2009-10: O ano em que o Twente surpreendeu o futebol holandês

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

2009-10: O ano em que o Twente surpreendeu o futebol holandês

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Era o ano de 2003. Apesar de ter terminado a Eredivisie em 12º lugar, o Twente viu ser declarada sua falência. A empresa fundadora do clube se encontrava em mau estado. A falta de pagamento de impostos, aproximadamente da ordem de €3,1 milhões, e de outras dívidas, que somavam €14 milhões, ameaçava a existência da equipe. Então, liderado pelo futuro presidente Joop Munsterman, um novo grupo assumiu o time e o conduziu aos mais altos voos — antes de duras quedas.

Twente 2009-10 Steve McClaren
Foto: PA/Arte: O Futebólogo


Lutando contra De Grote Drie


O Twente não tem, nem de perto e nem de longe, a grandeza dos principais clubes da Holanda. Os Grote Drie, Ajax, PSV Eindhoven e Feyenoord, reinam quase em absoluto nos Países Baixos. Quem mais chega perto de ameaçar esse império é o AZ Alkmaar. Isso não quer dizer que os Tukkers, os homens da cidade de Enschede, não representem um clube respeitável na cena neerlandesa.

Quando o time mudou de mãos no princípio dos anos 2000, olhava para a sua história e via um vice-campeonato nacional, em 1973-74; além de duas conquistas da Copa da Holanda, em 1976-77, e 2000-01; e de um segundo lugar na Copa da Uefa de 1974-75. 

Era difícil sonhar com algo mais, sobretudo diante das dificuldades financeiras vividas. Contudo, por etapas, o Twente foi conseguindo crescer.

Em 2004, depois de superar VVOG Harderwijk, VV Kloetinge, Cambuur, Ajax B, Feyenoord e NAC Breda, o clube chegou a mais uma final da Copa da Holanda. Naquela altura, era treinado pelo belga René Vandereycken e já contava com um jogador que se tornaria referência história dos Tukkers: o centroavante suíço Blaise Nkufo. Apesar disso, o time não conseguiu superar o Utrecht na decisão.

Nfuko Twente
Foto: Getty Images/Arte: O Futebólogo

Na Eredivisie, o Twente também começaria a ter bons resultados. Em 2004-05, ficaria com a sexta colocação, atrás do trio tradicional, do AZ e do Heerenveen. No ano seguinte, seria o nono, mas asseguraria vaga para a Copa da Uefa. 

Então, uma nova mudança elevaria ainda mais o patamar do clube. Depois de trabalhar como auxiliar técnico do PSV por algumas temporadas, em 2006, Fred Rutten foi contratado para ser seu treinador.

De Fred Rutten a Steve McClaren


Nome conhecido no clube, tendo defendido suas cores como atleta, entre 1979 e 1992, somando mais de 300 jogos, Rutten parecia um nome adequado para a missão que viria a ser empreendida. A reunião também representou um novo começo, já que Fred havia sido treinador do clube entre 1999 e 2001, em sua única experiência solo nos bancos de reserva. Era ele o chefe do time que venceu a copa doméstica em 2000-01.

Com reforços como Orlando Engelaar, Edson Braafheid e Ottman Bakkal, holandeses que em algum momento representariam a Oranje, além do internacional australiano Luke Wilkshire, e do jovem Marko Arnautovic (que surgia na base), o Twente fez uma campanha de quarto lugar na Eredivisie 2006-07. Tal se repetiu na temporada seguinte, consolidando o time de Enschede — que agora já tinha Eljero Elia e o zagueiro brasileiro Douglas — como um dos melhores do país.

Fred Rutten Twente
Foto: Eric Brinkhorst/Arte: O Futebólogo

Outra demonstração de que tudo caminhava bem foi o fato de Fred Rutten ter vencido o prêmio Rinus Michels, em 2008, láurea entregue ao melhor treinador da temporada. 

Apesar disso, os sucessos do comandante não passaram despercebidos no futebol europeu. Após sua segunda campanha, Rutten foi seduzido pelo Schalke 04, partindo para a Alemanha. A escolha de um bom substituto passou a ser o grande desafio da ambiciosa direção dos Tukkers.

Com o time classificado para as qualificatórias da Liga dos Campeões, a aposta foi feita em um nome controverso. Depois de fracassar na missão de levar a Inglaterra à Euro 2008, Steve McClaren andava em baixa e precisava alavancar sua carreira. Em 20 de junho de 2008, o inglês foi oficializado, dando início a um novo trabalho, que revelou um Twente ainda mais forte.

“Estou muito satisfeito por voltar a treinar um clube e ansioso para conhecer o staff e os jogadores. Estou ansioso para o desafio de jogar a liga holandesa e as classificatórias da Liga dos Campeões [...] Na minha primeira reunião com o presidente Joop Munsterman, e outras pessoas do clube, notei que eles são muito cooperativos. É um momento empolgante para o clube, que foi muito bem-sucedido com Fred Rutten e mal posso esperar para começar”, falou McClaren, em sua apresentação.

Steve McClaren Twente
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

No princípio da temporada, o esforço inicial foi de reconstrução. Rutten carregou Engelaar consigo para o Schalke. Karim El Ahmadi partiu para o Feyenoord, Wilkshire emigrou para Moscou, onde representaria o Dinamo. Por outro lado, o Twente recrutou o marfinense Cheick Tioté, os holandeses Ronnie Stam e Theo Janssen, e o dinamarquês Kenneth Perez, vindo do Ajax.

Em uma temporada atípica, o clube foi vice-campeão nacional, ficando atrás do AZ Alkmaar, de Louis van Gaal. Na Liga dos Campeões, entretanto, deu o azar de ser sorteado para enfrentar o Arsenal e não teve hipóteses: os londrinos passearam, com um placar agregado de 6 a 0. Além disso, mais uma vez, o Twente viu a sorte escorrer pelos dedos na Copa da Holanda. O time chegou à decisão, mas, nos pênaltis, foi superado pelo Heerenveen, depois de buscar um empate aos 118 minutos da prorrogação.

Ascensão... 


Outra vez, Steve McClaren precisou reconstruir o time. Depois da inesperada segunda colocação nacional, Elia seguiu para o Hamburgo; Braafheid se juntou ao Bayern de Munique; e Arnautovic marchou para a Internazionale. Porém, o clube abriu os cofres e encontrou no Gent um candidato a ídolo, o costarriquenho Bryan Ruiz. Além dele, desembarcaram em Enschede o ponta Miroslav Stoch, emprestado pelo Chelsea, e um jovem atacante Luuk De Jong.

Mais uma vez, os Tukkers não foram longe na Liga dos Campeões, caindo, no critério do gol fora de casa, para o Sporting CP. Também não tiveram vida longa na Liga Europa, superados pelo futuro vice-campeão, Werder Bremen, na primeira fase de mata-matas, depois de superar um grupo com Fenerbahçe, Sheriff e Steaua Bucareste. Contudo, o time foi quase perfeito no campeonato nacional.

Bryan Ruiz Twente
Foto: Getty Images/Arte: O Futebólogo

Foram 21 as rodadas de invencibilidade no início da competição: quatro empates e impressionantes 17 vitórias. O time só caiu na 22ª rodada, mas, justamente, para quem não poderia. Com um impetuoso 3 a 0, o Ajax deu o troco do primeiro turno e se consolidou como grande candidato ao título, depois de um início em que parecia que o PSV Eindhoven é que seria o principal perseguidor do Twente.

Dali em diante, o Ajax venceu todos os jogos que disputou. Os Godenzonen chegaram à última rodada um ponto atrás dos homens de McClaren, que tropeçaram em PSV (empate) e AZ (derrota). Na rodada fatal, a vitória de um, somada ao tropeço do outro (derrota ou empate), definiria os rumos do título. Entretanto, Ruiz e Stoch garantiram que não haveria outro final triste para o povo de Enschede, com um 2 a 0 no NAC Breda. 

Nem os 35 gols anotados por Luis Suárez permitiram o sucesso do tradicional time de Amsterdã. Grata, a torcida do Twente reverberou nas arquibancadas: “Só há um Steve McClaren”, homenageando o treinador inglês. Por sua vez, o presidente Munsterman afirmou que o comandante era “tão importante para Enschede quanto Eric Cantona é para o Manchester United”.

“Eu estava louco no intervalo [o Twente vencia por 1 a 0]. Minha primeira emoção foi alívio. Mas sempre disse que, na vida, os erros te fazem mais forte [...] Isso é uma recompensa por tudo que eu e minha família passamos”, disse McClaren — o primeiro inglês a vencer um grande campeonato nacional europeu, desde Sir Bobby Robson, com o Porto, em 1996— após a conquista.

 


...e queda


Apesar da glória nacional, o Twente viveu um futuro duríssimo para seu torcedor. A despeito do vice-campeonato nacional em 2010-11 (sob a direção do belga Michel Preud’homme, depois de McClaren seguir para o Wolfsburg) — título perdido contra o Ajax, na última rodada —, o time entrou em uma espiral negativa sem precedentes. 

Como era esperado, os Tukkers continuaram perdendo seus maiores destaques para clubes com ligas mais fortes do que a holandesa. Além disso, seguiu sendo tarefa dura competir com o trio de ferro do futebol holandês, economicamente muito mais poderoso.

Munsterman fez apostas que não podia pagar. Com investimentos altos e oferecendo salários muito acima de sua capacidade de pagamento, o clube entrou em nova crise. Em 2012, McClaren até voltaria ao clube, agora para apenas viver mais um fracasso no período pós-título. 

Os resultados dentro do campo não vieram. Os escândalos, sim. O Twente firmou parceria com o grupo de investidores Doyen, que fez repasses financeiros em troca de percentuais de direitos econômicos de atletas, o que era vedado pela Federação Holandesa e seria, definitivamente, proibido pela FIFA no início de 2015.

Dusan Tadic Twente
Foto: Olaf Kraak/ANP/Arte: O Futebólogo

Naquele ano, o clube sofreu um rebaixamento administrativo e também foi banido do futebol europeu por três temporadas. Munsterman também deixou o clube. O descenso acabou revertido, mas as investigações e a crise financeira não desaceleraram. Quando o Twente vendeu Dusan Tadic para o Southampton, por exemplo, €1,8 milhões foi ocultado dos livros de caixa do clube, o que foi revelado pelo grupo Football Leaks.

Em queda livre, o time acabaria rebaixado, no campo, em 2017-18, retornando em 2018-19. Desde então, tenta se reconstruir, com os pés no chão e um olho no que a história ensinou, a partir de um grande momento, que deveria ter durado mais e ter sido apenas de celebração.

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