quarta-feira, 4 de agosto de 2021

De Zagreb para o mundo: a revolução do 3-5-2 de Ciro Blazevic

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As dinâmicas de um esporte como o futebol, dificilmente, permitem que se nomeie o autor de uma inovação tática. Quando o assunto é a gênese do 3-5-2, costuma-se dizer que o alemão Sepp Piontek, quando comandou a Dinamarca na Euro 1984, foi seu criador. Outro que, corriqueiramente, vê seu nome ligado ao invento é o argentino Carlos Bilardo, líder de seu país no Mundial de 1986. Não é possível garantir quando o esquema foi visto pela primeira vez. Porém, nesse debate, o nome de Miroslav “Ciro” Blazevic não pode deixar de ser mencionado.

Ciro Blazevic Dinamo
Foto: MN-Press/Arte: O Futebólogo


Para um homem peculiar, uma vida peculiar


Miroslav Blazevic veio ao mundo em 1935, na Iugoslávia. Embora seja filho da cidade de Travnik, localizada em território bósnio, nasceu em família católica e adotaria, mais tarde, o passaporte croata. Desde o princípio de sua vida, esteve ligado ao esporte. Contudo, o futebol não foi o seu primeiro amor. Em 1952, o adolescente Ciro se tornou o primeiro não esloveno a vencer o torneio iugoslavo de esqui cross-country, de juniores. Dois anos mais tarde, já era ponta direita do Dinamo Zagreb.

A carreira de Blazevic nunca decolou, embora tenha passado por clubes como Lokomotiva Zagreb, Sarajevo, Rijeka e Sion. Tinha apenas 31 anos quando pendurou as chuteiras, após sofrer uma grave lesão no joelho. Ali, entretanto, o iugoslavo já tinha um plano para a continuidade de sua trajetória no esporte. Após o final de sua carreira, quando atuava pelos suíços do Moutier, permaneceu no país que o acolheu e, dois anos mais tarde, já era o treinador do Vevey United: “Em quatro anos, os levei à primeira divisão”, comentou o líder, em entrevista ao site da Uefa.

Sobre esse momento histórico, Jonathan Wilson, em A Pirâmide Invertida, conta uma anedota curiosa. À época, Ciro dividia as atenções entre o futebol e o labor em uma loja de relógios: “Um dia, em 1968, pouco depois de ter sido nomeado técnico do Vevey, uma senhora o viu varrendo o chão do vestiário. ‘Por que está fazendo isso?’, ela perguntou. ‘Não é seu trabalho. Você é o técnico’. ‘Sim, eu sou o técnico’, Blazevic respondeu, ‘e um dia eu serei o técnico da seleção suíça.’ A senhora riu. ‘Sim, claro’, ela disse. ‘E um dia eu serei a Miss Suíça’”.

Foi em ambiente helvético que o treinador se desenvolveu. Durante os anos 1970, reencontrou-se com o Sion, e treinou o Lausanne-Sport, clube que deixou em 1979. Nesse ínterim, chegou a liderar a seleção suíça, como interino, em 76. No fim das contas, a senhora da história estava mesmo errada. No final da década, o comandante entendeu que era chegada a hora de se provar em seu próprio território.

Ciro Blazevic
Foto: Reprodução/These Football Times/Arte: O Futebólogo

Foi no Rijeka que começou a construir seu nome em solo croata. A temporada 1979-80 não seria das mais frutíferas no Campeonato Iugoslavo. Por vezes identificados como a terceira força de sua nação, os Riječki bijeli vinham de um bicampeonato da Copa da Iugoslávia, além de uma conquista na Copa Balcânica. O momento era positivo, mas a passagem de Blazevic teve um sabor agridoce.

A sequência de títulos do Rijeka foi interrompida. Eliminado na primeira fase da Copa da Iugoslávia pelo Sarajevo, o time apenas manteve o 10º lugar no campeonato nacional, mesma colocação da temporada anterior (em que pese ter terminado à frente do Dinamo Zagreb, vice-campeão no último ano). Apesar disso, classificado à Recopa Europeia, o time protagonizou sua melhor participação em competições continentais na história.

Na primeira fase, eliminou os belgas do Beerschot VAC; no placar agregado, 2 a 1. A seguir, o Rijeka vitimou os tchecos do Lokomotiva Košice, revertendo uma desvantagem original de 2 a 0, em mostra de força e espírito. Os croatas avançaram às concorridas quartas de finais do certame, vendo-se ladeados por clubes como Dinamo de Moscou, Nantes, Barcelona, Valencia, Arsenal, Goteborg… e Juventus. A equipe italiana acabou sendo algoz de Blazevic. Em casa, o Rijeka fez um jogo histórico. No que foi seu recorde de público na temporada, o time segurou o 0 a 0. Porém, em Turim, Franco Causio e Roberto Bettega decretaram o avanço da Vecchia Signora.


Conexão Zagreb


A estadia de Ciro Blazevic no Rijeka durou pouco. Em dezembro de 1980, assumiu o Dinamo Zagreb. Estava chegando a hora da revelação. Fazia 23 anos que os azuis não venciam a liga iugoslava e o momento era ruim. Quando chegou, o time havia sido eliminado da Recopa Europeia, perdendo para o Benfica na primeira fase, e era o 14º colocado na competição: acumulava quatro vitórias, seis derrotas e sete empates. O regulamento do torneio trouxe a sorte de que o treinador precisava, para construir as fundações de um trabalho de sucesso.

Com a primeira metade do Campeonato Iugoslavo encerrada em dezembro de 1980, houve tempo para Blazevic se ambientar e treinar. O retorno só aconteceu em março do ano seguinte. Uma impressionante campanha de recuperação foi colocada em marcha. Depois de um início fraco, com dois empates e duas derrotas, o gigante iugoslavo acordou. Da 22º rodada até o final, somou oito vitórias, dois empates e três derrotas. Os zagrebinos terminaram a disputa em 5º lugar.

Foi na temporada 1981-82 que a maior contribuição de Blazevic para o futebol foi forjada. Com mais tempo para trabalhar, e moralizado pela recuperação alcançada na campanha anterior, o técnico pôde renovar o elenco e testar coisas que, até então, vinham sendo maturadas em sua cabeça. Inabalavelmente convicto em suas ideias, o comandante pôs em prática um estilo de jogo que apostava em uma pressão vertiginosa, que não deixava seus adversários respirarem. O mais importante, entretanto, foi o meio utilizado para alcançar esse fim.

Blazevic Miroslav Dinamo
Foto: Acervo pessoal/Ciro Blazevic/Arte: O Futebólogo

“Meu filho, deixe-me lhe contar a verdade [...] O 3-5-2 foi inventado em 1982, por Ciro Blazevic”, contou o próprio treinador ao citado Jonathan Wilson. Isso mesmo, aquele Dinamo Zagreb se reestruturou a partir de um esquema com três zagueiros. Os adversários simplesmente não entendiam o que os azuis faziam em campo. Diante de um cenário em que a maioria dos times ainda exibia um 4-3-3 bem claro, com extremos e um centroavante típico, o projeto de Blazevic surgiu como uma aberração — um absurdo bem-sucedido.

Na prática, qual foi a ideia de Blazevic? Contando com os retornos do inteligente atacante Zlatko Kranjcar e do forte beque Ismet Hadzic, após cumprirem suas obrigações militares, o técnico viu que era possível potencializar o coletivo do time. Apostando no talento de Velimir Zajec, um volante que podia atuar na zaga, revitalizou o líbero no futebol iugoslavo, algo muito utilizado no passado — como a história de Velibor Vasovic, capitão do Ajax no primeiro título europeu do time, não deixa mentir. Abriu os zagueiros (fortes e rápidos), acomodou Zajec entre eles, transformou os pontas em alas muito ofensivos e um meio-campista ofensivo em atacante.

Outro princípio importante para o treinador era a ocupação dos espaços. Seu time se posicionava alto no campo, postando-se compactado. Blazevic já adotava uma ideia que ficaria famosa através de sua aplicação por Arrigo Sacchi, no Milan: o time se fecha na fase defensiva e, como uma sanfona, se espalha ao atacar: “Não pode haver profundidade sem largura”, registrou Blazevic no Guardian.

Aclamação na Croácia, além do Dinamo Zagreb


O time que nenhum adversário conseguia marcar alcançou os resultados desejados. Em 1981-82, o Dinamo Zagreb fez um grande Campeonato Iugoslavo. Somando 20 vitórias, nove empates e apenas cinco derrotas (sendo quem mais venceu e menos perdeu), fez 49 pontos — cinco a mais do que o vice-campeão Estrela Vermelha, que era o detentor da coroa e buscava o tricampeonato. Com 19 gols, o atacante Snješko Cerin foi o artilheiro da disputa.

Durante a campanha, os zagrebinos conseguiram alguns resultados fantásticos, com o 7 a 0 imposto ao NK Zagreb, ou o 3 a 0, ante o Estrela Vermelha, no começo do segundo turno. As ideias de Blazevic eram um sucesso e o Dinamo quebrou seu jejum de 24 anos sem vencer o Campeonato Iugoslavo. No ano seguinte, os azuis acabariam com a terceira posição, mas venceriam a Copa da Iugoslávia. Então, Ciro começaria a percorrer o trajeto que o levaria ao maior dos reconhecimentos.

Em 1983-84, retornou à Suíça. Agora liderando o Grasshopper, venceu o Campeonato Suíço. De lá, voltaria à Iugoslavia para treinar o Prishtina. Teria uma segunda e, mais tarde, uma terceira passagens pelo Dinamo Zagreb. Viajaria à França e à Grécia, comandando Nantes e PAOK. Até que chegou o ano de 1994.


Independente desde 1991, e reconhecida pela FIFA no ano seguinte, a Croácia buscava se firmar no cenário do futebol de seleções. Boa parte dos jogadores que representavam a Iugoslávia afirmou lealdade aos axadrezados, que, como que da noite para o dia, tinham um time competitivo. Após seus sucessos por clubes, Blazevic foi o escolhido para liderar o país nas suas primeiras missões internacionais.

“Para tomar uma decisão sobre formações e táticas, você precisa levar em conta três fatores: 1) as características dos jogadores à disposição; 2) a tradição; 3) o encaixe dos fatores 1 e 2 no sistema de jogo. Só um técnico ruim chega a um clube e diz ‘vou jogar com tal sistema’, sem respeitar os atributos dos jogadores do elenco. Só um técnico ruim se torna uma vítima do sistema”, afirmou Blazevic, também em entrevista a Jonathan Wilson.

O despertar croata… em 3-5-2


As Eliminatórias para a Euro 1996 representaram o primeiro desafio de Ciro. O time de futebol da Croácia era visto como embaixador do país, em sua busca por reconhecimento internacional como nação independente. O país foi muito bem nas qualificatórias, alcançando a liderança de seu grupo, que contava com a Itália. Na competição, voltou a fazer bom papel, avançando às quartas de finais e caindo para a Alemanha. Foi a primeira mostra de força do país.

Dois anos mais tarde, classificada à Copa do Mundo da França, a Croácia alcançaria o auge daquela geração: semifinalista, foi superada pela anfitriã e eventual campeã, mas conseguiu o terceiro lugar, superando a Holanda. Depois do triunfo ante a Alemanha nesse mundial, Ciro Blazevic proferiria uma de suas mais célebres frases: “No meu país, só o presidente manda mais do que eu. Depois desta vitória, acho que posso equiparar-me a ele”, registrou o Jornal de Notícias. Amigo pessoal de Franjo Tudjman, ele podia dizer essas coisas.

Croatia Miroslav Ciro Blazevic
Foto: Acervo pessoal/Ciro Blazevic/Arte: O Futebólogo

Tanto a equipe de 1996 quanto a de 98 tinham uma proposta de jogo peculiar: atuavam com três zagueiros, dois alas muito ofensivos, meias criativos e uma dupla de atacantes. Lembra-se do Dinamo Zagreb de 1981-82?

“Não digo que era bom ou mau treinador, mas era o ideal para nós. Ele nos motivava gradativamente. Em sua cabeça, ele sabe que todo dia vai causar um pequeno incidente para acordar a todos, e então ele fará isso, depois dirá a todos para irem a uma boate”, contou ao Guardian Slaven Bilic, defensor à época e que se tornaria treinador mais tarde, muito influenciado por Blazevic.

O ciclo do treinador à frente da Croácia durou até 2000, quando, depois de o país não conseguir a classificação à Euro daquele ano, um mau início nas Eliminatórias para o Mundial de 2002 colocou um ponto final naquela história. Dali em diante, Blazevic seguiria na ativa por muitos anos, carregando sua personalidade peculiar pelos mais distintos lugares, do Irã à China, eventualmente retornando à Bósnia e à Croácia. Como disse Bilic, ele pode não ter sido o treinador perfeito. Também pode não ter sido o inventor do 3-5-2. Mas ninguém pode dizer que ele não influenciou o futebol.

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