quarta-feira, 22 de junho de 2022

A premonitória temporada 2002-03 do Porto de José Mourinho

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O destino, o aleatório, raramente fazem campeões. Estudo, planejamento e organização costumam ser elementos mais relevantes. Havendo um desejo ardente de afirmação e projeção, tanto melhor. Quando José Mourinho chegou a um Porto combalido e em meio a uma temporada fracassada, havia muito trabalho a fazer. Sua juventude não era um problema, garantia a vitalidade necessária para a missão que empreenderia. E não se tratava de um vigor irresponsável, ele vinha trabalhando há anos. Em menor evidência, é verdade. Quando sua grande chance apareceu, ele a agarrou.

FC Porto UEFA Cup
Foto: FC Porto/Arte: O Futebólogo


Adeus às Antas


Em 1999, a UEFA definiu o país-sede da Euro 2004. Superando a vizinha Espanha, e a candidatura conjunta de Áustria e Hungria, Portugal foi a nação escolhida. Tradicional força do futebol de clubes, mas um tanto decepcionante no cenário de seleções, o país tinha trabalho a fazer. Uma das principais necessidades era a remodelação ou construção dos estádios que serviriam de palco para o torneio. No final de 2000, a expectativa era a de que as novas casas do futebol lusitano fossem entregues até setembro de 2003.

Um dos clubes envolvidos diretamente nas mudanças era o Porto. Durante 52 anos, os Dragões mandaram seus jogos no Estádio das Antas, cuja capacidade apontava a possibilidade de 55.000 presenças nas arquibancadas. O fato era que, em 2002-03, a histórica casa portista estava com os dias contados. A demolição do complexo se iniciara em 2001, precipitando as despedidas. A mudança para o moderníssimo Estádio do Dragão, que custaria cerca de €125 milhões, apresentava-se como realidade incontornável.

Seguindo o cronograma, as obras da nova catedral portista seriam entregues no princípio da temporada 2003-04. Ou seja: a campanha anterior seria mesmo aquela em que às gerações de torcedores seria oportunizada a chance da despedida. Ou de várias despedidas. Abria-se a possibilidade, ou mesmo a necessidade, o desejo, de um adeus marcante — sobretudo porque, após dominar o futebol nacional nos anos 1990, o Porto passava por um período menos vitorioso, com a virada do século.

Estádio das Antas
Foto: Twitter @fcportomemoria/Arte: O Futebólogo

O derradeiro Campeonato Português conquistado pelos Dragões viera em 1998-99. A última vez em que os nortistas entraram em um hiato de três temporadas afastados do principal troféu lusitano ocorrera entre 1978-79 e 1984-85. Habituado ao primeiro lugar do pódio nacional, o Porto buscava reencontrar o caminho dos títulos. Curiosamente, sequer era o Benfica, principal rival e maior vencedor do torneio, que gozava dos efeitos da época de transição azul e branca. Boavista e Sporting ganharam momentum.

Em 2001-02, o Porto terminou a disputa em terceiro lugar, atrás dos dois supracitados. Porém, nem tudo andava mal ao final da temporada. Quando ainda se vivia a janela de inverno europeu, após um doloroso revés diante do Boavista, o treinador portista, Octávio Machado, perdeu o emprego. Na rodada seguinte, uma aposta já havia sido feita. Se o União de Leiria surpreendia, ocupando a quarta colocação, deveria haver bons motivos. É provável que, em vias de completar 39 anos, seu treinador tivesse parcela de contribuição.

Aposta no jovem José Mourinho


Ele não era desconhecido. Na última década, acompanhara treinadores como Sir Bobby Robson e Louis van Gaal, em clubes como Porto, Sporting e Barcelona. Primeiro como intérprete; depois como auxiliar. Também recebera a primeira oportunidade de ouro, apesar de o timing não ter sido favorável. A chegada ao Benfica, em 2000, substituindo o lendário alemão Jupp Heynckes, aconteceu às vésperas das eleições para a presidência encarnada. Manuel Vilarinho se elegeu, trazendo Toni, ídolo benfiquista, de volta ao clube. Insolitamente, o jovem comandante caiu após uma vitória impositiva no dérbi contra o Sporting, 3 a 0.

Seja como for, depois de uma queda de braço com o Leiria, e com vínculo firmado por duas temporadas e meia, José Mário dos Santos Mourinho Félix era a bola da vez no Porto. Na data da conclusão do negócio, as ações da Sociedade Anônima Desportiva do clube subiram 18,39%. Concretamente, em 25 de janeiro de 2002, a história azul e branca começou a acompanhar a escrita de um novo capítulo. O último das Antas; e que acabaria sendo o primeiro do Dragão.

“O mais difícil foi fazer um acordo com Leiria. Mas esse assunto já está resolvido. Estou honrado por voltar a um lugar onde trabalhei antes. O fato de eles estarem em quinto lugar me preocupa. É uma situação extrema — e eu adoro esse tipo de situação”, falou o treinador, na chegada ao clube.

José Mourinho Leiria
Foto: O Jogo/Arte: O Futebólogo

Trazendo novidades como a famigerada periodização tática, idealizada por Vítor Frade na Universidade do Porto, Mou, que chegou acompanhado do auxiliar técnico Baltemar Brito e do fisioterapeuta Rui Faria, era puro frescor e novidade. O treinador cria que as vertentes que envolvem o futebol, física, tática, técnica e mental, não podiam ser trabalhadas em separado; buscava simular, ao máximo, situações típicas de uma partida. Ele se sabia diante da oportunidade da vida e a agarrou.

Já na estreia, conduziu o time à vitória contra o Marítimo. Até o final da temporada 2001-02, o Porto acumularia 11 vitórias, dois empates e apenas duas derrotas — embora não tenha conseguido triunfar na segunda fase de grupos da Liga dos Campeões, contra Real Madrid, Sparta Praga e Panathinaikos. A terceira colocação no Campeonato Português, de fato, não era muito auspiciosa. Porém, diante do cenário encontrado a meio da temporada, era aceitável. E classificava o time para a Copa da Uefa de 2002-03.

Contratações despretensiosamente cirúrgicas


Para sua primeira temporada completa, José Mourinho perdeu dois jogadores importantes. Atleta com mais partidas disputadas na campanha anterior, o zagueiro Jorge Andrade, já selecionável português, foi vendido ao Deportivo La Coruña, por €13 milhões. O volante paraguaio Carlos Paredes seria a outra baixa, negociado com a Reggina, por quase €5 milhões. Porém, os investimentos portistas seriam cirúrgicos. 

“Os olhos do Mourinho vão buscar peças nas quais mais ninguém pensa. Onde estava o Derlei escondido? Onde estava o Nuno Valente?”, questionou o Público, em agosto de 2002.

A comissão técnica do jovem treinador era das maiores já contratadas pelo Porto, e das mais próximas em termos de relacionamento. Mourinho buscava uma unidade, ao ponto de aceitar tranquilamente as presenças de António André e Aloísio, ex-jogadores de sucesso no clube, e que constituíam elo com o polêmico mandatário Pinto da Costa. Com toda essa gente ao seu redor, o treinador buscou três ex-comandados no Leiria, Nuno Valente, Derlei e Tiago. Do Benfica e sem custos, trouxe Maniche, que conhecera ainda em 2000. Outra aquisição importante seria a do lateral Paulo Ferreira. Na apresentação do reforço, Mourinho deixou claro o que procurava.

Derlei Porto
Foto: Getty Images/Arte: O Futebólogo

“O Paulo Ferreira é jovem e enquadra-se no perfil que desejamos. É um futebolista moderno, polivalente e que atua em vários sistemas táticos. Até agora ainda não ganhou nada, mas estou certo que quer ganhar. Nesta fase da sua carreira, o Paulo Ferreira joga a lateral, mas nasceu e cresceu a jogar no meio-campo. Pode ser utilizado como ala, por exemplo. Num sistema de três zagueiros pode jogar pelo lado direito e isso pode ser um factor importante. Este clube não ganha um título há muito tempo, por isso é normal que haja reformulações”, pontuou.

Ainda chegariam às Antas o goleiro Nuno Espírito Santo, um reserva para Vítor Baía; o lituano Edgaras Jankauskas, que andava na Real Sociedad mas conhecia o futebol português, tendo passado pelo Benfica; outro jovem polivalente, mas pelo lado esquerdo, César Peixoto; e o zagueiro Pedro Emanuel, antes uma garantia do rival local, Boavista. Todos esses reforços custaram aproximadamente €12 milhões. Somaram-se aos estabelecidos Baía, Secretário, Jorge Costa, Costinha e Capucho, bem como a jovens em pleno desenvolvimento, como os Ricardos, Carvalho e Costa, Deco e Hélder Postiga.

Mourinho desenvolvia um toque de midas. Na hora certa, boa parte desse time renderia milhões aos cofres portistas. Entretanto, tal só seria possível diante daquilo que marcaria a trajetória do treinador: os títulos.

Deco Porto
Foto: Miguel Barreira/Arte: O Futebólogo

Mandando no país


O Porto precisou de pouco tempo para se acertar. A estreia na temporada 2002-03, sem aquele que se mostraria a engrenagem central do time — Deco —, representaria apenas um detalhe menor. Em casa, os Dragões empataram, 2 a 2, com o Belenenses, treinado por Marinho Peres. Já na rodada seguinte, exibindo uma trinca de meio-campo que ficaria famosa, Costinha-Maniche-Deco, o Porto venceu o Boavista. A invencibilidade portista duraria 21 rodadas, com 18 vitórias e três empates. Essa senda de sucessos incluía vitórias, como visitante, diante dos rivais Benfica e Sporting (que chegou a utilizar um jovem Cristiano Ronaldo).

Taticamente, o time de Mourinho alternava entre um 4-3-3 e um 4-2-3-1. A diferença residia, essencialmente, no posicionamento de Deco. Conforme a circunstância exigia, podia atuar mais próximo a Maniche ou se acercar aos atacantes. Neste setor, o mais comum seria a presença de um trio composto por Derlei, Hélder Postiga e Capucho, ainda que Jankauskas tenha sido um dos mais utilizados durante a temporada. Diferentemente do que o curso da carreira de José indicou, no princípio, ele não baseava seu jogo em ideias defensivas.

“Quando se tornou treinador do União de Leiria, em 2001, Mourinho introduziu no futebol português a filosofia cruyffiana da posse de bola [...] Quase todo mundo esquece que, em sua primeira temporada no clube, o Porto jogava num ofensivo 4-3-3. Técnico e time são lembrados pelo pragmático 4-4-2 em diamante com que atuavam nos compromissos do torneio continental, mas era uma equipe expansiva nos jogos domésticos”, relata Daniel Fieldsend, em A Escola Europeia.

Postiga Porto
Foto: Getty Images/Arte: O Futebólogo

Avassalador, o Porto só perderia nas rodadas 22 e 31 (de 34 totais). Venceria todos os dérbis. No final da competição, Mourinho se daria ao luxo de poupar titulares — havia outras duas frentes de batalha a enfrentar.

Domesticamente, os Dragões avançaram às finais da Taça de Portugal. Depois de tombar Trofense, Gil Vicente, Varzim e Naval, os homens de azul e branco enfrentariam um desafio com um componente emocional extra para o treinador. Sob as bases fundadas por ele próprio, o União de Leiria, agora liderada por Manuel Cajuda, era finalista. No Jamor, Deco assistiria Derlei, para o que seria o único gol da decisão. A dobradinha nacional estava assegurada. E, naquela altura, o sucesso já se sabia triplo.


Acenando para os melhores do mundo


Além das jornadas caseiras, o Porto enfrentou uma carreira continental. Para quem disputara as últimas sete edições da Liga dos Campeões, a Copa da Uefa podia se sugerir um desafio menor. No entanto, os nortistas mostraram fome desde a primeira partida da eliminatória. Diante do Polônia Varsóvia, largaram com um triunfo impositivo, 6 a 0. A derrota na volta, 2 a 0, foi facilmente justificada, já que Mourinho poupou vários titulares.

A complexidade dos desafios seguintes foi aumentando gradativamente. Contra o Austria Vienna, duas vitórias, 1 a 0 e 2 a 0, levaram os Dragões adiante. Após a eliminatória, elogios seriam feitos de parte a parte. “A equipe é bem melhor do que pensávamos quando nos saiu no sorteio. Sabíamos que tinha alguns jogadores com experiência, mas é, de fato, uma equipe melhor e que tem ambições legítimas. Para além disso, é orientada por um treinador alemão, com óbvias consequências na estrutura tática”, registrou Mourinho.

A seguir, o Lens, que apresentava um jovem Seydou Keita, pintou no caminho azul e branco. Em casa, o Porto carimbou um sonoro 3 a 0. A derrota marginal da partida de volta — dessa vez com Mou escalando força máxima — não desviou o time de sua rota. Tampouco os turcos do Denizlispor o fizeram. 

Mais uma vez com a primeira mão sendo jogada em Portugal, os portistas selaram o avanço de imediato: 6 a 1. A partida, além disso, evidenciou a faceta coletiva do time, já que os gols foram marcados por atletas diferentes, Capucho, Derlei, Ricardo Costa, Jankauskas, Deco e Dmitri Alenichev. O empate na segunda mão, 2 a 2, agora com vários suplentes no time titular, seria apenas um protocolo.


No entanto, a vida tranquila do time estava com os dias contados. Nas quartas de finais, recheado de selecionáveis gregos — como Antonis Nikopolidis, Georgios Seitaridis, Sotiris Kyrgiakos, Angelos Basinas e Georgios Karagounis —, o Panathinaikos calou o Estádio das Antas. O polonês Emmanuel Olisadebe marcou o que foi o solitário gol da partida de ida. O Trevo voltava para Atenas em vantagem.

“Do mesmo modo que eles foram ganhar às Antas, podemos ganhar”, falou Mourinho na coletiva que antecedeu a partida de volta. Ele estava certo. Com Derlei iluminado, o Porto marcou no início da partida. O jogo endureceu e avançou à prorrogação. Quase no intervalo do tempo extra, em ritmo alucinante, sobretudo considerando o avançar da hora, o atacante partiu pela ponta esquerda e marcou o gol da classificação portista. A Lazio já batia à porta.


Nas semifinais, primeiro nas Antas, Claudio López até abriu o placar para os romanos. Entretanto, Maniche, Derlei (duas vezes) e Postiga afundaram os laziali. Em Roma, nem o Stadio Olimpico lotado nem a expulsão de Hélder Postiga ameaçaram a classificação dos portugueses. O empate por 0 a 0 bastou. Na decisão, a ser disputada em Sevilha, o Celtic esperava o Porto. Treinado por Martin O’Neill, o clube estava em vias de começar uma hegemonia na Escócia.

Sem o suspenso Postiga, Mourinho preferiu acrescentar um meio-campista à formação tradicional. Deu certo. Alenichev ingressou na equipe, permitindo que Deco jogasse mais livre. O jogo foi o que se popularizou chamar de teste para cardíacos. Nos acréscimos da etapa inicial, Deco fez um lançamento por cima da defesa dos Bhoys, direcionado a Alenichev. O russo finalizou para a defesa parcial de Rab Douglas. Derlei pegou o rebote e abriu o placar. O problema para os portugueses foi que, logo na volta dos vestiários, Henrik Larsson empatou.

Aos 54 minutos, Deco assistiu Alenichev outra vez e essa oportunidade o meia não desperdiçou. Três minutos depois, todavia… Larsson voltou a igualar o marcador. A partida foi se prolongando. Os minutos regulamentares se esgotaram. A prorrogação se anunciou. E o jogador mais decisivo da competição reapareceu: Derlei. Aproveitando mais um rebote, fintou Jackie McNamara, fuzilou a meta escocesa e se confirmou o artilheiro máximo da disputa, com 12 gols. 

O Porto voltava aos pódios europeus, pela primeira vez desde 1987. 30 mil torcedores enfrentaram a madrugada nas Antas esperando o retorno dos campeões. Não havia modo de aquele ano ser melhor.


“Nesses anos tínhamos uma confiança inabalável. Talvez se deva ao fato de o nosso treinador ser uma pessoa bastante confiante e ter uma enorme ambição: José Mourinho. Formávamos uma equipa que se adequava à sua visão do jogo. Éramos capazes de nos manter sólidos em qualquer tipo de ambiente”, falou Baía, à UEFA

É fácil falar da história vivida. A temporada 2003-04 se tornaria emblemática para o Porto e José Mourinho. Cabe pontuar que ela dificilmente existiria sem um ano anterior tão forte, em que um trabalho moderno, com bases científicas, foi estabelecido, uma equipe se renovou e o senso de vitória foi cultivado. O rótulo de Special One ainda demoraria um pouco para ser assumido por Mou, mas, em 2002-03, os indícios de que ele era mesmo raro eram concretos. E de que aquele Porto era fortíssimo também. O Estádio das Antas pôde sair de cena com a sugestão de que seu sucessor ainda sediaria muitas glórias para várias gerações de portistas.

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