quarta-feira, 1 de setembro de 2021

O Rangers que invadiu Barcelona buscando a glória europeia

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A Escócia tem na cidade de Edimburgo sua capital. Porém, quando o assunto é o futebol, não há lugar que pulse mais do que Glasgow, onde Celtic e Rangers dividem a hegemonia nacional. Além da localidade, a única coisa que os une é o ódio nutrido mutuamente. Ou seja: o sucesso sem precedentes de um rival equivale a um sofrimento colérico de seu antagonista. Foi diante de um cenário como esse que o Rangers conquistou um título europeu, dando ao seu povo motivos para celebrar, em meio ao domínio do Celtic.

Willie Johnston Rangers Dinamo
Foto: Colorsport/Rex/ Arte: O Futebólogo


O Celtic vivia o melhor momento de sua história


Fazia mais de uma década que o Celtic não conquistava o Campeonato Escocês, quando oportunizou a Jock Stein a chance de se tornar o maior técnico da história do clube. Claro, ele não tinha como saber que o destino lhe reservaria tal lugar no panteão verde e branco, especialmente considerando que se tratava de um homem protestante (o primeiro) treinando um time com raízes católicas. Contudo, tinha a confiança necessária para apostar suas fichas em um time formado em Parkhead, na incansável busca por frear o Rangers, que vinha dominando a cena local. Era o ano de 1965 e as coisas saíram melhores do que a encomenda.

Stein assumiu o comando dos Bhoys em março, no apagar das luzes da temporada 1964-65, e, mesmo que o título escocês já estivesse perdido, o Celtic ainda conseguiu superar o Dunfermline Athletic, vencendo a Copa da Escócia. Aquele time já contava com jogadores como Tommy Gemmell, Bertie Auld e Bobby Lennox. No ano seguinte, na primeira campanha completa sob a direção de Jock, mais títulos viriam. Em especial, o Celtic venceu seu primeiro escocês desde 1953-54, iniciando uma senda que seria concluída com um eneacampeonato consecutivo.

Como se já não fosse suficientemente ruim para um torcedor do Rangers acompanhar o crescimento de um abismo nacional entre os rivais, os Hoops ainda alcançaram a glória maior, em 1966-67. A Internazionale era a herdeira do trono europeu, sucedendo Real Madrid e Benfica. Tratava-se, portanto, de um adversário poderoso, treinado pelo famoso Helenio Herrera. Entretanto, o Celtic fez o suficiente para vencê-la e se sagrar campeão continental, sendo o primeiro britânico a subir ao olimpo do continente. Aliás, três temporadas mais tarde os homens de Stein voltariam à decisão da Copa dos Campeões, sendo, contudo, derrotados pelo Feyenoord, na prorrogação.

Celtic 1967
Foto: Celtic TV/Arte: O Futebólogo

Nesse período, o Rangers celebrou parcas conquistas de copas nacionais, insuficientes para aplacar o sentimento de inferioridade que foi crescendo conforme seu rival dominava o futebol escocês. Além disso, nos anos 1960, os Gers ainda viveram, por duas vezes, a chance de conquistar a Recopa Europeia. Perderam a edição inaugural para a Fiorentina, e, seis anos mais tarde, voltaram a cair, agora perante o Bayern de Munique — seis dias depois de acompanhar o triunfo do Celtic perante a Inter.

Aquilo era duro demais, especialmente considerando que, em janeiro de 1965, pouco antes da chegada de Stein ao Celtic, o Daily Mail profetizava que o Celtic estava “ficando tão para trás pelo Rangers, que isso não é mais uma corrida”, como registrou o Guardian. O lado azul de Glasgow foi do céu ao inferno no espaço de meses.

Waddel, o Desastre de Ibrox e uma sorte


A vida do Rangers começou a mudar em 1969-70, quando Willie Waddell foi nomeado o treinador do time. Atleta dos Gers entre 1939 e 55, o antigo ponta direita acumulara 201 jogos pelo time que lhe rendeu sua estreia profissional aos 17 anos. Dentro dos campos, vencera quatro vezes o Campeonato Escocês, e, em duas oportunidades, a Copa da Escócia. Por outro lado, fora um inesperado título nacional pelo Kilmarnock, em 1964-65, que o credenciara para assumir aquela missão como treinador.

O novo boss substituiu David White, a quem vinha tecendo críticas públicas. White tinha 34 anos quando assumiu o Rangers, o que levou seu eventual sucessor a, repetidas vezes, chamá-lo de “o garoto David”, como registrou o Daily Express. De fato, o contraste de sua inexperiência com a tarimba de Waddell não demorou a chamar atenção. Sandy Jardine, um dos pilares do Rangers entre os anos 1960 e 80, notaria que a primeira contribuição de Willie para o time foi a recuperação do sentimento do que era ser um Ranger, do que a tradição e história do clube representavam.

Willie Waddell Rangers
Foto: Glasgow Times/Arte: O Futebólogo

Waddell trouxe consigo seu auxiliar, Jock Wallace, um homem que se responsabilizou pela preparação física e que, na hora certa, receberia o reconhecimento merecido. 

Ainda assim, o ressurgimento do Rangers não aconteceria com a mesma velocidade que o do Celtic, quando da chegada de Jock Stein. A primeira conquista do novo chefe aconteceu em outubro de 1970, quando um magro triunfo ante seu maior rival, 1 a 0, diante de uma multidão de 106 mil pessoas, que lotaram o estádio Hampden Park, assegurou ao clube a Copa da Liga Escocesa. O gol foi marcado por um tal Derek Johnstone que, aos 16 anos, tornou-se o mais jovem a marcar em uma final de competição britânica.

Não obstante, o saldo da temporada 1970-71 não seria dos melhores. No dia 2 de janeiro de 1971, o Estádio de Ibrox recebeu o Dérbi da Velha Firma de Ano Novo, uma tradição no país. Um pouco antes do final do jogo, o marcador indicava vantagem do Celtic. Porém, quando as cortinas já se fechavam e o público abandonava o teatro, o Rangers empatou.

A torcida dos Gers deixou o estádio extasiada. Não contavam que, conforme milhares de pessoas desciam as escadarias do Portão 13, alguém cairia (provavelmente uma criança dos ombros de seu pai), originando um lamentável efeito dominó que teria como saldo a morte de 66 pessoas. Anos antes, em 1963, já haviam sido levantadas dúvidas quanto à segurança daquele portão, mas nenhuma ação foi tomada na oportunidade. O desastre levou o Rangers a providenciar reformas, inspiradas no Westfalenstadion, casa do Borussia Dortmund.

Ibrox Disaster 1971
Foto: Newsquest Media Group/Arte: O Futebólogo

Como se a temporada já não fosse suficientemente ruim, os homens de azul ainda terminariam o Campeonato Escocês em quarto lugar, perdendo, também, a Copa da Escócia, para o Celtic. No entanto, dessa dupla de derrotas viria uma sorte, que definiria os caminhos do clube na temporada 1971-72.

Anti-jogo?


Tendo vencido a liga, o Celtic se qualificou à disputa da Copa dos Campeões da Europa, sendo obrigado a renunciar à vaga na Recopa, alcançada a partir do título da Copa. Como vice-campeão desse certame, o Rangers herdou o lugar na competição continental. Aquele não era um prêmio de consolação qualquer. A disputa tinha prestígio internacional e, sobretudo diante dos sucessos recentes do rival alviverde, uma conquista poderia entregar novos ares para os Gers respirarem. Mais do que isso, no ano de seu centenário, o Rangers queria comemorar apropriadamente.

Na primeira fase da Recopa, os escoceses enfrentaram os franceses do Rennes. Os Rouge et Noir carregavam a fama de praticar um jogo técnico e veloz. Mas Waddell estava preparado para tudo. Na partida de ida, o Rangers entrou forte, marcando seus adversários como se sua vida dependesse daquilo — do lateral direito ao centroavante. Assim, assegurou um empate comemorado, 1 a 1.

Rangers Rennes 1972
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Como o Guardian registraria, o irresignado treinador do Rennes, Jean Prouff, atacaria os Gers: “Eles vieram aqui apenas para nos impedir de jogar futebol. Iremos a Glasgow e mostraremos como o futebol deve ser jogado”. Nada feito: na Escócia, um solitário tento de Alex MacDonald garantiu o avanço dos escoceses. Vindo na sequência estava um dos favoritos ao título, o Sporting, de Héctor Yazalde e Vitor Damas.

Os dois encontros foram equilibrados. A primeira perna foi disputada em solo britânico. Com 30 minutos da etapa inicial ultrapassados, Colin Stein (duas vezes) e Willie Henderson haviam entregue uma bela vantagem aos Gers, 3 a 0. Todavia, Chico Faria e Wágner diminuíram para os lisboetas, mantendo a eliminatória em aberto.

Na segunda perna, o que se viu foi a mais completa insanidade, depois de já ter havido turbulência na viagem, já que o Rangers só conseguiu aterrar em Portugal 24 horas antes da partida, devido a uma greve no aeroporto local. No tempo normal, a partida acabou 3 a 2, indo à prorrogação. Henderson e Peres anotaram mais dois tentos, um para cada lado. Placar final? 4 a 3 Sporting, no agregado, 6 a 6. Pênaltis ou avanço escocês pelo critério dos gols marcados fora de casa?


Sem convicção, e pressionado pelos torcedores sportinguistas que se aglomeraram às margens do campo de jogo, aumentando a sensação de panela de pressão, o árbitro holandês, Laurens van Ravens, ordenou a disputa de pênaltis, com eventual vitória portuguesa. Contudo, a regra dizia que o Rangers deveria avançar, pois marcara três vezes em Lisboa. 

Quando os jogadores já se encontravam desolados nos vestiários, receberam a salvadora notícia: “Me lembro de estar sentado no vestiário, e de as cabeças estarem baixas. Então, o jornalista John Fairgrieve entrou e nos disse que avançamos”, comentou o atacante Willie Johnston, ao Daily Record. “Todos pensaram que estávamos fora, até mesmo o Waddell”, acrescentou.

O saldo daquela eliminatória só não foi melhor, porque o Rangers deixou a capital lusitana como uma baixa grave: Ronnie McKinnon quebrou a perna.

Insanidade absoluta na parte final


Depois de eliminar o Torino, aplicando um remédio inesperado ao Catenaccio de Gustavo Giagnoni — a tática escocesa ficaria conhecida como McCatenaccio, consistindo no fortalecimento da retaguarda, com mais um zagueiro e um líbero —, o time era esperado pelo Bayern de Munique. Os alemães não só eram temidos pela vitória na final da Recopa Europeia ocorrida na década anterior, mas por terem um verdadeiro esquadrão ao seu dispor, com Franz Beckenbauer, Paul Breitner, Franz Roth, Uli Hoeness e Gerd Muller.

Há quem diga que o Rangers só conseguiu se superar porque tinha melhor condicionamento físico do que o Bayern. Ponto para Jock Wallace. A partida de ida, conforme se conta, foi um vareio dos germânicos, mas, eventualmente, seu gás acabou. Depois de um gol contra de Rainer Zobel, assegurando o empate por 1 a 1, os Gers se fecharam e conseguiram o empate. Em Glasgow, eles logo se lançaram, destemidos, ao ataque, com Jardine marcando no primeiro minuto de jogo e Derek Parlane garantindo um triunfo por 2 a 0, logo aos 22 da etapa inaugural. O Rangers estava na final, a viagem a Barcelona se materializava.


16 meses depois do Desastre de Ibrox, o Rangers estava decidindo mais uma Recopa Europeia. Das 24.701 pessoas presentes no Camp Nou, aproximadamente 16 mil haviam se deslocado desde a Escócia. Foram 110 voos fretados e mais 203 ônibus — sem falar nas pessoas que viajaram por conta própria. Era uma avalanche britânica, sobretudo quando confrontada com os míseros 400 torcedores do Dinamo de Moscou, o adversário da vez.

Aquela era, também, a primeira oportunidade em que os soviéticos chegavam a uma decisão europeia de clubes. Membros do Sportkomitet, parte do Governo Soviético, vinham pressionando o time por um bom resultado, sobretudo porque a final acontecia na Espanha franquista, em que pese o fato de a partida ter sido sediada na separatista Barcelona.

“Quando chegamos ao estádio, tudo que se podia ver eram os torcedores do Rangers. Waddell disse, 'vocês veem o que isso significa para todas essas pessoas? Vocês têm que ir lá e ganhar, por eles’”, disse o goleiro Peter McCloy, à BBC. Quando a bola rolou, os escoceses logo se adiantaram no placar. Lançado às costas da defesa soviética, Stein abriu a contagem, aos 23 minutos da etapa inicial. A primeira demonstração de insanidade veio logo a seguir, com os torcedores dos Gers invadindo o campo, para celebrar com seus heróis.

Aos 40’, e aos 49’, Johnston também foi às redes, 3 a 0. A sensação era a de que a vida do Rangers seria fácil. Entretanto, a defesa escocesa se complicou, e permitiu um gol a Vladimir Eshtrekov, ao qual se seguiu outro, de Aleksandr Makhovikov, três minutos antes do fim da partida. Os moscovitas pressionaram, aumentando a apreensão naquele estádio recheado de escoceses. Antes do fim, após um apito do árbitro José María Ortiz, a torcida britânica voltou a invadir o gramado — não se sabe se acreditando ter sido o final da partida, ou para tumultuar. Enfim, controlada a balbúrdia, os minutos finais foram disputados e o título do Rangers acabou confirmado, seguindo-se nova invasão.

Mundo Deportivo Rangers Dinamo Moscou 1972

Diante da confusão, os Gers não puderam, sequer, receber o troféu no campo. O capitão John Greig precisou se deslocar a uma salinha do Camp Nou para buscar o desejado prêmio, em um anticlímax. Aquela situação levou o Dinamo a requerer a disputa de uma nova final, mas a ideia não foi adiante. No entanto, o Rangers foi punido com o banimento de competições europeias por dois anos, depois reduzidos para um.

“Propusemos um replay do jogo, em 3 de outubro de 1972, em Roma. E os escoceses concordaram, porque iam perder muito dinheiro com a proibição europeia. Mas, como sempre, a política prevaleceu. A UEFA não deixou os russos vencerem. Todos se lembram do que aconteceu depois do jogo, mas as pessoas esquecem que os torcedores do Rangers invadiram o campo cinco vezes. Invadiram o campo pela primeira vez no 1 a 0”, contou o atacante Anatoly Baidachny, ao Daily Record.


A vitória escocesa se consolidou. O Rangers chegou até mesmo a disputar a Supercopa Europeia, em sua primeira edição, ante o Ajax. Os Gers não puderam fazer nada contra o poderio de Johan Cruyff e companhia. O placar agregado registrou o largo triunfo holandês, 6 a 3. Naquela altura, os escoceses já não eram mais liderados por Waddell, que assumiu funções administrativas no clube. Foi Wallace, seu braço direito, que o substituiu.

A bem da verdade, o Celtic ainda viveria mais alguns anos gloriosos, com o Rangers voltando a vencer o Campeonato Escocês apenas em 1974-75. Porém, a vitória de Barcelona, por tudo o que foi vivido, antes, durante e depois, representou um exuberante hiato, em que os anos de domínio alviverde foram completamente esquecidos por aquele bando de loucos pelo Rangers.

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