sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Times de que Gostamos: Saint-Étienne 1973-1976

Retomando a coluna “Times de que Gostamos”, depois de lembrar os feitos do Ipswich Town, que na temporada 1980-1981 conquistou a UEFA Cup, rememoro o excelente time do Saint-Étienne do período entre 1973-1976, interregno em que dominou o cenário do futebol francês e mostrou força no continente europeu.


Em pé: Curkovic, Janvion, Piazza, Farison, Bathenay, Synaeghel, Lopez;
Agachados: H. Revelli, Rocheteau, Larqué, P. Revelli.

Time: Saint-Étienne

Período: 1973-1976

Time base: Curkovic; Janvion (Merchadier), Piazza, Lopez, Farison (Repellini); Bathenay, Larqué, Synaeghel (Santini); Rocheteau (Triantafyllos/Bereta/Saramagna), H. Revelli e P. Revelli. Téc.: Robert Herbin

Conquistas: Tricampeonato francês e bicampeonato da Copa da França

Atualmente, pode soar estranho aos ouvidos do jovem amante do futebol o fato de que a despeito das recentes hegemonias de Lyon e, mais recentemente, de Paris Saint-Germain, o maior vencedor do Campeonato Francês, em toda a história, segue sendo o Saint-Étienne.

Os Vert et Blancs, eternos representantes da classe operária da cidade, têm 10 títulos da competição, um a mais que o Olympique de Marseille, que vem logo atrás. Muito disso, deve-se à força demonstrada pela equipe na década de 70, após alguns sucessos na anterior.

Comandado pelo então jovem Robert Herbin (foto), ex-jogador do próprio clube e que fez a transição direta de papeis, trocando as chuteiras pela prancheta, o time ficou conhecido pelo vistoso jogo que empregava. Sua equipe jogava e era justamente jogando que tentava evitar que seu rival jogasse. Com a técnica e habilidade de seus jogadores, o Saint-Étienne, sempre abusando do jogo pelos flancos, idealizava superar a tática e o lado físico do jogo; em grande medida o conseguiu, transformando-se, para muitos, em ícone cult.

A formação do time

Em 1972, o time alviverde precisou lidar com um baque importante. Principal estrela do elenco que conquistara o tricampeonato francês no final dos anos 60 (além de duas copas da França), o malinês Salif Keita deixou o clube, partindo para o Olympique de Marseille. A imponente figura do artilheiro precisava ser substituída a altura; a equipe perdera ninguém menos do que o Jogador Africano do Ano de 1970.

Apesar disso, a estrutura do time campeão não foi completamente alterada, o que tornou menos difícil a transição. No ataque, o talentoso duo formado pelos irmãos Revelli continuava lá, atormentando as defesas adversárias, com os gols de Hervé e a habilidade de Patrick. Nos outros setores, contudo, houve mais alterações.

Sobretudo na defesa, um novo encaixe começou a se dar em 1972, em função das chegadas do zagueiro argentino Oswaldo Piazza e do lateral Gérard Janvion. Outra importante novidade foi a ascensão do volante Dominique Bathenay da base para os profissionais, bem como a contratação do influente goleiro iugoslavo Ivan Curkovic, ex-Partizan.

A rapidez com que o time reconquistou coesão foi tanta que oculta completamente o fato deste nada ter conquistado em 1972-1973. O melhor estava por vir e parecia que todos o sabiam.

A retomada do domínio doméstico

Em 1973-1974, o torcedor que se acostumou com os êxitos da década de 60 pôde voltar a sentir o prazer de ser campeão e vibrou orgulhoso com o que sua equipe demonstrou. Com um ataque poderoso (o segundo melhor da competição, com 74 gols marcados em 38 jogos) e uma defesa forte (a segunda melhor do certame, com 40 tentos sofridos), mostras de um coletivo impressionantemente bem formado, o time somou oito pontos a mais que o Nantes, vice-campeão – foram apenas seis derrotas em todo o ano. Vale lembrar que, à época, as vitórias somente somavam dois pontos.

Além disso, após bater o Monaco no Parc des Princes (2x1), em Paris, o time conquistou o double, vencendo a Copa da França.

Com o sucesso, voltou a disputar a Copa dos Campeões e passou a dividir as atenções entre as competições domésticas e a poderosa disputa continental. Talvez por isso em 1974-1975 não tenha sido tão brilhante na Ligue 1 quanto na temporada anterior. Ainda assim, fez mais do que o suficiente para conquistar o bicampeonato. Embora tenha somado menos pontos e marcado menos gols, conseguiu vantagem de oito pontos para o Olympique de Marseille, de Paulo César Caju e Jairzinho, e voltou ao topo.

Aliás, o sucesso do Campeonato Francês repetiu-se na copa nacional. De volta ao Parc des Princes, o Saint-Étienne brilhou novamente, desta vez contra o Lens, 2x0. Apesar disso, o êxito na própria pátria parecia pouco para os Vert et Blancs. Para se eternizarem como um dos grandes times da história do futebol europeu, teriam que mostrar força contra os mais fortes; precisariam fazer bonito na European Cup.

No meio do caminho, havia um certo Bayern

A escalada de sucesso do Saint-Étienne seguiu a toda. Nas partidas internacionais de 1974-1975, sem dificuldades, eliminou o Sporting CP na primeira fase do certame, tendo brilhado a estrela de Hervé Revelli. A seguir, após sofrer derrota pesada para o Hajduk Split na Iugoslávia, 4x1, os franceses conseguiram o impensável: bateram o time do Leste Europeu por 5x1 e seguiram em sua caminhada. Ainda na Cortina de Ferro, les Verts bateram o polonês Ruch Chorzów. Tudo isso para conhecerem seu algoz.

Quem acredita em carma, certamente reconhece no Bayern de Munique o do Saint-Étienne. Em meio a um contexto de viradas e muitos gols, o time francês chegou às semifinais da Copa dos Campeões, junto a Barcelona, Leeds United e o citado clube bávaro, seu adversário. Se antes a equipe se garantira sempre que jogou em casa, um empate sem gols na partida de ida se mostrou um mau agouro.

O adiamento do sonho continental veio na partida de volta, em que gols do Kaiser, Franz Beckenbauer, e de Bernd Dürnberger mandaram o Saint-Étienne para casa. Ele retornaria, no entanto, já no ano seguinte.

Mantendo-se no topo na França, em 1975-1976 o Saint-Étienne, que via se firmar a estrela de Dominique Rocheteau (foto), l’Ange Vert (o Anjo Verde), suou, mas conquistou novamente a Ligue 1, somando três pontos a mais que o Nice. Dessa vez, o título da Coupe de France não veio, tendo sido a final disputada entre Olympique de Marseille e Lyon. Sucesso maior o Saint-Étienne encontrou na Copa dos Campeões.

Após passar, com facilidade, pelo KB, da Dinamarca, e pelo Rangers, sofrer para conseguir uma reviravolta e transformar o 2x0 inicial do poderoso Dynamo de Kiev – de Oleg Blokhin – em um 3x2, no placar agregado, e conseguir a vitória pelo magro placar de 1x0 contra o PSV Eindhoven, o mais famoso alviverde francês chegou à final. Contra quem? Novamente, o Bayern.

Em Hampden Park, na cidade do Rangers, este se viu vingado. Talvez o dado mais curioso da final tenha sido o fato de que, em meio a uma infinidade de jogadores de talento, coube ao volante, a peça mais segura do Bayern, a tarefa de marcar o solitário gol do título bávaro. Franz Roth pôs fim ao sonho do Saint-Étienne, sentenciando a França a uma espera até 1992-1993, para ver um de seus clubes finalmente vencer a competição continental (com o Olympique de Marseille).

O grande time

Como mencionado, o gol alviverde era defendido por Ivan Curkovic (foto). Diz o velho ditado que “todo bom time começa com um bom goleiro”; tal máxima foi respeitada em Saint-Étienne. Um dos líderes do time, o iugoslavo se confirmou uma grande contratação, atuando em quase todas as partidas do clube no período e passando a ser reconhecido pela própria agremiação como o melhor goleiro de sua história. É lembrado particularmente bem pelo brilhantismo das defesas praticadas nas partidas contra o PSV, na Copa dos Campeões de 1975-1976.

No início do período retratado, a lateral direita não tinha um dono bem estabelecido. Alain Merchadier, jogador mais apto ao trabalho defensivo, sendo, inclusive, alternativa para a zaga, era uma das opções. Outro que sempre atuou pelo setor foi Pierre Repellini, este ainda mais versátil que seu companheiro, podendo atuar em ambas as laterais e no meio-campo, sendo também lembrado pela boa técnica. A despeito disso, ambos perderam gradualmente seu espaço, em razão da avassaladora afirmação de Gérard Janvion, lateral ofensivo e veloz que aos poucos se adaptou também às exigências defensivas da função, representando a Seleção Francesa na Copa do Mundo de 1982 como zagueiro.

Pelo outro lado, sempre que esteve disponível o titular foi Gérard Farison. A princípio um ponta esquerda, foi adaptado à lateral, por onde passou quase toda a sua carreira. Dono de veia ofensiva exacerbada, era perigo constante em seus avanços ao ataque, sempre fazendo parcerias infernais com o ponta canhoto escalado. Suas eventuais ausências eram supridas pelo citado Repellini.

A defesa central, por sua vez, era um setor composto por uma dupla inquestionável. De um lado, o argentino Oswaldo Piazza; do outro o franco-argelino Christian López (foto). Peças importantes de suas seleções, impunham respeito com a camisa do Saint-Étienne. Ao contrário do que essa frase parece pressupor, não eram atletas de estilo agressivo e grosseiro, muito pelo contrário. Destacavam-se com desarmes limpos, jogo aéreo firme e qualidade na saída de bola. Era como se os Vert et Blancs tivessem dois líberos em campo. López é também lembrado pela forma como parou Blokhin na European Cup, em 1976.

No meio-campo, o time dispunha de quatro jogadores talentosos, que sempre disputavam três vagas no setor. Dominique Bathenay, o mais jovem deles, apareceu justamente em 1973 e logo se tornou peça imprescindível. O mais defensivo dos médios alviverdes, eram um marcador consistente, sabia sair jogando com qualidade e tinha em seu chute de média distância um de seus melhores predicados técnicos. Muitos se lembram de uma de suas potentes finalizações em particular, um chute que atingiu a trave do Bayern de Munique na final da Copa dos Campeões, em 1976.

Capitão dos Verts, Jean-Michel Larqué (foto) era um dos atletas mais experientes da equipe e um dos maiores ídolos da torcida do Saint-Étienne. Inteligente, dotado de visão de jogo privilegiada e um perfeito entendedor dos espaços que o campo lhe oferecia, foi um desses jogadores que se tornam ícones.

Além dele, como presenças importantes, o time contou com Christian Synaeghel, jogador de bom condicionamento físico, para o qual não existia bola perdida, e Jaques Santini, atleta versátil, que exercia com qualidade qualquer das funções do meio-campo.

No ataque, havia apenas uma certeza: a titularidade do goleador Hervé Revelli (foto). Jogador que mais vezes marcou na Ligue 1 com a camisa do Saint-Étienne (com 175 tentos) e o terceiro maior artilheiro da história da competição, era um atacante prolífico que sabia se utilizar muito bem da forma como a equipe jogava, sempre recebendo bolas das pontas.

Normalmente, aberto pelo flanco direito, jogava o irmão de Hervé, Patrick Revelli. Jogador rápido e habilidoso, lembrado por seu peculiar bigode, representava perigo constante, tanto pela qualidade para driblar quanto pela aptidão para cruzar bolas na área adversária. Pelo outro lado, contudo, a disputa pela vaga de titular era mais disputada.

Jogador histórico, Georges Bereta foi o primeiro a exercer o papel. Referência eterna da equipe, tendo a defendido entre 1966-1974, tinha uma perna canhota infernal, boa para o drible e eficiente nas finalizações. Foi o primeiro capitão da “Era Herbin”. Com sua saída, o posto ficou vago e foi disputado, inicialmente, entre Christian Saramagna e Yves Triantafyllos, já que o jovem Rocheteau ainda não estava pronto. Enquanto o primeiro era mais talentoso, hábil no manejo da bola, o segundo tinha mais “faro de gol”. No entanto, Saramagna sofreu com muitas lesões e Triantafyllos deixou o clube em 1975. O lugar estava mesmo destinado a pertencer a Rocheteau.

Embora seja lembrado como ponta pelo lado direito, Rocheteau foi muitas vezes, mormente em seus primeiros anos no time, usado pelo flanco esquerdo e até mesmo como referência. De carreira atrapalhada por lesões, é considerado um dos melhores franceses de todos os tempos. Seu peculiar estilo, com cabelo longo e dribles insinuantes, logo o tornou um jogador instrumental para o sucesso da equipe e um dos favoritos da torcida. Posteriormente, brilhou com a camisa do Paris Saint-Germain.

Ficha técnica de alguns jogos importantes nesse período:

34ª rodada da Ligue 1 1973/1974: Saint-Étienne 2x0 Lyon

Estádio Geoffroy Guichard, St. Étienne

Árbitro: Robert Frauciel

Público 34.338

Gols: ’11 Bereta e ’80 Revelli (Saint-Étienne)

Saint-Étienne: Curkovic; Janvion, Piazza, Lopez, Repellini; Bathenay, Larqué (P. Revelli), Synaeghel; Bereta, H. Revelli e Rocheteau. Téc.: Robert Herbin

Lyon: Chauveau; Lhomme, Mihajlovic, Baeza, Domenech; Chiesa, Ravier, Maneiro; Di Nallo, Lacombe, Mariot. Téc.: Aimé Mignot

36ª rodada da Ligue 1 1974/1975: Saint-Étienne 4x1 Olympique de Marseille

Estádio Geoffroy Guichard, St. Étienne

Árbitro: Robert Wurtz

Público 36.521

Gols: ’27 P. Revelli, ’66 Lopez, ’68 Larqué, ’71 Bathenay (Saint Étienne); ’17 Paulo César Caju (Olympique)

Saint-Étienne: Curkovic; Janvion, Piazza, Lopez, Farison; Bathenay, Larqué, Synaeghel (Santini); P. Revelli, H. Revelli e Sarramagna. Téc.: Robert Herbin

Olympique: Charrier; Lemée, Trésor, Zvunka, Bracci; Buigues, Eo, Emon; Paulo César Caju, Jairzinho e Bereta.Téc.: Jules Zvunka

Final da UEFA Champions League 1975-1976: Bayern de Munique 1x0 Saint-Étienne

Estádio Hampden Park, Glasgow

Árbitro: Károly Palotai

Público 54.864

Gol: ’57 Roth (Bayern)

Bayern: Maier; Hansen, Schwarzenbeck, Beckenbauer, Horsmann; Roth, Kapellmann, Dürnberger; Hoeneβ; Rummenigge e Müller. Téc.: Dettmar Cramer

Saint-Étienne: Curkovic; Janvion, Piazza, Lopez, Repellini; Bathenay, Larqué, Santini; P. Revelli, H. Revelli e Sarramagna (Rocheteau). Téc.: Robert Herbin

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Weiser merece um chamado de Löw

Philipp Lahm foi durante anos um jogador fundamental para a Seleção Alemã. Seja pela lateral direita, pela esquerda ou no meio-campo, o jogador, a quem coube a honra de levantar o troféu da Copa do Mundo de 2014, foi uma grande referência. Por isso, desde sua aposentadoria da Nationalelf, muito se especula sobre sua sucessão, o que tem trazido problemas ao treinador Joachim Löw. Há, contudo, um jogador que desde que deixou o Bayern de Munique vem mostrando qualidades para assumir esse papel: Mitchell Weiser, ala do Hertha Berlin.



A temporada 2015/16 foi surpreendente para o torcedor da equipe berlinense. Vivendo há tempos longe das primeiras colocações da Bundesliga, o time até não conseguiu terminar tão perto dos líderes (foi o sétimo ao fim do certame), mas durante bom tempo brigou nas cabeças. A posição foi a melhor desde a distante temporada de 2008/09, valendo mencionar que entre as campanhas citadas a equipe da capital germânica foi rebaixada em duas ocasiões à 2.Bundesliga. Nesse sentido, o time tem tido em Weiser um de seus pilares, um jogador importantíssimo.

Jovem de grande vitalidade, veloz, e dono de movimentação inteligente, o garoto encontrou em Berlim o que não teve no Bayern: oportunidades. Em duas temporadas e meia em que vestiu as cores bávaras foi opção em apenas 21 jogos, dispondo de uma média de 50 minutos e muitas vezes como improviso. É certo que houve problemas disciplinares do garoto enquanto o mesmo representou o Bayern II, mas, justamente pela juventude, o atleta merecia maior atenção do Bayern.


O atual tetracampeão alemão está no passado de Weiser. Em seu presente, entretanto, está a titularidade do Hertha Berlin, muitas assistências e participações constantes e vitais nos recentes êxitos do clube. Aos 22 anos, o jogador que deu seus primeiros passos no Colônia vive momento especial e possui características que podem ser extremamente valiosas para o treinador da Seleção Alemã, maiormente a versatilidade. Habitualmente lateral direito, já mostrou competência atuando também mais avançado e pelos dois lados.

Na temporada passada, sua primeira na capital alemã, em 29 partidas de Bundesliga, criou 16 oportunidades de gol, quatro assistências e marcou dois gols, tendo sido eficiente em 49% dos desarmes que tentou, a despeito de sua natural veia ofensiva. Comprovando sua evolução e a boa condição do momento que vive, em 2016/17 já esteve em campo 10 vezes, tendo ofertado 17 passes para gol, construído quatro assistências e feito um gol. 

Certamente, hoje deve pairar algum arrependimento sob a cabeça de parte da direção do Bayern. Weiser está se desenvolvendo rapidamente e se tornando um dos jogadores mais influentes da Bundesliga.

Assim, a despeito do promissor aparecimento do ainda mais jovem Benjamin Henrichs, lateral de 19 anos do Bayer Leverkusen, da bem-sucedida aposta em Joshua Kimmich na Euro e da boa forma de Sebastian Rudy no Hoffenheim, Weiser já faz por merecer no mínimo uma observação do treinador Joachim Löw. Até mesmo porque passou pelas equipes de base da Seleção Alemã nos escalões sub-16, 17, 18, 20 e 21 e conhece o modo como trabalham os selecionados germânicos.

“Ele é um jogador versátil, que pode ser usado em ambos os lados e tem tido tempo de jogo, hoje ele mostrou novamente que é indiscutivelmente um jogador que iria bem com a Seleção Nacional”, disse Michael Preetz, Diretor Esportivo do Hertha Berlin, em 05/11.

Vale mencionar que embora não disponha da técnica de Lahm, muitas de suas características se assemelham, sendo também válido dizer que o primeiro muito evoluiu durante a carreira, não tendo sido unanimidade desde sempre. O mesmo pode ocorrer com Weiser, basta que lhe sejam concedidas oportunidades; as mesmas que lhe faltaram na Baviera e se mostraram fundamentais para seu desenvolvimento no Hertha.

Outro ponto a ser considerado é que, exceção feita a Kimmich (que é um improviso), Löw fez várias tentativas malsucedidas para a lateral direita. Jogadores como Antonio Rüdiger, Emre Can, Matthias Ginter, além de formações com três zagueiros com a presença de alas, como Karim Bellarabi e Patrick Herrmann, pela direita, foram tentadas e nenhuma delas alcançou particular êxito, sobretudo quando tiveram suas performances comparadas às de Lahm, em um passado ainda recente.

Seja como for, parece questão de tempo a convocação de Weiser. Pela necessidade de encontrar soluções para a lateral direita alemã, por seu bom momento e margem para evolução. Sua saída do Bayern para o Hertha Berlin foi oportuna e recolocou sua carreira em progressão. Difícil é saber quanto tempo o jogador permanecerá no clube azul e branco, pois, continuando assim, certamente será procurado por muitas equipes, em um futuro breve.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

As metamorfoses de Azpilicueta

César Azpilicueta chegou ao Chelsea em 2012, então um atleta promissor, com histórico longo em equipes de base da Seleção Espanhola e tendo tido algum êxito em sua passagem pelo futebol francês, em que defendeu o Olympique de Marselha. À época, o jogador basco chegou para compor elenco, disputando posição com Branislav Ivanovic (por vezes zagueiro), na lateral direita dos Blues. Quatro temporadas depois, completamente adaptado à capital inglesa e titular absoluto do clube, o atleta mostra várias facetas e se confirma uma peça incrivelmente útil.



Por formação, Azpilicueta é lateral direito. Este fato é incontestável. Todavia, a realidade do jogador começou a mudar já na temporada 2013/14, sua segunda no clube. Sem poder contar com o melhor de Ashley Cole, lateral esquerdo histórico do clube, mas que já dava mostras indiscutíveis de queda de performance tanto técnica quanto física, e tendo emprestado Ryan Bertrand ao Aston Villa, o Chelsea precisou apostar no improviso de Azpilicueta pelo flanco canhoto.

Adaptação pelo outro lado

À primeira vista, a experiência não foi sempre um sucesso. Em seus anos iniciais de Chelsea, por vezes, o jogador mostrou alguma inconsistência, com falta de confiança e concedendo espaços aos seus adversários. No entanto, a mudança veio para ficar e Azpilicueta se tornou, efetivamente, um lateral esquerdo. Mesmo tendo no pé direito sua maior capacidade, transformou-se em um marcador duro e responsável. 

A maior prova do sucesso da aposta feita pelo clube, então treinado por José Mourinho, veio na temporada 2014/15. Cole efetivamente deixou o clube, rumando para a Roma; Bertrand também partiu definitivamente, para o Southampton. Assim, ciente do desequilíbrio de seu elenco, o Chelsea foi ao mercado e fez uma contratação que confirmou uma realidade a todos: o improviso de Azpi chegara ao fim. Direto do Vicente Calderón, chegara um campeão espanhol e vice da UEFA Champions League: o lateral esquerdo Filipe Luís.

Não obstante, o que se viu foi o brasileiro constantemente deixado de lado, disputando partidas menores e de copas nacionais e o espanhol mantendo a titularidade. Por mais que tenha sido difícil compreender essa escolha – sendo certo que o torcedor do Chelsea nada pode afirmar acerca do futebol de Filipe, tamanha foi sua pouca presença no time – o fato é que Azpilicueta deu conta do recado e o Chelsea foi campeão. Com muito mercado, o brasileiro preferiu retornar ao Atlético de Madrid. Para a temporada 2015/16, do surpreendente Augsburg, veio o ganês Abdul Baba Rahman.

Contudo, o lateral africano encontrou sorte ainda pior que a de Filipe Luís. Mostrando notórias dificuldades para se adaptar ao ritmo e às exigências físicas da Premier League, passou má impressão quando esteve em campo, o que manteve Azpi pelo lado canhoto. Nem mesmo a assustadora queda de forma técnica de Ivanovic foi capaz de levar o espanhol de volta às origens, uma vez que a entrada possível de Baba era também temida. Após uma temporada de fracasso total para os Blues, ficou claro que Azpilicueta (um dos poucos que se salvaram) já não poderia ser visto como um lateral direito, embora ainda exercesse a função em ocasiões esparsas.

Novo treinador, nova função

Foi então que Antonio Conte chegou ao Chelsea para colocar a casa em ordem, como era esperado, pretendendo acertar, primeiramente, o setor defensivo. Assim, optou por reforçar o que precisava de melhoras e manter o que vinha dando certo. Assim sendo, Azpilicueta começou a temporada 2016/17 como lateral esquerdo.

No entanto, após ligeira queda de forma da equipe, com derrotas pesadas e importantes para Liverpool e Arsenal, mudanças precisaram ser feitas; o time estava deficiente em criação e contenção. Veio a atualmente elogiada opção por três zagueiros, com a adoção do esquema 3-4-3. Adivinhem o que aconteceu? Azpilicueta deixou a lateral esquerda. Não para voltar à função de seu início de carreira, mas para exercer a zaga, normalmente mais à direita, em nova mutação.

Desde a mudança, na Premier League o clube disputou oito partidas e venceu todas. Vale menção ao fato de que nesse meio, foram registradas acachapantes vitórias contra Leicester (3x0), Manchester United (4x0), Everton (5x0) e êxitos vitais contra Tottenham (2x1) e Manchester City (3x1). Mesmo reposicionado, indiscutivelmente, Azpi continua sendo um pilar para o Chelsea – agora líder da competição –, cada vez mais elogiado.

“Azpi é um jogador fantástico, porque ele pode jogar em funções diferentes. Penso que a função em que ele está atuando agora é perfeita para ele. Ele está jogando muito bem, porque é rápido, tem boa técnica e bom posicionamento. É um jogador inteligente. Ele pode desempenhar diferentes papeis, mas penso que essa função (na zaga) é perfeita para ele, disse, recentemente, Antonio Conte ao The Guardian. 

Individualmente, César tem vencido uma média de 52% das bolas que disputa, acertado 89% de seus passes e sido exitoso em 47% de seus desarmes. No clube, só não consegue mais interceptações que o volante N’Golo Kanté, com 24 até o momento.

Hoje já não é mais possível definir César Azpilicueta em razão de sua posição. Tendo iniciado a carreira como lateral direito, passado grande parte dela pelo lado esquerdo e estando agora a brilhar no miolo de zaga, a única certeza que se tem em relação ao espanhol é a de que o mesmo tem se mostrado um ótimo defensor. Embora tenha passado por algumas dificuldades em seu início no Chelsea, o jogador se encontrou e hoje é peça fundamental para um elenco que vem mostrando força dentro e fora de casa e tem chances reais de conquistar, novamente, o título inglês.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Respeito, memória e esperança

O dia não poderia ter começado pior. Da dúvida quanto aos fatos lidos ao acordar à certeza dos mesmos minutos depois, o choque se mantém vivo em meu íntimo. Mais cedo, algumas lágrimas não foram contidas por meus olhos, enquanto a mente, que se recusava a aceitar o que estava a sua frente, tentava acreditar que se tratava de um pesadelo. Aquele belo uniforme verde, com o qual os amantes do futebol brasileiro se acostumaram e que inspirou a torcida de todo o país, deu lugar ao negro do luto, naquilo que já é reconhecido como a maior tragédia da história do futebol.



Como aceitar que Danilo, aquele mágico que usava suas luvas como varinhas, não retornará ao relvado da flamejante Arena Condá? De onde tirar forças para compreender que aquele seleto e histórico grupo de jogadores há poucos dias recebido com euforia por uma torcida crescente, unida e apaixonada não mais poderá dar emoções a seus torcedores? Não tem jeito. Certas coisas são assim, simplesmente não são para ser entendidas; talvez por isso seja tão necessário viver com intensidade e paixão, e isso não faltou aos Guerreiros da Chape. Triste é precisar de um acontecimento como esse para voltarmos a lembrar disso.

A despeito de toda a tristeza, indignação e sensação de injustiça que um “roubo” tão abrupto provocam, além do luto que demorará a passar, nós, amantes do futebol, precisamos tentar pensar em coisas boas, lembrar a ChapeTerror por aquilo que a caracterizou, sua força, seu destemor e sua grandeza. É assim que aqueles heróis merecem ser lembrados. E, sim, eles foram heróis, não apenas pelos êxitos esportivos, mas pela capacidade de fazer o coração de uma cidade bater em compasso único e por conquistar a admiração e simpatia de todo o país.

Honrar a memória das vítimas dessa tragédia é nosso dever, inescusável, diga-se – como outrora foi em Turim e Manchester, que sofreram fados semelhantes e persistiram. Esse dever é imperativo e tão importante que gerou uma comoção sem precedentes. Todos por uma causa, um propósito solidário, um ideal. Todos unidos para manter a tradição do Índio Condá viva e a chama de seu espírito crepitando.

É cedo demais para falar mais, até porque ainda precisamos transmitir tudo o que de mais positivo tivermos, pela vida e saúde de Alan Ruschel, Neto e Folmann. É claro: não podemos nos esquecer dos demais falecidos, jornalistas, tripulantes e toda a sorte de pessoas envolvidas naquilo que deveria ser um espetáculo incrível, a final da Copa Sul-Americana. 

Muito menos podemos olvidar as famílias e amigos. Se o choque e a dor são públicos, a mera tentativa de mensurar a dor desses soa ultrajante.

No entanto, volto a ressaltar a importância atual do papel do amante do futebol e do público em geral. Diante da grandeza dos feitos da equipe de Chapecó, esses nada mais podem fazer do que ajudar a eternizar as memórias daquele que pode ser considerado o elenco de maior êxito de toda a história da Chapecoense; aquele grupo que fez do sonho realidade, levando todo brasileiro que acompanha futebol a ser Chape por um tempo.

A necessidade da preservação da memória desses heróis é vital por isso: para que a fatalidade na terrível viagem para a final não seja o final da melhor época da equipe. Para que a esperança permaneça e o time consiga se reerguer. 

Os próximos passos não serão fáceis e a comoção deste dia triste precisa se transformar em ação, o discurso de apoio se transmutar em atitude; por respeito ao ocorrido, pela memória dos envolvidos, seus familiares e amigos e para manter viva a esperança de um clube que conquistou a admiração de todos e sofre hoje com um fardo pesado demais para carregar só.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...