O feliz casamento de Martin O’Neill com o Leicester City

quarta-feira, 3 de março de 2021

O feliz casamento de Martin O’Neill com o Leicester City

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Como jogador de futebol, Martin O’Neill não foi homem de um time só. Ainda assim, sua imagem se vincula ao Nottingham Forest. No final dos anos 1970, ele participou diretamente do que foram os melhores anos da história da equipe, sob o comando de Brian Clough. No entanto, a trajetória nos bancos de reservas começou de baixo. Depois de uma boa passagem pelo Wycombe Athletic, em Leicester, ele se reapresentou à elite.

Martin O'Neill Leicester
Foto: OTB Sports/Arte: O Futebólogo

Pegando o elevador no Wycombe


A carreira de atleta de O’Neill viu as cortinas se fecharem em 1985, após o meio-campista se render aos problemas no joelho. Não por escolha própria, ele apenas começaria a dar as cartas como treinador dois anos mais tarde. E na pouco glamourosa Non-League. Recusado por equipes de divisões superiores, o norte-irlandês viveu seus primeiros dias como treinador no modestíssimo Grantham Town.

“Apliquei para outros trabalhos na primeira divisão e não consegui sequer uma entrevista na maioria deles [...] As pessoas falam sobre você ir lá embaixo, nas ligas menores, porque pode aprender com seus erros e fazer um monte de coisas sem ser notado. Não concordo com isso [...] Penso que você pode cometer erros na Non-League e ligas menores e pode desaparecer para sempre [...] Tive a chance de treinar em Grantham. Desfrutei imensamente disso e consegui uma grande experiência”, falou O’Neill ao The Non-League Football Paper.

A trajetória do treinador só entraria em crescente em 1990. Após uma passagem breve pelo Shepshed Charterhouse, O’Neill foi chamado a dar socorro ao Wycombe Athletic. Os Chairboys não viviam bom momento. Era o início de fevereiro e, até ali, em partidas da quinta divisão inglesa, o time vinha com um recorde nada animador de 11 derrotas, nove vitórias e seis empates. Com Martin no comando, esse número mudou para oito vitórias, quatro empates e quatro derrotas, em sensível evolução.

O norte-irlandês estava crescendo em sua carreira. No entanto, sua missão caminhava longe da realidade que ele havia experimentado como atleta. O salário de £25 mil libras anuais estava anos luz distante das cifras pagas por clubes da elite. “É um desafio enorme”, disse O’Neill ao aceitar o cargo. Adiante, indicou o objetivo do clube: “Chegar à Football League é, obviamente, o alvo e é por isso que estou aqui. Nunca desisto. Foi assim que sobrevivi por tantos anos no jogo com tão pouca habilidade”.

Martin O'Neill  Wycombe
Foto: Times Newspapers/Arte: O Futebólogo

O treinador acabou superando, em muito, a meta inicial. Depois de ajudar o clube a terminar a temporada 1989-90 de modo tranquilo, foi o quinto colocado no ano seguinte e, adiante, ficou com o vice-campeonato — que não bastava para alcançar o acesso à quarta divisão. Nesse meio tempo, veceu seu primeiro FA Trophy, competição valorizada dentre os clubes de escalões mais baixos na Inglaterra. E o melhor estava por vir.

Em 1992-93, o acesso por fim aconteceu, assim como a conquista de mais um FA Trophy. Não parou por aí, já que O’Neill conduziu o Wycombe à terceira divisão, em 1993-94, e, um ano depois, o entregou na sexta colocação, uma posição atrás do primeiro classificado aos playoffs de acesso à segunda divisão.

Enfim, o comandante precisava de um novo desafio: “No passado, tive chances de assumir outros clubes. O motivo pelo qual decidi sair agora é uma questão de timing. Sempre tive a ambição de ir subindo as ligas com o Wycombe [...] Mas falhei no acesso deste ano e as coisas estavam começando a desacelerar [...] Devo tudo a esse clube [...] Ele me deu uma oportunidade quando outros estavam fugindo de mim”, disse Martin na despedida

Próxima parada, Norwich.

Foi preciso dar um passo atrás para dar dois à frente


Norwich era uma praça conhecida por Martin O’Neill. Ele representara o clube, como atleta, entre 1982 e 1983. Porém, a familiaridade não tornou sua tarefa mais fácil. Em 1995-96, os Canários haviam acabado de retornar à segundona, após um rebaixamento, de certa forma, inesperado. Dois anos antes, o time flertara com o título da Premier League, terminando a disputa na terceira colocação e, antes do ano do descenso, havia sido o 12º (quando a competição ainda tinha 22 equipes).

Martin O'Neill Norwich
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

O trabalho não deu liga, nem tanto pelo que aconteceu dentro das quatro linhas. O norte-irlandês pediu o boné ainda em dezembro, após 22 partidas — nove vitórias, sete empates e seis derrotas. Os números não eram ruins, mas houve problemas com o presidente do clube, Robert Chase. Os dois entraram em rota de colisão após o clube falhar na contratação de Dean Windass, junto ao Hull City.

Curiosamente, sua saída se deu após uma derrota ante seu futuro empregador. No dia 17, O’Neill deixou os Canários. Quatro depois, acertou com as Raposas, assinando com o Leicester City. O encaixe não foi rápido, foram apenas três vitórias nos primeiros 16 jogos. No entanto, o clube não vinha mal. Era o terceiro colocado. Auxiliado pelas adições tardias de jogadores como Muzzy Izzet, Neil Lennon, Steve Claridge e Julian Watts, acabaria em quinto lugar, classificando-se para os playoffs de acesso à Premier League.

Martin O'Neill Leicester City
Foto: PA Images/Arte: O Futebólogo

Primeiro, os Foxes deixaram o Stoke City pelo caminho: 1 a 0, no placar agregado. Na final, bateram o Crystal Palace, de melhor campanha dentre todos os classificados para a disputa pela última vaga na elite: 2 a 1 garantido já na prorrogação, com um gol memorável de Claridge. Quase 10 anos após o início de sua carreira como treinador, Martin O’Neill chegava ao primeiro escalão do futebol inglês.

“Nunca me esquecerei disso, é uma dessas coisas, uma das memórias que você mais preza como jogador. Uma das memórias que se preza na vida. Ainda me lembro do meu nome sendo cantado duas horas e meia depois do jogo, enquanto eu caminhava pelo vestiário. Isso nunca vai me deixar, sempre estará lá. Você consegue apenas momentos como esse na vida, esse foi um deles”, disse Claridge, vinte anos mais tarde ao Leicestershire Live.


Obtendo muito com pouco


Após experimentar seis primeiros meses em que a dúvida inicial deu lugar a uma vaga na elite do futebol inglês, Martin O’Neill viveu um frutífero período de quatro temporadas à frente dos Foxes

À época, o clube vivia um tempo de investimentos feitos a conta-gotas — sem grandes conquistas desde a Copa da Liga Inglesa, em 1964. Foi esse o cenário em que o treinador norte-irlandês, sem dispor de muitas sementes, plantou e acabou colhendo numerosos frutos.

Em 1996-97, pela primeira vez, o Leicester disputou a Premier League, fundada em 1992. Fazia 10 anos que o clube havia sido relegado ao segundo escalão do futebol inglês. Inevitavelmente, havia euforia. No entanto, as perspectivas realistas eram, tão somente, no sentido de permanência na divisão de cima. Dentre os contratados para a temporada, o nome mais famoso foi o do goleiro estadunidense Kasey Keller, então no Millwall. Já a contratação mais cara, e acertada, foi a do defensor Matt Elliott, que permaneceria até 2005, vindo a se tornar capitão.

Heskey Leicester
Foto: PA Images/Arte: O Futebólogo

Via de regra, o time exibiu em um esquema tático 3-5-2. Destacavam-se as presenças do capitão Steve Walsh na retaguarda, de Izzet e Neil Lennon no meio-campo, e do talismânico Claridge na frente — ladeado por um então jovem e promissor Emile Heskey, autor de 10 gols, em 35 jogos, na sua primeira campanha como titular da equipe. Esse time terminaria a Premier League na 9ª colocação. Porém, o mais importante momento voltaria a acontecer em uma Copa da Liga Inglesa.

Tendo deixado Scarborough, York City, o poderoso Manchester United, Ipswich Town, e o duro Wimbledon pelo caminho, as Raposas fizeram a final da competição com o Middlesbrough. Endinheirado, apesar de rebaixado, o Boro contava com atletas como o goleiro Mark Schwarzer, o meia Juninho Paulista e o atacante italiano Fabrizio Ravanelli.

Foi emocionante. Os zeros teimaram em deixar o placar, a partida foi para a prorrogação e Ravanelli abriu a contagem para os homens de vermelho. Porém, aos 118, Heskey resgatou o Leicester. Foi necessário um replay, que também acabou indo à prorrogação. Mais uma vez, Claridge foi talismânico, anotando o tento do título no minuto 100. Aquela era a segunda proeza de O’Neill sob o comando dos Foxes.


Anos calmos e felizes


As três temporadas que se seguiram foram marcadas por tranquilidade para o time das East Midlands. Em todas elas, os Foxes terminaram na parte de cima da tabela, consumando duas 10º colocações consecutivas, em 1997-98 e 1998-99, e um oitavo lugar, em 1999-2000.

Também chegaria mais material humano de boa qualidade para O’Neill trabalhar. Em 1997-98, o grego Theodoros Zagorakis e o controverso Robbie Savage. No ano seguinte, o forte beque Frank Sinclair, ex-Chelsea, Gerry Taggart e Arnar Gunnlaugsson, ambos ex-Bolton, e Andy Impey, do West Ham. Na sequência, o arqueiro Tim Flowers (campeão inglês com o Blackburn) chegaria em 1999-00 para substituir Keller, que partira para o Rayo Vallecano. 

Por fim, mais tarde naquela temporada, Stan Collymore seria outra contratação importante, mas dessa vez diante da necessidade emergencial de um substituto para Heskey, vendido ao Liverpool.

Também vale destacar que, como campeão da Copa da Liga de 1996-97, o Leicester garantiu o direito de voltar a disputar uma competição continental. A Copa da Uefa de 1997-98 foi o primeiro torneio europeu jogado pelos Foxes desde a Recopa Europeia de 1961-62, para a qual o clube se classificara com o vice-campeonato da FA Cup, considerando que o campeão Tottenham estava qualificado para a Copa dos Campeões, tendo também vencido a Liga Inglesa. Apesar disso, O’Neill e companhia deram o azar de enfrentar o Atlético de Madrid já na primeira fase, caindo já ali.

Leicester Atlético Madrid UEFA Cup
Foto: Getty Images/Arte: O Futebólogo

A bem da verdade é que o Leicester City ficaria marcado mesmo na Copa da Liga. Em 1998-99, os Foxes foram derrotados na decisão para o Tottenham, 1 a 0 — gol solitário do dinamarquês Allan Nielsen, aos 90’. Contudo, no ano seguinte, os homens de azul voltariam a Wembley. Outra vez, para levantar o caneco. Contra o surpreendente Tranmere Rovers, treinado pelo famoso John Aldridge, o clube viu o zagueiro Elliot marcar duas vezes, consumando um triunfo por 2 a 1. David Kelly descontou para os Whites.

Fora do campo, as coisas também iam bem. O clube fazia planos para mudar de casa. Em 1998, começaram a acontecer movimentações em prol da construção de um novo estádio em Bede Island. Tais planos acabariam abortados. Mas não em definitivo. Logo depois, foi aprovada a construção do Walkers Stadium (King Power Stadium desde 2011). Em 2002, o Leicester enfim abandonou Filbert Street, seu lar desde 1891.


A separação foi boa para um, mas não para o outro


Apesar de todo o sucesso da dupla O’Neill-Leicester, o casamento chegou ao fim. Com o encerramento do contrato do treinador ao término da campanha de 1999-00, o norte-irlandês entendeu que precisava de novos desafios. Acabou firmando com o Celtic, clube em que permaneceria até 2005, acumulando conquistas domésticas e alcançando a final da Copa da Uefa de 2002-03, vencida pelo Porto.

Depois, ele ainda faria sucesso no Aston Villa, com um time que uniu jogadores importantes no cenário inglês. Em Birmingham, O’Neill reencontrou Heskey, liderando também Stewart Downing, Ashley Young, James Milner, além de estrangeiros como o arqueiro estadunidense Brad Friedel, e o centroavante norueguês John Carew. Depois de uma passagem apagada pelo Sunderland, O’Neill ainda veria suas qualidades reconhecidas na Irlanda (o que não deixa de ser surpreendente, dados os problemas históricos vividos entre o país e a sua natal Irlanda do Norte).

Martin O'Neill Celtic
Foto: Getty Images/Arte: O Futebólogo

Vale dizer, ainda, que as marcas de seu trabalho no Leicester transcenderiam o clube: “Em sua pompa, ele [O’Neill] era absolutamente inacreditável. Era um gênio. Ele trabalhava no psicológico do jogo e do jogador mais do que em qualquer coisa. Eu diria que 85% do que faço como treinador se baseia no que aprendi com Martin. No Leicester e no Celtic, ele tirava o melhor deles [...] Digo, ele alcançou a promoção pelos playoffs e teve quatro colocações no top 10 da Premier League, o que era inédito. Por 10 ou 15 anos, ele foi um dos melhores treinadores no futebol britânico”, indicou Neil Lennon, em entrevista ao OTB Sports.

Para o Leicester, entretanto, a partida do norte-irlandês não trouxe fortuna. E não havia qualquer objeção a lhe ser feita. Ele cumprira o contrato e entregara resultados. Também recusara propostas vantajosas de Leeds United e Everton, em 1998, quando eles procuravam substitutos para George Graham e Howard Kendall, respectivamente. Ao todo, cumpriu 222 jogos, somando 85 vitórias, 67 empates e 70 derrotas.

Na primeira temporada sem seu mentor, os Foxes terminaram em 13º lugar a Premier League. Na segunda, caíram para a segunda divisão. O clube voltaria de imediato, apenas para cair outra vez. Vivendo instabilidade e afogado em dívidas após a construção do novo estádio, o Leicester se afundou na lama. Em 2007-08, chegou a cair à terceirona. As coisas só voltariam a assentar a partir de 2014-15, temporada de retorno à elite, em que uma imponderável retomada de sucessos começou.

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