quarta-feira, 27 de julho de 2016

Atuação no mercado demonstra intenção da Juventus

Carregar o peso de ser protagonista da contratação mais cara da história do futebol argentino não é tarefa para qualquer um. Essa é a realidade com que Gonzalo Higuaín terá que conviver, após trocar o Napoli pela Juventus pela bagatela de €90 milhões. É indiscutível que o argentino chega para suprir importante lacuna no elenco Bianconeri, em negociação que mostra com clareza o que a equipe italiana pretende para 2016-2017.



A cada dia é mais fácil perceber a hegemonia da Juventus no cenário italiano. Pentacampeã nacional, tem a equipe melhor estruturada, é a base da Seleção Italiana e segue se superiorizando a seus rivais no campo das negociações - seja contratando seus destaques ou vencendo a concorrência em outras negociações, como evidenciam as chegadas de Miralem Pjanic, ex-Roma, e Higuaín, além da de Marko Pjaca, jovem e talentoso meia-atacante croata que era pretendido por Internazionale e Milan.

Não há dúvidas: o futebol italiano ficou pequeno para a Juve. A conclusão lógica? A equipe de Turim precisa expandir seus horizontes e por mais que a iminente saída de Paul Pogba possa parecer um regresso, a chegada de Higuaín, sobretudo pelo preço pago representa com exatidão esse fato. O último artilheiro do Campeonato Italiano, autor de substanciais 36 tentos, chega para ser a referência que Mario Mandzukic e Álvaro Morata não foram com muita regularidade, um jogador para maximizar o aproveitamento das chances criadas pela equipe.

A contratação de um centroavante prolífico e com grande repertório já faria sentido se nos mantivéssemos diante do panorama da temporada passada, o que só ganha maior relevo em face do que a temporada 2016-2017 já nos apresenta. A Juventus adicionou a sua forte esquadra dois grandes assistentes: no meio o citado Pjanic e na lateral direita o brasileiro Daniel Alves.
Não há dúvidas de que mais bolas serão oferecidas ao atacante de área do clube alvinegro e para dar o salto de qualidade em termos continentais a letalidade na grande área é fundamental. Muitos são os exemplos que não nos deixam mentir, sobretudo nos maiores clubes do planeta: Bayern de Munique, Barcelona e Real Madrid, com Robert Lewandowski, Luis Suárez e Karim Benzema.

O pensamento da Juventus realmente parece estar voltado para a UEFA Champions League. Sem tê-la como foco principal e na condição de surpresa, a equipe italiana chegou à final do certame na temporada 2014-2015, perdendo para o Barcelona, mas jogando de igual para igual. Melhor preparada, vê suas chances crescerem. Por mais que as cifras investidas na contratação de Higuaín sejam obscenas, sua chegada deixa pouca margem para questionamentos: não se trata de um negócio visando a garantia de mais uma conquista nacional.

O argentino carregará a pressão natural de uma contratação com tamanho peso e expressão, o que não parece algo incomum para um titular da Seleção Argentina com passagem por Real Madrid e Napoli.

Pjanic, por sua vez, terá a oportunidade de mostrar que realmente chegou ao nível mais alto do futebol. E o mais interessante é que, como o Bayern de Munique já faz há tempos na Alemanha, ambos os exemplos foram contratações tiradas do mercado nacional, tratando-se de conhecedoras da Juventus e estando adaptadas ao futebol italiano. Isso favorece, de forma imensurável, o ajuste dos atletas a sua nova equipe. Nesse sentido também se encaixa o zagueiro Mehdi Benatia, que embora chegue do futebol alemão, atuou na Roma recentemente.

Como sempre, Barcelona, Real Madrid e Bayern de Munique começam a temporada como indiscutíveis favoritos à conquista da Europa, mas a Juventus mostra a intenção de se intrometer nessa disputa. Com um estilo competitivo já consolidado e novas peças isso fica mais claro. Hegemônica na Itália, a Vecchia Signora vai atrás do tricampeonato europeu.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Com ou sem título, Independiente Del Valle é vencedor

“Futuro campeão do Equador”. É diante destes dizeres que os jogadores do Independiente Del Valle, pequeno clube equatoriano, atuam quando em seus domínios. Com pouco menos de 60 anos de vida, os Negriazules somente conheceram a divisão de elite de seu país em 2010, tudo em função da forma como se estruturaram, o que lhes permitiu chegar à final da Copa Libertadores da América sem nunca ter alcançado o lugar mais alto do pódio em seu país.



A despeito de outro de seus lemas ser “nunca deixe de sonhar”, o clube equatoriano vem fazendo ao longo dos últimos anos muito mais do que aquilo que cabe em um sonho. Tudo começou com sua venda a um grupo de empresários, em 2006.

Contando com um centro de treinamentos de causar inveja a grande parte dos clubes do continente e adotando conduta voltada para o desenvolvimento de jovens prospectos, o clube definiu com precisão sua diretriz e já colhe frutos. Ao contrário de outras surpreendentes campanhas que a América já viu em sua maior competição continental, a chegada do clube equatoriano à final do certame não é obra do acaso.

Comandado pelo uruguaio Pablo Repetto (foto) desde 2012, o clube aposta todas as suas fichas no trabalho a longo prazo feito em seu centro de formação de atletas e, igualmente, na descoberta de jogadores de potencial que ainda não despontaram. Com uma estrutura de reconhecida qualidade, o clube vem conseguindo solidificar sua proposta. De suas instalações saíram alguns dos jogadores de maior destaque do país, casos por exemplo de Jefferson Montero e Juan Cazares. Um terço do orçamento total da equipe é destinado à base, que começa a receber seus jovens aos 12 anos.

Outra prova do sucesso da equipe é vista quando observamos a Seleção Equatoriana. Nos últimos tempos, muitos atletas foram lembrados, casos de Arturo Mina, Librado Azcona, Luis Caicedo, Bryan Cabezas, Junior Sornoza, Jefferson Orejuela, Jonathan González e José Angulo – isso sem citar outras peças formadas no clube e que integram os planteis de outras equipes atualmente.

No campo, ofensivamente o time equatoriano atua em um 4-2-3-1, que se transforma em 4-4-2 na fase defensiva. Com muita compactação, o time baseia seu sucesso na consciência coletiva, contando com a constante movimentação e aproximação de quem não tem a bola, dando opções a quem a domina e se recompondo com rapidez quando atacado.

Há também destaques individuais. Fortíssimo fisicamente, rápido e imponente na bola aérea, o zagueiro Mina (foto) é um deles. Outros são o meia Sornoza, grande referência de criação, e os pontas Cabezas e Angulo, que aliam habilidade, velocidade e muita movimentação.

Atuando assim, o time passou a surpreender e ganhar a admiração do mundo. Não é tarefa para qualquer um eliminar River Plate, atual campeão, e seu rival, Boca Juniors, no caminho à final. Vale ressaltar que, a despeito do natural respeito que existe quando se defronta equipes do tamanho de seus rivais argentinos, o time não se intimidou em momento algum. O Independiente Del Valle mostrou uma confiança que só aqueles que estão certos de que estão no melhor caminho são capazes de revelar.

Recentemente, os Negriazules também deram mais um exemplo: após presenciar a ocorrência de um terremoto que vitimou mais de 600 pessoas no Equador, o Independiente, ciente de que não poderia atuar em seu modesto estádio conforme avançava na Libertadores, convocou o público de toda a nação a apoiá-lo a partir da partida contra o River Plate. Mas como? Propondo-se a doar toda a renda às famílias vitimadas.

Se antes seria difícil encher o Estádio Olímpico Atahualpa, em Quito, o clube conseguiu não só lotá-lo como ganhar a simpatia de todo o país. Repetiu a ação contra Pumas, Boca e na primeira partida da final, contra o Atlético Nacional, e as cifras se aproximaram de um milhão de dólares.

Terceiro clube de seu país a chegar à final da Copa Libertadores da América, o time pode conquistar um feito impensável. Apesar disso, mesmo se o título não vier, é impossível pensar em fracasso. Equipe modesta, com princípios e ideias bem definidos e seguidos, o Independiente Del Valle, agora também chamado de El Mata Gigantes, mostra ao futebol sul-americano, carente de boas ideias e modelos, que é possível obter êxito mantendo os pés no chão.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

As muitas questões acerca do novo Manchester United

Desde a aposentadoria de Sir Alex Ferguson, o Manchester United vem sofrendo para mostrar identidade e um jogo capaz de competir no mais alto nível do futebol europeu. David Moyes fracassou retumbantemente nessa missão e, mesmo tendo feito boa Copa do Mundo em 2014, Louis van Gaal também. A ingrata tarefa agora está nas mãos de José Mourinho. Para isso, o português recebeu contratações interessantes, conta com a presença de alguns garotos com rodagem e velhas referências.



A primeira grande expectativa, não há como ser diferente, fica a cargo da forma como o Special One organizará seu time. Com ideias bem distintas das nutridas por van Gaal, notoriamente mais conservadoras, é possível imaginar previamente alguns quadros. É difícil vislumbrar, por exemplo, a continuidade de Daley Blind como zagueiro. Nesta função, o holandês simplesmente não se encaixa no estilo que o treinador sempre demonstrou ser sua preferência – é baixo e não se destaca nos atributos prevalentes para um jogo mais físico.

Além disso, após boa temporada, dificilmente Chris Smalling não terá seguro um lugar no onze inicial dos Red Devils e o clube acaba de gastar respeitável quantia na contratação de Eric Bailly, ex-beque do Villarreal, limitando o espaço do holandês.

Outro fato difícil de discutir é a presença de Zlatan Ibrahimovic e de Henrikh Mkhitaryan (foto) no time titular. Desde a queda de forma sofrida por Robin van Persie, o time tem sofrido com a ausência de uma referência confiável no ataque. Ibra chega para resolver esse problema até mesmo porque após a saída do holandês e da aposta fracassada em Falcao García, foi tentado um retorno de Wayne Rooney à posição do início de sua carreira, sem sucesso todavia.

A questão que se impõe é a necessidade de dar continuidade a Marcus Rashford (foto), garoto que terminou a temporada passada como titular, registrando sólidos números. Mesmo com quase 35 anos completados, Ibra deve tirar muito do espaço conquistado pelo jovem, algo que Mou terá que saber gerir.

Leia também: O meteoro Rashford

Por sua vez, o meio-campista armênio recém-chegado do Borussia Dortmund será o responsável por uma missão muito clara: quebrar o "gesso" que muitas vezes caracterizou o jogo do United em 2015-2016. Extremamente instável, Juan Mata (que deve deixar o clube) não conseguiu se transformar em ponto de desequilíbrio das marcações adversárias. Memphis Depay, aposta de van Gaal, igualmente não correspondeu e tudo aquilo que fugiu do esperado foi criado pela figura de Anthony Martial, geralmente pelo lado esquerdo do ataque. Muito pouco para uma equipe como os Red Devils.

Com isso, de antemão é possível visualizar um setor de criação com Mkhitaryan pela direita, Rooney pela faixa central e Martial pelo lado esquerdo. Sobre o inglês, especificamente, o português já indicou como pretende aproveitá-lo:

“Talvez ele não seja um atacante, não mais um número nove, mas para mim ele nunca será um número seis [volante], jogando 50 metros distante do gol”.

Apesar de tudo isso, há um ponto que pode ser crucial e quanto ao qual não há qualquer definição: Bastian Schweinsteiger faz, ou não, parte dos planos de José Mourinho? A qualidade do alemão não entra em discussão. Sua forma física, por outro lado, sim. O camisa 31 esteve irreconhecível na última temporada e tem saída fortemente especulada. Se ficar, é nome para assumir a titularidade.

Em outra análise, é preciso dizer que Mourinho sempre demonstrou apreço por volantes de contenção. Foi assim com Costinha no Porto, Claude Makélélé em sua primeira passagem pelo Chelsea, Esteban Cambiasso com a camisa da Internazionale, Sami Khedira no Real Madrid e Nemanja Matic no retorno ao Chelsea.

Há alguém com esse perfil no Manchester United? No momento, não. Esta é outra interrogação no que concerne à aplicação das ideias do português a seu novo clube. Todos os atletas dessa posição no elenco – Michael Carrick, Marouane Fellaini, Morgan Schneiderlin e até Ander Herrera – são mais reconhecidos pela qualidade na saída de bola, com bom passe, do que propriamente por uma marcação mais apertada e eficiência nos desarmes. Tentará o manager uma contratação para a função?

Outro questionamento fica a cargo da forma como os garotos do clube, alternativa recorrentemente usada por van Gaal, serão tratados por José Mourinho. Embora Rashford e Jessé Lingard tenham sido os únicos que realmente conquistaram espaço no time, outras peças, como Cameron Borthwick-Jackson, Guillermo Varela, Timothy Fosu-Mensah (foto), foram aproveitadas. O treinador português não tem um longo histórico no que concerne ao aproveitamento de garotos. Sobre isso, no entanto, Mourinho já deu resposta:

“Vocês sabem quantos jogadores das academias já promovi? 49”, disse em sua apresentação ao clube. Apesar disso, poucos são os nomes que realmente tiveram espaço em suas equipes e construíram carreiras sólidas.

Se há algumas “certezas” no que toca ao time que podemos esperar de Mourinho, com uma estrutura muito sólida e as presenças de Mkhitaryan, Ibrahimovic e Bailly, várias são as dúvidas em outras áreas. Até o início da temporada ficamos apenas com breves indicativos dados por suas contratações e falas. Um dos mais vitoriosos treinadores da história, Mou sabe e já afirmou que trabalhar no United é “um trabalho que todos querem e poucos tem a chance de ter”, estando ciente também da “responsabilidade e da expectativa”.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Times de que Gostamos: Nacional 1971

Após um pequeno hiato, volta ao ar a série “Times de que Gostamos”. Depois de falar sobre o vitorioso time do AZ Alkmaar da temporada 2008-2009, lembramos o grande Nacional, de Montevidéu, do ano de 1971.


Em pé: Manga, Masnik, Ubiña, Blanco, Ancheta, Castillo;
Agachados: Cubilla, Espárrago, Maneiro, Artime e Morales.


Time: Nacional-URU

Time baseManga; Ancheta, Masnik; Ubiña, Montero Castillo, Blanco; Cubilla, Maneiro, Espárrago, Artime e Morales. Téc.: Washington Etchamendi

Período: 1971

Conquistas: Campeonato Uruguaio, Copa Libertadores da América e Intercontinental

A Copa Libertadores da América foi criada em 1960 e logo conquistada pelo Peñarol. Esse marco, que somente na década de 60 se repetiu duas vezes, acirrou a alegada rivalidade mais antiga do futebol fora das Ilhas Britânicas. Enquanto os Carboneros conquistavam uma glória atrás da outra, o Nacional assistia seu sucesso com amargor, sentimento exacerbado pelos vice-campeonatos continentais de 1964, 1967 e 1969.

Leia também: Times de que Gostamos: Peñarol 1960-1961

O clube fundado com ideais nacionalistas se viu subjugado por aquele de origens inglesas na década de 60, algo que precisava mudar para que pudesse ser retomado o equilíbrio da rivalidade. A bandeira de Artigas, símbolo nacional do Uruguai que definiu as cores do uniforme dos Tricolores, ansiava tremular no posto mais alto do pódio continental. Chegou, por fim, o ano de 1971.

Curiosa ou ironicamente, contando com um dos maiores astros da história Carbonera, Luis Cubilla, o clube conseguiu deixar a angustiante fila de espera pelo título da Copa Libertadores da América. Com estilo.

Compartindo o Grupo 2 com os bolivianos Chaco Petrolero e The Strongest e o grande rival Peñarol, o Nacional foi soberano na primeira fase da competição – seis partidas, cinco vitórias e um empate. Mais que isso, a equipe bateu por duas vezes seu maior antagonista e o eliminou: 2x1 no primeiro encontro e 2x0 no segundo. Na segunda fase de grupos, que marcou as semifinais, os Tricolores enfrentaram um forte time do Palmeiras, que havia sido o vice em 1968, e o Universitario do Peru, segundo colocado na competição do ano que se seguiria. Dos quatro jogos, os uruguaios ganharam três e empataram um, o suficiente para voltar às finais.

Contra o fantasma dos vices anteriores, o Nacional possuía a missão ingrata de impedir o tetracampeonato do Estudiantes. Foi necessário um playoff para tanto, uma vez que as duas primeiras partidas registraram vitórias pela margem mínima, primeiro dos argentinos e após dos uruguaios. De volta a Lima, os Tricolores finalmente puderam espantar a dúvida gerada nos últimos anos e acirrar a rivalidade com o Peñarol. Enfim, bradavam o grito de campeão!

Conquanto não haja dúvida de que a conquista do continente foi o maior êxito de um ano inolvidável para o clube, certamente o título uruguaio e a posterior conquista do Intercontinental (contra o Panathinaikos, vice-europeu, uma vez que o Ajax, o campeão, recusou-se a disputá-lo temendo a repetição das cenas de violência ocorridas no ano anterior na disputa entre Estudiantes e Feyenoord) deixaram ainda mais brilhante o período.

Confira ainda: Nacional x Peñarol: o clássico do futebol uruguaio


Já na meta uruguaia atuava uma de suas mais importantes referências. Goleiro do Brasil na Copa do Mundo de 1966, Manga (foto) era o responsável por parar os adversários do Nacional. Após passar anos defendendo o Botafogo, protagonizou confusão com João Saldanha, chegou a Montevidéu em 1968 e foi ídolo, conquistando vários títulos e permanecendo no time até 1974. Ágil, sempre bem colocado, e notável pela rápida reposição de bola, era ainda conhecido por tentar evitar ao máximo a concessão de rebotes, algo raro à época.

Recentemente, em visita ao clube, o brasileiro falou sobre a conquista da Copa Libertadores:

“Foi uma emoção muito grande (...) é preciso vencer partidas para ser campeão e, para ser campeão da América, é preciso vencer 12 partidas. Esse foi meu trabalho no Nacional”.

O vitorioso time treinador por Washington Etchamandi atuava em um esquema tático que pode ser pensado hoje como um 2-3-5. Compondo a primeira linha, na retaguarda, o Nacional contava com a forte marcação e imposição aérea de Atílio Ancheta (foto), que faria história no Grêmio, e Juan Masnik, então o capitão da Seleção Uruguaia. Enquanto o primeiro era um vigoroso garoto de 23 anos o segundo já possuía 28 e muita experiência. Como curiosidade, é relevante lembrar que Masnik chegou ao clube em 1971 vindo do Gimnasia y Esgrima, justamente a equipe rival do Estudiantes, adversário tricolor na final, e marcou o gol que garantiu a disputa do terceiro e derradeiro jogo da competição.

Na hipotética linha de jogadores imediatamente posta à frente da dupla formada por Ancheta e Masnik atuavam três figuras. Uma delas possuía especial importância: Luis Ubiña (foto), o capitão da equipe. Membro da Seleção Uruguaia que disputou as Copas do Mundo de 1966 e 1970, o lateral direito já era experiente à época, com 31 anos. Chamava atenção pela liderança e o respeito que sua figura emanava, além da evidente competência em sua posição. Pelo Nacional, disputou 163 partidas e marcou três gols, aposentando-se em 1974, ainda no clube.

Mais centralizado, em um posicionamento que hoje chamamos de volante, a responsabilidade pela marcação cabia a Julio Montero Castillo, outra lenda do clube. Marcador forte e influente, era um defensor na acepção mais ampla da palavra, uma vez que atuava em qualquer posição do setor. Entre duas passagens, o jogador, que é pai do ex-zagueiro Paolo Montero, disputou 459 jogos pelos Tricolores. Fechando o setor, pela esquerda, atuava Juan Carlos Blanco, outro defensor versátil e símbolo do Nacional, pelo qual atuou em 237 partidas, anotando seis gols.

À frente, um quinteto implacável encantava. Pela ponta direita atuava o mais talentoso dos atletas de seus integrantes: Luis Cubilla (foto). Ídolo do rival Penãrol e tendo passagens importantes por Barcelona e River Plate, retornou a Montevidéu aos 29 anos, mas ainda com muito futebol para entregar. Habilidoso e driblador, El Negro cruzava e finalizava como poucos, tendo se firmado como um dos melhores atletas uruguaios de todos os tempos. No Nacional voltou a confirmar sua qualidade técnica, sendo o jogador mais diferenciado da equipe.

Alocado mais à faixa central, Víctor Espárrago fazia importante parceria com Cubilla. Multifuncional, possuía a capacidade de atuar em praticamente qualquer função a partir do meio-campo. Sua qualidade era tanta que o levou a atuar em três Copas do Mundo (1966, 1970 e 1974). Conforme é contado, sua leitura de futebol e dinamismo eram tão impressionantes, que permitiam aos treinadores escalá-lo para marcar o craque do adversário, com liberdade para criar ou até mesmo como centroavante. Pelo Nacional, disputou 431 jogos, marcando 62 gols.

Também no setor de criação, Ildo Maneiro era mais uma peça importante para o desenvolvimento do jogo tricolor. Não foi um atleta de tanto destaque quanto seus companheiros de frente, mas foi importante. Curiosamente, após passar três temporadas no Lyon, fez o caminho inverso ao de Cubilla, terminando a carreira no Peñarol. Por sua vez, o ponta esquerda era a personificação de um canhão. Julio César Morales, cria do Racing de Montevidéu, dedicou a maior parte de sua carreira ao Nacional, representando-o entre 1965-1973 e 1979-1982. Sua “patada” o colocou no rol dos grandes de todos os tempos do clube, o qual representou 471 vezes, balançando as redes 191 vezes. A despeito de possuir uma forte veia goleadora, também se destacava como assistente.

Havia ainda um atleta com um ofício bem determinado: Luis Artime (foto), o matador. Um dos artilheiros da Copa Libertadores de 1971, com 10 gols, e autor dos tentos do clube no Intercontinental, o argentino era brilhante em seu habitat natural, o centro das defesas adversárias. Jogador de forte personalidade e caráter, era outra influência fortíssima no elenco, que sempre possuía nele alternativa capaz de mudar os rumos de qualquer partida. O atleta era sinônimo de gol. Artime até não era conhecido pela beleza de seu jogo, mas sua eficiência era indiscutível, acima de qualquer suspeita. Ao todo, colocou os torcedores Tricolores em êxtase 158 vezes.

Organizando a sólida e extremamente técnica esquadra do Nacional, estava o treinador Washington Etchamendi (foto), figura de perfil extremamente peculiar. O uruguaio interpretava o futebol comparando-o à vida. Seu espírito agregador e sua vivacidade eram parte de sua identidade e muito do que o clube uruguaio conquistou se deveu à capacidade do técnico para incutir esse espírito no coletivo.

O treinador também criou fama com a autoria frases folclóricas, mas sempre abertas a reflexões e interpretações, como: En el mundo cada vez hacen más falta dos cosas: ¡democracia y delanteros!” (“No mundo cada vez fazem mais falta duas coisas: democracia e atacantes!”.

Se o Nacional vivia assombrado por alguns vice-campeonatos e pelos sucessos de seu rival, uma equipe determinada, talentosa, consciente e organizada tratou de colocar um imperioso ponto final a essa situação. Renasceu em 1971 uma das maiores instituições do futebol sul-americano.

Ficha técnica de alguns jogos importantes:

Grupo 2 da Copa Libertadores da América de 1971: Peñarol 0x2 Nacional

Estádio Centenário, Montevidéu

Árbitro: Lorenzo Cantillana

Público 60.000

Gols: ’75 Blanco e ’88 Maneiro (Nacional)

Peñarol: Mazurkiewicz; Figueroa, González, Matosas; Lamas, Caetano, Viera, Onega; Castronovo, Corbo, Acuña (Villalba). Téc.: Gastón Máspoli

Nacional: Manga; Blanco, Ancheta, Masnik, Mujica; Montero Castillo, Espárrago, Maneiro; Cubilla, Artime, Bareño (Prieto). Téc.: Washington Etchamandi 

Grupo A da Copa Libertadores da América de 1971: Nacional 3x1 Palmeiras

Estádio Centenário, Montevidéu

Árbitro: Vicente Llobregat

Público 65.000

Gols: ’42 Artime, ’57 Morales e ’64 Prieto (Nacional); ’25 César Maluco (Palmeiras)

Nacional: Manga; Blanco, Ancheta, Masnik, Mujica; Montero Castillo, Espárrago, Prieto; Maneiro, Artime, Morales. Téc.: Washington Etchamendi

Palmeiras: Leão; Eurico, Nélson Coruja, Baldocchi, Dé; Dudu, Héctor Silva (Zé Carlos), Ademir da Guia; Edu Bala, César Maluco, Pio (Fedato). Téc.: Rubens Minelli

Final da Copa Libertadores da América de 1971: Nacional 2x0 Estudiantes

Estádio Nacional José Díaz, Lima

Árbitro: Rafael Hormazábal

Público 41.000

Gols: ’24 Espárrago e ’67 Artime (Nacional)

Nacional: Manga; Ubiña, Ancheta, Masnik, Blanco; Montero Castillo, Espárrago, Maneiro (Mujica); Cubilla, Artime e Morales (Mameli). Téc.: Washington Etchamendi

Estudiantes: Pezzano; Malbernat, Aguirre Suárez, Togneri, Medina; Pachamé, Verde, Romeo; Echecopar, Rudzki, Verón (Bedogni). Téc.: Miguel Ignomiriello

Final da Copa Intercontinental: Nacional 2x1 Panathinaikos

Estádio Centenário, Montevidéu

Árbitro: Aurelio Angonese

Público: 70.000

Gols: ’34 e ’75 Artime (Nacional); ’90 Filakouris (Panathinaikos)

Nacional: Manga; Ubiña, Blanco, Masnik, Brunell; Montero Castillo, Espárrago, Maneiro; Cubilla (Mujica), Artime, Mameli (Bareño). Téc.: Washington Etchamendi

Panathinaikos: Ikomonopoulos; Mitropoulos, Kapsis, Sourpis, Dmitriou, Athanassoupoulos; Kamaras (Filakouris), Kouvas, Eleftherakis; Domazos e Antoniadis. Téc.: Ferenc Puskas
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