quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Um Dortmund sem identidade

Quando ressurgiu no cenário internacional, o Borussia Dortmund era treinado por Jürgen Klopp e seu jogo tinha feições muito próprias. O famigerado Gegenpressing estava ali em alta, em um time que contava com a juventude de peças como Mats Hummels, Nuri Sahin e Mario Götze. Aquela equipe ficou caracterizada pela forma intensa como pressionava seus adversários, evitava seus contra-ataques e os apanhava em seus próprios e fatais contragolpes. 


Foto: TF-Images/Getty Images

Esse estilo foi sendo modificado, com a implementação do jogo de posição proposto por Thomas Tuchel, o sucessor de Klopp e que era apontado como a alternativa ideal para aperfeiçoar o trabalho pretérito. Porém, embora tenha conseguido propor variações que inexistiam com seu predecessor, ele se desgastou internamente e deixou o clube. A ideia de Klopp terminou de ser deixada de lado na gestão fracassada de Peter Bosz, que fez o time perder sua eletricidade e gastar a bola de forma pouco objetiva. Agora, a aposta em Peter Stöger demonstra que o clube está sem direção e procurou um nome para apagar o incêndio que se alastrou pelo Signal Iduna Park. 

No início da temporada 2017/18, tudo parecia indicar que os aurinegros haviam feito a aposta perfeita quando foram a Amsterdã convencer Bosz a deixar o Ajax e partir para Dortmund. Isso porque, dos seus sete primeiros jogos, venceu seis, obtendo um saldo de gols de +24. Entretanto, rapidamente os adversários do time do Vale do Rühr entenderam a forma de o neutralizar. Forçando o clube a sair jogando com sua primeira linha defensiva, sem o auxílio de um meio-campista, os rivais aurinegros fizeram com que o time ficasse sem saída. Podia ter a bola que nada conseguia produzir.

Foto: Imago/Rene Schulz


Muitas vezes criticado também por algumas escolhas frequentes – como a opção por Gonzalo Castro – Bosz foi cavando, aos poucos, a própria cova. Seu time, previsível, começou a cair pelas tabelas. Hoje, é apenas o sexto colocado na Bundesliga e foi eliminado da disputa da UEFA Champions League (resta a Europa League no horizonte). O tradicional esquema tático 4-3-3, da forma como foi executado, mostrou-se demasiado rudimentar e carente de possibilidades para o futebol do mais alto nível. Em menos de seis meses, toda a eletricidade de Tuchel e Klopp se acabou e o holandês perdeu o emprego. 

Diante desse quadro, pende uma dúvida: a direção do Borussia Dortmund conhecia o estilo de jogo de Bosz ou apostou apenas em seu retrospecto recente (em 2016/17 foi vice-campeão da Europa League)? Independentemente da resposta, há uma certeza: jogados às traças, os aurinegros não têm mais identidade. E o questionamento atual diz respeito às ideias de Stöger, o nome escolhido para suceder Bosz. 

Foto: Lintao Zhang/Getty Images
É impossível duvidar do fato de que o trabalho do austríaco à frente do Colônia foi muito positivo. Foi sob sua direção que o time retornou da segunda divisão, em 2013/14, evitou o rebaixamento em 2014/15, terminou na parte de cima da tabela em 2015/16, e se classificou à Europa League em 2016/17. Nota-se, pois, importante escalada. No entanto, as aspirações de seu clube anterior não se assemelham às do Dortmund. Para este, a classificação às competições europeias não passa de obrigação; a luta verdadeira precisa ser pelo título, que, após retomada importante no início da década, não chega desde 2011/12 e não virá em 2017/18. 

É óbvio que, a princípio, a única missão de Stöger é evitar que a temporada se torne ainda mais fracassada. Além disso, ao contrário do que se verificava com Klopp e Tuchel, que brilharam no Mainz antes de chegar ao Signal Iduna Park, os feitos de Peter no Colônia não o credenciam como uma boa aposta. Na última temporada, conseguiu que seu time fosse coeso e teve em Anthony Modeste um artilheiro implacável. Mas aquela era uma proposta carente de ideias, embora equilibrada (o time perdeu poucas vezes, mas foi o segundo que mais empatou na Bundesliga). Em geral, jogou sempre no esquema tático 4-4-2, com duas linhas de quatro bem estruturadas e aposta em bolas despejadas na direção de seu centroavante - não muito mais do que isso. 

Em 2016/17, o Colônia foi o terceiro time que menos chutes, em média, ofereceu por partida; foi também o terceiro que menos tempo conservou a posse de bola e, em razão da procura constante por Modeste, acabou ficando com o terceiro lugar na estatística de impedimentos por jogo. Em compensação, foi o quinto que mais desarmes obteve, com média de 20 a cada encontro. Em suma, o clube se mostrou encaixado e com um modelo de jogo bem definido e adequado para suas pretensões. Contudo, isso tudo é muito pouco diante das aspirações aurinegras. 

Foto: Herbert Bucco
Talvez a recuperação do Dortmund até passe por uma reestruturação mais básica, mas a longo prazo este se mostra um plano muito pouco ambicioso. É claro também que Stöger tem contrato apenas até o final da presente temporada, o que denota que a direção aurinegra acusou o golpe: destruiu sua identidade e não pode remontá-la no curso do ano. Ainda assim, necessita obter melhores resultados.

Se o comandante contratado sofreu no início dessa campanha, perecendo sem Modeste, que partiu para o futebol chinês, e deixando o Colônia na lanterna da Bundesliga, ao menos pode agora contar com Pierre-Emerick Aubameyang. Mas, a despeito de seu histórico, esse também não tem sido sombra do goleador de outrora. 

Parece evidente que Stöger é somente um bombeiro, que não vem para marcar território, mas buscará devolver a confiança a alguns jogadores e recolocar o Dortmund no caminho das vitórias. Não lutará pelo título alemão, já vendo o Bayern de Munique 13 pontos adiante, mas tem na Europa League uma possibilidade. Para já, o clube pode ter encontrado uma solução, a qual parece ter prazo de validade. No entanto, até isso é difícil prever, pois não se sabe o que o treinador poderá oferecer com um elenco de melhor qualidade nas mãos. Certo é que o time vai ter que buscar uma nova identidade, entretanto, o mais provável é que isso só ocorra em 2018/19.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

A inusitada estreia de Molina pela Seleção Espanhola

O Deportivo La Coruña é o único clube galego a ter conquistado o Campeonato Espanhol em todos os tempos. Isso se deu em 2000. Na oportunidade, a equipe contava com grandes jogadores; gente como Mauro Silva, Djalminha e Roy Makaay. O período próspero do Depor coincidiu com tempos sombrios do Atlético de Madrid, rebaixado à segunda divisão. Assim, logo após o título nacional, o time contratou o goleiro colchonero, José Francisco Molina. Anos antes, este havia estreado com a camisa da Seleção Espanhola, em circunstâncias pouco usuais.


Foto: Getty Images


A meta da Fúria foi durante muitos anos defendida por um ícone. De longa história com as camisas de Athletic Bilbao, Barcelona e Valencia, Andoni Zubizarreta fez seu primeiro jogo por seu país em 1985 e só largou o osso em 1998, quando decidiu se aposentar. Foi durante um bom tempo o jogador com mais internacionalizações da história espanhola – foi ultrapassado por Xavi, Sergio Ramos e Iker Casillas. Mesmo assim, a transição foi rápida: ainda que tenha começado nas mãos de Santiago Cañizares, nome marcante da história do Valencia, terminou nas seguras e vitoriosas luvas de Casillas.

Foto: Getty Images
Diante disso, houve sempre pouco espaço para outros goleiros. Porém, Molina chegou lá e esteve nos elencos que disputaram a Eurocopa em 1996 e 2000, além de marcar presença na Copa do Mundo de 1998. Alcançou o total de oito internacionalizações, a maior parte delas entre o fim de 1999 e a Euro 2000. Nesta ocasião, até começou o certame como titular, mas falhou no gol que sentenciou a Fúria a uma derrota perante a Noruega e perdeu a posição. Mas nada é tão estranho quanto o dia de sua estreia.

Curiosamente, aquele 24 de abril de 1996, também colocou os espanhóis frente a frente com os noruegueses. Defendendo a meta da Roja esteve lá ele, Zubizarreta, o capitão. Conforme o jogo foi avançando, sem que o zero deixasse o placar, o treinador espanhol – o histórico Javier Clemente, eternamente lembrado pela conquista do bicampeonato espanhol com o Athletic Bilbao – promoveu substituições. Por atacado, diga-se.

Era passado o minuto 53 quando de uma só vez sacou Julen Guerrero, Fernando Hierro, Guillermo Amor e Luis Enrique, apostando em Kiko, Donato, Juanma López e Alfonso. Era tudo o que podia fazer, já que só contava com 16 jogadores no banco de reservas, restando apenas o goleiro Molina. No entanto, aquele dia não traria boa fortuna aos hispânicos. Para além de não superar a defesa escandinava, Clemente teve um problema mais grave, doze minutos antes do final da partida.

Foto: Getty Images
López, que entrara já na etapa final, sofreu uma lesão e colocou um problema na cabeça do treinador da Fúria. Ele passou a ter duas opções: ou atuava o resto da partida com um jogador a menos ou apelava para seu goleiro reserva e virgem de partidas pela Seleção Espanhola. Escolheu a segunda alternativa e lotou seu arqueiro suplente na ponta esquerda, onde pudesse ocupar espaços, sem ter muita influência no jogo. No entanto, não foi bem isso o que aconteceu. À época dos fatos, o periódico Mundo Deportivo relatou a estranheza daquele momento insólito:

“Todos os espanhóis que estavam em Oslo ficaram estupefatos, mas a história se consumou com o ‘agravante’ de que Molina não destoou tanto e esteve a ponto de marcar o gol da vitória em um chute por baixo que tirou tinta da base da trave norueguesa. No total, o goleiro colchonero realizou oito intervenções, cinco corretas, duas perdas de posse e o chute citado”.

Goleiro marcante com as camisas de Atlético de Madrid e Deportivo La Coruña, Molina se forjou em um personagem curioso da história do futebol. Além dos títulos com as camisas rojiblanca e branquiazul e de sua singular estreia com a camisa da Fúria, ainda superou um câncer nos testículos, ficando fora da maior parte da temporada 2002/03, em decorrência do agressivo tratamento. Todavia, venceu também essa batalha. Jogou até 2007, às vésperas de completar seus 37 anos. Hoje é treinador. Sua trajetória é marcante e poderia ser ainda mais: já pensou se aquele chute tivesse balançado as redes norueguesas?

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Guus Hiddink e a melhor Austrália de sempre

A estreia da Austrália em Copas do Mundo se deu em 1974. Como era de se esperar, foi muito ruim: um empate e duas derrotas. Demorariam 32 anos para que os Socceroos conseguissem voltar ao maior palco do futebol mundial. A despeito de se tratar da melhor equipe da Oceania, o fato de tal continente não possuir uma vaga garantida no certame, sempre tendo que batalhar por seu lugar na repescagem, tornou a tarefa inglória. Porém, em 2006, sob o comando de Guus Hiddink, tal realidade mudou.


Foto: Getty Images


O treinador holandês vinha de um período de êxito; liderara a Coreia do Sul (não sem controvérsia) à quarta colocação no Mundial que, junto ao Japão, sediara. Ele chegou à Austrália com boas credenciais, embora dividindo as atenções da seleção com as tarefas do comando do PSV Eindhoven. Além de seus sucessos sob a direção de clubes, já se provara treinando um selecionado que estava longe de ser dos mais fortes ou tradicionais.

Aliado a isso, Hiddink (que levara como auxiliares o ex-craque Johan Neeskens e Graham Arnold, ex-jogador da própria Seleção Australiana) tinha nas mãos o melhor material humano já produzido em solo australiano. A maior parte dos atletas atuava na Europa e alguns, como o goleiro Mark Schwarzer, os meias Harry Kewell e Tim Cahill ou o centroavante Mark Viduka, tinham destaque nos seus times. Havia talento, mas também muito trabalho duro, evidenciado, por exemplo, nas figuras de Vincenzo Grella, Mark Bresciano ou Brett Emerton.

Indiscutivelmente, aquela Austrália estava pronta para se exibir na maior vitrine do futebol mundial. Era um elenco experimentado (21 dos 23 jogadores já haviam transposto a barreira dos 25 anos e 10 a dos 30). Aquela era sua hora. Depois de reinar, soberana, nas eliminatórias, que culminaram com um placar agregado de 9 a 1 contra as Ilhas Salomão, a nação teria, enfim, sua prova de fogo. Na repescagem, enfrentaria o Uruguai.

Foto: Getty Images
É bem verdade que aquele time uruguaio em entressafra não era assim tão poderoso. Não fazia jus a história charrua. Ainda assim, representava uma camisa bicampeã mundial, a Celeste Olímpica. O próprio fantasma das mais de três décadas sem se classificar para um Mundial não trazia otimismo - os Socceroos haviam perdido para a Escócia (1986), Argentina (1994), Irã (1998) e para o próprio Uruguai (em 2002). Entretanto, nem toda a técnica do craque Álvaro Recoba bastou para levar os sul-americanos à frente. Cada país venceu o jogo disputado em seu território por 1 a 0. Coube, então, às penalidades máximas a definição dos rumos do encontro. Darío Rodríguez e Marcelo Zalayeta desperdiçaram suas cobranças: a Austrália carimbou seu passaporte para a Alemanha.

Porém, o sorteio dos grupos da Copa do Mundo se revelou cruel com os australianos. Logo, teriam que enfrentar o outrora favorito Brasil, além da Croácia e do Japão. Mas desde o início, o time mostrou que não chegara tão longe para brincar. Na estreia, contra os nipônicos, mostrando seu forte 3-5-2, obteve sua primeira vitória na história da competição: 3 a 1 - de virada e com emoção: os três tentos da Austrália saíram após o minuto 80. Depois disso, deu a lógica, e a equipe perdeu para o Brasil, vendendo caro o resultado, 2 a 0, que só se consolidou aos 90, com gol de Fred. Contra a Croácia, bastou um empate. Os Socceroos somaram quatro pontos e fizeram, já ali, muito mais do que o esperado.

Os australianos avançaram às oitavas de finais. Naquela altura, parecia evidente que já haviam ido longe demais e que sua queda estava próxima. Pela frente viria a Itália.

Contra a Squadra Azzura, do treinador Marcelo Lippi e de craques como Gianluigi Buffon, Fabio Cannavaro, Andrea Pirlo ou Alessandro Del Piero, Hiddink preparou um time consistente e compacto, mas com espaço para o talento. E a missão de neutralizar os italianos foi excepcionalmente bem executada. Todavia, aquela era a Copa do Mundo dos italianos, que se consagrariam campeões. Uma penalidade máxima (no mínimo discutível) nos acréscimos do segundo tempo acabou com a agonia na Velha Bota: Francesco Totti converteu o lance e pôs fim ao sonho australiano. Hiddink deixou a Seleção Australiano na sequência.



Apesar disso, 32 anos após sua estreia, a Austrália superou as expectativas. Foi organizada e valente; obteve resultados. Aquela se confirmou a melhor geração dos Socceroos em todos os tempos, mas já não era a mesma quando se apresentou a Copa do Mundo de 2010. Não tinha alguns jogadores, nem Guus Hiddink, e vivia uma realidade em que algumas peças já haviam ultrapassado o pico técnico de suas carreiras e começavam a perder competitividade. Contudo, a partir de 2006, a Austrália não mais falhou à disputa de um Mundial sequer.

Foto: Getty Images
"[Guus] Hiddink maximizou nosso potencial [...] Ele nos preparou cientifica, tática, estratégica e mentalmente [...] Nossa atitude ainda era otimista. Não perderíamos sem luta. Para mim, estar na Copa do Mundo não era apenas a realização do sonho da minha vida. Era realmente um teste de caráter. 
[...] 'nesse time', o Hiddink nos disse, 'não há egos. Se eu perceber quaisquer egos, eu me livrarei deles'", disse Tim Cahill, em 2015, ao The Advertiser.

Mais tarde, a Austrália passou a disputar as eliminatórias asiáticas, que dão vagas diretas na Copa do Mundo. Embora não tenha voltado a brilhar, o país se consolidou. Muito disso se deve à figura de Guus e ao refino de alguns de seus inesquecíveis atletas. 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O renascimento do Schalke 04 pela jovem mente de Domenico Tedesco

Os melhores anos do Schalke 04 já são vistos à distância. Embora tenha sido terceiro colocado alemão em 2011/12, quarto em 2012/13 e, novamente, terceiro em 2013/14, a distância para os líderes já se mostrava intransponível. Em nenhum momento dessas campanhas, os Königsblauen chegaram perto de lutar pelo título. No entanto, naquela altura, o clube ainda conseguia frequentar a UEFA Champions League. Porém, o sexto, quinto e décimo lugares obtidos nas últimas três campanhas sinalizaram assertivamente algo preocupante: o Schalke 04 perdera ainda mais sua força. Contudo, desde a chegada do jovem treinador Domenico Tedesco a situação parece ter começado a mudar.


Foto: Site oficial do Schalke 04


A reformulação por que passou o clube do Vale do Rühr na última janela de transferências foi profunda. Ao mesmo tempo em que velhas referências deixaram a Veltins Arena, casos de Benedikt Höwedes e Klaas-Jan Huntelaar, jovens também procuram outros rumos: Johannes Geis seguiu para o Sevilla e Sead Kolasinac foi testar seu potencial na Premier League, assinado com o Arsenal. A debandada parecia geral e os reforços que chegaram não convenceram de início. Apenas Bastian Oczipka e Amine Harit carregaram consigo alguma simpatia. Porém, o que o torcedor não se dava conta então era do fato de que o grande reforço do Schalke 04 se encontrava no banco de reservas.

Quem é ele?

Pouco se sabia sobre Tedesco quando os Azuis Reais anunciaram sua chegada. Certo é que treinara equipes de base de Stuttgart e Hoffenheim e salvara o modesto Erzgebirge Aue do rebaixamento à terceira divisão alemã, em 2016/17. Aos 32 anos, o ex-colega de curso de treinadores do igualmente jovem Julian Nagelsmann (comandante do Hoffenheim), desembarcou em Gelsenkirchen com uma missão realmente dura. Porém, o italiano tem demonstrado que estava preparado para assumir tal trabalho.

Quem o conhece aponta sua postura, mantendo sempre os pés no chão, como a principal característica de sua personalidade e, consequentemente, do trabalho. Sem grandes reforços, com o clube vindo de uma temporada difícil e com perdas importantes, Tedesco sabia desde o início que teria que tirar alguns coelhos de sua cartola para fazer o Schalke 04 dar liga. Sua ética de trabalho, contudo, encaixava-se com perfeição às necessidades do clube. Nunca é demais dizer, igualmente, que a chance de treinar os Königsblauen tendo tão pouca experiência se revelou fantástica para Domenico, independentemente da fase do clube.

O presidente de seu antigo time, o Erzgebirge Aue, demonstrou tal realidade com perfeição em entrevista concedida ao site oficial da Bundesliga: "ele conversa com os jogadores. Ele lhes mostra suas falhas em vídeo e, imediatamente, procura soluções. Ele é, também, poliglota, falando inglês, espanhol, italiano e alemão, o que é cada vez mais importante no futebol atual e uma grande vantagem".

A recuperação de alguns jogadores

Foto: Site oficial do Schalke 04
Diante dessa realidade, Tedesco foi ao campo trabalhar; começou a redescobrir alguns jogadores. 

O ucraniano Yevhen Konoplyanka, por exemplo, oferecera apenas uma assistência em 17 partidas da temporada passada. Na atual, somados 14 jogos, já são três. O zagueiro e volante Benjamin Stambouli, de média de 1,8 desarmes em 2016/17, obtém atualmente a marca de 3,3. 

Do topo de seus 35 anos, Naldo voltou a ser uma barreira poderosa no coração da defesa do Schalke 04, tendo sido eleito o melhor em campo já em três partidas (ademais, junto ao goleiro Ralf Färmann, é o recordista de minutos dispoutados na temporada). Além ele, após um período de adaptações, depois de chegar do Wolfsburg no meio do último ano, Daniel Caligiuri, como ala pela direita, é outro que vem jogando muito bem.

Todos esses nomes já estavam no time em 2016/17, mas seu desempenho não era nem de longe semelhante ao atual. É bem verdade que algumas lesões atrapalharam o processo de agrupamento da equipe no último ano, mas a diferença de desempenho de uma temporada para a outra é grande demais para que se atribua apenas a critérios físicos a evolução dos atletas.

É claro: as aquisições de Oczikpa e Harit deram muito certo. A forma recente do lateral esquerdo não permitiu que o torcedor do Schalke 04 ficasse ressentido com a saída de Kolasinac por muito tempo. Por outro lado, o garoto marroquino, de apenas 20 anos, trouxe consigo a habilidade que é muitas vezes necessárias para puxar bons contragolpes e quebrar fortes linhas de marcação.

A definição de um estilo de jogo

Outro contributo fundamental oferecido por Tedesco foi a definição de uma forma de jogar para o clube. Também ao site oficial da Bundesliga, falou sobre o assunto:

"Sempre quero que meus times dividam bem os espaços. Gosto de comparar isso a um boxeador, que nunca pode baixar a guarda. Acima de tudo, queremos recuperar a bola tanto quanto seja possível, porque amamos atacar - ainda que com certo balanço e estrutura, para sermos capazes de controlar as transições".

Não é à toa que o Schalke é o terceiro time que mais vezes intercepta a bola na Bundesliga e também não é de se espantar o fato de que também ocupa a terceira colocação no ranking dos times que menos oferecem chances de finalização aos adversários. Tais dados ajudam a explicar o fato de que apenas Augsburg e Bayern de Munique sofreram menos gols do que os Azuis Reais, mesmo estes tendo vivido jogos completamente fora de seu próprio padrão, como na ocasião em que sofreram quatro gols do Borussia Dortmund ou em outra, quando concederam três frente ao Bayern.

Foto: Site oficial do Schalke 04


O Schalke 04, no entanto, ainda está em formação. Essa realidade se comprova quando se confronta o fato de que o time já cometeu seis erros defensivos graves, três deles terminando em gols dos rivais. Certa afobação na recuperação de bola também faz dos Königsblauen o quarto time que mais cartões recebeu na competição e o que mais cometeu faltas, com 237, na Bundesliga. 

Os desarmes têm sido muito agressivos, mas ainda carecem de maior precisão. Nada mais natural diante de um trabalho com menos de seis meses de duração. O time de Tedesco busca cortar linhas de passe e pressionar os adversários, mas nem sempre consegue, não alcançou ainda a sintonia fina. 

Tudo isso tem sido tentado por meio do uso de um esquema tático com três defensores na base (3-1-4-2, 3-4-3 ou 3-4-1-2). Naldo comanda a linha de defesa, avançando ocasionalmente e servindo de referência para Stambouli e seu outro companheiro (Matija Nastasic ou Thilo Kehrer). Convém notar que raramente o Schalke 04 utiliza um meio-campista mais voltado para a destruição, com Max Meyer e o garoto Weston McKennie formando importante parceria nos últimos jogos. Também têm muito relevo os papeis combinados entre Caligiuri e Harit pela direita e Oczipka e Konoplyanka pela esquerda, tanto na fase defensiva quanto ofensivamente.

A prova de fogo de Tedesco

Todo o trabalho de Tedesco parecia ter sido inútil, entretanto, quando o treinador foi apresentado ao seu maior rival, o Borussia Dortmund. Atuando fora de casa, com 25 minutos de jogo, já sofria a desvantagem de 4 a 0. Qual seria o limite desse massacre? Na ocasião, aos 33, o comandante azul real lançou Harit e Leon Goretzka ao campo nos lugares de Franco Di Santo e McKennie. Foi aos poucos recuperando a calma e ganhando controle, na mesma medida em que os aurinegros se desinteressavam pela partida.

Foto: Getty Images


E não é que o jovem treinador conseguiu recuperar os ânimos de seus jogadores e os inspirar a um empate, no mínimo, improvável? Mais concentrados do que nunca, completaram 13 dos 15 desarmes tentados no segundo tempo. Venceram 12 dos 18 duelos aéreos no mesmo período e só perderam a bola cinco vezes, contra 10 do rival. Ameaçaram a meta do Dortmund 11 vezes, contra apenas três do rival (no primeiro tempo haviam levado perigo em apenas duas oportunidades). Reagiram como poucas vezes se viu no futebol. Tedesco saiu do Signal Iduna Park com apenas um ponto, mas com a moral elevadíssima.

Goretzka: uma questão a gerir

Uma questão problemática e que revelará ainda mais a respeito das capacidades de Tedesco será a gestão da provável saída de Leon Goretzka, cujo contrato vence ao final da temporada. O meio-campista, nesse momento seguramente o atleta mais promissor e impactante do Schalke 04, confirmou que decidirá seu futuro em janeiro. Aos 22 anos, é convocado com frequência para a Seleção Alemã e foi soberbo na última edição da Copa das Confederações. Domenico Tedesco lidou bem com a questão envolvendo Benedikt Höwedes, que deixara de ser o capitão, antes de partir para a Juventus, mas não é possível prever o impacto da saída do meia. 

Para todos os efeitos, ele não tem sido deixado de lado pelo italiano e seu desempenho segue bom. Em 11 jogos disputados na Bundesliga, anotou quatro gols e alcançou bons índices defensivos (2,2 desarmes por jogo, 1,8 interceptações), sem prejuízo de sua contribuição ofensiva, com gols e constante chegada (chuta em média 2,2 bolas às balizas rivais). É um jogador especial e que dificilmente permanecerá em Gelsenkirchen. Lidar com o processo de saída do atleta e com a efetiva transferência será um processo importante para Tedesco lidar. Entretanto, até o momento, quando não pôde contar com Goretzka, o treinador encontrou soluções.

Para já, no entanto, o melhor é apreciar a retomada do Schalke 04, que, se não briga pelo título, voltou a lutar nas cabeças. O início do trabalho de seu jovem treinador é promissor e consistente. O elenco, em si, não é tão forte e tem poucas peças de reposição, o que poderá trazer dificuldades ao comandante em alguma parte da temporada. Porém, nesse momento, o lado azul da rivalidade do Vale do Rühr, a mais forte da Alemanha, só quer saber de fazer troça com seu antagonista e aproveitar a posição privilegiada na tabela. Tedesco, como Nagelsmann no ano passado, vai se confirmando um dos treinadores mais promissores da Europa.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...