quarta-feira, 3 de novembro de 2021

O Chelsea que escalou o primeiro time inglês sem ingleses

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As mudanças pelas quais as sociedades passam, não raras vezes, provocam reações que vão desde a surpresa até um apelo tradicionalista pela manutenção da realidade cambiante. A história ensina, porém, que a tentativa de aplacar certos acontecimentos se revela uma luta perdida desde a origem. Em 1999, quando o Chelsea escalou um time sem jogadores nacionais, ocasionou o erguimento de sobrancelhas Inglaterra afora. Ali, entretanto, tornava-se evidente que o mundo do futebol não era mais como fora até então.

Chelsea Southampton Boxing Day 1999
Foto: Getty Images/Arte: O Futebólogo


Caso Bosman e a liberdade de circulação na União Europeia


Embora o estrangeiro já tivesse pisado nos gramados de futebol ingleses, de maneira dispersa e não linear, foi em 1978 que as portas da Inglaterra se abriram para atletas de fora das Ilhas Britânicas. Na altura, especificamente no dia 23 de fevereiro, uma reunião da Comunidade Europeia, sediada em Bruxelas, determinou que a nacionalidade de um atleta não poderia ser empecilho para que ele atuasse em quaisquer países.

Na esteira dessa decisão, a Football League seguiu a orientação e definiu que os clubes ingleses poderiam contratar estrangeiros. Quase imediatamente, o Tottenham assumiu a dianteira e contratou os argentinos Ossie Ardiles e Ricky Villa, campeões do mundo naquele mesmo ano. Foi um caminho sem volta. Em pouco tempo, os times foram adicionando forasteiros aos seus quadros, embora houvesse limitação do número. A primeira edição da Premier League, em 1992-93, contou apenas com 13 não britânicos ou irlandeses.

Ricky Villa Ossie Ardiles Tottenham
Foto: PA/Arte: O Futebólogo

Quando a liga deu o seu start, a Inglaterra já acompanhara o último time com um elenco inteiramente britânico, ou irlandês, levantar a taça do Campeonato Inglês. Coube ao Arsenal protagonizar o momento derradeiro. Em 1988-89, sob o comando de George Graham, os Gunners utilizaram 17 jogadores: 15 ingleses e dois irlandeses, triunfando com muita emoção.

Apesar disso, sobretudo após os eventos de 15 de dezembro de 1995, em Luxemburgo, tornou-se praticamente impossível imaginar a repetição desse cenário. A partir da iniciativa de Jean-Marc Bosman, o mundo do futebol mudou. O Tribunal de Justiça da União Europeia definiu que:

1) O artigo 48. do Tratado CEE opõe-se à aplicação de regras adoptadas por associações desportivas nos termos das quais um jogador profissional de futebol nacional de um Estado-Membro, no termo do contrato que o vincula a um clube, só pode ser contratado por um clube de outro Estado-Membro se este último pagar ao clube de origem uma indemnização de transferência, de formação ou de promoção;  2) O artigo 48. do Tratado CEE opõe-se à aplicação de regras adoptadas por associações desportivas nos termos das quais, nos encontros por elas organizados, os clubes de futebol apenas podem fazer alinhar um número limitado de jogadores profissionais nacionais de outros Estados-Membros.


Nas palavras de Pedro Tiago da Silva Ferreira, na dissertação de mestrado apresentada na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa: “Os regulamentos à data em vigor obrigavam ao pagamento de uma transferência, por parte do novo clube, ao antigo clube, mesmo que o contrato entre este último e o atleta tivesse expirado. Bosman processou o Liégois alegando que toda esta regulamentação incorria numa violação do seu direito de, enquanto cidadão da União Europeia, procurar emprego em qualquer outro Estado Membro, ao abrigo do Artigo 48 do Tratado de Roma, alegando que o sistema de transferências então em vigor limitava o seu direito à lei da mobilidade”.

Depois do proferimento de tal decisão, apenas jogadores estrangeiros de fora da União Europeia seguiram tendo que superar um trâmite semelhante ao exigido para trabalhadores comuns, sendo obrigados a preencher critérios objetivos para receberem uma licença de trabalho e laborar na Inglaterra.

Montes de estrangeiros


A partir da janela de transferências do verão europeu de 1996-97, as fronteiras do Velho Continente se escancararam. Os clubes europeus, entre os quais os ingleses não escapam, passaram a poder contratar jogadores da União Europeia sem contrato a custo zero, bem como de modo ilimitado. Em termos simples: ser britânico dava no mesmo que ser espanhol, português ou sueco. A adaptação à nova realidade foi rápida. Um exemplo emblemático é o que protagonizou o Chelsea.

Gianfranco Zola Ruud Gullit Chelsea
Foto: Premier League/Arte: O Futebólogo

Já na primeira oportunidade, os Blues buscaram Roberto Di Matteo e Gianluca Vialli na Itália (o segundo sem custos). Da França, viria o zagueiro Frank Leboeuf, e da Noruega o arqueiro Frode Grodas. Meses mais tarde, outro italiano, Gianfranco Zola, juntar-se-ia ao elenco londrino, que herdara da última temporada o holandês Ruud Gullit — jogador-treinador —, o romeno Dan Petrescu, o norueguês Erland Johnsen, além do goleiro russo Dmitri Kharin (atletas que, até então, não podiam ser relacionados juntos, dado o limite de três).

Essa acabaria sendo a tônica dos acontecimentos dos anos seguintes. Em 1997-98, em que pese a saída de Grodas para o Tottenham, o polivalente nigeriano Celestine Babayaro foi contratado junto ao Anderlecht, o goleiro holandês Ed de Goey chegou desde o Feyenoord, o norueguês Tore Andre Flo foi comprado do Brann, o uruguaio (que detinha passaporte espanhol) Gus Poyet fechou sem custos, depois de uma grande passagem pelo Zaragoza, e o zagueiro francês Bernard Lambourde chegou do Bordeaux. E apesar do rico afluxo de estrangeiros, a grande contratação do time foi a do inglês Graeme Le Saux, ex-Blackburn.

No ano seguinte, 1998-99, mais estrangeiros viriam. Da Itália, Pierluigi Casiraghi e o francês Marcel Desailly; da Espanha, o defensor Albert Feher, ex-Barcelona. Da Dinamarca, Bjarne Goldbaek, da Finlândia, Mikael Forssell, e, dos escoceses do Rangers, o famoso dinamarquês Brian Laudrup, que se arrependeria de assinar pelos Blues e, em questão de meses, voltaria ao seu país, para representar o Copenhagen. Naquele ano, a legião estrangeira passaria, também, a ser liderada por Vialli, a exemplo de Gullit, um jogador-treinador.

Didier Deschamps Chelsea
Foto: Premier League/Arte: O Futebólogo

Até o controverso, mas icônico, momento em que o Chelsea alinhou um time sem ingleses, transcorreria mais meia temporada. Para a campanha de 1999-00, o italiano Gabriele Ambrosetti, ex-Vicenza, o brasileiro Émerson Thome (com passaporte português), ex-Sheffield Wednesday, o francês Didier Deschamps, ex-Juventus, o dinamarquês Jes Högh, com passagem pelo Fenerbahçe, e o holandês Mario Melchiot, ex-Ajax, foram contratados. Como em 1997-98, todavia, a maior contratação do clube foi de um inglês: Chris Sutton, proveniente do Blackburn.

Com um italiano no banco, um Chelsea sem ingleses


Quando chegou o Boxing Day da temporada 1999-00, o elenco do Chelsea possuía 11 atletas britânicos, nenhum irlandês e 21 estrangeiros (considerando as presenças dos garotos italianos Samuele Dalla Bona e Luca Percassi). Dias depois, ainda seria concluído o empréstimo do liberiano George Weah, astro do Milan. Estava claro que, naquele momento, o mundo do futebol já era outro. Inimaginável quando o Arsenal de George Graham conquistou a liga inglesa, no final dos anos 1980.

Sem considerar a possibilidade de criar uma polêmica, em 26 de dezembro de 1999, Gianluca Vialli, que não podia contar com os lesionados Le Saux, Sutton e Dennis Wise, escalou um onze inicial completamente desprovido de atletas ingleses. Na viagem a Southampton, os Blues subiram ao gramado do estádio The Dell com Ed de Goey; Ferrer, Leboeuf, Thomé e Babayaro; Petrescu, Deschamps, Di Matteo, Poyet; Ambrosetti e Flo, que seria o autor dos dois tentos azuis, na vitória marginal por 2 a 1. No segundo tempo, Vialli colocaria em campo os jovens ingleses Jody Morris e Jon Harley, que representavam equipes inglesas de base.

Tore Andre Flo Chelsea SOuthampton 1999
Foto: Ben Radford/Allsport/ Arte: O Futebólogo

Após o acontecimento, o Guardian produziu um editorial enfático: “Um pouco de história foi feita no fim de semana [...] quando o Chelsea Football Club colocou em campo um time composto inteiramente por jogadores estrangeiros — foi a primeira vez na vida da Premier League ou de suas predecessoras que isso ocorreu”. O episódio levaria, ainda, o diretor azul, Colin Hutchinson, a cravar que os londrinos se tratavam de “um clube continental jogando futebol na Inglaterra”.

Apesar de alguns terem olhado para aquilo com admiração, como um verdadeiro sinal do que um mundo cada vez mais global era capaz de fazer, as críticas não tardaram, com o mesmo Guardian questionando que efeitos aquilo poderia produzir. “Saí do túnel e imediatamente vi todos aqueles repórteres e cinegrafistas e pensei: ‘O que está acontecendo?’ [...] Então um dos cinegrafistas me disse: ‘É porque são todos estrangeiros’. Acho que foi mais aceitável porque vencemos, se estivéssemos do lado perdedor, acho que teria havido muito mais críticas”, comentou Poyet, em entrevista ao Express.

Di Matteo, companheiro de Gus na meia cancha do Chelsea naquele dia, seria mais um a recordar o ocorrido. “Estávamos acostumados a jogar com jogadores de diferentes nacionalidades, mas todos falavam inglês dentro e fora do campo de treinamento [...] Nos dávamos muito bem. Ainda havia um sentimento muito inglês no vestiário, principalmente devido a Dennis Wise, que era tão inglês quanto possível”.

Uma realidade em constante mutação


Decorreriam mais cinco anos até que a Inglaterra voltasse a ser confrontada com o tema do estrangeiro no país. Em 14 de fevereiro de 2005, o Arsenal entrou em campo contra o Crystal Palace também com uma escalação inteiramente composta por estrangeiros. A diferença? O banco de reservas também não contava com ingleses. Naquele dia, Dennis Bergkamp, José António Reyes, Thierry Henry (duas vezes) e Patrick Vieira garantiriam um triunfo maiúsculo para os Gunners: 5 a 1, com Andy Johnson descontando para os Eagles.

O Arsenal entrou em campo com Jens Lehmann; Lauren, Pascal Cygan, Kolo Touré, Gaël Clichy; Vieira, Edu; Robert Pirès, Bergkamp, Henry e Reyes. Na etapa final, Mathieu Flamini, Cesc Fàbregas e Robin van Persie entraram. Os outros reservas foram o goleiro espanhol Manuel Almunia e o zagueiro suíço Philippe Senderos. Embora aquele time contasse com os bons serviços de ingleses como Sol Campbell e Ashley Cole, estava evidente que a equipe sobrevivia bem às suas eventuais ausências.


“Acho muito triste que um clube com a qualidade do Arsenal não tenha um jogador nacional jogando ou no banco. Isso realmente vai afetar a seleção inglesa em um futuro próximo. Veja como a Escócia sofre [...] O que eu adoraria ver no Arsenal é uma combinação: jogadores estrangeiros de classe mundial e mais alguns ingleses — eles têm Ashley Cole e Sol Campbell, mas eu gostaria de ver mais alguns [...] Temos que aprender com os holandeses. Como uma nação de 15 milhões de pessoas pode produzir tantos indivíduos e equipes de classe mundial? Eles apostam nas crianças”, comentaria George Graham, o citado treinador do Arsenal de 1989, ao Independent.

Críticas como a de Graham se tornariam lugar-comum na Inglaterra, sobretudo após a participação medíocre dos Three Lions na Copa do Mundo de 2006. Alinhando um esquadrão com Steven Gerrard, Frank Lampard, Joe Cole, David Beckham, Wayne Rooney e Michael Owen, o escrete apresentou um futebol pragmático; resultados magros contra adversários apenas medianos. Logo, uma pergunta surgiu: se uma seleção com tais nomes não produz bom desempenho e, na Inglaterra, os principais times não revelam ingleses, qual será o futuro do país?

Passando a vigorar para a temporada 2010-11, surgiu a regra do homegrown, aprovada pela Federação Inglesa. A partir dela, os times da Premier League teriam que incluir oito jogadores formados na Inglaterra no grupo de 25 inscritos. Independentemente da nacionalidade ou da idade, o critério utilizado foi a permanência do atleta no país por no mínimo 36 meses, antes de completar 21 anos. A expectativa era a de forçar os clubes a desenvolver novos talentos.

Cesc Fàbregas Arsenal Homegrown
Foto: Getty Images/Arte: O Futebólogo

Apesar disso, o regramento considera atletas como Fàbregas, espanhol maturado na Inglaterra, como homegrown. Um outro porém à regra acabou sendo a hiperinflação provocada sobre o valor dos jogadores ingleses no mercado de transferências. O certo é que a discussão não teve ponto final. E, com o Brexit, os forasteiros da União Europeia passaram a ser submetidos ao mesmo escrutínio de outros estrangeiros na Inglaterra, para receberem o Governing Body Endorsement e, consequentemente, a licença de trabalho.

Eficazes ou não, regras como a do homegrown e a que impõe critérios para a contratação de estrangeiros, respondem ao processo que se iniciou em 1978, ganhou força após o proferimento do Acórdão Bosman, no final de 95, ficou evidente quando o Chelsea escalou um time inteiramente estrangeiro em 99, e ganhou contornos de definitividade no dia em que o Arsenal levou um grupo inteiro, de titulares e reservas, estrangeiros para uma partida, em 2005. Um processo que se pode tentar remediar, mas não frear.

Um comentário:

  1. Ótimo texto, parabéns! Fica a dúvida, de fato, sobre qual será o impacto do Brexit nos próximos anos.

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