quarta-feira, 22 de novembro de 2017

1984/85: o ano em que o futebol sorriu à cidade de Verona

Êxitos de clubes pequenos, glórias obtidas em condições desiguais, com menos dinheiro e holofotes, via de regram carregam consigo a simpatia do público. Nesse sentido, é bem provável que o Leicester City tenha sido o último expoente, quando se trata dos principais campeonatos europeus. Contudo, muito antes de os Foxes arrebatarem corações com a onipresença do carrapato N’Golo Kanté, a habilidade de Riyad Mahrez e os gols de Jamie Vardy, na Itália o Hellas Verona alcançou a glória máxima do país.


Foto: Arquivo Gazzetta dello Sport



Um contexto pós-crise no futebol italiano

Os anos 80 começaram com o futebol italiano em crise. Após a deflagração do escândalo de manipulação de resultados que ficou marcado na história como o Totonero, a Velha Bota passava por um período de necessária reanálise, até porque da desonra investigada decorreram os rebaixamentos de Milan e Lazio e a perda de pontos de Avellino, Bologna, Perugia, Palermo e Taranto – isso sem falar nos vários nomes, entre treinadores e atletas, punidos.

Muito provavelmente, o grande reflexo disso foi a instituição do sorteio dos árbitros a cada rodada (o que aconteceu nessa edição apenas). O habitual é a escolha ser feita por um corpo técnico, ao menos em tese, especializado no assunto. É comum tratar esse fato como um dos determinantes para a conquista do Campeonato Italiano por uma equipe que vem de uma cidade modesta – a segunda da região de Vêneto, atrás de Veneza, e urbe muitas vezes menor do que qualquer uma do quarteto Roma-Milão-Nápoles-Turim. Embora seja impossível mensurar tal realidade, é realmente possível que tal fato tenha tido relevância.

Fato é que o Hellas Verona se tornou o último provinciale a conquistar a Serie A. Após tal feito, a maior outsider a dar as caras na Velha Bota foi a Sampdoria (de Gênova, sexta maior cidade do país), em 1990/91. Isso dá um pouco da dimensão do tamanho do êxito dos Gialloblu, porém a certeza quanto a isso vem quando se nota o desfile de craques que se via no país. A Internazionale saía à passarela com Karl-Heinz Rummenigge, a Juventus com Michel Platini, o Napoli apresentava Diego Maradona, isso sem falar nas estrelas de Zico, Sócrates, Cerezo, Michael Laudrup, Roberto Mancini e Júnior, que abrilhantavam as equipes de Udinese, Fiorentina, Roma, Lazio, Sampdoria e Torino. Ainda assim, os veroneses levaram a melhor.

Continuidade: um dos segredos do Hellas Verona

Acontece que o Hellas Verona não caiu de paraquedas no pódio do campeonato. O treinador da esquadra, o italiano Osvaldo Bagnoli, ex-atleta do próprio clube, estava no comando desde 1981. Foi sob sua direção que o time deixou a segunda divisão, com o título de 1981/82. Já naquela altura, os Gialloblu tinham ambições. Seu presidente, Tino Guidotti estava insatisfeito com o que vivera no ano anterior (o time terminou a Serie B uma posição acima da zona do rebaixamento) e queria vê-lo crescer.


Foto: Olycom


No retorno à divisão de elite do futebol italiano, em 1982/83, os efeitos da presença do treinador se fizeram ainda mais notórios. O veroneses terminaram a Serie A na quarta colocação, ficando atrás apenas da campeã Roma, de Juventus e Inter. Classificaram-se à disputa da Copa da UEFA. Ficaram também com o vice-campeonato da Coppa Italia: na oportunidade, o Verona chegou a bater a Vecchia Signora na partida de ida, mas a Juve, com gols de Paolo Rossi e Platini (2), venceu na volta e levantou o troféu. Eram bons os ventos que uivavam sobre os veroneses.

Com efeito, 1983/84 não foi um ano tão bom, mas para uma agremiação modesta como é o caso do Hellas Verona estava tudo em perfeita ordem e o trabalho do treinador continuou. O sexto lugar no Campeonato Italiano acabou sendo considerado bom, mesmo porque o clube voltou a ser vice-campeão da copa nacional (perdeu dessa vez para a Roma), ainda que na competição continental disputada tenha caído já na segunda eliminatória. Após bater o Estrela Vermelha, os Gialloblu perderam para os austríacos do Sturm Graz, no critério do gol marcado fora de casa.

Chegou a temporada 1984/85, com poucas mudanças.

Um coletivo forte com dois estrangeiros determinantes 

Sob a mesma direção desde 1981, o Verona, que havia contado tempos antes com o brasileiro Dirceu, contratara dois jogadores que seriam determinantes para a conquista. Membro da melhor geração de futebolistas da história da Dinamarca, o atacante Preben Elkjaer chegara com duas missões fundamentais: ser estrela e marcar gols. Por outro lado, para comandar as ações do meio-campo e inspirar seus companheiros, o clube trouxera o experiente Hans-Peter Briegel (foto), polivalente alemão de longa história com as camisas do Kaiserslautern e da Nationalelf (em 1985, seria eleito o jogador alemão do ano).
Foto: weltsport.net

Essa dupla, fundamental, juntou-se a um grupo de bons jogadores que já compunham a base do time há alguns anos – figuras como a do goleiro Claudio Garella, o defensor Luciano Marangon, os meias Antonio Di Gennaro e Pietro Fanna e o atacante Giuseppe Galderisi. Equilíbrio foi uma das chaves da conquista gialloblu. O time teve o maior número de vitórias (15) e foi quem menos perdeu (apenas duas vezes, contra cinco dos segundos colocados na estatística, Torino, Inter, Sampdoria e Juventus); teve o terceiro melhor ataque e a defesa mais sólida, com um saldo de gols impressionante: +23.

A trajetória começou em uma noite histórica: a estreia de Maradona pelo Napoli. No Stadio Marcantonio Bentegodi, foram dados os primeiros sinais de que se poderia estar diante do futuro campeão nacional. Inapelavelmente, os donos da casa venceram por 3 a 1. O início de campeonato do Verona foi impressionante. A primeira derrota só aconteceu na 15ª rodada, curiosamente para o modesto Avellino, que quase seria rebaixado. Nesse período, vieram vitórias contra Juventus e Torino, além de empates perante Inter e Roma.

Não se pode, todavia, contar a história do título do Hellas Verona sem falar em pelo menos um capítulo particular de Elkjaer, contra a Juventus. Na 5ª rodada, após ser lançado em tiro de meta, fintou com o corpo o marcador bianconeri percorreu todo o campo adversário e finalizou o goleiro rival, para afirmar a superioridade gialloblu desde o início do campeonato. Detalhe: sem um dos pés de seu par de chuteiras.



Empatar, sim. Perder? Jamais!

A estrela inspiradora de Elkjaer, apelidado de "Cavalo Doido", a habilidade de Fanna, as defesas de Garella, os gols de Galderisi ou a resiliência e o “elemento surpresa” de Briegel tornaram aquele Verona quase invencível. É bem verdade que foram muitos empates na campanha. Porém, em um torneio tão equilibrado como aquele, impedir que os adversários diretos recuperassem pontos nos confrontos diretos foi um feito e tanto. Considerando os dez jogos realizados contra os cinco times que terminaram o certame imediatamente abaixo dos Gialloblu fica evidente tal realidade: foram obtidas duas vitórias, sete empates e apenas uma derrota se abateu sobre o time. Ou seja: foi consolidada superioridade contra as equipes modestas, ao mesmo tempo em que se impediu as maiores de se aproximar.

Matreiramente, os veroneses foram tomando conta do campeonato. Então, chegou a 29ª rodada. No Stadio Atleti Azzurri d'Italia, casa da Atalanta, um empate seria suficiente para selar o inédito título. Foi o que aconteceu. Eugenio Perico até abriu o placar para a Dea, mas ele, Elkjaer, deu números finais ao encontro. Pela primeira e ainda hoje única vez na história do futebol da Velha Bota a láurea máxima do futebol do país partiu para Verona.

Já na temporada seguinte, os árbitros voltaram a ser escolhidos na forma eleita nos torneios que antecederam o ano de 1984/85; o Hellas Verona foi apenas o 10º, em 1985/86. Na Champions, depois de eliminar o PAOK, os Gialloblu caíram para a Juventus, 2 a 0, no agregado. Apesar do quarto lugar em 1986/87, o time da região de Vêneto não voltou a viver grandes momentos e em 1989/90 caiu para a segunda divisão. Retornaria no ano seguinte só para ser rebaixado novamente em 1991/92. Um câmbio intermitente entre divisões: essa tem sido a tônica dos anos do clube que não se esquece das especiais jornadas dos anos 80 – em especial daquilo que viveu em 1984/85.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Robert Enke, vítima do silêncio de uma doença que mata

Embora o maior expoente da história do futebol alemão seja Franz Beckenbauer, os germânicos sempre foram lembrados pela capacidade de lançar grandes goleiros. A memória remete facilmente a Sepp Maier, Harald Schumacher ou Oliver Kahn, enquanto o presente revela a figura de Manuel Neuer. Em meio aos ídolos que a história não permite o esquecimento, outros arqueiros se destacaram. Um desses foi Robert Enke, golquíper que representou a Nationalelf na Copa das Confederações de 1999 e na EURO 2008. Para esse, também há lugar na eternidade, mas por outro motivo: o trágico fim de sua vida.


Foto: John MacDougall/Agence France-Presse/Getty Images











O goleiro nascido na cidade de Jena, na Turíngia, começou a carreira no modesto FC Carl Zeiss Jena, hoje na terceira divisão alemã. Foi ser internacionalmente reconhecido pela primeira vez vestindo a camisa do Borussia Mönchengladbach. Naquela instância, quando era decorrida a metade final da década de 90, também jogou pelas equipes de base e olímpica da Alemanha. Isso levou o jovem, pouco antes de completar 22 anos, ao Benfica. No entanto, o jejum encarnado (os portugueses ficaram longe do título nacional entre 1993/94 e 2004/05) era longo; o momento para afirmação de um jovem, difícil, já que a sobra de Michel Preud’homme pairava sobre o Estádio da Luz.

Nada disso foi capaz de impedir o alemão de se destacar, ainda que os títulos não tenham vindo. Até os dias atuais, a torcida das Águias tem a figura do goleiro em muito alta conta, a mesma que levou o Barcelona a contratá-lo em 2002.

Foto: Getty Images/ Alexander Hassenstein
Mesmo tendo falhado à Copa do Mundo de 2002, perdendo a concorrência para os excepcionais Kahn e Jens Lehamnn e para o competente Hans Bütt, arqueiro de um ascendente Bayer Leverkusen, convenceu os catalães a investirem em seu futebol. Dessa vez, viveu seu primeiro inferno; foi mais um nome que fracassou na sucessão de Andoni Zubizarreta. Oportunidades foram poucas (duas) e sem bom desempenho. Passaria ainda por Fenerbahçe (outro tempo para esquecer) e, brevemente, pelo Tenerife, clube em que foi bem na segunda divisão hispânica, antes de retomar o curso de sua carreira.

Em 2004, com quase 27 anos, voltou à Alemanha. Já não era, porém, um jovem talento, mas uma aposta arriscada. O garoto que rodara o futebol português, espanhol e turco, passando pela Seleção Alemã, perdera prestígio. Assim, firmou contrato com o Hannover 96. Não obstante, com a camisa dos Roten, Enke renasceu para o futebol. No entanto, desde os tempos de Barça já dava sinais, em silêncio, do que viria a acontecer. Lembrado em um sem número de reportagens como uma pessoa de destacada generosidade, mas complexado com a perfeição, o alemão sofria.

Não era dado a luxos, não tinha vícios, entretanto era sério, reservado e perfeccionista. Seus amigos e conhecidos confirmam essas situações em uníssono. Paulo Madeira, seu ex-companheiro no Benfica, disse ao Observador que: “[Enke] não tinha as conversas da maior parte dos jogadores, não falava só de carros, mulheres ou futebol [...] não havia cá brincadeiras [...] Tinha de ser muito profissional.” Seu amigo e alemão Per Mertesacker, em recente e emocionada carta, também confirma tal realidade:

“Ele radiava calma e determinação. Ele persistia. Eu acho importante lembrar isso, não para glorificar Robert, mas para deixar claro que pessoas que sofrem com depressão não são, de maneira alguma, fracas [...] Como era possível que este equilibrado e reflexivo amigo estava, aparentemente, tão doente que tirou a própria vida? [...] Aprendi que ocultar faz parte da doença”.

Depressão: foi ela a algoz de Enke – um adversário muito mais duro do que sua abordagem, muitas vezes banalizada, sugere; um atacante muito mais ameaçador do que qualquer outro que o alemão tenha enfrentado em seus anos de carreira. O amigo Mertersacker não entende como não percebeu e a verdade é que não havia meio de o saber, até porque debaixo dos postes, o goleiro vivia seu esplendor técnico.

Com a camisa do Hannover voltou aos grandes dias do início de sua carreira, retomou sua confiança, tornou-se referência e voltou à Seleção Alemã. Porém, perfeccionista que era, nunca deixou de se ressentir, por exemplo, de seus períodos em Barcelona e Istambul – atribuía a si mesmo seus fracassos. O fantasma do fracasso seguia a assombrá-lo, mesmo que já no primeiro ano de retorno ao seu país tenha sido eleito o melhor goleiro da Bundesliga, pela revista Kicker (o que se repetiria em 2008/09).

Foto: Getty Images
Na esfera privada, sua filha Lara também ia se superando em procedimentos cirúrgicos necessários para corrigir um problema cardíaco. Todavia, em 2006, perdeu a batalha e a conta da vida voltou a cobrar um preço que Enke não poderia pagar. Dessa vez, a escuridão não nasceu do que acontecia nos campos, mas fora deles.

Robert foi convocado para a Euro 2008 e era considerado peça certa no Mundial de 2010, na África do Sul, quando aos 32 anos estaria vivendo sua maturidade. Após o torneio de 2008, Lehmann se aposentou da Nationalelf e Enke foi escolhido para o suceder. Defendeu seu país em sete jogos. Disputava, naquela altura, vaga com René Adler e um garoto de nome Neuer e estava vencendo a luta. Liderava a batalha, e acabou por perder. No momento em que deveria gozar de seu êxito e da superação das crises de sua carreira, tornou-se ainda mais exigente e introspectivo. Temia não ser capaz e arcar com as responsabilidades; estava deprimido.

Tudo isso culminou em seu suicídio. A notícia de sua morte foi uma desgraça, abalou o mundo da bola. Ninguém entendia. Contudo, incompreensível mesmo é o fato de que essa realidade não precisa de explicação. Alguém pede esclarecimentos quando o câncer mata alguém? Não, pois é um doença e doenças matam. O problema no caso de Enke – e de vários outros à margem dos milhões do futebol – é que a patologia que o acometeu nem sempre é tratada como tal. E ela mata independente de estatuto social, fama ou glória. Em silêncio. No caso do goleiro, nos trilhos de um trem. 

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Oleg Salenko, o artilheiro perdido

Quantos jogadores, na história do futebol, conseguiram a proeza de marcar cinco gols em uma só partida? A despeito da falta de números absolutos, é possível dizer que são poucos. Quando o assunto são as Copas do Mundo, sim, tem-se os dados, que revelam que cinco bolas nas redes em um mesmo jogo, ainda hoje, são façanha de um só homem: Oleg Salenko, um jogador que após seu máximo êxito foi, aos poucos, caindo no esquecimento.


Foto: Getty Images

Recorde absoluto em contexto difícil

A Copa do Mundo de 1994 foi a primeira que a Rússia disputou após o fim da União Soviética. Aliás, com a dissolução da supernação aquela foi também a primeira competição oficial disputada pelo país. A esquadra, comandada por Pavel Sadyrin, tinha a missão de mostrar força em um tempo de reafirmação nacional. Em um grupo difícil, não conseguiu, mas deixou marca eterna, pois em seu ataque tinha Salenko.

Os russos enfrentaram Camarões, surpresa no Mundial de 1990, em que chegou às quartas de finais, e os tradicionais Brasil e Suécia, que logo se consagrariam campeão e terceira colocada do certame. Perderam para brasileiros e suecos, mas bateram os camaroneses. Ficaram com a terceira posição e a artilharia do certame. Como? Isso mesmo, Salenko se confirmou o primeiro e até os dias atuais único atleta de todos os tempos a receber o prêmio Golden Boot representando uma nação que sequer avançou de fase.


O tento de consolação contra os escandinavos, somado aos impressionantes e imparáveis cinco contra o time de Roger Milla, transformou Salenko em um personagem único na história do futebol. De sua glória máxima viria sucesso maior ainda, afinal o jogador tinha apenas 24 anos na ocasião, correto? Nada mais distante da realidade. Os sucessos da juventude, obtidos com as camisas de Zenit e Dynamo Kyiv, em sua terra, e com a do Logroñés, na Espanha, não se tornaram uma constante.

O artilheiro ascendente havia sido decisivo em 1993/94 para evitar o descenso de seu clube no Campeonato Espanhol - marcara 16 dos 47 tentos do Logroñés (o que inclui gol importante em empate contra o Barcelona de Johan Cruyff, em pleno Camp Nou). Esse feito, somado ao brilho no Mundial estadunidense levaram o Valencia, último sétimo colocado de La Liga, a buscar o talento e os gols de Salenko. É bem verdade que o atacante possuía também, em seu currículo, um Campeonato Soviético, uma Copa da URSS e a artilharia do Mundial Sub-20 de 1989, mas foram os feitos mais recentes que levaram os Che à procura dos gols de Oleg.

Oportunidades, insucessos e lesões

Apesar disso, em termos mundiais, o que aconteceu entre o início da temporada europeia de 1993 e o fim da Copa do Mundo de 1994 acabou se confirmando como os 15 minutos de fama do russo. A ida ao Valencia não foi proveitosa como se poderia esperar. Em grande medida, isso ocorreu porque no próprio Mestalla as coisas não iam bem. As esperanças, com a chegada do tetracampeão Carlos Alberto Parreira, tornaram-se rápida decepção.

Com o brasileiro no banco de reservas, os Che não passaram de um péssimo 10º lugar em 1994/95. Ainda que tenha acompanhado o iugoslavo Predrag Mijatovic no ataque, com a dupla a marcar 19 tentos na campanha (12 de Mijatovic e sete de Salenko), as expectativas altas não foram cumpridas. Oleg não conseguiu sequer ser o vice-artilheiro da esquadra, posto que coube a Lyuboslav Penev (nove gols). O fracasso no Valencia, levou o russo à Escócia no ano seguinte, onde representou o Rangers.

Foto: Jeff Holmes
Embora chegasse ao time mais dominador do solo escocês (Salenko chegou em um contexto em que o Rangers era heptacampeão nacional), a passagem por Glasgow  não foi boa e durou meia temporada, apenas. Já chegara ao novo clube sofrendo com lesões e logo foi trocado pelo holandês Peter van Vossen, partindo para o futebol turco, para defender o Istanbulspor. É bem verdade que não se adaptou ao futebol escocês e sua personalidade pode ter tornado a situação mais difícil.

“Só assinei porque acreditava que eles [o Rangers] tinham chances de vencer a Champions League. Mas isso [a Liga Escocesa] era muito chata. Os padrões eram muito baixos, especialmente quando comparados aos da Espanha. O que tornou isso ainda pior foi o fato de que você tinha que enfrentar os mesmos times quatro vezes. Os únicos jogos que eram interessantes eram as partidas contra o Celtic - essas eram uma batalha de vida ou morte”, relatou ao The Herald, em 2014.

Os problemas físicos, todavia, perseguiram Salenko. A primeira temporada na Turquia foi de luta contra o rebaixamento. Já na segunda seu time conseguiu se classificar à disputa da Copa Intertoto e na terceira à Copa da UEFA. Porém, Oleg teve pouco a ver com isso. Quase não jogou e em 1999 voltou à Espanha, assinando com o modesto Córdoba, então na segunda divisão. Fez três jogos e em 2000 marchou para o Pogoń, da Polônia. Não tinha condições de atuar profissionalmente e no ano seguinte pendurou as chuteiras. Tinha 31 anos.

E a Seleção?

Foto: Twitter @eldeportereyweb
O jogador que estreou em nível de seleções com a camisa da União Soviética, no sub-20, chegou a envergar a camisa da Ucrânia em uma ocasião e brilhou com o mando russo em 1994 não teve continuidade também representando seu país.

Após a Copa do Mundo de 1994, Sadyrin foi trocado por Oleg Romantsev. Este, nas palavras que Salenko conferiu à revista Four Four Two, “não gostou do fato de que eu tinha uma reputação maior do que ele. Ele preferia jogadores que conhecia, então começou a me deixar de lado. Quando Boris Ignatyev assumiu, em 1996, eu está tendo problemas de lesões”.

O fato é que, após a Copa do Mundo de 1994, Salenko nunca mais foi chamado à defesa das cores de seu país.

Em seu momento mais áureo, perdeu espaço por conta de diferenças pessoais; quando essas já não eram problema, Oleg já não era mais o mesmo. Ele não chegou a ser um andarilho ou um fracasso completo, mas não cumpriu as expectativas, ainda que parte disso se deva a fatores exteriores às suas capacidades e desempenho individual. Ainda assim, dificilmente o russo será esquecido. Sua proeza de 94 é das primeiras lembranças que qualquer amante do futebol reconhece ao pensar na Seleção Russa. Embora não tenham sido muitos, seus 15 minutos de fama parecem ecoar pela eternidade.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Mohamed Aboutrika: o craque, o ídolo e o exemplo

A última vez em que o Egito chegou à disputa de uma Copa do Mundo foi em 1990, no certame sediado na Itália. De lá para cá, foram muitas as decepções e só agora, por meio da geração de Mohamed Salah, o quadro tem vindo a mudar, após a classificação para o Mundial de 2018. A situação era, todavia, incompreensível, sobretudo quando se fala na primeira década do século XXI. Isso porque os Faraós impuseram forte domínio continental. Tricampeões da Copa Africana de Nações em 2006, 2008 e 2010, contavam no período com um jogador de indiscutível talento e um personagem icônico; um camisa 10 que vestia a 22: Mohamed Aboutrika.


Foto: AP


Muito lembrado pelas várias participações do principal clube de sua carreira, o Al Ahly, nos Mundiais de Clubes da FIFA, Aboutrika é um personagem curioso. Virtuoso com a bola nos pés, dotado de visão de jogo privilegiada, inventivo, criativo, indomável, o egípcio foi craque. A ausência em Mundiais ou o fato de nunca ter atuado na Europa não são capazes de contrariar tal realidade. Dentre os jogadores que atuavam na África, o meia foi eleito quatro vezes o melhor. Considerando todo o universo de atletas de seu continente, foi escolhido o segundo melhor em 2008.

Títulos também foram muitos: sete do Campeonato Egípcio, dois da Copa do Egito, seis da Supercopa do Egito, cinco da CAF Champions League e quatro da Supercopa da África. Isso no nível de clubes, porque vestindo o manto de sua nação foram mais duas conquistas de Copa Africana das Nações (o meia esteve ausente em 2010). No Brasil, é certa a lembrança de seu talento em pelo menos duas ocasiões, atuando contra a Canarinho na Copa das Confederações de 2009 e frente o Corinthians, em um jogo duro, no Mundial de Clubes de 2012.

Ainda assim, quando se pensa nos craques africanos dos anos 2000 vêm à mente nomes como os de Samuel Eto’o, Didier Drogba, Michael Essien ou Jay-Jay Okocha; quase nunca o de Aboutrika; ídolo absoluto do Al Ahly e da Seleção Egípcia e figura praticamente anônima no restante do planeta. Para muitos de seus compatriotas, foi simplesmente o maior jogador dos Faraós, em todos os tempos. Ainda assim, o craque nunca se mudou para o Velho Continente, onde, certamente, encontraria mais reconhecimento. Em 2009, em entrevista concedida à BBC, chegou a falar que muitas propostas chegaram a si, mas que nenhuma delas era boa para o clube e, sendo assim, não poderia sair, postura que diz muito a respeito do personagem.

“Eu recebi muitas ofertas de muitos clubes [europeus], mas a maioria delas não era boa o suficiente para meu clube considerar [minha venda]. Ainda assim, eu tenho o desejo de jogar por um grande clube da Europa. Desde que a oferta seja suficientemente boa para o Al Ahly, acredito que eles não me impediriam de deixar o clube e alcançar os meus desejos no futebol”, registrou.

A realidade, contudo, foi diferente. A dita proposta não chegou e Aboutrika nunca se mudou para a Europa. Não forçou a barra e nem esperneou, certamente outro motivo pelo qual é tão reverenciado. É forçoso reconhecer a crueldade que representa o fato de nunca ter disputado uma Copa do Mundo. Diferentemente, de outros jogadores, gênios como Ryan Giggs, que não possuíam uma seleção forte o suficiente para ser bem-sucedida em eliminatórias, o egípcio tinha boas chances. Mas não conseguiu.

Foto: AP
Selecionável desde 2001, viu sua esquadra ficar com a terceira posição do Grupo C das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2002 – dois pontos atrás dos classificados senegaleses. Em 2006, novamente o Egito terminou em terceiro lugar, desta vez do Grupo 3, atrás de Camarões e da classificada Costa do Marfim. Aboutrika chegou a marcar três gols nessa disputa, vitimando Sudão, os marfinenses e Benin. 

Por fim, em 2010, a crueldade foi ainda maior. Após passar em primeiro no Grupo 12, o país avançou à segunda fase de grupos e, com campanha idêntica à da Argélia, teve que enfrentar a referida equipe em um jogo de desempate. Um gol marcado por Antar Yahia sentenciou o Egito a mais alguns anos de espera.

O craque egípcio até disputaria uma parte das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2014, mas deixou de ser convocado em 2013 (e o Egito voltou a decepcionar, não se classificando, novamente). 

Aboutrika iniciou a carreira no Tersana, de sua cidade natal, Giza, e a terminou no Baniyas Club, dos Emirados Árabes, na sua única aventura fora do Egito. Contudo, sua carreira é marcada mesmo pelos 10 anos em que foi bandeira do Al Ahly. Foram mais de 350 jogos e 150 gols. Ao lado de Mokthar El-Tetsh é o jogador que mais vezes marcou, por apenas um dos clubes, no Derby do Cairo, o flamejante Al Ahly e Zamalek, com 13 tentos.

Pela Seleção Egípcia, fez 105 jogos e marcou importantes 38 gols, que o tornam o terceiro maior artilheiro de seu país em todos os tempos. Em 2008, marcou o mais importante deles, o solitário tento que garantiu o título da Copa Africana de Nações, contra Camarões.

Não obstante, a idolatria por Aboutrika rompe as barreiras do futebol. Formado em filosofia, ficou famoso pelos vários trabalhos humanitários que realizou e também por ter sido um dos famosos que melhor simbolizou os desejos de seu povo na Revolução Egípcia de 2011, durante a famigerada Primavera Árabe. Tal fato inclusive lhe ocasionou problemas, posteriormente. No início de 2017, Mohamed foi colocado em uma lista de potenciais terroristas e impedido de deixar seu país. Em 2015, já tinha tido seus bens congelados, sob as suspeitas de financiar a Irmandade Muçulmana, sem que se tenha havido qualquer indício de procedência de tais alegações.

Foto: Getty Images


Também embaixador da ONU, Aboutrika usou de sua posição para dar voz a muitos que não a possuíam. Em 2008, aproveitou-se de um gol marcado para mostrar camisa em apoio ao povo da Faixa de Gaza; em 2012, quando se verificaram 74 mortes em uma partida do Campeonato Egípcio, foi um dos que clamou pela suspensão da competição, que acabou por ocorrer.

No Mundial de Clubes daquele ano, mais uma vez chamou atenção pela humanidade de sua fala: “estamos aqui para entreter as pessoas. Jogar aqui é algo importante por causa do que está acontecendo no Egito. Não há campeonato no Egito. O que aconteceu em Port Said e os mártires... Queremos vencer, queremos entreter”, disse em coletiva após a classificação às semifinais do certame.

Craque com a bola nos pés, Mohamed Aboutrika nem sempre recebe os créditos que merece. O que fez dentro e fora dos gramados é notável. O 10 que vestia a 22 e nunca disputou Copa do Mundo ou campeonato europeu foi um dos grandes de sua época. Brilhou por seu clube e seleção e usou sua posição para levar atenção a quem dela precisava. Mais que astro de futebol, Aboutrika se tornou exemplo.

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