quarta-feira, 30 de junho de 2021

Em 1985-86, o primeiro reinado do PSG na França

Quem nunca ouviu falar que para tudo há uma primeira vez? Para ser bi, tri ou tetracampeão, é necessário, antes de mais nada, alcançar a glória inaugural. O Paris Saint-Germain ainda era um time jovem quando começou a engrossar sua história; sequer havia completado a maioridade. Contudo, já carregava as pressões inerentes ao fato de representar uma cidade como Paris. Foi um time talentoso, com um treinador jovem e sedento por vitórias, que rendeu a França às ambições daquele novo time.

PSG 1985-86
Foto: PSG/Arte: O Futebólogo


Uma novidade quente


Tudo começou em 1970, quando o Paris Football Club se fundiu ao Stade Saint-Germain. Naquela altura, era colocado em marcha o plano de entregar à Cidade Luz um time que estivesse à altura de sua representatividade. Até o princípio dos anos 1980, muita coisa aconteceu, rapidamente. Liderado por Jean Djorkaeff, o pai de Youri, o time não tardou a chegar à primeira divisão. Também não demorou a sofrer uma ruptura sentida, com o Paris FC sendo desmembrado, o que ocasionou um rebaixamento à terceira divisão.

O time conviveria com problemas financeiros, se reergueria, retornaria à elite, se mudaria para o Parc des Princes, e contrataria suas primeiras grandes estrelas — o argentino Carlos Bianchi e o argelino Mustapha Dahleb. Tudo isso com o auxílio financeiro e de gestão do presidente Daniel Hechter, designer de moda que entrou no clube em 1973. Os primeiros títulos ainda demorariam um pouco para chegar, assim como o senso de rivalidade entre o clube e os times historicamente mais tradicionais do interior.

Bianchi PSG
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

No final da década, Hechter seria afastado do futebol por se envolver em esquema de corrupção, sendo substituído por seu vice, Francis Borelli. Seria durante sua presidência que as primeiras taças seriam conseguidas. Uma estrela contratada durante sua gestão diria bastante sobre os rumos buscados pelo clube. Direto do multicampeão Saint-Étienne, o time de Michel Platini, chegou o atacante Dominique Rocheteau, outrora conhecido como o Anjo Verde.

Os anos 1980 foram um período de novidades. Em 1981-82, o PSG conquistou seu primeiro título de relevo. A Copa da França veio com estilo. Os parisienses eliminaram Olympique de Marseille e Bordeaux no caminho. Na decisão, superaram o Saint-Étienne, que não tinha apenas Platini, mas também selecionáveis como Patrick Battiston e o holandês Johnny Rep. Além disso, os Verts não engoliram o fato de que a partida se encaminhou às penalidades após um empate dramático, no último minuto da prorrogação, cortesia de ninguém menos do que Rocheteau.

Rocheteau PSG
Foto: Icon Sport/Arte: O Futebólogo

No ano seguinte, o PSG fez sua primeira aparição em competições europeias. Também apostou suas fichas na contratação daquele que é, talvez, o maior ídolo do AZ Alkmaar, o centroavante Kees Kist. O holandês não renderia muitos frutos, já o outro grande reforço da temporada… Safet Sušić se transformaria em um dos atletas mais importantes da história dos parisienses.

O time não chegou a ir muito longe na Recopa, mas renovou o título da Copa da França, superando agora o Nantes, de Vahid Halilhodžić. Esses resultados começaram a construir uma reputação incômoda para os parisienses. Como o defensor Jean-Marc Pilorget, jogador que mais representou o PSG na história, contaria ao Le Parisien, os parisienses eram “taxados como um time de copa”.


Chega Gérard Houllier


As temporadas de 1983-84 e 1984-85 não foram das mais animadoras para o torcedor do PSG. O time não manteve o pique vencedor e, embora tenha jogado torneios continentais nos dois anos, não foi longe em nenhum dos dois momentos. Em 1985, o time fechou a primeira divisão francesa em 13º lugar. A troca de comando era algo esperado, mas Gérard Houllier passava longe de ser o nome mais celebrado.

Houllier tinha 37 anos quando assumiu o PSG. Vinha de uma passagem sólida de três anos pelo Lens. Porém, era o Lens, um time com poucas aspirações e que costumava subir e descer de divisão constantemente. Naquele ano, o time parisiense também contratou cinco peças que rapidamente se tornariam titulares. A mais famosa e importante seria o goleiro Joël Bats. O arqueiro do Auxerre havia sido o titular da seleção francesa no título da Euro 1984.

“Houve certos temores, mas como treinador ele se adaptou muito rápido, levou todos atrás de si, graças a seus métodos, suas ideias inovadoras, mas, acima de tudo, pelo seu lado humano”, contou Luis Fernández, ao L'Equipe. “Gérard sempre tinha um sorriso e tinha muito conhecimento de futebol. Não é acaso que tenha tido uma carreira excepcional”, completou Sušić , também ao L’Equipe.

Gerard Houllier PSG
Foto: La Voix/AFP/ Arte: O Futebólogo

Também chegaram ao clube dois atletas do Nantes, que vinham sendo convocados no período: o lateral direito Michel Bibard e o volante Fabrice Poullain. O ponta holandês Pierre Vermeulen seria outra contratação importante, vindo do MVV Maastricht. Por último, o meia senegalês Oumar Sène se revelaria peça importante, embora nem sempre fosse titular. Exceto Vermeulen, os demais passariam longo período no time da capital francesa.

Esses jogadores se juntaram a uma base que já tinha Pilorget e Philippe Jeannol na retaguarda, contando com muita qualidade técnica na meia cancha, providenciada pelo citado Sušić e por seu capitão, o referente volante Luis Fernández, membro do famoso Carré Magique, na seleção francesa. Na frente, Rocheteau vivia um ótimo momento. Se o PSG não vivera uma grande campanha em 1984-85, o atacante tivera bom desempenho, marcando 15 tentos. A maior parte dos gols marcados pelo PSG em 1985-86 ficaria concentrado nesses três nomes: Rocheteau, Sušić e Fernández.

Gérard Houllier teve os méritos de, rapidamente, encaixar os novos contratados na estrutura do time. Estava claro que o talento já se encontrava em Paris, mas faltava a consistência entregue pelas últimas adições. “Houllier conseguiu formar um grupo de ótimo nível técnico-tático e mental. Tivemos uma explosão por um ano. Tínhamos uma força interior, sentíamos que nada poderia acontecer conosco [...] Desde o início sentimos uma força individual e coletiva que nos permitiu ir até o fim”, contou Pilorget ao portal Archide.

Liderança de ponta a ponta


Quando se desenhou a disputa do Campeonato Francês, o time do PSG já estava pronto para corresponder desde o início. Na estreia, mostrou a confiança de um time que poderia celebrar seus 15 anos com um título nacional. Os parisienses viajaram à Córsega e voltaram de lá com uma vitória expressiva ante o Bastia: 4 a 2 (que foi um 4 a 0 até os 70 minutos de jogo). Rocheteau mostrou que não estava para brincadeiras ao marcar duas vezes.

Foi apenas por uma questão de critérios de desempate que os parisienses não lideraram o certame nas duas primeiras rodadas. Primeiro, o PSG ficou em segundo porque o Toulouse venceu o Nancy na rodada inaugural por 4 a 1. Depois, em razão de o Lens ter massacrado o Bastia na segunda rodada, 6 a 0, somando muitos gols ao seu saldo. Contudo, já na terceira rodada o PSG assumiu a liderança, após superar o Toulouse. Dali em diante, não mais perderia o posto.

A bem da verdade, o time emplacou uma sequência assombrosa de invencibilidade. O Paris Saint-Germain só perdeu na 20ª rodada, ao visitar o Lille. Ou seja, os comandados de Houllier passaram de passagem pelo primeiro turno. E o mais curioso é notar que, na verdade, foram 26 rodadas de invencibilidade, já que a partida frente ao Lille foi disputada tardiamente. A grande marca do time acabaria sendo a consistência. Conseguiu ser extremamente prolífico à frente das balizas rivais, registrando 66 gols, o máximo da competição, sem se descuidar na retaguarda, concedendo 33 tentos que lhe valeram o posto de segunda melhor defesa.

Susic PSG
Foto: PSG/Arte: O Futebólogo

O segundo turno reservou derrotas pontuais. Além da primeira, diante do Lille, o PSG perdeu economicamente para Nancy e Strasbourg (1 a 0), para o Nantes (2 a 0) e perante o Metz (3 a 1). É bem verdade que o Nantes se mostrou um competidor à altura, duro na queda. Além de Halilhodzic, contava com o talento de José Touré e de Jorge Burruchaga. Ao final, a tabela registrou uma diferença mínima, de apenas dois pontos.

O título foi confirmado contra o Bastia, que passou à história como o coadjuvante que perdeu o primeiro e o último confrontos da inesquecível campanha parisiense. O curioso é que o time da capital chegou a viver circunstâncias insólitas. A mais lembrada aconteceu na citada derrota para o Metz. Bats se lesionou e foi substituído por Fernández, um jogador de linha.

Fernandez Gk Metz
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

"É a maior recompensa da minha carreira. Para colocar uma performance desta, você precisa ter homens de qualidade. Os jogadores do Paris Saint-Germain são talentosos e merecem o título", disse Houllier, após a conquista.


Naquele ano, Bats e Pilorget jogaram rigorosamente todos os jogos do time, seguidos de perto por Jeannol, Fernández e Sušić, que falharam apenas uma partida. Com 19 gols, Rocheteau foi o vice-artilheiro do Campeonato Francês, ficando atrás apenas de Jules Bocandé, do Metz, que anotou 23 tentos. O ano só não foi melhor porque o PSG foi eliminado nas semifinais da Copa da França, para o Bordeaux, na altura treinado por Aimé Jacquet e tendo como destaques René Girard, Jean Tigana e Alain Giresse.

“Foi excepcional. Especialmente porque ainda éramos um clube bem jovem. Eu cresci aqui, na academia de base em Camp des Loges. Cresci com jogadores como Carlos Bianchi, Mustapha Dahleb, os primeiros grandes jogadores do Paris Saint-Germain. Jean-Pierre Dogliani também. E nossos presidentes naquele tempo: Daniel Hechter e Francis Borelli. Era um clube jovem e subimos os degraus, um por um. Ser o capitão do Paris Saint-Germain e vencer o troféu é fantástico e, definitivamente, nada fácil [...] Quando vencemos a liga, foi como se toda a sua vida passasse na mente, de onde você veio, a infância, todo o trabalho duro”, comentou Fernández, em entrevista ao site oficial do PSG.
PSG Bastia 1985-86
Foto: PSG/Arte: O Futebólogo

Crise e chegada no Canal+


Apesar do sucesso em 1985-86, o que se viu na sequência não foi uma história de continuidade. Em 1986-87, os parisienses terminaram o Campeonato Francês em sétimo lugar. Em sua primeira disputa da Copa dos Campeões da Europa, fracassaram retumbantemente, perdendo para os tchecos do Vitkovice, já na primeira rodada. No ano seguinte, a situação seria ainda pior, com o PSG finalizando o campeonato nacional na 15ª rodada, tendo lutado contra o rebaixamento.

Em setembro de 1987, Houllier seria demitido, sendo recontratado em fevereiro de 88. Não permaneceria por muito tempo, entretanto. Ao final da campanha de 1987-88, seria substituído pelo iugoslavo Tomislav Ivić.


Simultaneamente, o Racing Paris despontou com investimentos robustos. Em pouco tempo, os times começaram a disputar o posto de mais bem-sucedido da capital francesa. Para competir com o time que contratava gente como David Ginola, Enzo Francescoli e, o pior, Luis Fernández, o PSG investiu pesado e foi à bancarrota. Pressionado também pelos novos sucessos do rival Olympique de Marseille, de Bernard Tapie, o time gastou o que não tinha.

No período, foram contratados Halilhodzic, Gabriel Calderón, Ray Wilkins… À beira da falência, mesmo tendo sido vice-campeão em 1988-89, o presidente Borelli se viu em um beco sem saída. A torcida do PSG exigiu sua demissão. Em 1991, negociou o clube com o Canal +. Ali, se iniciou uma nova fase para o clube, que contrataria jogadores como os brasileiros Ricardo Gomes, Valdo e Raí, além do futuro melhor do mundo, George Weah. Novos títulos chegariam. Entretanto, ali, o Paris Saint-Germain já sabia como vencer: aprendera em 1985-86.

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