quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Euro 1984: Estreia, estrela e caos para Portugal

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Ao pensar no passado do futebol português, é difícil imaginar que a memória não recorra ao desempenho lusitano na Copa do Mundo de 1966 — ainda que se possa pensar em outros grandes times, como o Sporting dos anos 1940 e o poderoso Benfica de duas décadas mais tarde. Não obstante, a geração de Eusébio e Mário Coluna não chegou a disputar um torneio continental; não jogou a Eurocopa. Foram necessários 18 longos anos para Portugal retornar aos grandes palcos. Quando o fez, não brincou em serviço, contra tudo e todos.

Não foi fácil chegar à disputa da Euro 1984. Nas eliminatórias, Portugal teve a missão de superar a União Soviética, de Oleg Blokhin, e a Polônia, do craque Zbigniew Boniek. À pobre Finlândia coube apenas torcer por um fim rápido daquele suplício. Um mistão de jogadores de Benfica e Porto, com acréscimos vindos de Vitória de Setúbal e Portimonense, que costumavam ceder goleiros reservas, e do Sporting, do artilheiro Rui Jordão, enfrentou o desafio e foi muito bem.

É bom que se diga que a base daquela seleção vinha obtendo resultados expressivos no futebol de clubes. Os benfiquistas haviam alcançado a decisão da Copa da Uefa de 1982-83, perdendo-a para um forte time do Anderlecht — e, de acordo com os mais supersticiosos, para a Maldição de Béla Guttmann. Por sua vez, os portistas viriam a disputar a finalíssima da Recopa Europeia em 1983-84, perdida para uma Juventus que, só na linha de frente, juntava as qualidades de Michel Platini, Boniek e Paolo Rossi.

Nas qualificatórias europeias, os lusitanos obtiveram cinco vitórias e apenas uma derrota. Embora pesado, o único infortúnio se deu em um cenário em que o mais normal seria esperar um placar adverso. Portugal só foi derrotado pela URSS, em Moscou. Tudo bem, o 5 a 0 não foi nada animador e acabou provocando troca de comando. Mesmo assim, a classificação veio, na conta do chá. 

Nos dois últimos e decisivos encontros, triunfos marginais por 1 a 0 levaram o país ao inédito. A vitória final, contra os soviéticos, só veio na marca da cal, mas levou a seleção ibérica a somar um ponto a mais que a URSS. Era o suficiente.


Na cova com os leões


O sorteio dificilmente poderia ter sido menos favorável ao time que recebia seu batismo em competições europeias. 

De cara, Portugal teria pela frente a campeã vigente, a Alemanha Ocidental. Entretanto, os lusitanos surpreenderam logo na estreia. Os comandados de Fernando Cabrita seguraram o ímpeto de Karl-Heinz Rummenigge, Rudi Völler, Hans-Peter Briegel e do goleirão Harald Schumacher, num empate sem gols. Enquanto a imprensa da época passou a criticar os germânicos, indicando que havia ali muita força, mas poucas ideias, Portugal, o outsider da vez, ganhava a simpatia do público.

No mesmo dia, os lusos acompanharam os outros dois integrantes de seu grupo batalharem muito, mas sem conseguir vencer. A Romênia, de Laszlo Bolöni, e a Espanha, do goleiro e capitão Luis Arconada, ficaram no 1 a 1. Ou seja: quando chegou a hora de Portugal enfrentar os espanhóis, estava tudo praticamente igual na tabela, mas seguia evidente que os portugueses eram os underdogs.


Com a Fúria vestida de branco, o vermelho entregue a Portugal, os lusitanos encantaram outra vez. Como viriam a notar os catalães do Mundo Deportivo, no dia seguinte à partida, “Portugal jogou melhor, mas acabou superado”. 

O jornal notou que, depois de um encontro modorrento contra a Romênia, os espanhóis até melhoraram, mostrando mais garra, mas estavam ainda insuficientes contra a qualidade portuguesa: “O onze lusitano acabou impondo sua superioridade no centro do campo, com sua perfeita técnica, suas aberturas de jogo. [Jaime] Pacheco, [António] Sousa e, sobretudo, [Fernando] Chalana fizeram o que quiseram com a bola”.

Porém, Jordão, o homem-gol, estava muito isolado em meio à barricada que protegia a meta espanhola. Desse modo, a bola que Sousa colocou de chapa no fundo das redes hispânicas não foi suficiente. Quando a defesa da Fúria não refugava as investidas portuguesas, a bola teimava em não entrar, como em um chute de Chalana no travessão. Assim, prevaleceu o ditado: quem não faz, leva. Em um bate rebate após cobrança de escanteio, Santillana empatou o jogo, que não viu o placar ser mais alterado.


A Alemanha havia vencido a Romênia. Por isso, aos portugueses restava apenas uma alternativa: ser mais um time a ganhar dos Tricolorii. A lógica era igual para a Espanha — o avanço dependendo de um triunfo contra os germânicos. Ambos conseguiram seus objetivos. 

Enquanto, com mais garra do que técnica, a Fúria venceu pela margem mínima com gol no minuto final, os Patrícios também precisaram lutar até o fim. Quando restavam nove minutos por jogar, a bola foi cruzada da direita e encontrou Nené dentro da área. Ele acertou um voleio e confirmou o avanço lusitano na segunda colocação.

Como curiosidade, um ponto interessante no Grupo 2 diz respeito às táticas empregadas pelas equipes. Enquanto alemães, espanhóis e romenos optaram por montar fortalezas, com um líbero (Uli Stielike, Antonio Maceda e Costică Ștefănescu, respectivamente) e mais três defensores, os portugueses se lançaram à disputa no tradicional 4-3-3 (em determinados momentos alterado para 4-5-1, com o recuo dos pontas diante das necessidades). 

Os Patrícios estavam conseguindo se defender bem, mesmo com um esquema menos conservador.


Seis minutos fatais


A passagem com a vice-liderança entregou a Portugal outro cenário indesejado. Os homens de Cabrita tiveram que disputar a semifinal contra a seleção anfitriã, a França. Aquele não era um time qualquer dos Bleus. Possuía, entre outros, os integrantes do Carré Magique: Luis Fernández, Alain Giresse, Jean Tigana e, ele, Michel Platini. Era fácil imaginar que aquele seria um embate mais difícil do que os anteriores. De fato, foi. Contudo, também foi a melhor partida dos portugueses.

Os já citados catalães do Mundo Deportivo foram cirúrgicos na manchete do dia posterior ao encontro franco-lusitano: “França passa da agonia ao êxtase”. Em Marselha, num Velodrome abarrotado, com quase 55.000 pessoas, os donos da casa tiveram de extrair o que de melhor havia em seu seio para conseguir o esperado triunfo. E nem parecia que o caminho seria tão tortuoso quando o defensor Jean-François Domergue, que completava 27 anos naquela tarde, acertou um petardo de canhota em cobrança de falta e abriu o placar.

Conforme a França dominava e perdia chances, parecia que o destino de Portugal estava selado. O goleiro e capitão lusitano, Manuel Bento, ganhava cada vez mais destaque. Era um massacre gaulês. Mas, à exemplo do que os portugueses haviam experimentado contra a Espanha, a superioridade francesa não se convertia em gols. Até que outro craque, adormecido até então, acordou. 

Chalana, o pequenino Asterix — como era conhecido pelo bigode característico e a baixa estatura (1,65m) —, cruzou a bola da esquerda para o miolo da área francesa. Na cabeça de Jordão, que cumprimentou as redes do arqueiro Joël Bats.

Portugal France Euro 1984
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Monstruoso debaixo das traves portuguesas, Bento mantinha o empate. O jogo foi para a prorrogação. No tempo extra, outra vez brilhou o “Chalanix”. Dessa vez, o desequilibrante ponta português estava no lado direito. Ele chamou Domergue para dançar e cruzou. Jordão acertou a bola de primeira: no ângulo, sem chances para Bats. Eram jogados oito minutos da prorrogação. Como se o sonho já não estivesse suficientemente bom, antes do fim do primeiro tomo, Nené, enfiado no meio da defesa francesa por Chalana, pôde tentar fazer o terceiro, mas dessa vez o goleiro anfitrião o parou.

No segundo tempo, a França partiu para o abafa e conseguiu o empate, seis minutos antes do fim. Com quase todos os seus jogadores rondando a área de Portugal, aos trancos e barrancos a bola sobrou para Domergue marcar seu segundo tento na partida. Contudo, o nome daquele torneio ainda daria a cartada final. 

Por mais que Chalana tenha feito um grande torneio, brilhando sobretudo nos momentos mais decisivos, aquela Euro tinha dono. Ele reclamou essa condição no penúltimo minuto. Como um touro, Tigana foi avançando, ignorando os marcadores e se impondo fisicamente. Até que, sem ângulo para chutar, cruzou para o meio da área dos Patrícios. A bola encontrou ele, Platini. Era o 3 a 2 que sentenciava Portugal ao fim de uma memorável estreia nas Eurocopas.


“Me encontro fatigado e muito emocionado. A verdade é que hoje o autêntico vencedor foi o futebol. Espero que a final também seja jogada como esse encontro formidável, em que os adversários jogaram com o coração, com entusiasmo, com técnica e com muita força. Fazia tempo que não se via um jogo como o de hoje”, refletiu Cabrita após a partida.

Ao final, a França de fato conquistou o certame. Da parte de Portugal, em que pese a atuação monumental do goleiro Bento, apenas Chalana e o lateral João Pinto figuraram na seleção da competição.

Por trás dos panos, o caos


Se em campo ficou claro o gigantismo do desempenho luso, essa realidade só foi amplificada diante do que acontecia fora dele. As duas metades da seleção não se bicavam. Praticamente não conversavam. Havia o lado benfiquista (composto por oito jogadores) e o portista (nove), só para mencionar o que diz respeito a jogadores. Isso acabou se refletindo até mesmo nas escolhas de números para o torneio. O bizarro 4 de Chalana se explica pelos problemas internos que se vivia.

Otto Glória era o treinador que deveria ter levado Portugal à Euro. No entanto, após aquela dolorosa derrota para a URSS, e outro insucesso em um amistoso contra o Brasil, o comandante caiu. Assumiram quatro nomes: Toni, José Augusto e António Morais, à frente deles estando Cabrita. Este, e José Augusto (em que pese seu passado como jogador do Benfica), eram escolhas da Federação Portuguesa, que costumava convidar os três grandes do país a levar representantes para a comissão técnica do selecionado nacional.

Comissão Técnica Portugal Euro 1984
Foto: Lobo Pimentel/Arte: O Futebólogo

O Sporting preferiu ficar fora da confusão. Porém, Toni, auxiliar benfiquista, foi indicado — o mesmo se passando com Morais, por parte do Porto. Naquela altura, as paixões clubistas falavam mais alto do que a unidade nacional. Isso acabou condicionando escalações e causando problemas internos. Por sorte, Portugal possuía um dos mais qualificados grupos de sua história. Os mandos e desmandos prejudicaram, mas não conseguiram acabar com o time.

“Desde a partida até a chegada, houve muitos problemas, desde logo a grande divisão entre os dois blocos de Benfica e FC Porto. E, a partir daí, houve variadíssimos problemas com uma equipa técnica onde prevaleciam treinadores representantes dos dois blocos. As equipas eram feitas em cima da hora do jogo, com um treinador a puxar por um lado, outro a puxar por outro e outro que não se metia em nada. Era tudo feito em cima do joelho”, recordou o meia Diamantino, em 2015, à RTP.

Apesar disso, como o mesmo ex-jogador acrescentaria: “No futebol os resultados são sempre a base de tudo, os resultados deram para não pôr a nu todos os problemas”. A Euro 1984 será sempre lembrada pelo debute de Portugal na competição e pela forma excelente com a qual se apresentaram jogadores como Bento, Chalana ou Jordão. Ou, de forma mais simples, como uma grande estreia regida por uma pequena estrela, em meio a um caos sem precedentes.

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