quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Hatzipanagis, o Maradona grego que quase ninguém viu

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No século XXI, o futebol de elite, com toda a atenção que recebe, não permite que um atleta de distinta qualidade técnica não fique famoso. Esse é um dos motivos pelos quais é difícil digerir o fato de que, sobretudo nos anos 1970 e 80, um craque, com perfil maradoniano, tenha sido alijado do direito de deleitar os apaixonados pelo futebol de todo o planeta. Aconteceu. Ele era grego, embora tivesse nascido na União Soviética. Seu nome? Vasilis Hatzipanagis.

Vasilis Hatzipanagis
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

O exílio no Uzbequistão


A partir dos anos 1940, iniciou-se um intenso fluxo migratório de gregos para a URSS. A Segunda Guerra Mundial sequer havia terminado quando, paralelamente, a Guerra Civil Grega foi colocada em marcha. O período foi marcado por vácuo de poder no país, já que o Rei Jorge II havia se exilado na Inglaterra, depois de passar pelo Egito, quando a Grécia foi invadida por Itália e Alemanha. No entanto, enquanto o monarca observava o destino grego à distância, dentro do país, movimentos guerrilheiros liderados pelo braço armado da Frente Nacional de Libertação (EAM) organizaram ofensivas de resistência antifacista, ganhando territórios no país e se contrapondo às forças de direita nacionalista.

Num levante apoiado pela Grã-Bretanha, que enviaria contingente militar para a Grécia em 1944, e, pouco mais tarde, pelos EUA, a monarquia buscou retomar o poder. E a investida deu resultados. Embora os comunistas controlassem quase todo o território grego, sobretudo Épiro e Tessália, os governistas tomaram Atenas e Tessalônica, as maiores cidades da nação. Pouco mais tarde, em 1946, a monarquia helênica acabaria restaurada e, um ano mais tarde, seria determinado que os apoiadores dos revolucionários comunistas perderiam alguns direitos civis, o que podia acontecer por meio de meras suspeitas de envolvimento.

Conforme os EUA foram tomando partido no conflito, os governistas conquistaram mais e mais vitórias, também porque, em ruptura com Marechal Tito, da Iugoslávia, Stalin não podia se dar ao luxo de destacar um massivo grupo de combatentes para a Grécia. Enfim, em 1949, o conflito acabou, com derrota comunista. Na altura, prevendo as represálias que viriam, milhares de apoiadores dos grupos vermelhos emigraram da Grécia. Entre eles, os pais de Vasilis Hatzipanagis, fugindo do domínio apoiado pelos estadunidenses no país, que duraria até 1967.

Guerra Civil Grega 1943-49
Foto: The State Archives of the Republic of Macedonia/ Arte: O Futebólogo

O destino da família, cujo patriarca tinha origem cipriota e a matriarca turca, foi a capital do Uzbequistão, Tashkent, em território soviético. No auge, a urbe chegou a contar com uma comunidade de aproximadamente 40 mil imigrantes gregos. Outro destino procurado foi Alma-Ata (hoje Almaty), no Cazaquistão. Se não fora de grande ajuda durante os conflitos, a URSS ao menos se mostrou prestativa na hora de acolher os refugiados. Foi lá que, no dia 26 de outubro de 1954, nasceu o bebê Vasilis, carregando o estatuto social de expatriado, mesmo que não soubesse dizer uma palavra sequer.

Seria na própria Tashkent que Hatzipanagis conheceria o amor de sua vida, a bola de futebol. O talento nato, que exibia nas ruas da capital uzbeque, não passou despercebido aos olheiros dos clubes locais: Pakhtakor Tashkent, liderado por trabalhadores dos campos de algodão; e Dínamo Tashkent, o time da Polícia. Coube ao pai de Vasilis decidir que, tendo opção, seu filho não representaria um time ligado ao poder local, fechando com o Pakhtakor.

Aos 17 anos, ele estrearia na segunda divisão soviética, em um confronto ante o Shakhtar Donetsk. Imediatamente, o time conquistaria o acesso. Com título. E a subida acabou trazendo uma nova complicação. Naquela altura, só homens soviéticos podiam disputar a elite do futebol nacional. Só havia um caminho a seguir, sobretudo porque rumar para a Grécia, em plena ditadura, não era uma opção. O jovem prodígio foi naturalizado.

Pakhtakor Hatzipanagis
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Um grande destaque soviético sonha com uma nova casa


O retorno do Pakhtakor ao primeiro escalão soviético não foi marcado por glórias coletivas. A primeira temporada presenciou uma luta contra o descenso; a segunda terminou com o time na metade da tabela; e, na terceira, não houve como impedir o rebaixamento. Porém, individualmente, Hatzipanagis brilhou. Tanto em 1974 quanto em 1975, foi reconhecido como o segundo maior talento soviético, atrás apenas de Oleg Blokhin, o Ballon d’Or de 75. Nessa altura, Vasilis começou a ser comparado com Rudolf Nureyev, bailarino russo, pelas coisas brilhantes que fazia com a bola nos pés.

Com 18 anos, já integrava a seleção soviética sub-21. Com 19, chegou ao time olímpico, atuando em quatro partidas da campanha que levou a URSS à disputa dos Jogos de Montreal, em 1976. No entanto, ele não chegou a disputar o certame. Antes disso, tomou uma decisão difícil.

Em 11 de junho de 1975, a Grécia acompanhou a promulgação de uma constituição democrática, iniciando um período que ficou conhecido como a Terceira República Helênica.


Naquela altura, chegava ao fim uma época conflituosa no país que, mesmo sem conhecer, habitava a mente e o coração de Vasilis. A monarquia já havia acabado, em 1967. Porém, em seu lugar ascendera ao poder um governo militar, de orientação política de extrema direita, que, com o apoio dos EUA, ficaria conhecido como a Ditadura dos Coronéis. Como assinalaria o historiador Eric Hobsbawm, em A Era dos Extremos, a Grécia foi submetida ao domínio de “um grupo particularmente idiota de coronéis ultradireitistas gregos [...] que se distinguiu por um gosto pela tortura sistemática dos adversários”, e que “desabou sete anos depois sob o peso de sua própria estupidez política”.

Além disso, nos idos de 1975, a Invasão Turca do Chipre já havia terminado. Enfim, a Grécia respirava o ar da esperança, depois de mais de 30 anos tensos. Para Hatzipanagis, aquilo representava a chance de partir ao país que queria chamar de seu. Porém, aquilo não seria tão fácil assim. Vasilis, ao menos oficialmente, já não era um expatriado, mas um cidadão da URSS. Para buscar sua origem helênica, teria que renunciar à nacionalidade soviética e requerer sua repatriação.

Iraklis Hatzipanagis
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Porém, ele nunca havia vivido na Grécia, o que sugeria que seu pedido não seria acatado — exceto pelo fato de que seus avós moravam em Tessalônica. Para se mudar, ele teria que aceitar permanecer na região, o que tornou impossível a assinatura de um contrato com o Olympiacos, um dos gigantes nacionais. Restou a Hatzipanagis a possibilidade de firmar pelo modesto Iraklis, que sequer era o principal time local, vivendo à sombra de PAOK e Aris, embora fosse mais antigo que ambos.

Lá, foi recebido com a pompa e circunstância que a chegada de alguém com seu talento pedia. Contudo, seu contrato teria duração de apenas dois anos. Ou deveria ter sido assim.

Prisão ou reinado em Tessalônica?


A velocidade com que driblava, carregando a bola como que acoplada ao pé esquerdo, rendeu a Grécia diante de Hatzipanagis. Hipnotizados, cidadãos de outras cidades viajavam a Tessalônica na esperança de conseguir ingressos para assistir ao craque no Estádio Kaftanzoglio.

“Era muito bom com os dois pés, muito inteligente, capaz de driblar em espaços reduzidos, sempre a furar a defesa, era um jogador incrível. Veio da União Soviética, os pais eram gregos, mas ele nasceu lá [...] Ele era um jogador incrível. Podemos dizer que desde então nenhum grego chegou perto dele”, contou o jornalista helênico Vasilis Sambrakos, aos portugueses da Tribuna Expresso.

Sua classe, grande demais para o fraco futebol grego, logo rendeu frutos ao nanico Iraklis. Em 9 de junho de 1976, o time subiu ao gramado do Estádio Nea Filadelfia, em Atenas (casa do AEK), para enfrentar o Olympiacos, na decisão da Copa da Grécia. O placar final registrou um empate por 4 a 4. Hatzipanagis marcou duas vezes. Nas penalidades máximas, Davi derrubou Golias e o título foi para Tessalônica. Aquela, entretanto, seria a única conquista de Vasilis pelo clube — à parte da vitória não muito relevante da Copa Balcânica, em 1985.


“Falando de futebol, foi um erro retornar à Grécia. Prefiro viver na Grécia, mas o nível de futebol era muito mais baixo do que na URSS”, contou o antigo meia à publicação britânica The Blizzard. O pior é que ao craque nunca foi permitida uma saída. As leis gregas deram brecha para que, unilateralmente, o Iraklis pudesse ir renovando o contrato de Vasilis, conforme sua conveniência.

Clubes interessados na contratação do meia não faltaram. Em 1977, quando sofreu uma importante lesão no joelho, acabou indo se tratar com o fisioterapeuta do Arsenal, Fred Street. Como parte da reabilitação, Hatzipanagis treinou várias vezes com o elenco dos Gunners, recebendo até mesmo um apelido: Aristóteles. Ciente do talento do grego, o Arsenal fez uma oferta ao Iraklis, prontamente recusada, para desgosto do meia.

“Como é frustrante pensar que meu pai queria se mudar a Londres em 1963, mas minha mãe não deixou. Imagine a carreira que eu poderia ter se crescesse na Inglaterra? Quando eu parei de jogar, em 1991, todas as leis em prol dos jogadores surgiram”, ponderou o meia, na citada entrevista à revista The Blizzard.

Naquele mesmo ano, Vasilis acabou ingressando em juízo, para romper o vínculo com o Iraklis na marra. Ganhou em primeira instância, mas perdeu quando o caso foi ao tribunal. A contragosto, seguiu em Tessalônica, de onde nunca sairia, embora seguisse tentando.

Em 1980, o time foi rebaixado administrativamente, acusado de vender resultados. O craque se negou a disputar a segunda divisão, foi suspenso pelo clube e ficou 18 meses sem receber salários. Na altura, passou longo tempo treinando com os alemães do Stuttgart. Eles também tentaram tirar Hatzipanagis, sem sucesso.

Hatzipanagis Iraklis
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Outros times, como Lazio, Porto e Panathinaikos (oferecendo £1,85 milhões, que tornariam o meia o jogador mais caro da história, superando os £1,75 milhões pagos pela Juventus ao Vicenza por Paolo Rossi, em 1976), também veriam suas ofertas serem recusadas. Vasilis era quase um escravo do clube que seguia representando em alto nível, apesar de tudo. Alguns registros, ainda que possam ser imprecisos, indicam que o meia fez 281 jogos e 62 gols pelo Iraklis.

Reconhecimento, ainda que tardio


Além de não poder deixar seu time, Hatzipanagis se viu privado do futebol de seleções. Ele não era mais soviético para seguir crescendo com o Exército Vermelho. E a FIFA considerou que, por ter disputado jogos com o time olímpico da URSS, ele não poderia vestir a camisa da Grécia.

A bem da verdade, ele chegou a estrear pelo fraco time helênico, em um amistoso contra a Polônia, em maio de 1976 — vitória grega por 1 a 0. Logo depois, a FIFA enviou seu veredito negativo. “Não poder jogar pela Grécia foi uma grande injustiça. Todo grego diz isso, mesmo os que moram fora do país [...] Sou grato à URSS e às pessoas de Tashkent, mas sou patriota. Tenho sangue grego em minhas veias. Por isso que qualquer grego diz que sou o jogador mais injustiçado. Eu queria muito jogar pela seleção e nunca pude”, comentou o meia, também à The Blizzard.

A única questão que deve ter feito Hatzipanagis pensar, tardiamente, que a escolha pela Grécia foi boa foi o acidente aéreo que vitimou o Pakhtakor Tashkent, seu ex-time no Uzbequistão, em 1979. Todos os jogadores do time morreram.

Hatzipanagis Iraklis
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

As poucas vezes em que Vasilis pôde ser visto pelo grande público europeu aconteceram na Recopa Europeia de 1976, ocasião em que o Iraklis foi eliminado pelos cipriotas do APOEL, logo na primeira fase; e nas Copas da UEFA de 1989-90, quando seu time caiu também na fase inicial, contra os suíços do Sion, e de 1990-91, sendo superado pelo Valencia, no mesmo estágio — oportunidade que marcou, também, sua despedida dos gramados.

Além disso, em 1984, ele foi convidado a integrar um elenco de craques do mundo que enfrentou o NY Cosmos, em partida de exibição. Na oportunidade, o grego dividiu palco com figuras da estirpe de Franz Beckenbauer, Mario Kempes, Kevin Keegan, Peter Shilton, Ruud Krol e Johan Neeskens. Ainda que pequeno, foi um reconhecimento ao seu enorme talento. Aliás, naquela altura, Diego Maradona já era uma estrela internacional, exibindo exatamente o mesmo estilo de jogo de Hatzipanagis, que seria recordado como “Maradona Grego” — o que é curioso, considerando que o argentino surgiu anos mais tarde, em relação ao ídolo do Iraklis.


Entre outros feitos memoráveis de Vasilis Hatzipanagis está também o fato inusitado de ter feito seis gols olímpicos na carreira.

Apesar de tudo, já durante sua aposentadoria, o craque receberia as merecidas homenagens. Em 1999, altura em que já tinha 45 anos, foi organizado um amistoso entre as seleções grega e ganesa. Vasilis, que teve o banimento da FIFA levantado, jogou apenas os primeiros 21 minutos de partida, suficientes para oferecer a assistência que originou o solitário gol de Konstantinos Frantzeskos, no empate por 1 a 1. O acontecimento também estabeleceu o recorde de intervalo entre duas convocações de um mesmo atleta: Hatzipanagis esperou 23 anos por um novo chamado para representar o povo helênico.

Quatro anos mais tarde, viria a aclamação definitiva. Por ocasião dos cinquenta anos da UEFA, a organização entregou prêmios aos melhores jogadores de cada país-membro. A Federação Grega indicou ninguém menos do que Hatzipanagis, um homem que havia nascido em território soviético, chegando à Grécia apenas aos 21 anos e vestindo a camisa de sua seleção nacional por apenas duas vezes. Seria difícil pensar em uma melhor forma de homenagear o talento maradoniano que quase ninguém viu.

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