quarta-feira, 23 de junho de 2021

O sonho delirante do Norwich nos primórdios da Premier League

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Quando um sonho caminha na direção oposta do que, no senso comum, é tido como possível, é tratado como delírio. O ceticismo desponta forte, diante das baixas probabilidades. No entanto, por alguma razão, esses sonhos, ou delírios, seguem se repetindo. Talvez por haver exceções que justificam a crença no quase impossível. Muito antes de o Leicester viver seu incrível título inglês, o Norwich teve uma experiência similar. Não tão exitosa, mas, sem dúvidas, uma em que nem o mais otimista de seus torcedores apostaria.

Newman Norwich 1992-93
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Descrença no novo e na perda


A temporada 1991-92 foi a última em que a primeira divisão inglesa foi disputada nos moldes antigos, antes do surgimento da Premier League. Em um ano em que o Leeds United fez a melhor campanha, o Norwich suou a camisa para evitar o descenso. Foram apenas três os pontos que separaram os Canários da segunda divisão, da qual não escaparam Luton Town, Notts County e West Ham.

Na altura em que o campeonato terminou, o time de Norfolk já não tinha um treinador efetivo. Dave Stringer, o homem que havia liderado o Norwich entre 1987 e 92, alcançando um quarto lugar em 1988-89, além de duas semifinais da FA Cup, perdera prestígio e seu emprego. Foi o galês David Williams, como jogador-treinador interino, o responsável por conduzir o time ao término da temporada. Já se sabia que, em breve, um novo comandante seria anunciado.

O que não se imaginava era que, desde o princípio, o escolhido teria de lidar com a pressão do torcedor. Em Carrow Road, era quase consensual a ideia de que os Canários precisavam de um treinador experimentado. O último ano, com todo o sofrimento dele advindo, trouxe a ideia de que o clube não poderia servir de laboratório. Era exigida uma certeza. E ela não veio. O Norwich nomeou Mike Walker.

Mike Walker Norwich
Foto: Reuters/Arte: O Futebólogo

Desde o fim de sua curta passagem pelo Colchester United, em 1987, Walker vinha trabalhando no time de reservas dos Yellows. Foi uma solução caseira e com pouca rodagem. Tratava-se de um exemplo bem acabado do que o clube queria evitar. Fazia alguns anos que o Norwich estava na elite do futebol inglês, mas seu torcedor sabia como era incômodo viver a realidade de um time em constante efeito ioiô, subindo e descendo de divisão. E era justamente isso que o cenário sugeria para o futuro próximo.

Se o público já estava desagradado com a chegada de Mike Walker, a sensação de náufrago só aumentou quando o atacante Robert Fleck, artilheiro do time nas últimas três temporadas, foi negociado com o Chelsea. A fase do jogador era tão boa que ele vinha sendo chamado para a seleção escocesa no período. Ao menos o clube recebeu £2,1 milhões pelo jogador, o que era o maior valor pago pelos Blues por um atleta até então.

Além de Fleck, o time também vendeu um de seus talentos mais promissores: Tim Sherwood foi negociado com o Blackburn. Pouco tempo mais tarde, seria campeão inglês pelos Rovers. O cenário era mesmo desolador. Nem mesmo as casas de apostas pareciam ver no Norwich chances de uma boa campanha. Elas pagariam 250/1 caso o time de Norfolk vencesse a liga.

Estão deixando a gente sonhar


O ponto é que o Norwich sabia o que estava fazendo. Existia a noção de qual era o tipo de futebol que Walker gostava de propor. O curioso é que, mesmo sem reforços de peso, o treinador adotou uma postura ofensiva e, até certo ponto, destemida. De relevante, só recebeu a reposição a Fleck. Renegado pelo Manchester United, o atacante Mark Robins não tinha nada de especial, mas provou estar no lugar certo na hora exata.

Mark Robins Norwich
Foto: Getty Images/Arte: O Futebólogo

Robins foi contratado para fazer dupla com um jovem Chris Sutton. De mais a mais, havia uma boa dose de experiência no seio dos Yellows. Representantes da seleção galesa, o meio-campista Ian Crook e o lateral Mark Bowen eram peças importantes. Também a Escócia cedia ao menos um selecionável importante, o goleiro Bryan Gunn. Além deles, o meia David Phillips acabaria se revelando um artilheiro improvável, vital para as pretensões da equipe, e o jovem Ruel Fox desequilibraria pela ponta direita.

Tudo indicava um fracasso retumbante para o Norwich em 1992-93 — inclusive o 2 a 0 que o Arsenal abriu na primeira rodada da Premier League, passados apenas 39 minutos. Seria, entretanto, ali que a mágica começaria a ser produzida. No segundo tempo, Walker promoveu a estreia de Robins, que não tardou a marcar o 2 a 1. Phillips e Fox providenciaram a virada, e foi ele, Robins, quem fechou o placar. Em Londres, no Highbury, Arsenal 2, Norwich 4. Um jogo que merecia constar no famoso Febre de Bola, para a tristeza do gunner Nick Hornby.


“Foi um furacão. Eu só completei minha transferência na manhã da sexta-feira, então tive uma sessão de treinamento com meus companheiros antes de viajarmos a Londres. Conversei com Mike Walker antes do jogo e ele me disse que, diante da preparação que eles tinham feito antes do jogo e por eu ser novo no grupo, começaria no banco [...] Entrei no segundo tempo e conseguimos uma falta. Dave Phillips estava na bola e eu consegui colocar minha cabeça nela e marcar com um de meus primeiros toques”, recordou Robins, ao site oficial do Norwich.

Na segunda rodada, uma nova vítima seria abatida. Os torcedores do Norwich ainda estavam ressentidos com Fleck, que forçara sua saída, quando os Canários subjugaram o Chelsea. O atacante viu a partida das arquibancadas já que, por força de contrato, não podia atuar. A primeira derrota só veio na quarta rodada, um desvio de rota que iniciou um novo período de longa invencibilidade. 

De repente, o Norwich empilhou vitórias. Bateu Crystal Palace, Nottingham Forest, Southampton, Chelsea (outra vez, e agora com Fleck em campo) e Sheffield Wednesday. A seguir, empatou com o Coventry. Os homens de verde e amarelo entraram na 11ª rodada na liderança, perseguidos de perto pelo Blackburn, rival do momento. Era a hora do choque de realidade. Com requintes de crueldade, os Rovers aplicaram um sonoro 7 a 1 ao Norwich. Sherwood esteve nos marcadores, naquela esquecível tarde de sábado.


O Norwich reagiu rápido, vencendo o Queens Park Rangers, embora não tenha tardado a ser novamente massacrado: Liverpool 4 a 1. Mas, com uma reputação digna de fênix, os Canários reagiram rapidamente. Emplacaram uma nova sequência de cinco jogos de invencibilidade. Oldham, Sheffield Wednesday, Aston Villa, e Wimbledon ficaram pelo caminho. O Middlesbrough se safou com um empate.

Concluídas 18 rodadas, o Norwich era líder. Mais do que isso: tinha oito pontos de vantagem em relação ao Blackburn, seu perseguidor mais próximo.

Maldito final de ano


Veio dezembro. Com ele, o sonho dos homens de Norfolk começou a se confirmar apenas um delírio. 

No dia 12, o Norwich visitou o Manchester United. Mark Hughes garantiu um marginal triunfo mancuniano, 1 a 0. Poderia ser apenas um contratempo. Não foi. Na rodada seguinte, os Yellows perderam para seu odiado rival, o Ipswich Town. Depois, somaram empates sem gols com Tottenham e Leeds United, antes de serem derrotados outra vez, 1 a 0, para o Sheffield Wednesday, e de ficarem em igualdade, 1 a 1, com o Coventry.

Vencidas aquelas seis rodadas entre a segunda semana de dezembro e a terceira de janeiro, o Norwich já era o terceiro colocado. Sua vantagem de oito pontos havia sido pulverizada. Aston Villa e United somavam 44, contra 42 dos Canários.


O cenário parecia deixar claro: apesar da boa pontuação, aquele intruso vestido de verde e amarelo não iria a lugar algum. Não foi bem assim. O Norwich se mostrou um time 8 ou 80. Pouco perdeu até o final da temporada, mas as derrotas foram sentidas. Após aquela terrível sequência de seis partidas, o time se recuperou vencendo o Crystal Palace por 4 a 2, embalando um triunfo ante o Everton, na sequência.

Até o final de março, o time se colocou em bom lugar. Foram cinco vitórias, três derrotas e dois empates. Esses resultados devolveram os Canários à segunda colocação. Em especial, na 36ª rodada, superaram o Aston Villa, que o perseguia. O zagueiro John Polston anotou o único tento da partida. 

E quem disse que campeonato de pontos corridos não tem decisão? No início de abril, o Norwich recebeu o Manchester United. Uma vitória devolveria a liderança aos homens de Norfolk. Porém, o time sabia perder. E o treinador Alex Ferguson encontrou a forma ideal de frear aquele azarão. Abandonou Paul Ince à própria sorte na volância, lançando os velozes Andrei Kanchelskis, Ryan Giggs e Lee Sharpe na meia, auxiliados por Eric Cantona e Brian McClair, adiante. 

Era muito fogo para a defesa do Norwich apagar. Em 21 minutos, o placar indicava 3 a 0 para os Red Devils: Giggs, Kanchelskis e Cantona. Foi o suficiente. No segundo tempo, Robins castigaria seu ex-clube, o que não serviria para grande coisa.


“Ainda estávamos no topo, faltando sete ou oito jogos. Os 20 minutos que mudaram tudo foram contra o Manchester United em casa. Honestamente, posso dizer que se tivéssemos vencido naquela noite, teria sido interessante. Mas isso foi um catalisador [...] Talvez não acreditássemos, mas fomos longe porque a pressão não estava conosco, como no Villa ou no United naquele momento [...] Espero estar errado, mas não acho que haverá um time do Norwich que chegará tão perto de vencer a Premier League outra vez”, comentou o meia Ian Crook, em entrevista ao fanzine Along Come Norwich.

Na rodada seguinte, uma derrota por 5 a 1 perante o Tottenham colocou a última pá de cal no sonho do time de Norfolk.

Brilho fugaz


O título não veio para o Norwich. Mas o time conseguiu garantir o terceiro lugar na Premier League. Nas quatro rodadas finais, venceu o Leeds e deu o troco no Liverpool. Voltou a ser vitimado por seu rival, Ipswich, que lutava para não cair, e empatou com o Middlesbrough. Em tese, aquela colocação não garantia vaga em competição europeia. O que era uma pena para o outsider que havia surpreendido tanto durante o ano e que, além disso, teria se classificado para competições continentais nos anos 1980, não fosse o banimento inglês, após a Tragédia de Heysel.

No entanto, o Arsenal, aquele mesmo time que permitiu o sonho aos Canários, renovou as esperanças aos comandados de Mike Walker. Eram duas as vagas inglesas para a Copa da Uefa de 1992-93. Uma entregue via Premier League, a outra por meio da Copa da Liga Inglesa. Esta foi vencida pelos Gunners. O interessante é que o clube londrino também venceu a FA Cup, classificando-se para a Recopa Europeia. Diante da impossibilidade de o Arsenal disputar duas competições continentais, sua vaga na Copa da Uefa foi entregue ao Norwich.

O clube de Norfolk não desapontou, mesmo negociando Phillips com o Forest. Na primeira fase do certame europeu, superou os holandeses do Vitesse. Em seus quadros, os aurinegros levavam ninguém menos que Phillip Cocu e Hans Gillhaus. Nada disso impediu o Norwich de vencer a partida de ida confortavelmente: 3 a 0. Na volta, o 0 a 0 foi suficiente. O melhor estava por vir.

O que seria um azar, em outro contexto, transformou-se em página heróica do time verde e amarelo. Os ingleses tiveram que enfrentar o Bayern de Munique na fase seguinte. A ida, no estádio Olímpico de Munique, terminou 2 a 1 para os visitantes. De nada adiantou aos bávaros contar com jogadores da estirpe do brasilero Jorginho, ou de Christian Ziege, Mehmet Scholl, Lothar Matthäus e Adolfo Valencia. Na segunda mão, bastou o 1 a 1. O Norwich fazia história ao despachar o poderoso Bayern, em sua primeira aparição em competições continentais.


Porém, sua história pararia por ali. Na fase de 16 avos de finais, os Canários enfrentaram a Internazionale. Mesmo em má fase, a equipe treinada por Osvaldo Bagnoli tinha uma reserva de talento com que Walker só poderia sonhar. Dennis Bergkamp foi o autor dos dois gols da eliminatória, confirmando o 1 a 0 de ambas as partidas da eliminatória.

Ao final da participação europeia do Norwich, Mike Walker começou a se desentender com o presidente do clube, Robert Chase, que não tinha pudor para negociar jogadores sem consultar o treinador. Não demorou a pedir o boné e seguir para o Everton. Aliás, em 1993-94, o clube também voltaria a viver sua realidade na Premier League, terminando o certame na 12ª posição.

Com o fim da disputa, veio, ainda, o êxodo do time, que já tinha perdido Fox no meio da temporada terminada. Sutton fechou com o Blackburn; Robins seguiu para o Leicester; e o jovem Efan Ekoku, contratado na parte final da campanha de 1992-93, rumou para o Wimbledon. Assim, em 1994-95, o Norwich retornou à Championship, em um desfecho triste para um time que, pouco antes, voou tão alto.

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