quarta-feira, 7 de abril de 2021

Dublin Dons: Quando a Premier League se aproximou da Irlanda

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Exceto por sua seleção, não se pode considerar como boa a qualidade do futebol praticado na Irlanda. Embora clubes como Shamrock Rovers, Dundalk, Shelbourne e Bohemians tenham tradição, dominando a cena nacional, tal jamais se refletiu em êxitos internacionais. Não por acaso, os melhores jogadores do país atuam majoritariamente na Inglaterra, assim como boa parte das pessoas apoia as principais equipes do país vizinho. Houve pelo menos um movimento que poderia ter balançado essa estrutura. Aqueles eram os anos 1990.

Dublin Dons Wimbledon Protest
Foto: PA Photo/Getty Images/Arte: O Futebólogo


O estádio irlandês que nunca existiu


Durante anos, a seleção irlandesa não teve casa própria. Quando anfitrião, o Green Army costumava atuar no demolido Lansdowne Road. Apesar disso, além de pertencer ao time nacional de rugby, até 1993 o estádio não possuía holofotes; a Irlanda só podia receber seus adversários em partidas à tarde e em dias de semana. 

Isso condicionava as partidas a ter públicos modestos. Somente a partir de 1994, os irlandeses passaram a jogar sob luzes artificiais.

Era natural que houvesse movimentos no sentido da construção de uma nova fortaleza para receber os homens de verde. Também porque, desde meados dos anos 1980, a Irlanda vivia um momento especial no futebol. Comandada por Jack Charlton, conseguiu vaga para a Euro 1988, e para as Copas do Mundo de 1990 e 1994. Naquela instância, chegou até mesmo a figurar em sexto lugar no ranking da FIFA.

Nesse sentido, uma das iniciativas mais pujantes começou a ser ventilada nos anos 1980, materializando-se na década seguinte. Não sem uma dose substancial de polêmica.

Em 1993, Owen O’Callaghan, homem do ramo imobiliário, conseguiu permissão para construir um novo estádio em Clondalkin, nos subúrbios de Dublin, próximo à comunidade de Neilstown. A ideia era erguer um complexo com capacidade para receber algo entre 40 e 60 mil pessoas. Entretanto, aquilo tinha seu lado obscuro.

Neilstown
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Dez anos antes, havia sido determinado que Neilstown deveria receber um centro comercial na área que acabaria reservada ao estádio. Por mais potencial para movimentar uma economia que um estádio possa ter, ele não se compara ao de um grande centro comercial. Apesar disso, o empresário Tom Gilmartin, retornando de um longo período vivido na Inglaterra, revelou intenções de construir dois shopping centers: um em Bachelors Walk, outro em Quarryvale.

Através da intervenção do Banco AIB, Gilmartin e O’Callaghan passaram a trabalhar juntos. O primeiro tinha um problema: Quarryvale era uma localidade residencial e considerada um cinturão verde; tratava-se de uma zona de preservação. Era Neilstown a área que deveria receber o centro de compras.

No entanto, utilizando-se de toda sorte de táticas ilegais, inclusive pagando propinas ao lobista Frank Dunlop para conseguir os votos necessários ao rezoneamento das duas áreas, foi alcançada uma solução. Com a área do centro de compras livre, seria possível construir um estádio em Neilstown. Essas questões foram investigadas no Mahon Tribunal, conduzindo à conclusão de que teriam ocorrido diversos atos de corrupção (envolvendo outros empreendimentos e muitas outras partes, inclusive).

De toda forma, Quarryvale acabaria recebendo seu shopping center. Em 1998, foi inaugurado o Liffey Valley. Já Neilstown ficou a ver navios. Aos olhos da comunidade local, o estádio já não era o negócio dos sonhos, mas assumira a condição de prêmio de consolação. Porém, ele acabou não saindo do papel. À época da liberação para construir, O’Callaghan procurou o Ministério das Finanças, apresentando um plano e solicitando aporte estatal para colocar a obra em marcha. O ministro, Bertie Ahern, negou o pedido veementemente, e o estádio ficou no papel. Ao menos por um tempo.

Wimbledon: na elite, mas sem casa


Enquanto a capital da Irlanda era revolvida em torno de questões de planejamento urbano, na Inglaterra, o Wimbledon FC vivia seus dias de glória no futebol. Em 1982-83, a Crazy Gang começou a viver seu conto de fadas. Em cinco anos, foram quatro acessos. De repente, os Wombles estavam na primeira divisão inglesa. O ápice viria em 1987-88, quando, impulsionado pelos gols de John Fashanu, o clube conquistou a FA Cup, superando o Liverpool na decisão.


O clube permaneceria na elite até a temporada 1999-00. Apesar disso, já no início daquela década, começou a sofrer com uma condição difícil. Em 1990, foi concluído o Relatório Taylor. A investigação, conduzida por Lorde Taylor de Gosforth, havia sido instaurada para apurar as causas e consequências do famoso e trágico Desastre de Hillsborough. O documento trouxe consigo uma série de condições que os clubes ingleses deveriam obedecer em seus estádios.

Embora os acontecimentos de Hillsborough tenham se dado em uma partida entre Liverpool e Nottingham Forest, os efeitos da tragédia foram muito além disso. Para o Wimbledon, significou a impossibilidade de seguir atuando no modesto Plough Lane. Assim, em 1991, a Crazy Gang fechou uma parceria com o Crystal Palace. Os dois clubes atuariam no Selhurst Park. Contudo, a solução deveria ser temporária.

Conforme os anos transcorreram, as ambições do Wimbledon aumentaram. O time continuava na primeira divisão e sem correr riscos de descenso. 

Desde 1977, os Wombles pertenciam ao empresário libanês Sam Hammam. E, a partir de 1992, a agremiação teve o irlandês Joe Kinnear como treinador. O comandante sabia que o clube precisava de uma nova casa, conhecia a ideia falhada de construção de um estádio para a seleção irlandesa, e tinha contato com a pessoa certa para dar combustível a uma ideia ousada.

Joe Kinnear Wimbledon
Foto: Premier League/Arte: O Futebólogo

Kinnear, ele próprio um ex-jogador da seleção irlandesa, tinha também noção de como o futebol era visto em seu país. Apesar da falta de clubes de qualidade, estava atento à popularidade do esporte. Ela ficava evidente no apoio dado ao Green Army, no apelo que os clubes ingleses possuíam no país e, ainda, na produção de jogadores de boa qualidade, ainda que atuando fora: gente como Johnny Carey (Manchester United), Johnny Giles (Manchester United e Leeds), Frank Stapleton (Arsenal e United), Liam Brady (Arsenal e Juventus) ou David O'Leary (Arsenal).

Dublin Dons?


Em 1996, Kinnear procurou Éamon Dunphy. À época uma das pessoas mais influentes da imprensa esportiva irlandesa, o ex-jogador da seleção irlandesa, e do Millwall, era o porta-voz perfeito para a iniciativa do treinador. Se o Wimbledon precisava de uma casa, a ideia de que a Irlanda tivesse um estádio de ponta também chamava a atenção. Desse modo, O’Callaghan teria mais condições de obter financiamento para o seu projeto que, recorde-se, já possuía a licença necessária para construir.

Quando procurado por Dunphy, o idealizador original da iniciativa se animou. O plano parecia, inclusive, melhor do que o original, também diante do que a hipótese de um time da Premier League atuar em solo irlandês representava. Não foi apenas O’Callaghan que ficou empolgado, também outros dirigentes do futebol inglês, nomeadamente os de Newcastle e Aston Villa, além de representantes da Sky inglesa, que poderiam ver a sua influência crescer no país vizinho.

Eamon Dunphy
Foto: Irish Mirror/Arte: O Futebólogo

Foi formado um consórcio para gerir o empreendimento. Além de O’Callaghan e Dunphy, Paul McGuinness, conhecido empresário da banda U2, Tommy Higgins, responsável pela Ticketmaster na Irlanda, e Maurice Cassidy, diretor do canal de entretenimento HMV, entraram na jogada. O arquiteto seria Ambrose Kelly. O plano era comprar 74% das ações do Wimbledon, que passaria a se chamar Dublin Dons.

Logo, a discussão ganhou corpo, inclusive por meio de debates públicos. Um dos mais famosos aconteceu em rede nacional. De um lado, Dunphy defendeu, com unhas e dentes, a possibilidade de mudança do Wimbledon para Dublin. Do outro, o chefe executivo da Associação Irlandesa de Futebol — FAI, Bernard O’Byrne, não via nada de bom naquela oferta. A conversa chegou à boca do povo, e os argumentos de parte a parte foram muitos.


A favor ou contra?


A ala favorável ao prosseguimento da empreitada dizia que, com um time de elite na Irlanda, os pais das crianças e adolescentes irlandeses deixariam de se ver obrigados a enviar seus filhos a outros países para que pudessem jogar futebol profissional. Além disso, empregos seriam gerados, e receitas com turismo e comércio, de um modo geral, aumentariam. O estádio custaria aproximadamente 100 milhões de libras e ficaria pronto, segundo projeções, em agosto de 1999.

O consórcio também teria se comprometido a prover fundos para a criação de escolas de excelência por toda a Irlanda. Até mesmo os torcedores “originais” do Wimbledon foram lembrados. Hammam, o presidente do clube, chegou a entabular conversas com a empresa aérea Ryanair, com o fito de obter descontos em passagens de Londres a Dublin, para tornar possível a presença dos apoiadores fiéis da equipe no glamoroso estádio projetado. 

Em 1998, segundo o Irish Independent, 64% dos fãs de futebol de Dublin se mostraram favoráveis ao movimento.

Por outro lado, a população de Neilstown temia a chegada do hooliganismo. Além disso, os chefes do futebol local projetavam perdas irreparáveis em face da Liga Irlandesa vigente, que, além de não ser forte, teria que concorrer com a vinda de equipes da elite inglesa semanalmente.

Já a torcida do Wimbledon era taxativamente contrária à iniciativa, o que ficou evidente pela exposição de cartazes com os dizeres “Dublin = Morte”, e por cânticos como “Nós nunca iremos para Dublin”. A grande mostra disso foi vista após uma derrota para o Manchester United, em novembro de 1997, quando os torcedores se recusaram a deixar o estádio nas duas horas que seguiram ao apito final, protestando.


Também os jornais deram espaço ao debate. O Irish Times, em sua área do leitor, recebeu cartas defendendo um e o outro lado. O Sr. Brendan Moran argumentou que “a FAI está completamente fora de contato com o público do futebol irlandês ao se opor a uma proposta tão apetitosa. Embora a FAI queira proteger a Liga da Irlanda, ela deve perceber que está literalmente em uma liga diferente[...] Há todo um grupo de fãs de futebol irlandeses que não iriam a um jogo da Liga, mas aproveitariam a chance da Premier League”

A réplica veio através do Sr. Peter Doyle: “A decisão defendeu os interesses do futebol irlandês [...] É duvidoso que Dublin pudesse apoiar uma equipe da Premier League [...] Os fãs de futebol ‘irlandeses’, a que o Sr. Moran se refere, apoiam times como Liverpool e Manchester United, não o Wimbledon [...] O sr. Moran não sabe que Dublin já tem um grande clássico: Shamrock Rovers contra Bohemians?”.

Quem se manteve ambivalente em relação à situação foi Hammam. Ao Irish Times, chegou a dizer que a mudança do Wimbledon “contribuiria para a harmonia e a paz entre as pessoas. Isso vai tirar pessoas das ruas, criar um senso de pertencimento. Há muitas facetas: econômica, emocional, moral, isso é bom para o futebol irlandês”. Em outros momentos, escorregou, mostrando-se incerto e evitando, assim, a ira de seu torcedor. Isso também provocou a interpretação de que ele usava a oferta de Dublin para conseguir a proposta de um estádio em sua própria localidade (London Borough of Merton).

No fim das contas, Milton Keynes Dons


O certo é que a iniciativa não caminhou. A Federação Irlandesa foi categórica ao negar a possibilidade, em defesa da própria liga irlandesa. O consórcio chegou a consultar especialistas na Lei Europeia, destacadamente o advogado Philip Lee e Jean Louis Dupont, patrono de Jean Marc Bosman em seu famoso e revolucionário processo. 

Havia um entendimento de que, segundo as regras da União Europeia, a FAI não poderia tomar tal decisão. Porém, nenhuma medida foi tomada.

Tony O’Neill, secretário geral da FAI, disse ao Irish Times: “Nós não vamos permitir, a FA inglesa não vai permitir, a UEFA não vai permitir. Há muitas ameaças de uso da Lei Europeia sobre nós, mas se você quiser ganhar amigos e influenciar pessoas, você não entra com um bacamarte”. 

A FIFA nem chegou a se manifestar. O estádio nunca saiu do papel e o Wimbledon não seguiu para Dublin. Os Dublin Dons nunca vieram ao mundo da bola e a Premier League seguiu distante da capital irlandesa.

MK Dons Stadium
Foto: Getty Images/Arte: O Futebólogo

Apesar disso, o problema da falta de estádio do Wimbledon não foi resolvido e uma mudança acabaria acontecendo. Antes, em 2000, os Wombles acabariam sendo rebaixados à segunda divisão, de onde não mais sairiam. A situação financeira do time chegou a um ponto em que não era mais possível manter o seu status. 

Em 2003, o clube acabou saindo do sul de Londres. Milton Keynes foi o seu destino. Pouco depois, já em 2004, o Wimbledon passaria a ser chamado MK Dons, mudando também seu emblema e suas cores.

Indignados, os torcedores do Wimbledon não aceitaram a mudança. Acabaram criando o AFC Wimbledon. Com o tempo, conseguiram um terreno em Plough Lane e, no final de 2020, inauguraram um novo estádio para o clube, já na terceira divisão nacional naquela altura. Seja como for, o tempo mostrou que a situação que levou à ideia de o Wimbledon rumar para Dublin tinha algum fundamento. Os Dublin Dons foram uma possibilidade real.

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