sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Guus Hiddink e a melhor Austrália de sempre

A estreia da Austrália em Copas do Mundo se deu em 1974. Como era de se esperar, foi muito ruim: um empate e duas derrotas. Demorariam 32 anos para que os Socceroos conseguissem voltar ao maior palco do futebol mundial. A despeito de se tratar da melhor equipe da Oceania, o fato de tal continente não possuir uma vaga garantida no certame, sempre tendo que batalhar por seu lugar na repescagem, tornou a tarefa inglória. Porém, em 2006, sob o comando de Guus Hiddink, tal realidade mudou.


Foto: Getty Images


O treinador holandês vinha de um período de êxito; liderara a Coreia do Sul (não sem controvérsia) à quarta colocação no Mundial que, junto ao Japão, sediara. Ele chegou à Austrália com boas credenciais, embora dividindo as atenções da seleção com as tarefas do comando do PSV Eindhoven. Além de seus sucessos sob a direção de clubes, já se provara treinando um selecionado que estava longe de ser dos mais fortes ou tradicionais.

Aliado a isso, Hiddink (que levara como auxiliares o ex-craque Johan Neeskens e Graham Arnold, ex-jogador da própria Seleção Australiana) tinha nas mãos o melhor material humano já produzido em solo australiano. A maior parte dos atletas atuava na Europa e alguns, como o goleiro Mark Schwarzer, os meias Harry Kewell e Tim Cahill ou o centroavante Mark Viduka, tinham destaque nos seus times. Havia talento, mas também muito trabalho duro, evidenciado, por exemplo, nas figuras de Vincenzo Grella, Mark Bresciano ou Brett Emerton.

Indiscutivelmente, aquela Austrália estava pronta para se exibir na maior vitrine do futebol mundial. Era um elenco experimentado (21 dos 23 jogadores já haviam transposto a barreira dos 25 anos e 10 a dos 30). Aquela era sua hora. Depois de reinar, soberana, nas eliminatórias, que culminaram com um placar agregado de 9 a 1 contra as Ilhas Salomão, a nação teria, enfim, sua prova de fogo. Na repescagem, enfrentaria o Uruguai.

Foto: Getty Images
É bem verdade que aquele time uruguaio em entressafra não era assim tão poderoso. Não fazia jus a história charrua. Ainda assim, representava uma camisa bicampeã mundial, a Celeste Olímpica. O próprio fantasma das mais de três décadas sem se classificar para um Mundial não trazia otimismo - os Socceroos haviam perdido para a Escócia (1986), Argentina (1994), Irã (1998) e para o próprio Uruguai (em 2002). Entretanto, nem toda a técnica do craque Álvaro Recoba bastou para levar os sul-americanos à frente. Cada país venceu o jogo disputado em seu território por 1 a 0. Coube, então, às penalidades máximas a definição dos rumos do encontro. Darío Rodríguez e Marcelo Zalayeta desperdiçaram suas cobranças: a Austrália carimbou seu passaporte para a Alemanha.

Porém, o sorteio dos grupos da Copa do Mundo se revelou cruel com os australianos. Logo, teriam que enfrentar o outrora favorito Brasil, além da Croácia e do Japão. Mas desde o início, o time mostrou que não chegara tão longe para brincar. Na estreia, contra os nipônicos, mostrando seu forte 3-5-2, obteve sua primeira vitória na história da competição: 3 a 1 - de virada e com emoção: os três tentos da Austrália saíram após o minuto 80. Depois disso, deu a lógica, e a equipe perdeu para o Brasil, vendendo caro o resultado, 2 a 0, que só se consolidou aos 90, com gol de Fred. Contra a Croácia, bastou um empate. Os Socceroos somaram quatro pontos e fizeram, já ali, muito mais do que o esperado.

Os australianos avançaram às oitavas de finais. Naquela altura, parecia evidente que já haviam ido longe demais e que sua queda estava próxima. Pela frente viria a Itália.

Contra a Squadra Azzura, do treinador Marcelo Lippi e de craques como Gianluigi Buffon, Fabio Cannavaro, Andrea Pirlo ou Alessandro Del Piero, Hiddink preparou um time consistente e compacto, mas com espaço para o talento. E a missão de neutralizar os italianos foi excepcionalmente bem executada. Todavia, aquela era a Copa do Mundo dos italianos, que se consagrariam campeões. Uma penalidade máxima (no mínimo discutível) nos acréscimos do segundo tempo acabou com a agonia na Velha Bota: Francesco Totti converteu o lance e pôs fim ao sonho australiano. Hiddink deixou a Seleção Australiano na sequência.



Apesar disso, 32 anos após sua estreia, a Austrália superou as expectativas. Foi organizada e valente; obteve resultados. Aquela se confirmou a melhor geração dos Socceroos em todos os tempos, mas já não era a mesma quando se apresentou a Copa do Mundo de 2010. Não tinha alguns jogadores, nem Guus Hiddink, e vivia uma realidade em que algumas peças já haviam ultrapassado o pico técnico de suas carreiras e começavam a perder competitividade. Contudo, a partir de 2006, a Austrália não mais falhou à disputa de um Mundial sequer.

Foto: Getty Images
"[Guus] Hiddink maximizou nosso potencial [...] Ele nos preparou cientifica, tática, estratégica e mentalmente [...] Nossa atitude ainda era otimista. Não perderíamos sem luta. Para mim, estar na Copa do Mundo não era apenas a realização do sonho da minha vida. Era realmente um teste de caráter. 
[...] 'nesse time', o Hiddink nos disse, 'não há egos. Se eu perceber quaisquer egos, eu me livrarei deles'", disse Tim Cahill, em 2015, ao The Advertiser.

Mais tarde, a Austrália passou a disputar as eliminatórias asiáticas, que dão vagas diretas na Copa do Mundo. Embora não tenha voltado a brilhar, o país se consolidou. Muito disso se deve à figura de Guus e ao refino de alguns de seus inesquecíveis atletas. 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O renascimento do Schalke 04 pela jovem mente de Domenico Tedesco

Os melhores anos do Schalke 04 já são vistos à distância. Embora tenha sido terceiro colocado alemão em 2011/12, quarto em 2012/13 e, novamente, terceiro em 2013/14, a distância para os líderes já se mostrava intransponível. Em nenhum momento dessas campanhas, os Königsblauen chegaram perto de lutar pelo título. No entanto, naquela altura, o clube ainda conseguia frequentar a UEFA Champions League. Porém, o sexto, quinto e décimo lugares obtidos nas últimas três campanhas sinalizaram assertivamente algo preocupante: o Schalke 04 perdera ainda mais sua força. Contudo, desde a chegada do jovem treinador Domenico Tedesco a situação parece ter começado a mudar.


Foto: Site oficial do Schalke 04


A reformulação por que passou o clube do Vale do Rühr na última janela de transferências foi profunda. Ao mesmo tempo em que velhas referências deixaram a Veltins Arena, casos de Benedikt Höwedes e Klaas-Jan Huntelaar, jovens também procuram outros rumos: Johannes Geis seguiu para o Sevilla e Sead Kolasinac foi testar seu potencial na Premier League, assinado com o Arsenal. A debandada parecia geral e os reforços que chegaram não convenceram de início. Apenas Bastian Oczipka e Amine Harit carregaram consigo alguma simpatia. Porém, o que o torcedor não se dava conta então era do fato de que o grande reforço do Schalke 04 se encontrava no banco de reservas.

Quem é ele?

Pouco se sabia sobre Tedesco quando os Azuis Reais anunciaram sua chegada. Certo é que treinara equipes de base de Stuttgart e Hoffenheim e salvara o modesto Erzgebirge Aue do rebaixamento à terceira divisão alemã, em 2016/17. Aos 32 anos, o ex-colega de curso de treinadores do igualmente jovem Julian Nagelsmann (comandante do Hoffenheim), desembarcou em Gelsenkirchen com uma missão realmente dura. Porém, o italiano tem demonstrado que estava preparado para assumir tal trabalho.

Quem o conhece aponta sua postura, mantendo sempre os pés no chão, como a principal característica de sua personalidade e, consequentemente, do trabalho. Sem grandes reforços, com o clube vindo de uma temporada difícil e com perdas importantes, Tedesco sabia desde o início que teria que tirar alguns coelhos de sua cartola para fazer o Schalke 04 dar liga. Sua ética de trabalho, contudo, encaixava-se com perfeição às necessidades do clube. Nunca é demais dizer, igualmente, que a chance de treinar os Königsblauen tendo tão pouca experiência se revelou fantástica para Domenico, independentemente da fase do clube.

O presidente de seu antigo time, o Erzgebirge Aue, demonstrou tal realidade com perfeição em entrevista concedida ao site oficial da Bundesliga: "ele conversa com os jogadores. Ele lhes mostra suas falhas em vídeo e, imediatamente, procura soluções. Ele é, também, poliglota, falando inglês, espanhol, italiano e alemão, o que é cada vez mais importante no futebol atual e uma grande vantagem".

A recuperação de alguns jogadores

Foto: Site oficial do Schalke 04
Diante dessa realidade, Tedesco foi ao campo trabalhar; começou a redescobrir alguns jogadores. 

O ucraniano Yevhen Konoplyanka, por exemplo, oferecera apenas uma assistência em 17 partidas da temporada passada. Na atual, somados 14 jogos, já são três. O zagueiro e volante Benjamin Stambouli, de média de 1,8 desarmes em 2016/17, obtém atualmente a marca de 3,3. 

Do topo de seus 35 anos, Naldo voltou a ser uma barreira poderosa no coração da defesa do Schalke 04, tendo sido eleito o melhor em campo já em três partidas (ademais, junto ao goleiro Ralf Färmann, é o recordista de minutos dispoutados na temporada). Além ele, após um período de adaptações, depois de chegar do Wolfsburg no meio do último ano, Daniel Caligiuri, como ala pela direita, é outro que vem jogando muito bem.

Todos esses nomes já estavam no time em 2016/17, mas seu desempenho não era nem de longe semelhante ao atual. É bem verdade que algumas lesões atrapalharam o processo de agrupamento da equipe no último ano, mas a diferença de desempenho de uma temporada para a outra é grande demais para que se atribua apenas a critérios físicos a evolução dos atletas.

É claro: as aquisições de Oczikpa e Harit deram muito certo. A forma recente do lateral esquerdo não permitiu que o torcedor do Schalke 04 ficasse ressentido com a saída de Kolasinac por muito tempo. Por outro lado, o garoto marroquino, de apenas 20 anos, trouxe consigo a habilidade que é muitas vezes necessárias para puxar bons contragolpes e quebrar fortes linhas de marcação.

A definição de um estilo de jogo

Outro contributo fundamental oferecido por Tedesco foi a definição de uma forma de jogar para o clube. Também ao site oficial da Bundesliga, falou sobre o assunto:

"Sempre quero que meus times dividam bem os espaços. Gosto de comparar isso a um boxeador, que nunca pode baixar a guarda. Acima de tudo, queremos recuperar a bola tanto quanto seja possível, porque amamos atacar - ainda que com certo balanço e estrutura, para sermos capazes de controlar as transições".

Não é à toa que o Schalke é o terceiro time que mais vezes intercepta a bola na Bundesliga e também não é de se espantar o fato de que também ocupa a terceira colocação no ranking dos times que menos oferecem chances de finalização aos adversários. Tais dados ajudam a explicar o fato de que apenas Augsburg e Bayern de Munique sofreram menos gols do que os Azuis Reais, mesmo estes tendo vivido jogos completamente fora de seu próprio padrão, como na ocasião em que sofreram quatro gols do Borussia Dortmund ou em outra, quando concederam três frente ao Bayern.

Foto: Site oficial do Schalke 04


O Schalke 04, no entanto, ainda está em formação. Essa realidade se comprova quando se confronta o fato de que o time já cometeu seis erros defensivos graves, três deles terminando em gols dos rivais. Certa afobação na recuperação de bola também faz dos Königsblauen o quarto time que mais cartões recebeu na competição e o que mais cometeu faltas, com 237, na Bundesliga. 

Os desarmes têm sido muito agressivos, mas ainda carecem de maior precisão. Nada mais natural diante de um trabalho com menos de seis meses de duração. O time de Tedesco busca cortar linhas de passe e pressionar os adversários, mas nem sempre consegue, não alcançou ainda a sintonia fina. 

Tudo isso tem sido tentado por meio do uso de um esquema tático com três defensores na base (3-1-4-2, 3-4-3 ou 3-4-1-2). Naldo comanda a linha de defesa, avançando ocasionalmente e servindo de referência para Stambouli e seu outro companheiro (Matija Nastasic ou Thilo Kehrer). Convém notar que raramente o Schalke 04 utiliza um meio-campista mais voltado para a destruição, com Max Meyer e o garoto Weston McKennie formando importante parceria nos últimos jogos. Também têm muito relevo os papeis combinados entre Caligiuri e Harit pela direita e Oczipka e Konoplyanka pela esquerda, tanto na fase defensiva quanto ofensivamente.

A prova de fogo de Tedesco

Todo o trabalho de Tedesco parecia ter sido inútil, entretanto, quando o treinador foi apresentado ao seu maior rival, o Borussia Dortmund. Atuando fora de casa, com 25 minutos de jogo, já sofria a desvantagem de 4 a 0. Qual seria o limite desse massacre? Na ocasião, aos 33, o comandante azul real lançou Harit e Leon Goretzka ao campo nos lugares de Franco Di Santo e McKennie. Foi aos poucos recuperando a calma e ganhando controle, na mesma medida em que os aurinegros se desinteressavam pela partida.

Foto: Getty Images


E não é que o jovem treinador conseguiu recuperar os ânimos de seus jogadores e os inspirar a um empate, no mínimo, improvável? Mais concentrados do que nunca, completaram 13 dos 15 desarmes tentados no segundo tempo. Venceram 12 dos 18 duelos aéreos no mesmo período e só perderam a bola cinco vezes, contra 10 do rival. Ameaçaram a meta do Dortmund 11 vezes, contra apenas três do rival (no primeiro tempo haviam levado perigo em apenas duas oportunidades). Reagiram como poucas vezes se viu no futebol. Tedesco saiu do Signal Iduna Park com apenas um ponto, mas com a moral elevadíssima.

Goretzka: uma questão a gerir

Uma questão problemática e que revelará ainda mais a respeito das capacidades de Tedesco será a gestão da provável saída de Leon Goretzka, cujo contrato vence ao final da temporada. O meio-campista, nesse momento seguramente o atleta mais promissor e impactante do Schalke 04, confirmou que decidirá seu futuro em janeiro. Aos 22 anos, é convocado com frequência para a Seleção Alemã e foi soberbo na última edição da Copa das Confederações. Domenico Tedesco lidou bem com a questão envolvendo Benedikt Höwedes, que deixara de ser o capitão, antes de partir para a Juventus, mas não é possível prever o impacto da saída do meia. 

Para todos os efeitos, ele não tem sido deixado de lado pelo italiano e seu desempenho segue bom. Em 11 jogos disputados na Bundesliga, anotou quatro gols e alcançou bons índices defensivos (2,2 desarmes por jogo, 1,8 interceptações), sem prejuízo de sua contribuição ofensiva, com gols e constante chegada (chuta em média 2,2 bolas às balizas rivais). É um jogador especial e que dificilmente permanecerá em Gelsenkirchen. Lidar com o processo de saída do atleta e com a efetiva transferência será um processo importante para Tedesco lidar. Entretanto, até o momento, quando não pôde contar com Goretzka, o treinador encontrou soluções.

Para já, no entanto, o melhor é apreciar a retomada do Schalke 04, que, se não briga pelo título, voltou a lutar nas cabeças. O início do trabalho de seu jovem treinador é promissor e consistente. O elenco, em si, não é tão forte e tem poucas peças de reposição, o que poderá trazer dificuldades ao comandante em alguma parte da temporada. Porém, nesse momento, o lado azul da rivalidade do Vale do Rühr, a mais forte da Alemanha, só quer saber de fazer troça com seu antagonista e aproveitar a posição privilegiada na tabela. Tedesco, como Nagelsmann no ano passado, vai se confirmando um dos treinadores mais promissores da Europa.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Michel Platini, o nome que resumiu a Euro 1984

O futebol francês tem uma relação histórica com as individualidades. As primeiras referências remetem aos nomes de Raymond Kopa e Just Fontaine, enquanto as mais recentes elencam jogadores como Zinédine Zidane e Thierry Henry. Cada um desses gênios é lembrado por algum motivo, seja ele os seus feitos ou a distinção técnica. Nesse sentido, não há como não mencionar Michel Platini. Campeão por onde passou e dotado de inata liderança, o craque conduziu uma geração especial ao primeiro título da história de seu país. Foi, como poucos na história do futebol, protagonista.


Foto: Henri Szwarc/Reporters


Essa é uma história de continuidade. Em 1982, a França havia conquistado sua segunda melhor participação em uma competição internacional. Desde o terceiro lugar obtido na Copa do Mundo de 1958, Les Bleus não mostravam tanta força. Contudo, na Copa do Mundo disputada na Espanha, o país mostrara do que era capaz: terminara a competição na quarta colocação, mas fizera uma semifinal soberba. Contra a Alemanha, empatara no tempo regulamentar por 1 a 1, chegara a obter a virada e esteve à frente em dois momentos. Porém, o três a três e as consequentes penalidades máximas tiraram os franceses da disputa.

A base de 1984 era a mesma de dois anos antes e possuía ainda o mesmo craque e capitão: ele, Platini. O camisa 10 vivia a melhor forma de sua carreira. Chegara à Euro 1984 carregando o título e a artilharia do Campeonato Italiano de 1983/84. Marcara 20 gols e viria a conquistar a Copa dos Campeões da Europa no ano seguinte. Estava chegando aos 30 anos e alcançara a maturidade enquanto atleta. Porém, o cenário da disputa, a própria França, oferecia uma dualidade: por um lado, significava ter sempre superioridade nas arquibancadas e muito apoio; por outro, aumentava a pressão pela obtenção de uma glória – algo até então inalcançado.

Obviamente, tratando-se da equipe anfitriã, a França não disputou as eliminatórias para o certame, chegando a ele já para a disputa da fase de grupos. Naquela época, o torneio era ainda mais acirrado do que em tempos hodiernos. Isso porque eram apenas oito as equipes disputantes. Diante disso, Les Bleus compartiram o Grupo 1 com três equipes fortes: Bélgica, Dinamarca e Iugoslávia.

Foto: Getty Images
Apesar disso, desde o primeiro momento não teve para ninguém; inexistiu qualquer estrela capaz de ameaçar o brilho do detentor do prêmio Ballon d’Or de então. Platini estava on fire e com ele sua seleção. Em três jogos, os donos da casa marcaram nove gols e sofreram apenas dois. Sozinho, o líder soberano da França somara sete tentos – um, o único, contra a Dinamarca e dois hat-tricks nos outros jogos. Os escandinavos até fizeram bonito e repetiriam o bom desempenho na Copa do Mundo de 1986, mas a Euro 84 era da França, pertencia a Platini.

Valeram gols de pé direito e esquerdo, de pênalti e de falta, com a cabeça e de peixinho. Não parecia haver obstáculo capaz de parar o camisa 10 e capitão. Até mesmo a sorte caminhava ao lado do astro, como ficará evidente a seguir.

Poucos campeonatos ou títulos podem ser tão individualizados como foi aquele torneio europeu. Nunca antes alguém havia marcado tantos gols em uma edição da Euro e, mesmo com o aumento no número de equipes disputantes, nenhum outro personagem voltou a o fazer. O que Platini alcançou teve proporções épicas. Em toda a história, apenas Cristiano Ronaldo alcançou sua marca, tendo, para tanto, que disputar quatro edições da competição, contra uma do francês.

Diante do fulgurante desempenho de Michel, a França avançou às semifinais com a liderança de seu grupo e melhor campanha da competição na primeira fase. Com isso, enfrentou o segundo colocado do Grupo 2, Portugal. Les Bleus esbarraram na partida iluminada de Rui Jordão, em ocasião que parecia que não teria a marca de Platini. Só parecia.

Jean-François Domergue abrira o placar para a França, ainda no primeiro tempo, mas Jordão assinou o empate lusitano. Até parecia que a partida se transformaria em um duelo particular dos protagonistas de então. Isso porque o atacante da Seleção das Quinas virou o placar, marcando seu segundo gol, já na prorrogação. Mal sabia ele que a missão de Domergue na partida não estava finalizada, tendo ele equalizado novamente o placar, seis minutos antes do apito final. Naquela altura, tudo levava a crer que só as penalidades máximas poderiam ser o desfecho da partida. No entanto, naquela competição não era possível limitar as expectativas ao ordinário, pois Platini superava a cada jogo as barreiras do comum.

“[A Euro 1984] foi o único torneio internacional em que eu não estava lesionado. Em 1982, eu estava lesionado – tinha um problema na virilha – e em 1986 eu estava lesionado – com um problema no nervo. Em 1984, eu não estava machucado e estava apto para jogar no meu limite”, disse Platini ao site da UEFA, em 2016.

Ele, o 10, o craque, o líder recebeu a bola de outro jogador extraordinário, Jean Tigana, que foi à linha de fundo portuguesa, pelo lado direito, e cumprimentou as redes do goleiro Manuel Bento. Faltava um minuto para o fim da partida: a França estava na final, algo que nunca conseguira.

Foto: Reuters
Na decisão, Les Bleus tiveram pela frente a Seleção Espanhola. E a sorte (lembram-se dela?) lhes bateu à porta. Era decorrido o minuto 57 quando foi assinalada uma falta para a França. Obviamente, Platini foi para a cobrança: bateu. Quando a bola parecia em segurança, guardada nas mãos do goleiro e capitão da Fúria, Luis Arconada, ela acabou por escapulir e abrir o placar da partida. Esse placar foi sustentado até os acréscimos do segundo tempo, quando o atacante Bruno Bellone confirmou o primeiro título francês, fazendo o 2 a 0.

A França que disputou a Euro 1984 poderia ser eternamente lembrada como um time de craques, o que seria justo. Um meio-campo que conta com um trio da qualidade de Luis Fernández, Alain Giresse e Tigana impunha respeito, aliás, somando-se Platini, o setor tinha até alcunha: Le Carré Magique, o quadrado mágico.

Entretanto, a estrela individual de Platini era tanta, seu desempenho tão fora da curva, que não houve forma de dissociar a glória francesa de seu nome. Coube a ele a missão de liderar a França, era o capitão; ele tambémera o responsável por construir o jogo de sua equipe, o 10. Não se podia supor, no entanto, que além disso ele seria um goleador tão prolífico, um recordista. Não foi à toa que renovou o Ballon d’Or ao final de 84 – e de novo em 1985. Platini estava imparável.


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Saber sofrer: o trunfo do Braga na Europa League

É bem provável que o fator que torne o futebol uma prática, ou passatempo, tão interessante seja seu caráter democrático. Joga-se à defensiva ou atacando; com drible e ginga ou rigidez de militar. Pouco importa: com o mínimo de intimidade com a bola, qualquer indivíduo ou equipe praticam o esporte bretão. Dentro das quatro linhas, há espaço para a beleza estética, mas também para o esforço homérico, a tática e o suor. Um pouco desses últimos elementos tem sido visto na campanha do Braga na Europa League.


Foto: Twitter/ SC Braga


Um grupo marcado pelo equilíbrio

O Grupo C da competição europeia prometia muito equilíbrio quando de seu sorteio. Porém, havia por certo a ideia de que uma equipe se sobressairia. Após fazer um Campeonato Alemão brilhante em 2016/17, sob a batuta do talentoso e jovem Julian Nagelsmann, o Hoffenheim despontou como favorito ao avanço. Porém, para confirmar tal realidade precisaria se superiorizar ao vice-campeão turco, Istanbul Basaksehir, ao hexacampeão búlgaro e que andou frequentando a UEFA Champions League, Ludogorets Razgrad, e à afirmada quarta força do futebol português, o Braga. Como dito, o grupo colocou equipes de um estatuto similar em disputa, mas por vir de um torneio mais forte, o time germânico apareceu com certo favoritismo.

Cinco rodadas mais tarde, são três as realidades do Grupo C: surpreendentemente, o Hoffenheim está eliminado, com uma vitória, um empate e três derrotas; turcos e búlgaros disputam a classificação; e o Braga tem o avanço às fases de mata-mata assegurado. O time que disputa com o Marítimo o quarto lugar do Campeonato Português soube se impor na competição continental.

"Muita gente não tem noção da qualidade deste grupo. Basta ver a classificação do Hoffenheim, do Basaksehir e do Ludogorets nos seus campeonatos. Dentro dos nossos recursos, da nossa humildade e da nossa qualidade fomos à procura do que queríamos, que eram os 10 pontos”, disse o treinador Abel Ferreira, após a classificação, contra o Hoffenheim.

Foto: Sky Sports


Jogando à sua maneira, os Gverreiros do Minho venceram o Hoffenheim em casa e fora (3 a 1; 1 a 2), bateram o Istanbul no Estádio Municipal de Braga (2 a 1), perderam em seu terreno e empataram na Bulgária contra o Ludogorets (0 a 2; 1 a 1). Somaram 10 pontos, marcaram oito vezes e sofreram seis tentos; proporcionaram fortes emoções aos seus adeptos, com algumas vitórias sendo consumadas no apagar das luzes.

A própria classificação à Fase de Grupos já sinalizara que os cardíacos deveriam ter cuidado com os jogos do escrete bracarense: na primeira eliminatória prévia ao sorteio dos grupos, o Braga eliminou o AIK, da Suécia, com gol no último minuto da prorrogação; na segunda, foram algozes dos islandeses do FH Hafnarfjordur, marcando no minuto 90 na partida de ida.

A bola não precisa ser minha

Um dos principais aspectos da equipe orientada por Abel Ferreira é a capacidade de atuar de forma consistente sem ter a bola. Atuando no esquema tático 4-4-2, que muitas vezes se revela um 4-4-1-1, o time tem se fechado com impressionante eficiência. Com as linhas de defesa próximas, limita os espaços de seus adversários, que passam a ter a bola a seu dispor, não encontram o que fazer com elas, arriscam finalizações de longa distância e se expõem a contragolpes.

Exemplo claro dessa realidade se viu na segunda vez em que Braga e Hoffenheim se enfrentaram. Em Portugal, os alemães finalizaram 18 vezes à meta do brasileiro Matheus, enquanto os donos da casa só ofereceram perigo ao arqueiro Oliver Baumann em seis ocasiões. Quando se olha mais de perto, nota-se a eficiência dos alvirrubros: ambas as equipes acertaram cinco finalizações; o Braga converteu três em gols e o Hoffenheim apenas uma. O time de Nagelsmann teve 65% da posse de bola, a maior parte dela estéril e inofensiva.

A vitória frente o Istanbul teve componentes semelhantes. Os turcos tiveram a bola em seu domínio em 62% do tempo, mas criaram pouco - seu gol veio por meio de cobrança de falta do experiente Emre Belözoğlu. O curioso é perceber que o time que deu ao Braga a bola foi aquele que melhor êxito obteve. Contra o Ludogorets, os portugueses tiveram 52% da posse da bola em casa e perderam; fora, mantiveram a pelota em 49% do tempo: empataram.

O Braga não é um time primaz na qualidade individual de seus atletas, longe disso. Porém, sabiamente, entendeu que era possível obter bons resultados, a despeito dessa realidade. Jogando os jogos difíceis em bloco baixo, negando espaços aos adversários e com uma proposta reativa, classificou-se em um cenário hostil. Precisa, é claro, desenvolver melhor capacidade de gestão da bola para os momentos em que a tiver. Para já, no entanto, descobriu uma forma de jogar que é mais do que suficiente para os objetivos imediatos.

Dentro do Grupo C, os portugueses têm o time que menos chuta a gol, menos acerta passes, menos detém a posse de bola, mas é, por exemplo, o que mais vence duelos aéreos e é o líder. O trabalho vem sendo bem feito pelos Arsenalistas.

Fransérgio, o herói inesperado

Em um time que tanto se destaca enquanto coletivo, as individualidades são muitas vezes suprimidas. Todavia, não há como não destacar o papel que o polivalente brasileiro Fransérgio vem desempenhando. Lembrado sem muita distinção pelas torcidas de Paraná, Atlético Paranaense, Internacional, o meio-campista chegou ao Braga para essa temporada, vindo do Marítimo, e tem tido boa prestação. É bem verdade que nem sempre é titular, porém tem sido muito decisivo.

Apenas André Silva, Emiliano Rigoni e Aleksandr Kokorin têm mais gols marcados na competição do que o brasileiro, responsável por quatro tentos – ou 50% dos gols bracarenses. Há, ademais, um fator que não pode ser olvidado: o caráter de decisão de cada um deles.

Foto: Hugo Delgado/LUSA


O primeiro veio na segunda partida do grupo. Contra o Basaksehir, entrou em campo no minuto 71 e anotou o tento da vitória aos 89. A seguir, após passar em branco contra o Ludogorets, em Braga, marcou o gol de empate contra os búlgaros, fora de casa, aos 83 minutos – entrara aos 65. Já na decisiva rodada, foi titular, atuou mais próximo ao gol e carimbou o passaporte alvirrubro à fase seguinte. Aos 81, fez o 2 a 1; aos 92, o 3 a 1. Se não é peça indiscutivelmente titular, Fransérgio acabou se tornando o mais decisivo dos jogadores do Braga. Sete dos dez pontos obtidos pelo clube tiveram contributo importantíssimo do brasileiro.

Após treinar o Braga B por dois anos, Abel Ferreira ascendeu ao comando técnico do time profissional bracarense em abril de 2017 e vai mostrando capacidades. O jovem, de 38 anos, entendeu o que poderia extrair de melhor de seu elenco. Formou um coletivo forte e trabalhador; consciente de suas possibilidades. Sob sua direção, os Gverreiros do Minho vão mantendo seu estatuto ao nível nacional e têm se permitido o sonho continental.
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