quarta-feira, 6 de abril de 2022

Hertha Berlim: entre escândalos e títulos escassos

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O futebol não distingue Berlim. A capital da Alemanha, inexoravelmente dividida durante quase 30 anos, vive à margem do que há de melhor futebolisticamente falando. É verdade que na DDR Oberliga, a primeira divisão do futebol da Alemanha Oriental, com mãos de ferro, o Dynamo Berlim alcançou repetidos e controversos êxitos. Contudo, na Bundesliga, a história é distinta. Nenhum berlinense venceu o certame inaugurado em 1963-64. Quem mais se aproximou foi o Hertha que, apesar disso, ganhou notoriedade por fatos menos nobres.

Hertha BSC 1964-65
Foto: imago/Werner Otto/ Arte: O Futebólogo


1965: Pagar mais para tentar crescer


Quando da fundação da Bundesliga, um único time de Berlim se qualificou à disputa original. O Hertha vencera a derradeira edição da Oberliga Berlim, assegurando lugar na nova liga. Entretanto, o clube se via afetado por um problema que abrangia muito mais coisas do que o futebol. Desde 1961, um muro dividira sua cidade sede em duas partes, impedindo o trânsito dos habitantes de um lado para o outro. Em seu próprio microcosmo, o Hertha foi, como que da noite para o dia, alijado de parte de sua torcida.

Este poderia não parecer um problema grave, mas na imensidão do Estádio Olímpico — que, então, acomodava até 100 mil pessoas —, os indesejados assentos vazios eram muitos. “Nos primeiros dias, nos escondíamos bem perto da cerca. Ainda podíamos ver o estádio. Havia uns 60 de nós. Tínhamos um pequeno rádio para ouvir o jogo. Eles anunciaram o placar, mas não precisavam. Podíamos ouvir os aplausos”, contou Helmut Klopfleisch, um de tantos torcedores que acabaram do lado oriental do muro, ao Independent.

Além das arquibancadas esvaziadas, o clube ainda precisou se recuperar de outro golpe duro. Os melhores atletas disponíveis simplesmente recusavam se transferir para Berlim, justamente em razão do ambiente belicoso de conflito permanente.

As dificuldades do Hertha ficaram claras desde o primeiro momento. Na estreia, em seus domínios, a Alte Dame apenas empatou com o Nuremberg, com um pênalti convertido por Hans-Günter Schimmöller. A Bundesliga de 1963-64 terminaria em agonia para os berlinenses. Somente um ponto separou os alviazuis da segunda divisão, destino de Preußen Münster e Saarbrücken. A embaraçosa situação não podia se repetir no ano seguinte. Isso era certo. Errada foi a escolha feita pela direção do clube para alcançar a necessária competitividade.

Na altura, a Alemanha discutia o profissionalismo no futebol. Havia limites de pagamentos salariais estabelecidos, os quais tinham observância mandatória. A rigidez da regra, não raras vezes, ocasionou práticas ilegais, com clubes pagando valores acima do teto para seus atletas e agentes — evidentemente, por fora do trato oficial, consolidado perante a Federação Alemã. Contudo, nem sempre tais acontecimentos passaram despercebidos.

Era fevereiro de 1965 quando auditores da DFB encontraram inconsistências nas contas do Hertha. As investigações não tardaram a concluir o destino das movimentações suspeitas. Havia um déficit de 192 mil marcos nas contas do clube; os berlinenses estavam descumprindo regras e pagando montantes exorbitantes aos seus atletas. Esse numerário saltava aos olhos, especialmente porque os limites salariais impostos variavam entre 250 e 1200 marcos.

Wolfgang Fahrian Hertha BSC
Foto: imago/Arte: O Futebólogo

“Havia muito mais dinheiro em circulação, mas só foi descoberto em Berlim”, contou o goleiro Wolfgang Fahrian, da seleção alemã e do Hertha, ao site oficial da Bundesliga. “Em 1963 e 1964, pagamos aos jogadores Rühl, Fahrian, Klimaschefski e Sundermann quantias que não eram reconhecidas nos balanços”, acrescentou Günter Herzog, que à época era o tesoureiro do clube.

Esportivamente, a punição imposta foi a pior possível: rebaixamento à segunda divisão. Convém, ainda, considerar que mesmo contrariando as orientações da DFB, o Hertha não melhorou seu desempenho. Na tabela, ficou uma segunda vez próximo do descenso. Os alviazuis só voltariam à elite em 1968-69.

1971: Receber para evitar o descenso alheio


A primeira campanha de qualidade desempenhada pelo Hertha Berlim aconteceu em 1969-70. Liderado pelos gols de Franz Brungs, Wolfgang Gayer e Lorenz Horr, alcançou a terceira colocação. O clube ficou atrás da dupla que começava a se tornar hegemônica na Alemanha: Borussia Mönchengladbach, campeão, e Bayern de Munique, vice. Inclusive, em 18 de abril de 1970, o Hertha viveria um dos momentos mais importantes de sua história, vencendo o Borussia Dortmund (que acabaria o campeonato em quinto) por 9 a 1.

Apesar disso, as práticas espúrias não haviam cessado no país. Em 1970-71, quando já se sabia que os germânicos sediariam a Copa do Mundo de 1974, isso ficou claro. É bem verdade que o Hertha não seria o pivô do segundo escândalo de grandes proporções vivido pelo futebol alemão. Mas se envolveria. Os malfeitos seriam expostos por alguém que não era propriamente isento de culpa.

Hertha 9:1 Dortmund
Foto: imago/Arte: O Futebólogo

Horst-Gregorio Canellas, mandatário do rebaixado Kickers Offenbach, reproduziu uma fita para a DFB, personalidades importantes do esporte e alguns jornalistas, durante a festa de seu aniversário de 50 anos. Era o dia 6 de junho de 1971. A gravação continha um diálogo polêmico entre o dirigente e os jogadores Tasso Wild e Bernd Patzke, do Hertha. O assunto central eram pagamentos ilícitos. Com a lebre levantada, as autoridades não demorariam a descobrir que o Arminia Bielefeld, que lutava contra o descenso, era protagonista nos estratagemas. 

Na altura, já havia sinais estranhos no ar: partidas com favoritismos claros terminadas com a vitória de azarões, bons jogadores perdendo gols claros… E, de repente, havia uma prova concreta de que algo podre vinha ocorrendo.

O que a DFB ouviu provocou uma série de investigações. Logo, tornou-se patente que as vitórias do Arminia contra times melhores, como Schalke 04 e Stuttgart, não haviam sido alcançadas com méritos esportivos. Este foi o caso do Hertha, que não perdera um só jogo em seus domínios até então. “Nove foram a favor, argumentando que se ‘eles são tão estúpidos para nos dar dinheiro, então pegamos’. Sete jogadores foram contra. E acabamos ficando com o dinheiro”, contou Tasso Wild, antigo meio-campista do Hertha, à DW.

Kicker Canellas Offenbach
Arquivo: Kicker

Outra vez, os berlinenses fizeram uma campanha formidável na Bundesliga, voltando a ficar com o bronze. Quando abordados pelos representantes de Bielefeld, tinham pouco a perder. O curioso é que houve uma disputa. Pessoas de Offenbach am Main também cortejaram a Alte Dame. No popular, quem pagou mais levou. Era a última rodada da Bundesliga e, na capital, o Arminia venceu por 1 a 0, gol marcado por Gerd Roggensack.

Nessa altura, o Hertha Berlim não foi punido. Mas uma série de jogadores seus foi: Tasso Wild, Bernd Patzke, Jürgen Rumor, Laszlo Gergely, Peter Enders, Wolfgang Gayer, Arno Steffenhagen, Karl-Heinz Ferschl, Hans-Jürgen Sperlich, Franz Brungs, Jürgen Weber, Michael Kellner, Uwe Witt e Zoltán Varga. Selecionável alemão naquela altura, o goleiro Volkmar Groß receberia uma das mais duras sanções: banimento da Bundesliga por dois anos e da seleção alemã para sempre. Também o presidente do clube, Wolfgang Holst, seria afastado.

O maior escândalo da história do futebol alemão levaria a DFB a abolir o teto salarial da Bundesliga. Arminia e Kickers seriam destituídos de suas licenças. Somente com o título da Euro de 1972, o futebol alemão começaria a deixar o fundo do poço, recuperando credibilidade. Porém, só teria seu prestígio de volta com a conquista do Mundial de 74.

2005: Gol contra suspeito contra time da terceira divisão


Mais de 30 anos depois do Escândalo de 1970-71, também às vésperas de uma Copa do Mundo a ser sediada na Alemanha, nova série de interferências ilegais colocaria o futebol germânico sob intenso alvoroço. Desta vez, o que se descobriu excluiu a possibilidade de partidas da Bundesliga terem sido escusamente influenciadas. Não obstante, a 2. Bundesliga, a Regionalliga e a Copa da Alemanha não escaparam. Novamente, o Hertha Berlim se viu em meio às investigações, não como protagonista, posição que coube ao árbitro Robert Hoyzer.

Depois de passar sem sossego pelas décadas de 1980 e 90, com várias temporadas na segunda e na terceira divisões alemãs, a Alte Dame vivia um ótimo momento na primeira metade dos anos 2000. Liderado por Marcelinho Paraíba, o alviazul sonhava em repetir o vice-campeonato de 1974-75 e em ir além, vencendo a primeira conquista berlinense da Bundesliga. O desejo não se concretizaria, mas outra vez o nome do Hertha ficaria enredado em uma trama de controvérsia.

Robert Hoyzer HSV
Foto: Getty Images/Arte: O Futebólogo

No início de 2005, descobriu-se que Hoyzer agia ativamente para manipular resultados. O escândalo movimentou mais de €2 milhões e o esquema começou a ser desmascarado quando o árbitro adulterioso foi denunciado por quatro companheiros à DFB. Lutz Michael Fröhlich, Olaf Blumenstein, Manuel Gräfe e Felix Zwayer vinham observando com estranheza alguns resultados das partidas apitadas por Robert.

Um veredito concluindo que Hoyzer combinava resultados com um grupo de irmãos croatas da família Šapina, que transitava pelo setor de jogos de azar e possuía ligação com o crime organizado, não tardou a ser alcançado. O juiz confessou os malfeitos e colaborou com as investigações, implicando uma série de pessoas, apostadores, dirigentes e atletas. Três atletas do Hertha chegaram a ser detidos na época. Alexander Madlung, Nando Rafael e Josip Šimunić foram conduzidos para prestar esclarecimentos.

Em um primeiro momento, o trio foi visado por conhecer os croatas. Porém, mais suspeitas pairaram sobre o time em razão de um resultado inesperado na Copa da Alemanha. Em 22 de setembro de 2004, o Hertha enfrentou o Eintracht Braunschweig, então na terceira divisão. Na oportunidade, Madlung entrou em campo aos 76 minutos e, quatro depois, marcou um gol contra um tanto quanto bizarro. Foi o tento da vitória do clube da Baixa Saxônia, 3 a 2, eliminando os representantes da capital alemã.


No fim das contas, uma série de punições foi tomada, a principal sendo o banimento e a prisão de Hoyzer, que não só influenciava algumas partidas que apitava como também fazia as vezes de intermediário entre os irmãos croatas e outros árbitros. Mas, por falta de provas, os atletas berlinenses acabariam isentos de culpa. Curiosamente, um dos jogos que tiveram que ser refeitos envolveu o Hertha II, da terceira divisão.

Após o ocorrido, a DFB criou uma comissão para, permanentemente, investigar potenciais casos de manipulação de resultados. Ainda que, desta vez, o Hertha não tenha participado diretamente dos crimes praticados contra a lisura do futebol alemão, as suspeitas relativas ao desempenho daqueles três atletas perduraram e o nome do clube permeou as notícias sobre o escândalo.

Inocente neste caso, a Alte Dame não evitou que mais este escândalo entrasse como asterisco indesejado na história do clube, que em pouco tempo se afastaria das primeiras posições da Bundesliga, chegando a mais um rebaixamento em 2009-10. Por sua vez, chegar ao topo do futebol alemão segue sendo apenas um sonho.

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