quarta-feira, 17 de março de 2021

O milagre de Bakero em Kaiserslautern

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Que o gol seja o momento mais mágico do futebol, pouco se discute. Ele que já foi descrito das mais diversas formas, como aquela, clássica, entalhada por Eduardo Galeano: “O gol é o orgasmo do futebol”. Certo é que todo gol carrega algum brilho, já que é raro; nunca trivial. Ainda assim, há tentos capazes de transcender a si próprios e marcar gerações. Estes costumam ser revisitados à exaustão, ganhando, ainda, status de efeméride. O que José Mari Bakero anotou em Kaiserslautern, no dia 06 de novembro de 1991, é um desses.

Bakero Barcelona Kaiserslautern 1991-92
Foto: FC Barcelona/Arte: O Futebólogo


O sangue da vitória


Bakero foi um dos vários bascos que Johan Cruyff buscou quando começou a montar o seu Barcelona, em 1988. O movimento não foi aleatório, ou baseado apenas nas qualidades técnicas de tais jogadores. Ao final de 2014, o saudoso treinador holandês acabaria revelando, em entrevista veiculada no jornal Marca, suas razões: “Já havia três jogadores bascos. Contratei mais quatro porque eram valentes e, naquela época, os catalães não eram. Alguns não eram. Agora é diferente”.

A história começa no dia 1º de julho de 1988. Ladeado por Txiki Begiristain e Luis López Rekarte, seus antigos colegas na Real Sociedad, Bakero foi apresentado no Camp Nou. Naquela tarde, deixou claro o sentimento ao vestir a camisa blaugrana:

“Com essa camisa me sinto esquisito, são muitos anos me vestindo de realista e acho que é uma questão de me acostumar. Não é que me sinta melhor ou pior, mas diferente. As pessoas na rua entenderam, entenderam que viemos aqui para melhorar em todos os sentidos”, registrou a edição do Mundo Deportivo, no dia seguinte. 

Bakero não apenas se acostumou com a camisa do clube catalão, como também melhorou como futebolista.

Txiki Rekarte Bakero Barcelona
Foto: Diario AS/Arte: O Futebólogo

Isso não quer dizer que ele já não fosse um atleta de alto nível, completo. De certa forma, é curioso que sua chegada ao Barça tenha se dado aos 25 anos. Bakero já estava pronto. Havia feito sua estreia como profissional em 1980, aos 17. Participara das campanhas que ajudaram a Real Sociedad a mudar de patamar — os títulos espanhóis de 1980-81 e 1981-82. Também estivera no onze inicial txuri-urdin vencedor da Copa do Rei, em 1987, convertendo o primeiro pênalti da disputa decisiva, contra o Atlético de Madrid.

Bakero, inclusive, já havia recebido suas primeiras chances na seleção espanhola. 

No plano das coisas concretas, seus títulos no currículo o credenciavam a ter um belo futuro na Catalunha. No das coisas abstratas, Cruyff confiava que ele seria um dos homens a trazer um diferencial emocional para o clube.

Classificação encaminhada. Será?


Quando se desenhou a disputa da Copa dos Campeões da Europa da temporada 1991-92, Bakero e o Barça viviam um momento bem diferente daquele experimentado quando da nomeação de Cruyff. Já em 1988-89, o time começou a mostrar que sua sorte estava sendo mudada. O clube que era visto como rico, mas ineficiente, venceu a Recopa Europeia, batendo a Sampdoria, na decisão. 

No ano seguinte, a demonstração de força viria na Copa do Rei, conquistada ante o Real Madrid.

Para o atleta goizuetarra, aquele tempo também havia tido efeitos em sua forma de jogar. Aquele que começara a carreira como um atacante, normalmente pelo lado direito, fora convertido em meia. Então, em 1990-91, o Barcelona colocou fim a uma espera de cinco temporadas. Com sobras, venceu a liga espanhola, classificando-se à disputa daquela citada Copa dos Campeões.

Toda a pressão que pairava no ambiente do clube se originava da ânsia pelo maior título do continente. O que era absolutamente compreensível. Enquanto o Real Madrid já somava seis conquistas — a despeito do acúmulo de anos desde a última —, os catalães jamais haviam subido àquele pódio. Existiam, ainda, traumas a superar, como o da derrota de 1985-86, quando, em Sevilha, o Barça perdeu o título para os romenos do Steaua Bucareste, errando rigorosamente todos os pênaltis na disputa derradeira.


Mas as coisas pareciam caminhar bem, quando os culés acompanharam o clube eliminar, sem sustos, os alemães orientais do Hansa Rostock, na primeira fase da competição (3 a 1, no agregado, gols de Michael Laudrup e Andoni Goikoetxea). 

Essa impressão seria reforçada ao término da partida de ida da etapa seguinte. No Camp Nou, Txiki anotou duas vezes ante os germânicos do Kaiserslautern, pavimentando mais uma classificação do Barça. A volta, duas semanas mais tarde, não deveria ser tão dura, deve ter pensado o torcedor incauto.

O vôo do homem de 1,72m


Chegou o dia 06 de novembro de 1991. Palco: Fritz-Walter-Stadion. Público? 35 mil pagantes, que haviam esgotado os ingressos com vários dias de antecedência, segundo contou o Mundo Deportivo

Ignorando as reclamações de falta no goleiro Andoni Zubizarreta, os Diabos Vermelhos saíram na frente aos 34 minutos da etapa inicial. Os números do jogo indicavam que aquele era o quarto escanteio do Kaiserslautern, contra zero do Barça. Stefan Kuntz cobrou e, sutilmente, Demir Hotic abriu a contagem.

Na volta dos vestiários, os catalães não tiveram tempo de respirar. Logo, sua vantagem já estava deposta. Aos 49’, a partir de mais um corner, agora cobrado por Guido Hoffmann, Hotic marcou o segundo tento dos donos da casa. Com o domínio mental e emocional da disputa, o Kaiserslautern seguiu amassando o Barça. Até que, aos 75’, fez aquele gol que, certamente, garantiria o avanço dos alemães. Uma bola perdida por Pep Guardiola se transformou em lançamento nas costas da defesa catalã. Bjarne Goldbæk recebeu a pelota e fuzilou Zubizarreta.

Kaiserslautern Barcelona 1991-92
Foto: Twitter Oficial Kaiserslautern/Arte: O Futebólogo

Estava tudo acabado. Nem mesmo a coragem dos bascos havia sido capaz de trazer o algo mais de que o Barça precisava para, enfim, tornar-se o máximo campeão da Europa. 

Porém, certas coisas simplesmente não se explicam. 

Da mesma forma que a virada do Kaiserslautern era inesperada, o que se viveu no minuto que fulminou o tempo normal da partida também foi. O holandês Ronald Koeman se dirigiu para a bola, em cobrança de falta. O lançamento diagonal acabou encontrando um homem de 1,72m, entre Markus Kranz e Uwe Scherr. Ele subiu em direção à bola, cabeceando-a para longe do alcance do goleiro Gerry Ehrmann. Bakero! 

Kaiserslautern 3, Barcelona 1. Na soma dos placares: 3 a 3. No entanto, o time de azul e grená havia marcado um tento fora de casa que se mostraria suficiente para assegurar o sofrido avanço.

O Mundo Deportivo do dia seguinte não teve medo de chamar Bakero de “um anjo no inferno”. Seu ato final alcançou implicações profundas: “Afastou a crise e conseguiu uma explosão de alegria inenarrável de uma torcida que, sentada no inferno, descarregou com gritos e abraços quase 90 minutos de constrangimento”. Também o periódico Sport destacaria os feitos heroicos do basco em sua capa: “Barça, do inferno à glória. O Milagre Bakero”.


“Trabalhar até o final”


Ao final do jogo, em um momento de modéstia, Bakero ignorou que tivesse operado um ato sobrenatural: “Um milagre? Não… Não existem milagres, aqui não há mais segredo do que trabalhar até o final”. Koeman, com notório alívio, simplesmente acabaria dizendo que o clube teve muita sorte, no que seria acompanhado por Cruyff: “Foi muito importante e oportuno que, precisamente em nosso pior jogo da temporada, tenhamos tido a máxima dose de sorte”.

Fora da partida, tendo acompanhado tudo de casa, Guillermo Amor seria mais uma voz ouvida ao final do jogo: “Não posso descrever com palavras a grande alegria que senti quando Bakero marcou o gol no último minuto [...] Minha satisfação foi dobrada [...] terei a chance de atuar neste prestigioso torneio”. Para Guardiola, os dois últimos minutos de jogo “foram os mais longos de minha vida”.

Mundo Deportivo Bakero Barcelona Kaiserslautern
Seria, entretanto, Bakero o responsável pela frase mais acertada sobre aquele momento: “Ao final, isto já é história”. De fato. Foi a partir do tento extraordinário daquele basco trazido à Catalunha por seu futebol e valentia que o Barcelona teve a chance de superar Sparta Praga, Benfica e Dynamo de Kiev, na fase de grupos seguinte, chegando à decisão vitoriosa contra a Sampdoria. Ali, outro gol incontáveis vezes repetido e lembrado seria anotado, dessa vez por Koeman.

Gols em finais acabam sendo os mais lembrados. Não é estranho que seja assim. Porém, o cabeceio de Bakero naquela eliminatória acabou ganhando o peso de tento mais importante da campanha. Sem ele, viria a eliminação. Como comparativo, na decisão, caso Koeman não acertasse o tirambaço do título, na pior das hipóteses ainda haveria pênaltis por cobrar. 

A eternização do basco foi, afinal, justa.

Foram, no total, 432 os jogos em que Bakero representou o Barça, e 115 os gols anotados — nenhum deles remotamente importante em comparação com o de Kaiserslautern. Outros títulos também passariam a integrar seu portfólio. Com justiça, ele seria nomeado capitão em 1993, estreitando ainda mais seus laços com o time. Na saída, em 1996, já era um mito. Se aquele Barça ficou conhecido como Dream Team, muito disso se deu a partir daquele cabeceio redentor.

Diario Sport Barcelona Kaiserslautern 1991-92 Bakero

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