sexta-feira, 7 de março de 2014

1992 – O ano em que um time Crimeano comandou a Ucrânia

O ano é 1992 e a Ucrânia, recém-alforriada da URSS, precisava pensar em um destino para seus clubes, que, até então, disputavam os campeonatos nacionais soviéticos. Assim, nasceu oficialmente o Campeonato Ucraniano de Futebol, unindo 20 equipes do país. Da divisão superior da URSS, vieram seis clubes, da segunda, duas, da terceira, nove e, da quarta divisão, vieram as outras três equipes. Tudo indicava que o Dínamo de Kiev – maior campeão de todos os tempos do Campeonato Soviético – dominaria o futebol nacional, o que se confirmaria com o tempo, mas não no primeiro ano de disputa.


Em verde, ao sul da Ucrânia está situada a Crimeia.
Historicamente foco de conflitos, como o ocorrido entre 1853 e 1856, quando Grã-Bretanha, Império Otomano, França e Sardenha se uniram para evitar os avanços expansionistas da Rússia, em que uma sucessão de erros de todas as partes envolvidas (de estratégicos até médicos),  matou mais de 300 mil pessoas, a Crimeia, que também esteve envolvida em problemas na Segunda Guerra Mundial, quando foi invadida pela Alemanha nazista, teve, em 1992, motivos para sorrir.

No primeiro ano de campeonato nacional, a disputa se dava primeiramente por meio de dois grupos, nos quais dez equipes jogavam entre si, em jogos de ida e volta e, posteriormente, os campeões de cada grupo se enfrentavam na final da competição.

Depois de conseguir a primeira colocação em seu grupo (que continha, Shakhtar Donetsk, Chornomorets, Torpedo, Metalurh, Karpaty, Kremin, Nyva, Evis e Temp), o Tavriya Simferopol (principal clube da capital da Crimeia) chegou à final do campeonato e viu-se frente a frente com o temido Dínamo de Kiev, do zagueiro Oleh Luzhny e do atacante Oleg Salenko, que seria, junto com o búlgaro Hristo Stoichkov, artilheiro da Copa do Mundo de 1994.

Imagem da final entre Tavriya e Dinamo.

A finalíssima aconteceu na cidade de Lviv, com público de 36.000 pessoas, e foi uma partida dura. Comandado pelo lateral direito Oleksandr Holovko e pelos atacantes Sergei Shevchenko (que não tem qualquer parentesco com o famoso ex-atacante do Milan) e Yuriy Hudymenko, artilheiro da competição com 12 gols, o clube crimeano conseguiu um único, solitário e vital gol, passou por cima dos favoritos da capital Kiev e sagrou-se o primeiro campeão do campeonato ucraniano independente.

Azarão, em 1992 o Tavriya conseguiu um feito que apenas Dínamo de Kiev e Shakhtar Donetsk alcançaram nos 22 anos de história do campeonato. Desde então, a equipe retornou à sua realidade pretérita, voltando a ser mero figurante no cenário ucraíno.

Após o “milagre de Lviv”, a cidade de Simferopol só comemorou um título, a Copa da Ucrânia, em 2010.

Hoje, em função das tensões que assolam a região da Crimeia, o clube trabalha para não deixar de existir. Os portugueses David Caiado e Nuno Pinto (foto) lideram uma debandada do clube em razão dos problemas que têm acontecido. O destino escolhido por eles foi a Turquia. Em entrevista ao periódico português Público, Nuno Pinto contou o que viu:

“O aeroporto estava fechado e tivemos que seguir para Donetsk. Ao passar pela fronteira da Crimeia, vimos militares russos de cara tapada, com tanques e espingardas. Mandaram parar o autocarro, perguntaram quem estava no autocarro (...) o motorista respondeu-lhes, mas não sei o que lhes disse, os militares abanaram a cabeça e seguimos viagem.”

22 anos depois de ser a sensação no “Ucranianão” o clube, assim como sua cidade, vive um período de grande indefinição. Além dos portugueses, mais 10 jogadores estrangeiros atuam na equipe, dentre eles o brasileiro Célio ex-Ponte Preta. Se o conflito continuar e a debandada se generalizar, o futuro do clube estará seriamente em risco. Apesar disso, o esporte tem a virtude de contornar problemas e trazer esperança até nos tempos mais difíceis.

O campeão de 1992 não pode morrer, pelo bem do esporte e de sua cidade.      

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