carregar sua Magnum, calibre 44. O amor pelo chumbo também ficaria evidente quando Petrelli atirou no lustre de seu quarto, simplesmente por preguiça de se levantar e ir até o interruptor.

Do topo ao fundo


Mas essa é uma história de vitória. Em 1973-74, a Lazio fez o suficiente para comemorar seu primeiro Scudetto. Com uma campanha recheada de destaques, como as vitórias ante a Roma, a artilharia de Chinaglia, responsável por 24 gols, ou a melhor defesa do certame, concessora de apenas 23 tentos, o país foi forçado a observar o voo de Le Aquile. No campo, os triunfos passaram pela liderança de Wilson, a capacidade de faz-tudo de Re Cecconi e os gols do Long John

A conquista seria consumada em 12 de maio de 1974, na penúltima rodada. Em um Stadio Olimpico que recebia seu recorde de público, uma multidão de mais de 78 mil presentes, a Lazio bateu o desesperado Foggia. 

Os rossoneri, que acabariam rebaixados, tendo inclusive se envolvido em escândalo de suborno de árbitro na última rodada, não foram capazes de evitar um pênalti, convertido por Chinaglia. Em um jogo tenso, e marcado por uma grave lesão na clavícula de Martini, além do forte calor, o 1 a 0 foi suficiente.


No dia seguinte, a Gazetta dello Sport fez o óbvio, destacando a conquista azul celeste: 

“Trinta e dois anos depois, o Scudetto volta a Roma. Lazio campeã da Itália. O time de Maestrelli antecipou em 90 minutos a conquista de seu primeiro título”. 

A foto em destaque não poderia ser outra, mostrava Chinaglia ajeitando, com carinho, a bola, antes da cobrança da penalidade máxima.

Gazzetta dello Sport Lazio 1974


Apesar de todo o júbilo, a história desse time laziale não terminaria da melhor forma. Em 1974-75, seria apenas o quarto colocado, atrás, inclusive, da arquirrival Roma. No ano seguinte, ficaria apenas uma posição acima da zona de rebaixamento. Em 1976, Chinaglia arrumaria as malas, seguindo para o Cosmos e, no mesmo ano, o mundo se despediria de Tommaso Maestrelli, vítima fatal de câncer de fígado.

Chinaglia Cosmos
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

O oscilante time romano também sofreria com a perda de Luciano Re Cecconi, em janeiro de 1977. O meia havia ido a uma joalheria famosa na cidade, acompanhado do colega Pietro Ghedin. Lá chegando, simulou um assalto, em brincadeira. Assustado, o dono da loja lhe desferiu um tiro fatal, pelo qual seria absolvido, mais tarde. 

O ocaso do time viria na temporada 1979-80.

Envolvida até o pescoço, no Totonero, o escândalo de manipulação de resultados deflagrado em 1980, a Lazio foi rebaixada à segunda divisão. Vários de seus jogadores foram declarados culpados de participar, destacando-se Wilson, punido com três anos de suspensão do futebol italiano, que o levariam a se aposentar. Os Biancocelesti só voltariam a respirar com alívio nos anos 1990, reafirmando-se como time de elite.

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