segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Seleções de que Gostamos: Rússia 2008

Após rememorar a fantástica Seleção Portuguesa de 1966, que conquistou o terceiro lugar do Mundial daquele ano e teve em Eusébio o artilheiro da competição, rememoro o time russo que surpreendeu na Euro 2008, com boas atuações e a revelação de talentos que nunca mais repetiram os feitos daquela competição.


Em pé: Akinfeev, Pavlyuchenko, Zhirkov, Kolodin, Bilyaletdinov, Ignashevich;
Agachados: Semak, Semshov, Anyukov, Zyryanov, Arshavin.

Seleção: Rússia

Período: 2008

Time base: Afinkeev; Anyukov, Ignashevich, V. Berezutskiy (Kolodin), Zhirkov; Semak; Zyryanov, Semshov (Bilyaletdinov), Saenko (Torbinski); Arshavin e Pavlyuchenko. Téc.: Guus Hiddink

Conquista: Terceiro lugar na Euro 2008

Após participar da Copa do Mundo de 2002, a Seleção Russa fracassou na missão de se classificar para o certame de 2006, na Alemanha. Na ocasião, viu Portugal liderar o Grupo 3 das Eliminatórias Europeias e a Eslováquia ficar com a segunda posição, que a levou à repescagem. Após a disputa da competição, buscando reverter esse quadro e garantir classificação ao Mundial de 2010, os russos foram atrás de um treinador tarimbado e que vinha de trabalhos positivos com Coreia do Sul e Austrália: Guus Hiddink.

Embora a missão maior fosse a classificação para a Copa da África do Sul, pelo caminho havia a disputa das Eliminatórias da Euro 2008 e, consequentemente, da própria Euro. Já ali se esperava, no mínimo, que o treinador obtivesse êxito, o qual foi alcançado, ainda que o objetivo final tenha ficado pelo caminho.

Sob vitoriosa direção

Hiddink foi o treinador que levou a Coreia do Sul, em 2002, à quarta colocação do Mundial daquele ano. Também conseguiu que a Austrália avançasse às oitavas de finais da disputa de 2006, ocasião em que sua equipe resistiu até os minutos finais — contra a Itália, os Socceroos seguraram a futura campeã até os acréscimos do segundo tempo, quando Francesco Totti deu números definitivos à partida, classificando a Squadra Azzurra.

Anteriormente, havia treinado a irresistível Seleção Holandesa de 1998, que, com a base de jogadores que levara o Ajax a seu último título europeu, em 1995, perdeu para o Brasil e ficou com a quarta colocação da Copa do Mundo da França. Quando os russos fecharam a contratação do técnico neerlandês não havia dúvidas: o experiente comandante chegava para colocar ordem na casa, promover a transição de gerações e levar a Rússia às glórias.

Com o tempo e o sucesso na Euro, ganhou diversos elogios. Ao site da UEFA, Sergei Semak disse que Hiddink é "um treinador sensato". Diniyar Bilyaletdinov, por seu turno, garantiu que: "as questões de organização deixaram de ser um problema desde que Hiddink assumiu o comando da seleção".

Atrás da Croácia, à frente da Inglaterra

Logo no sorteio dos grupos das Eliminatórias para a Euro 2008 ficou claro que a vida russa não seria nada fácil. A despeito das fracas presenças de Israel, Macedônia, Estônia e Andorra, Croácia ou Inglaterra (duas equipes que haviam disputado a Copa do Mundo de 2006) teriam que cair para a Rússia poder ascender. E foi o que ocorreu.

Ao final da disputa, a tabela de classificação mostrou que a Croácia passeou pelo grupo, somando 29 pontos e obtendo o recorde de nove vitórias, dois empates e uma derrota, apenas. A disputa dura aconteceu entre dois dos países protagonistas de vários dos principais eventos do século XX. A Inglaterra, de Wayne Rooney, Frank Lampard, Steve Gerrard e companhia, ficou pelo caminho.



Com uma vitória para cada lado nos confrontos diretos, fizeram a diferença os resultados obtidos contra os croatas. A Rússia empatou ambos e a Inglaterra os perdeu. Ainda que o time de Hiddink tenha perdido uma partida para Israel, foram os pontos obtidos contra a Croácia que diferenciaram as trajetórias de russos e ingleses. 

Nem Ibra, nem a campeã da última edição: o mata-mata é da Rússia

O sorteio da competição colocou a Rússia em maus lençóis, ao menos à primeira vista. Ainda que a Seleção Espanhola não viesse de período vitorioso, tratava-se de um adversário duro e que havia liderado o Grupo F das Eliminatórias. Por sua vez, a Seleção Sueca apostava suas fichas no talento de Zlatan Ibrahimovic e a Grécia era a atual campeã, tendo batido Portugal, em solo lusitano, na edição de 2004. Ainda assim, a Rússia não brincou em serviço.

Depois de ser despachada pela Fúria na partida de estreia, 4x1 para os espanhóis, com show de David Villa, os russos se recompuseram e brilharam. Vale dizer que na goleada, não foi possível contar com Arshavin, que cumpria suspensão. Em seguida, contra a retranca grega, coube a Konstantin Zyryanov aproveitar assistência do veterano Sergei Semak e rolar para as redes desprotegidas, já que o experiente goleiro Antonis Nikopolidis saíra da meta para tentar evitar conclusão do assistente russo. Por sua vez, perante a Suécia valeu a força do coletivo. O primeiro tento da vitória por 2x0 saiu dos pés de Roman Pavlyuchenko em trama bem construída, com trocas de passes e movimentação envolvente; o segundo em jogada de velocidade de Yuri Zhirkov e finalização de Andrey Arshavin.



Dando mostras de coesão e espírito, a Rússia mandou Ibra de volta para casa e também os gregos. Começava a ficar claro que se estava diante de uma geração especial de atletas, que sob o comando de Hiddink havia encontrado uma maneira de jogar. A base do time, formada por jogadores de CSKA e Zenit, estava entregando futebol de ótima qualidade.

Nada de Carrossel Holandês… Roleta Russa!

Líder absoluta do grupo apontado como o mais difícil da competição, a Holanda precisou superar Itália, França e Romênia para avançar às quartas de finais da Euro 2008. Estava claro que o desafio russo era enorme, uma vez que a Oranje havia destruído as finalistas da Copa do Mundo de 2006 (3x0 contra a Itália e 4x1 perante a França) e, com tranquilidade, deixara os romenos pelo caminho, 2x0. A geração de Arjen Robben, Wesley Sneijder e Robin van Persie, que viveria o auge no Mundial de 2010, já não era tão jovem e mostrara grande desempenho, ao lado de peças experientes que azeitavam a equipe, figuras como Giovanni van Bronckhorst, Edwin van der Sar ou Ruud van Nistelrooy.

Como esperado, o jogo foi duro, mas a Rússia se agigantou. Com tentativas de longa distância e apostas nos dribles do endemoniado Arshavin, a nação do Leste Europeu levava perigo à meta da Laranja Mecânica. Assim, no início do segundo tempo, Semak foi à linha de fundo e cruzou para Pavlyuchenko cumprimentar as redes e inaugurar o placar. No apagar das luzes, Sneijder colocou a bola na cabeça de van Nistelrooy e a partida foi para a prorrogação.

Quando já era disputada a segunda etapa do tempo adicionado, Arshavin, com impressionante fôlego e velocidade, foi ao limite do campo e cruzou para Dmitri Torbinski desempatar a partida. Ainda houve tempo para ele, Arshavin, aproveitar falha da cansada defesa holandesa e dar números finais à partida. Como franco atiradora, a Rússia foi superior e, jogando bonito, avançou às semifinais da Euro.



Derrota para a futura campeã e sequente esquecimento

A despeito de tudo isso, aquela competição estava destinada a ter uma campeã e não era a Rússia. Reencontrando a Seleção Espanhola, os russos nada conseguiram fazer para evitar que a Fúria chegasse à decisão. Valentes, não deram vida fácil aos espanhóis, que só saíram à frente no placar quando já eram decorridos cinco minutos da etapa final, com Xavi. Aos 73, Dani Güiza ampliou e, aos 82, David Silva sentenciou a eliminação dos russos. Quando o placar ainda sinalizava empate, Pavlyuchenko chegou a ter oportunidade de dar a vantagem a seu país, mas não conseguiu evitar o triste, porém honrado, final de sua trajetória.

Pior que isso foi o azar da Rússia na sequência da Euro 2008. Dividindo o Grupo 4 das eliminatórias para o Mundial de 2010 com a Alemanha, foi vice-líder, ficando atrás do escrete germânico e à frente de Finlândia, País de Gales, Azerbaijão e Liechtenstein. Foram sete vitórias, um empate e duas derrotas, justamente nas partidas contra a Nationalelf. Assim, classificou-se para a repescagem, enfrentando a Eslovênia.

Quando mais se esperava que aquela geração de talentos de 2008 levasse a Rússia de volta à Copa do Mundo, os eslovenos surpreenderam. Até perderam fora de casa, mas marcaram um tento que se provou crucial, 2x1. Na volta, o 1x0 foi suficiente para, no critério do gol marcado fora de casa, os russos ficarem em casa. Depois da Euro 2008, aquele time talentoso nunca mais foi o mesmo, ainda que os grandes destaques da equipe tenham se mudado para centros maiores do futebol.

Arshavin foi ao Arsenal, Zhirkov ao Chelsea, Pavlyuchenko ao Tottenham e Bilyaletdinov ao Everton. Nenhum deles, contudo, foi muito bem-sucedido, assim como não voltariam a mostrar a qualidade de 2008 com a seleção de seu país.

Um grupo que mesclou experiência e juventude

Naquele já distante ano de 2008, a meta russa já era defendida por Igor Akinfeev, então um jovem de 22 anos. No entanto, a despeito da idade, o arqueiro já era titular do CSKA desde os 17 , acumulando muita experiência apesar da juventude. Na Euro não chegou a ser um dos grandes destaques de seu país, mas cumpriu seu papel decentemente. É um dos atletas que mais vezes já envergou a camisa da seleção de seu país, tendo superado a marca das 100 internacionalizações.

Pelas laterais, Guus Hiddink contava com muita força ofensiva. Pelo lado direito, Aleksandr Anyukov foi uma alternativa sempre presente no campo de ataque, não por acaso colaborou com duas assistências, nas cinco partidas disputadas pela Rússia. Por sua vez, o flanco canhoto contava com a referência de Yuri Zhirkov. Polivalente, sendo capaz de exercer com qualidade qualquer função no lado esquerdo do campo, era um motor e arma importante. Na competição, proveu também uma assistência.

A defesa central era pesada, mais muito firme e séria. Outro jogador vindo do CSKA, Sergei Ignashevich era a principal referência do setor, um jogador fisicamente forte, bom no jogo aéreo, porém lento. Sua companhia acabou sendo variada durante o certame europeu. Embora Guus Hiddink tenha demonstrado muito apreço por Denis Kolodin, beque também duro que atuava no Dynamo e possuía um chute poderosíssimo de longa distância, algumas circunstâncias (bem como o entrosamento trazido do CSKA), levaram-no a optar pela escalação de Vasili Berezutski, outro atleta de similares aptidões em relação aos seus concorrentes.

Na meia cancha, postado à frente da defesa, Sergei Semak era o capitão e responsável por gerir o jogo russo. Preterido durante as Eliminatórias para a Euro 2008, foi chamado para os últimos amistosos antes da disputa, ganhou moral e vaga no time titular. Vital para o sucesso russo, foi decisivo contra a Grécia, provendo a assistência para o solitário gol da vitória de seu país. Tento este que foi anotado por Konstantin Zyryanov, outro meia da equipe, que habitualmente ocupava a faixa direita do meio-campo e era importantíssimo na transição de ataque e defesa, sempre apostando na parceria com Anyukov, fazendo valer ao máximo o entrosamento trazido do Zenit.

Mais centralizado, Igor Semshov era outro articulador da equipe, referência experiente - ao lado de Semak o único remanescente da disputa da Copa do Mundo de 2002. Além dele, atuou Ivan Saenko. Curiosamente, o russo começou sua carreira na Alemanha e foi um dos últimos a estrear pela seleção. Dentre os meias, era o mais ofensivo, habilidoso e veloz, sendo também lembrado pelo infortúnio que são as lesões. Assolado por elas, aposentou-se em 2011, aos 28 anos. Quem também teve importância fundamental, alternando a titularidade com Saenko, foi Diniyar Bilyaletdinov, jogador canhoto, habilidoso e muito voluntarioso.

No ataque, Hiddink depositava suas maiores esperanças. Infernal, Andrey Arshavin vivia momento especial em sua carreira. Endiabrado, parecia que tudo o que tentava dava certo. Era o jogador mais talentoso da equipe, driblando com muita eficiência e rapidez, tornou-se o mais temido jogador russo daquele Campeonato Europeu e deixou a competição valorizado. Seu parceiro, também não ficou muito atrás. Escolhido para substituir Aleksandr Kherzakov, que, em má fase, não foi convocado, Roman Pavlyuchenko foi o maior goleador russo da Euro 2008, com três tentos. Assim, assumiu também a vice-artilharia do certame, com um gol a menos que o espanhol David Villa.

Aquele time ainda contou com algumas alternativas importantes, como foi o caso de Dmitri Torbinski, meio-campista decisivo para a vitória da Rússia contra a Holanda, ou, ainda de Dmitri Sychev, atacante que começou a competição com a titularidade, na vaga do suspenso Arshavin, e entrou no decorrer de algumas partidas.

Ganhar daquela Seleção Espanhola que venceria, além da Euro 2008, a Copa do Mundo de 2010 e a Euro 2012, era uma verdadeira missão impossível. Mesmo com a derrota por 3x0, a Rússia fez papel honroso. Consagrou uma geração que acabou se perdendo com o tempo, mas que deixou a Inglaterra em casa, despachou a campeã Grécia e a Suécia de Ibrahimovic e, além disso, bateu com autoridade a talentosa Holanda. Com Hiddink no comando, os russos foram além do esperado, encantaram com bom futebol e ganharam lugar cativo na memória dos torneios europeus. Isso tudo a despeito do fracasso que se seguiu.

Ficha técnica de alguns jogos importantes nesse período:

Grupo E das Eliminatórias para a Euro 2008: Rússia 2x1 Inglaterra

Estádio Luzhniki, Moscou

Árbitro: Luis Medina Cantalejo

Público 84.700

Gols: ‘70 e ‘73 Pavlyuchenko (Rússia); ‘29 Rooney (Inglaterra)

Rússia: Gabulov; Anyukov, Ignashevich, V. Berezutskiy (Torbinski), A. Berezutskiy; Zyryanov, Semshov, Zhirkov; Bilyaletdinov, Kerzhakov (Pavlyuchenko) e Arshavin (Kolodin). Téc.: Guus Hiddink

Inglaterra: Robinson; Richards, Campbell, Ferdinand, Lescott (Lampard); Barry, Gerrard, Wright-Phillips (Crouch), Joe Cole (Downing); Owen e Rooney. Téc.: Steve McClaren

Quartas de finais da Euro 2008: Holanda 1x3 Rússia

Estádio St. Jakob-Park, Basileia

Árbitro: Ľuboš Micheľ

Público 38.374

Gols: ‘56 Pavlyuchenko, ‘112 Torbinskiy e ‘116 Arshavin (Rússia); ‘86 van Nistelrooy (Holanda)

Holanda: van der Sar; Boulahrouz (Heitinga), Ooijer, Mathijsen, van Bronckhorst; Engelaar (Afellay), de Jong; Kuyt (van Persie), van der Vaart, Sneijder; van Nistelrooy. Téc.: Marco van Basten

Rússia: Akinfeev; Anyukov, Ignashevich, Kolodin, Zhirkov; Semak; Zyryanov, Semshov (Bilyaletdinov), Saenko (Torbinski); Arshavin e Pavlyuchenko (Sychev). Téc.: Guus Hiddink

Semifinais da Euro 2008: Rússia 0x3 Espanha

Estádio Ernst-Happel, Viena

Árbitro: Frank De Bleeckere

Público: 51.428

Gols: ‘50 Xavi, ‘70 Güiza e ‘82 Silva (Espanha)

Rússia: Akinfeev; Anyukov, Ignashevich, V. Berezutskiy, Zhirkov; Semak; Zyryanov, Semshov (Bilyaletdinov), Saenko (Sychev); Arshavin e Pavlyuchenko . Téc.: Guus Hiddink

Espanha: Casillas; Sergio Ramos, Marchena, Puyol, Capdevilla; Senna, Xavi (Xabi Alonso), Iniesta, Silva; Villa (Fàbregas) e Torres (Güiza). Téc.: Luis Aragonés

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Ben Woodburn, uma esperança em vermelho

Pensar em pontas galeses de grande talento é tarefa fácil. Rapidamente, vêm à mente os nomes de Ryan Giggs e Gareth Bale, ambos criados no futebol inglês. Vindo de contexto semelhante, Ben Woodburn, uma das promessas em quem o treinador do Liverpool, Jürgen Klopp, mais deposita esperanças, vai construindo sua trajetória, sempre vestindo vermelho: ora o da tradicional camisa dos Reds e, desde o início de setembro último, o de sua seleção nacional.



Aos 17 anos, Woodburn vive um sonho: chegou ao clube aos oito anos e depois de impressionar o comandante alemão do Liverpool na pré-temporada de 2016/17, o galês — inglês de nascimento —passou a integrar o grupo de atletas profissionais. Sua estreia não tardou, ocorreu logo em novembro daquela campanha. Embora tenha durado pouca mais de um minuto, serviu para fazer o garoto entender que, de onde viera aquela oportunidade, nasceriam outras, a se manter seu foco e desempenho nos treinamentos. Foram mais oito partidas naquele ano, o que inclui dois jogos completos na FA Cup.

A maturidade de seu jogo foi dando confiança a Klopp para utilizá-lo. Tal processo tem sido comedido, parcimonioso, sem queimar etapas. O treinador germânico reconhece que está diante de um talento imenso, mas também tem a consciência de que é preciso paciência com o garoto. Há, ainda, outro lado a ser considerado: hoje o Liverpool conta com muitas alternativas de qualidade para exercer as funções que Woodburn pode fazer (gente da qualidade de Philippe Coutinho, Sadio Mané ou Mohamed Salah), o que não quer dizer que seu desenvolvimento será retardado.

Para todos os efeitos, o nome do jogador já está na história dos Reds. Em 29 de novembro de 2016, Woodburn se tornou o jogador mais jovem a marcar um gol pelo clube. Tinha 17 anos e 45 dias, quando balançou as redes em vitória contra o Leeds United, na League Cup. Para assegurar o recorde, o atacante teve de superar ninguém menos que Michael Owen, aquele centroavante que ficou conhecido no final dos anos 90 como Golden Boy e que se cansou de marcar gols em Anfield Road.

Nós nos damos a liberdade de o educar e ensinar nos treinamentos, e então ele jogará sempre que for necessário. Todos conhecemos histórias de garotos absurdamente habilidosos, e por causa de uma ou duas coisas, especialmente por conta de impaciência, as coisas mudam. Tenho, no mínimo, 50% de responsabilidade por seu desenvolvimento, o resto é do jogador, família e tudo o mais. Sabemos qual é a nossa responsabilidade e estamos realmente prontos para viver com ela e ajudá-lo. Isso não quer dizer que ele não possa começar agora, ou amanhã. Sim, ele pode”, refletiu JK em entrevista veiculada pelo Liverpool Echo.

O fato é que, sem ter a fartura atualmente desfrutada pelos frequentadores de The Kop, a Seleção Galesa iniciou o processo de integração do atacante e colheu frutos imediatos. Deixando o banco de reservas contra Áustria e Moldávia, o garoto marcou em sua estreia pelos Dragons (assegurando vitória contra os austríacos, pela margem mínima) e, no segundo jogo, proveu assistência para Hal Robson-Kanu cumprimentar as redes. Foram dois jogos, com um tento e um passe para gol. É pouco? Não, tanto que o prodígio ajudou a recolocar o País de Gales na zona de repescagem para a Copa do Mundo de 2018.

Depois desses jogos, os holofotes voltaram a ser colocados em cima da figura de Woodburn. Não poderia ser diferente. Com muita personalidade, deu seus primeiros e importantes passos com a camisa de gales. Mais que isso: foi decisivo.


No campo, pouco importa que seja destro e atue preferencialmente pelo lado esquerdo. A qualidade que tem para manejar a bola com os dois pés permite tanto que o garoto vá à linha de fundo, como também que a carregue em direção ao centro, para finalizar — tudo isso conforme a sorte e o desenho de cada partida. Seu estilo de jogo permite que se pense no futuro do atleta com muita esperança, pois Ben é rápido, consegue vencer disputas de corpo, não desiste com facilidade e ainda tem muita habilidade para fazer a escolha mais acertada no curso das jogadas.

Nessa temporada, ainda não foi utilizado em partidas oficiais do Liverpool, mas como Klopp pontuou, está pronto para entrar quando for necessário. A chegada do versátil Alex Oxlade-Chamberlain, por certo, torna ainda mais acirrada a disputa por um lugar nos Reds. Entretanto, é cada dia mais evidente o fato de que, quando menos esperarmos, Woodburn estará integrando o onze inicial liverpuldiano; personalidade, qualidade técnica e margem para evolução não faltam.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Manipulado? O triste desfecho argelino de 1982

O dia 5 de julho de 1962 é histórico para a Argélia: representa o final de uma guerra civil sangrenta e longa, iniciada em 1954. Naquela data, os argelinos puderam gritar para quem quisesse ouvir que eram um país independente. No entanto, a realidade era caótica. Milhares haviam morrido, boa parte do país estava destruída e outros tantos locais haviam emigrado. A economia inexistia e um cenário de paz social era impossível. Assim, mesmo já não fazendo parte da França, a nação africana não disputou as eliminatórias da Copa do Mundo de 1966 (em protesto diante da inexistência de vaga direta para os africanos) e foram necessários três insucessos – em 1970, 74 e 78 – até que finalmente chegassem à disputa de um Mundial.



A competição de 1982, sediada na Espanha, foi realmente um evento curioso. O poderoso Brasil caiu para a desacreditada Itália; Paolo Rossi ressurgiu após escândalo envolvendo apostas; a forte Polônia, que já não tinha Kazimierz Denya, chegou em terceiro lugar; e a talentosa França de Michel Platini sucumbiu contra a forte, porém pragmática, Alemanha, que tinha em Karl-Heinz Rummenigge seu maior craque. Além disso, história também marcante é a que diz respeito à primeira participação da Argélia em mundiais.

Comandada pela qualidade diferenciada de jogadores como Lakhdar Belloumi, melhor jogador africano de 1981, Salah Assad e Rabah Madjer (que seria protagonista da primeira conquista da Copa dos Campeões com o Porto), a seleção nacional teve participação louvável nas Eliminatórias para o certame de 82. Deixou Serra Leoa, Sudão, Níger e Nigéria pelo caminho. Curiosamente, diante de um destino que, à primeira vista, sugeria muitas dificuldades à estreante, a Argélia se saiu muito bem.

Compartindo o Grupo 2 do Mundial com Alemanha Ocidental, Áustria e Chile, todos experientes em Copas do Mundo, as Raposas do Deserto surpreenderam e poderiam ter vivido uma realidade verdadeiramente brilhante.

A estreia aconteceu em Gijón, justamente contra os germânicos, então campeões europeus e colocou o dia 16 de junho de 1982 na história do esporte do tão sofrido país. Jogar uma competição de tal porte já era muito bom. Ganhar da Alemanha Ocidental? Surreal. De nada importou que Rummenigge tivesse ido às redes, porque antes dele Madjer já as cumprimentara, após grande defesa de Harald Schumacher, e pouco depois Belloumi também acabou por o fazer, após cruzamento de Assad. 2x1 histórico, mesmo porque os relatos da época apontavam certa soberba da parte dos alemães antes de a bola rolar.



O triunfo colocou os argelinos em boa situação no grupo. No entanto, logo após veio derrota inoportuna contra os austríacos, 2x0. Na sequência, porém, a Argélia bateu o Chile por 3x2 e teve de esperar o confronto entre Áustria e Alemanha para saber se avançaria à fase seguinte. Entretanto, uma vitória alemã simples ou por dois gols colocaria ambos os europeus na fase seguinte, já que haviam vencido os chilenos. Qual foi o desfecho? No mesmo palco em que a nação africana havia vencido sua primeira partida, Alemanha um, Áustria zero. Europeus na fase seguinte, Argélia eliminada.

Sem demonstrar muito interesse pela partida após os germânicos abrirem o placar, os países foram acusados de manipular o resultado. A FIFA, contudo, não promoveu investigação e o evento ficou conhecido como “A Desgraça de Gijón”. Após o incidente, foi revisto o sistema de disputa de grupos, para que as partidas finais acontecessem ao mesmo horário, evitando, assim, o levantamento de suspeitas.

Nunca ficou provado nenhum tipo de pacto entre Alemanha e Áustria. Mas, diante da conveniência do resultado obtido, difícil foi não contestar o evento. Em 28 de junho daquele ano, o New York Times falou em “Gosto amargo na Copa do Mundo”, chamando a partida entre as nações europeias de “evento vergonhoso”. Por sua vez, o El País do próprio dia 26, data da partida, relatou que houve gritos de “que se besen” (que se beijem) e que “vários torcedores argelinos, que eram os diretamente prejudicados por este resultado, tentaram saltar ao campo e foram atacados pela Polícia Nacional”.

Em reportagem do The Guardian de 2010 ficou ainda mais consignado o tamanho da vergonha vivida. O periódico inglês reproduziu as palavras de Eberhard Stanjek, comentarista do canal alemão ARD: “o que está acontecendo aqui é vergonhoso e não tem nada a ver com futebol. Você pode dizer o que quiser, mas nem todos os meios justificam os fins”. O escândalo estava ali marcado na história.

Em 2002, o antigo capitão das Raposas do Deserto, Ali Ferghani, falou à BBC sobre o estilo de jogo que praticavam e tanto encanto provocou: “jogamos um tipo diferente de futebol, que nunca havia sido visto antes. Era uma mistura dos estilos alemão, francês e latino”. Por sua vez, à mesma reportagem, Belloumi deixou claro o sentimento de sua nação: “os alemães e austríacos jogaram um combinado para nos eliminar pela diferença de gols. Foi o que chamados de partida da vergonha”.

Mais uma vez, a Argélia sofria pesada dor. Obviamente incomparável com a dureza de uma guerra, mas, ainda assim, o fim de um sonho, afinal o esporte é sempre um instrumento de pacificação social, capaz de provocar onda de otimismo e esperança. A Argélia retornaria ao Mundial de 1986, mas apenas para ter participação obscura. Após, só voltaria em 2010.


quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Günter Netzer e a importância de se ter um craque na reserva

O período marcado pelo final dos anos 60 e início da década de 70 presenciou uma revolução cultural por todo o mundo. Como um microcosmo dessa realidade, o futebol não ficou de fora. Enquanto a Holanda e o Ajax se afirmaram os principais expoentes desse cenário, tendo em Johan Cruyff o protagonista de um Futebol Total, na Alemanha dois times entalhavam sua supremacia no país: Borussia Mönchengladbach e Bayern de Munique; Liderados pela genialidade de Günter Netzer e Franz Beckenbauer, dois jogadores que, como Cruyff, provaram-se expoentes de uma nova realidade.



Porém, enquanto não se discute o papel do Kaiser na conquista da Copa do Mundo de 1974 pela Seleção Alemã, pouco se fala em Netzer.

Uma das estrelas centrais da Nationalelf que conquistou o Campeonato Europeu de Seleções em 1972 – verdadeiro combinado de atletas vindos das poderosas equipes de Baviera e Renânia do Norte-Vestefália – Netzer chegou ao Mundial de 1974 como uma das maiores esperanças germânicas; não foi à toa que envergou a camisa 10. Se existia alguém capaz de executar função semelhante ao papel desempenhado por Cruyff na Oranje, esse era ele. No entanto, como em muitas outras ocasiões da história do futebol, jogadores de maior talento acabam sendo preteridos em benefício da utilização de peças coletivamente mais consistentes.

Em sua vaga, afirmou-se Wolfgang Overath. Houve, então, protestos da torcida e da imprensa. Não importava, naquela instância, que o substituto fosse considerado um jogador também talentoso, menos genial, porém mais confiável. O mundo queria arte, e os alemães queriam Netzer.

Fosse porque tivesse longos cabelos, jogasse confiando em seus instintos e protagonizasse lances verdadeiramente mágicos, ou por qualquer outro motivo. Todos pediam a presença do 10. No entanto, tiveram que se contentar com apenas 21 minutos do astro na competição, justamente na famosa derrota para a Alemanha Oriental.



Netzer não exemplificava as virtudes alemãs. Era indomável e talvez tenha sido essa a característica que o tomou um lugar no time alemão. Em 1972, Overath se encontrava lesionado. Em 1974, não. Posteriormente, o artista preterido revelou (falando do título europeu de 1972) que “não recebíamos instruções do treinador. Fizemos isso sozinhos no campo e deu certo”, como revelou o site da UEFA. Certamente, esse tipo de fala reflete a atitude que Netzer demonstrava. Nem mesmo sua categoria e elegância foram suficientes para Helmut Schön, o treinador naquela instância, o escalar.

Apesar disso, o comandante campeão, por mais que deixasse Netzer de lado, não podia ignorar o fato de que estava diante de um craque. Por isso, em segredo, como revelou David Winner no livro “Brillant Orange”, usou o gênio recém-transferido ao Real Madrid para emular Cruyff nos treinamentos de preparação para a tão esperada final daquele Mundial.

“O trabalho de personificar o capitão holandês foi entregue ao recuperado Günter Netzer, que, sob protestos da imprensa alemã, havia sido substituído pelo mais confiável Wolfgang Overath. Netzer-como-Cruyff jogou tão brilhantemente que deixou Vogts em farrapos; após 20 minutos, um intervalo foi pedido e ajustes feitos. Na final, Vogts fez de Cruyff uma sombra de si mesmo”.

Quem pode garantir que o implacável marcador Berti Vogts teria alcançado o brilhantismo e protagonismo daquela final se não fosse pela humilhação imposta por seu ex-companheiro de Gladbach nos treinamentos? Netzer era exatamente isso: alguém, em seus melhores momentos, capaz de provocar revoluções durante as partidas. Como Cruyff.

Nas palavras de Wolfram Pyta, reproduzidas por Jonathan Wilson no livro "A Pirâmide Invertida", Netzer "tornou-se favorito dos intelectuais de esquerda que enxergavam nele alguém que rompia com as tradições culturais alemãs dentro e fora do campo, porque celebrava uma forma de jogar que representava uma mudança radical [...] em especial, porque ele era considerado um não conformista".



Curiosamente, foi o alemão o escolhido pelo Real Madrid para responder o Barcelona quando os catalães contrataram o gênio holandês. Sua história com a camisa Merengue não chega perto da grandeza da vivida pelo eterno camisa 14 (também pela passagem como treinador) no Camp Nou, porém, não pode ser subestimada. A inteligência e eficiência de seus passes, a beleza dos dribles e a precisão de seus chutes foram vistas no Estádio Santiago Bernabéu. O individualista que por tantos anos fez o coletivo do Gladbach funcionar (10, para dar precisão ao dado), conquistou, em apenas três temporadas, dois títulos espanhóis e dois da Copa del Generalísimo – número superior ao obtido por Cruyff. Netzer saiu em 1976 para encerrar sua carreira no suíço Grasshopper.

Como a Alemanha venceu a Copa do Mundo de 1974, pouco se fala no fato de ter um gênio do tamanho de Günter Netzer permanentemente ficado no banco de reservas. O fato é que, direta ou indiretamente, o meia contribuiu para o sucesso da Mannschaft; colocou, pois, em sua sala de troféus a láurea mais procurada do mundo da bola. Mostrou sua importância, mesmo atuando por pouco mais de 20 minutos oficiais. Lembrado ou não por 1974, está na história.
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