quarta-feira, 1 de junho de 2022

O Real Madrid bicampeão europeu em meio a jejuns

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O esporte não é exato. Ao desafiar os limites humanos, admite a possibilidade da subversão de expectativas. Entretanto, essa certeza não impede o surgimento de favoritismos; tampouco aplaca a força daqueles acostumados a vencer. No futebol, nenhuma equipe tem uma sala de troféus tão cheia de glórias expressivas quanto o Real Madrid. Quando os Blancos entram em uma competição, não podem ser descartados. Ainda assim, nem eles escapam das épocas de vacas magras.

Real Madrid Copa da Uefa 1986
Foto: UEFA.com/Arte: O Futebólogo


Uma época de transição


Era o fim da temporada 1980-81. No Parc des Princes, o Real Madrid buscava recuperar a coroa continental, após um hiato de quinze anos. Para tanto, contava com um elenco maduro, ainda que não fosse velho. Destaques como Santillana, Vicente Del Bosque, José Antonio Camacho e Juanito eram selecionáveis espanhóis. Além disso, o alemão Uli Stielike, também jogador internacional, reforçava a espinha dorsal da equipe e, no ataque, rendendo-se ao sucesso do futebol inglês, os madridistas apostavam em Laurie Cunningham.

Porém, opondo-se ao esquadrão da capital espanhola estava o Liverpool. A Inglaterra mandava na Europa naqueles anos. Após os sucessivos domínios de Ajax e Bayern de Munique, o continente se ajoelhou diante dos Reds, mas também perante Nottingham Forest e Aston Villa. Por mais que não carregassem o peso e a importância histórica de craques como Johan Cruyff ou Franz Beckenbauer, os ingleses se consolidaram. 

Em Paris, bastou um gol do lateral esquerdo Alan Kennedy para aumentar o jejum do Real.


Naquela temporada, o Madrid somou os mesmos 45 pontos da Real Sociedad em La Liga. No entanto, o regulamento dizia que, havendo paridade de pontuação, o título ficaria com a equipe de maior sucesso nos confrontos diretos. No primeiro turno, os Blancos até venceram, 1 a 0; no segundo, a derrota por 3 a 1 serviu aos interesses da esquadra de San Sebastián. Era a primeira vez que os txuri urdin se sagravam campeões nacionais, conquista buscada aos 44 minutos da etapa final.

“Os jogadores realistas, que buscavam desesperadamente o empate que lhes valeu o título, conseguiram seu objetivo através de Zamora, quando o Real Madrid já começava a comemorar o final feliz no estádio José Zorrilla, em Valladolid. O placar simultâneo trouxe lágrimas aos madridistas, e o gol de Zamora provocou o delírio de Donostia no El Molinón”, narrou o El País.

Os anos seguintes seriam amargos para o Real Madrid. Nas três temporadas seguintes, o Campeonato Espanhol terminaria em mãos bascas — uma segunda vez com a Real Sociedad e outras duas com o Athletic Bilbao. O único alento viria na Copa do Rei, em 1981-82, vencida ante o Sporting Gijón. Em 1982-83, por exemplo, o clube seria vice-campeão de todas as competições disputadas: La Liga, Copa do Rei, Recopa Europeia (caindo diante do Aberdeen, treinado por Alex Ferguson), Copa da Liga e Supercopa.

Emilio Butragueño Real Madrid
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Nesse meio tempo, porém, as categorias de base do clube se mostraram especialmente eficientes. Jogadores como Ricardo Gallego, Chendo, Manolo Sanchís, Rafael Martín Vázquez, Miguel Pardeza, Míchel e Emílio Butragueño (o Buitre) cavaram espaço na equipe principal, depois de conquistarem a segunda divisão com o Castilla. 

A Quinta del Buitre, apelido cunhado pelo jornalista Júlio César Iglesias, surgia, levando frescor ao time e, em pouco tempo, afirmar-se-ia como uma das mais talentosas gerações de jovens revelados pelo Real Madrid. Além disso, o clube contratara o argentino Jorge Valdano. Era necessário, entretanto, amadurecer o grupo. Se conseguia dar espetáculo em certas ocasiões, em outras sofria com a falta de consistência.

Para apagar o incêndio, Luis Molowny


O quinto lugar em La Liga 1984-85, que para diversos clubes seria uma colocação digna, para o Madrid era quase o fundo do poço. A temporada terminava da pior forma possível, com três derrotas consecutivas — uma delas especialmente sentida: a goleada do Atlético de Madrid, 4 a 0, em pleno Santiago Bernabéu. A situação era terrível.

Pouco antes do final do Campeonato Espanhol, Juanito e Lozano foram afastados do grupo principal, acusados de frequentar uma festa antes de uma partida importante contra a Internazionale, pelas semifinais da Copa da UEFA. Em Milão, os madrilenhos perderam por 2 a 0, tentos de Liam Brady e Alessandro Altobelli. A eliminação de mais uma competição era palpável. O treinador da equipe, Amancio (símbolo do madridismo nos anos 1960 e 70), perdera o vestiário e não havia nada a fazer senão substituí-lo.


Em fim de mandato, o presidente do clube, Luis De Carlos, deu a nota da crise experimentada na Ciudad Deportiva: “Nem todos nós soubemos estar à altura da ocasião, e eu fui o primeiro. Devemos examinar nossa consciência. Amancio não disse uma palavra de adeus ao elenco, e depois foi criticado pelos jogadores”, registrou o El País.

Ainda assim, o mandatário esclarecia qual deveria ser o foco dos jogadores até o encerramento da temporada: “Devemos pensar apenas no dia 24. Vocês [os jogadores] são capazes de superar a Inter, algo transcendental nesta temporada. Que não haja ressentimentos, que haja camaradagem. As coisas que foram feitas de errado, vamos perdoar e ajudar o treinador”. O comandante em questão era uma cara conhecida e sabia, como poucos, lidar com o madridismo.

Como atleta, Luis Molowny representara os Merengues nos anos 1940 e 50, antes de terminar a carreira no Las Palmas. Seria nas Canárias que iniciaria a trajetória como treinador, conduzindo os Amarillos a grandes campanhas. Seu retorno ao Real Madrid aconteceria em 1973-74, exercendo atividades diretivas. Porém, sempre que necessário, assumia o comando da equipe. “Não venho com nenhum chicote. Não entro na opinião dos jogadores sobre Amancio, apenas digo que a situação pode ser salva, que já há trabalho feito e peço compreensão e união entre todos”, pontuou.

Luis Molowny Juanito Real Madrid
Foto: El País/Arte: O Futebólogo

Molowny assumiu o Madrid no dia 16 de abril de 1985. Havia uma última, e desnecessária, partida de La Liga por jogar contra o Hércules. Todavia, nem tudo estava perdido nas outras frentes de batalha. A extinta Copa da Liga estava vigente; uma eliminatória contra o Barcelona, nas quartas de finais, era aguardada. Porém, mais importante que isso era o jogo de vida ou morte diante da Inter, na Copa da UEFA.

A retomada na Copa da UEFA


O Real Madrid já eliminara os austríacos do Innsbruck (5 a 2, no agregado), os iugoslavos do Rijeka (4 a 3), os belgas do Anderlecht (6 a 4) e os ingleses do Tottenham, com um suado 1 a 0, obtido apenas a partir de um gol contra do defensor Steve Perryman. Mas, vinha da citada e sentida derrota diante da Inter, que não tardaria a se tornar assunto velho. “Um time quebrado, esportiva e moralmente, renasceu de suas cinzas”, narrou o El País. Segundo o periódico, as ideias de Molowny se fizeram notar.

“O Real Madrid se transformou, marcou os gols nos momentos certos — logo após o início; perto do intervalo e respondendo imediatamente, após o intervalo, à reação do Inter. Mas também foi ajudado por uma Inter fraca. Molowny colocou Chendo em cima de Brady, El Cerebro, e tirou as asas do rival”. Santillana, duas vezes, e Míchel foram os responsáveis pelos gols da impressionante remontada. Impressionante pelo placar e por se dar em meio a uma das maiores crises institucionais já vividas pelos Blancos.

Todavia, a tensão não acabou após o jogo. O alento da torcida madrilenha na partida de volta fora além do aceitável. A Internazionale impugnou o resultado junto à UEFA, exigindo a repetição da partida. O motivo? O arremesso de uma bola de cristal das arquibancadas direto para a cabeça do zagueiro Giuseppe Bergomi, que se feriu e precisou ser substituído. Mais especificamente, o artefato viera da Ultrasur, facção que, entre outras questões, notabilizou-se por sua afeição pelo neonazismo.


Vale dizer que a Inter tinha experiência na anulação de partidas vexatórias em disputas continentais. Em 1971-72, pela Copa dos Campeões e em visita ao Borussia Mönchengladbach, os Nerazzurri sofreram a demolição de um 7 a 1 mais que impositivo. A partida valia pelas oitavas de finais. Porém, quando se preparava para cobrar um lateral, o atacante Roberto Boninsegna foi atingido por uma lata de Coca-Cola. Esse evento provocou a anulação da eliminatória completa. E, quando foi retomada, pendeu para o lado italiano.

Um dos vice-presidentes da Inter chegou a recordar o caso: “Estou perfeitamente ciente do precedente do replay entre Inter e Borussia porque, como advogado, defendi meu time naquela ocasião”. No entanto, o raio não caiu duas vezes no mesmo lugar e o Real Madrid avançou à decisão.

No dia 8 de maio, o clube viajou a Székesfehérvár. Na Hungria, enfrentaria o Videoton. Inapelável, impôs desde logo um sonoro 3 a 0. Primeiro, Santillana levantou bola para um arremate de Míchel. No segundo tempo, outrora garçom, Santillana anotou o segundo, de cabeça. E, no apagar das luzes, após jogada de Míchel, Valdano tocou com tranquilidade para as redes quase vazias. 

A derrota magra na volta, 1 a 0 (ainda que Santillana tenha tido um gol legal tomado), não impediu a chegada do necessário título. Em meio ao caos, o Real Madrid ressurgia, ainda que o clima seguisse pesado.


“Devo dizer que a vitória nesta Copa da UEFA foi, única e exclusivamente, dos jogadores. Os dois treinadores fizeram um trabalho, mas são os jogadores que resolveram as situações quase impossíveis”, manifestou Juanito, após a conquista.

E aquilo não seria tudo. Após eliminarem Barcelona e Gijón, os Blancos se vingariam da goleada sofrida diante do rival Atlético. Com a soma dos placares indicando um triunfo por 4 a 3, os Merengues se sagraram campeões também da Copa da Liga Espanhola.

Afirmação


Embora costumasse atuar apenas como bombeiro, Molowny permaneceu no comando madrilenho para a temporada 1985-86. A opção de Ramón Mendoza, o presidente eleito no Real Madrid, refletia o momento: “A entidade está passando por uma situação difícil. Lutaremos para recuperar prestígio e credibilidade. Partimos de uma realidade econômica que não é flutuante”, disse o mandatário

Seja como for, contratou o atacante mexicano Hugo Sánchez. E, além dele, o lateral Rafael Gordillo e o zagueiro Antonio Maceda, ambos da seleção espanhola. Entre as baixas, a mais sentida seria a de Stielike, que partiu para os suíços do Neuchâtel Xamax.

O Real conseguiu construir sucesso em cima das conquistas passadas. Ainda que não fosse um triunfo na Copa dos Campeões, o fim do jejum continental aliviava a barra. Faltava recuperar o lugar mais alto do pódio de La Liga. Uma abstinência de cinco anos era incomum para os Merengues. Desde os anos 1950, não acontecia. Então, a soma das contratações com o grupo de jovens, já mais maduros, vingou.

Ramón Mendoza Real Madrid
Foto: El Confidencial/Arte: O Futebólogo

Na corrida pelo título do Campeonato Espanhol, o Real Madrid só derrapou uma vez. Embora tenha largado com empate diante do Betis, em Sevilha, logo acumulou mais nove partidas de invencibilidade, com sete vitórias. Porém, a equipe voltou da viagem à Catalunha, na 11ª rodada, com uma derrota contra o Barça. E, duas rodadas depois, perdeu outra vez, agora para o Valladolid. Poderia ser o prenúncio de outra crise. Não foi. Ao contrário, os madrilenhos embalaram uma invencibilidade de 17 jogos, com 16 triunfos.

O time só perderia novamente quando podia — na 31ª e na última rodadas. Na altura, consolidara uma distância que, ao final da temporada, seria de 11 pontos para o segundo colocado. O título, efetivamente, fora garantido na 30ª rodada, quando o time superou o Valladolid, 2 a 1 (Míchel e Valdano marcando). Molowny conseguira: finalizara mais um jejum. Contudo, não havia tempo para respirar, porque o Real Madrid seguia vivo em outra frente.

Como no ano anterior, os madrilenhos terminaram abril com um desafio complicadíssimo. Depois de remontarem contra os gregos do AEK e os alemães do Gladbach, além de superarem os soviéticos do Chornomorets Odessa e os suíços do Neuchâtel Xamax, os espanhóis encontraram a Internazionale nas semifinais da Copa da UEFA. Como numa reprise, os milaneses largaram na frente em seus domínios: 3 a 1. 

Era preciso reunir as tropas para mais um embate épico. Inclusive, porque se tornara necessário impressionar o novo chefe. A partir de 1986-87, o clube seria comandado pelo holandês Leo Beenhakker. O negócio estava selado.


No Santiago Bernabéu, o Real Madrid reiterou sua fama. Ao final do tempo regulamentar, o placar indicava uma vitória por 3 a 1. Hugo Sánchez (duas vezes) e Gordillo marcaram. Do outro lado, Brady diminuíra. E, na prorrogação, não houve quem parasse Santillana, o responsável por mais dois tentos. 

Outra vez, os Merengues contrariavam prognósticos; novamente, carimbavam as passagens de volta da Inter para Milão. Surgiu a mística de que “noventa minutos no Bernabéu são muito longos”.


Restava um desafio para a consagração definitiva de Molowny. O Colônia, de Harald Schumacher, Klaus Allofs e Pierre Littbarski, aguardava os madrilenhos na final. A partida de ida foi um passeio. Aproximadamente 85 mil pessoas se acotovelavam no Santiago Bernabéu para ver Sánchez, Gordillo, Valdano (duas vezes) e Santillana condenarem as Cabras a um destino quase irreversível, mesmo que Allofs tivesse anotado o tento de honra: 5 a 1. 

A partida fatal foi protocolar. Os alemães, violentos no entendimento de seus contrapartes, venceram por 2 a 0. Insuficientes.

“Talvez eles quisessem nos assustar na saída, mas não conseguiram, porque, outra vez, os garotos se comportaram fenomenalmente [...] Como treinador, não se pode pedir mais e eu tenho que agradecer aos garotos pelo seu esforço, eles são os que conseguiram tudo”, falou um humilde e agradecido Molowny

Era sua despedida definitiva dos bancos de reservas. O bombeiro favorito do Real Madrid apagara mais um incêncio com sucesso e saía, vitorioso, de cena.


De 1986-87 em diante, a Quinta del Buitre e seus preciosos acréscimos seguiram uma senda de vitórias própria da história do Real Madrid. Mais quatro títulos de La Liga se acumulariam. No final da década, a equipe também recuperaria o lugar mais importante na Copa do Rei. Uma nova glória na Liga dos Campeões tardaria mais alguns anos, mas, inevitavelmente, viria. Em 1997-98, a espera de mais de 30 anos acabaria.

Entretanto, só se pode especular o que o destino teria reservado aos madridistas se, nos anos 1980, o bicampeonato da Copa da UEFA não tivesse ajudado a reerguer um time combalido e em crise. É por essas que aquela geração de talentos é tão idolatrada e que Molowny é lembrado como “O Senhor dos Milagres”.

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