segunda-feira, 27 de outubro de 2014

West Ham: um estranho no ninho

Pense rapidamente: quais os times favoritos às primeiras posições do Campeonato Inglês? Chelsea, Manchester City e United, Arsenal e Liverpool. Quando muito, valeriam as apostas em Everton, Tottenham e no ascendente (e extremamente interessante) Southampton. O que definitivamente não se poderia prever era o excelente desempenho do West Ham, atual quarto colocado, disputadas nove rodadas. Entretanto, alguns fatores justificam o bom momento dos Hammers.




Uma dupla de ataque entrosada e sedenta por gols

Com uma baixa média de gols na temporada 2013-2014 (1,05 por partida), a direção do clube londrino buscou novas opções no mercado.  Assim, chegaram Enner Valencia, ex-jogador do Pachuca-MEX e autor de três gols na Copa do Mundo, Diafra Sakho (foto), ex-Metz e vice-artilheiro da Ligue 2, e Mauro Zárate, talentoso argentino que veio do Vélez Sarsfield e passou por Lazio e Inter de Milão. Estes três se juntaram a Carlton Cole e Andy Carroll.

Quando muito se poderia esperar do argentino, o que tem se visto é o sucesso da dupla Valencia-Sakho. Entrosados e donos de características semelhantes, ambos tem qualidade técnica para jogar enfiados na área adversária e também para circular pelos flancos do ataque. Juntos, já marcaram oito gols na Premier League e têm sido determinantes para a melhora da média de gols da equipe, no momento, de 1,89 por partida.

A lesão de Andy Carroll

Considerando o valor que foi dispendido pelos Hammers quando da contratação do centroavante inglês, sua lesão poderia representar desespero para o torcedor. Contudo, sua média de gols e custo benefício têm mostrado que não vale a pena contar com o jogador. Os £ 15 milhões gastos em sua negociação mostram que cada um de seus nove gols marcados pelo clube (em 40 jogos) custaram quase £ 1,7 milhão.

Além de seu fraco desempenho individual, sua ausência permite que a equipe mostre um leque maior de jogadas, não se limitando a alçar bolas na área adversária. Sem uma grande referência, o West Ham tem se mostrado muito mais forte.

A força defensiva e imposição de Alex Song

Volante de enorme força e razoável qualidade técnica, Alex Song (foto) foi, durante algum período, peça muito importante no Arsenal, onde atuou por quase sete anos. Contudo, no Barcelona não conseguiu ter um bom desempenho, muito em função do estilo de jogo altamente técnico da equipe catalã.

De volta à Premier League, o camaronês tornou a mostrar ótimo desempenho. Em uma liga mais intensa, que muitas vezes privilegia a capacidade física dos jogadores, Song cresceu e tem sido um leão. Excelente na recuperação de bolas e na proteção do setor defensivo, tem dado enorme estabilidade à equipe, que ganhou em dinâmica e diminuiu os problemas de sua lenta defesa, que, melhor protegida, limita-se a rebater bolas e raramente fica frente-a-frente com um adversário.

Outro ponto a se ressaltar com a entrada de Song no time é que, com ele, o time fica mais organizado e os outros meio-campistas ganham mais liberdade e senso para se movimentarem, o que produz muitas ocasiões de gol para os Hammers. Não restam dúvidas de que o camaronês foi uma tacada precisa e preciosa da direção do clube.

Algumas jogadas muito treinadas

Muitos contestam o treinador Sam Allardyce por privilegiar um estilo de jogo “rústico”. A verdade é que o comandante trabalha com o que tem. Se, na temporada passada, contava basicamente com atletas cujas melhores qualidades são os lançamentos longos e a jogada aérea, montava sua equipe para atuar dessa forma. O que irritou muitos, inclusive o pragmático José Mourinho, que certa vez declarou:“isso não é futebol para a Premier League, a melhor liga do mundo, esse futebol é do século XIX.”

Todavia, agora, dispondo de mais opções de mobilidade e maior qualidade técnica, Allardyce tem podido explorar um jogo baseado em outras características, tais como a velocidade e o contra-ataque. Nessa esteira, é necessário ressaltar duas jogadas que tem tido muita eficiência neste primeiro quarto de campeonato: os chutes de fora da área e os levantamentos na área.

Dos 15 gols marcados pela equipe, 28% (ou quatro gols) saíram de chutes de longa distância. Certamente, há orientação no sentido de arriscar finalizações de fora da área, algo que só é explorado em função dessa qualidade de seus jogadores. O clube é quem mais marcou dessa forma.

Outra jogada muito explorada pelo time são as bolas alçadas na área, mas de forma diferente da usual. Hoje, o West Ham não lança a bola a esmo – torcendo para que a bola chegue ao centroavante – como fazia em tempos pretéritos. Melhor trabalhadas, as bolas tem chegado mais redondas aos atacantes, que também dão contribuição essencial para o sucesso dessa jogada, uma vez que, sendo móveis, são difíceis de serem marcados pelos defensores adversários, o que facilita o sucesso dessa alternativa. O time também é o maior marcador de gols de cabeça, com seis tentos, ao lado do Hull City.

Outro dado curioso e que corrobora o exposto são os seis gols marcados de cabeça na última temporada inteira (mesmo número da atual temporada), quando a tônica da equipe era exatamente o jogo pelo ar. 

Diferentemente do que nos acostumamos a ouvir quando se fala em West Ham, no momento, o clube tem mostrado um estilo de jogo bem mais agradável, apesar de suas limitações. Com jogadores de variadas características, que têm permitido o teste de novas possibilidades ao treinador, o West Ham já se apresenta como surpresa, um estranho no ninho.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Vivendo mau momento, Turquia busca solução

O grupo A das Eliminatórias para a Euro ’16 reflete uma situação difícil de entender: como, em um grupo que contém Cazaquistão, Letônia e Islândia e, até mesmo, República Tcheca, a Seleção Turca, surpresa na Copa do Mundo de 2002 e na Euro 2008, e dona de ótimos valores individuais, não emplaca? E mais do que isso, como, com três jogos disputados, a Turquia ocupa a lanterna do grupo? 




Apesar de contar com jogadores de boa qualidade individual, quando estes estão fora, a Seleção Turca sofre uma queda de rendimento muito acentuada.  Exceção feita ao primeiro jogo deste novo ciclo, derrota para a Islândia, Terim não teve a sua disposição o zagueiro do Bayer Leverkusen, Ömer Toprak, principal referência do setor, nem tampouco seu companheiro de clube e jogador mais promissor do país, Hakan Calhanoglu, ambos lesionados (ao menos essa é a versão oficial dos fatos. Nos bastidores, em revelação do jornalista italiano Gianluca Di Marzio, Gokhan Töre teria ameaçado seus companheiros com uma arma após o jogo contra a Holanda, em 2013).

Outros atletas que comumente estão às voltas com lesões são suas grandes referências Nuri Sahin, Emre Belözoglu (de 34 anos) e Arda Turan (foto). Nos últimos dois jogos, outra baixa foi o matador Burak Yilmaz. Não há Seleção que resista a tantos problemas, principalmente se considerarmos o quão determinantes essas peças são.

Além disso, e provavelmente mais importante, a Seleção sofre muito com a perda de jogadores, cujos pais decidem buscar uma vida melhor em outras nações europeias, sobretudo na Alemanha, e que optam por outras nacionalidades. Dessa forma, os turcos têm que conviver com perdas imensuráveis como as de Mesut Özil, Gokhan Inler, Leon Osman, Emre Can e Ilkay Gündogan.

Para um país com aproximadamente 75 milhões de habitantes (pouco menos do que a Alemanha e mais do que França, Espanha, Itália, Inglaterra) é difícil entender a dificuldade em produzir jogadores de boa qualidade e o que se vê é grande parte de seus melhores jogadores sendo formados no futebol alemão.

Tentando aumentar a produção de jogadores nativos, a Federação Turca de Futebol impôs duras restrições a jogadores estrangeiros no país. De acordo com as regras atuais, os clubes turcos são obrigados a sair a campo com pelo menos seis jogadores turcos.

As equipes podem ter até oito estrangeiros, mas só podem relacionar cinco deles. Nem no banco os outros três podem ficar. A medida, obviamente, busca a promoção dos atletas nacionais, seguindo uma ideia de que da quantidade retirar-se-á a qualidade. Não se sabe quanto tempo a Federação aguentará a pressão dos clubes pelo afrouxamento da medida e nem tampouco a eficiência da mesma, mas há que se ressaltar a atenção que vem sido dada ao tema.

Özil e Gündogan poderiam defender a Turquia
De volta às quatro linhas, a Turquia tem encontrado um problema muito grave: sua defesa. Na falta de Toprak, o promissor, mais ainda muito irregular, Semih Kaya ganhou a companhia de Mehmet Topal, que é bom jogador, mas é volante. Juntando-se a isso o fato de que os laterais titulares, Gökhan Gönul pela direita e Caner Erkin (que inclusive começou a carreira no meio-campo) pela esquerda, são muito ofensivos, o setor defensivo fica muito desprotegido.

Do meio-campo para frente, há muita criatividade e qualidade técnica, mas na retaguarda há graves problemas. A Seleção tem muitas qualidades, mas também deficiências claras. Outra delas é o baixo número de treinadores nacionais com a qualificação necessária para a feitura de um bom trabalho de base e desenvolvimento de novos jogadores. Prova dessa falta de opções é a insistência de Galatasaray e da Seleção no experiente Fatih Terim.

Todavia, algum trabalho para a solução desses problemas está sendo feito. Se será eficaz e duradouro ou não, ainda é prematuro concluir, mas, está sendo dada atenção aos problemas. Alguns jovens como Oguzhan Özyakup, Ozan Tufan e Salih Ucan estão ganhando espaço, mas, sendo jogadores de meio-campo, não resolvem o problema central da equipe. De momento, os turcos têm que torcer para a cessação das lesões e da perda de jogadores para outras nações; para o futuro, a meta é forçar a produção de novos jogadores. Dará certo? O futuro dirá.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Futebol na Índia: mais uma fronteira está se rompendo?

Indiscutivelmente forte na Europa e na América do Sul, o futebol, com sua capacidade de atrair investimentos e seguidores, nos últimos anos, rompeu algumas barreiras e levou suas emoções para outras fronteiras. São os casos, por exemplo, de Japão (com importante atuação de Zico), China e Estados Unidos, país em que o esporte bretão encontrou, e ainda encontra, muita resistência em razão das preferências desportivas de sua população. Com a ascensão da Indian Super League, será que veremos outra fronteira ser rompida?




Como os EUA, a Índia – segundo país mais populoso do mundo – é uma nação com uma predileção desportiva muito bem definida. Se os estadunidenses apreciam historicamente o Basquete, o Beisebol e o Futebol Americano, os indianos são apaixonados pelo Críquete. Bicampeã mundial do esporte, a Índia só fica atrás da Austrália em glórias. É nesse contexto que IMG-Reliance, Star India e All India Football Federation se uniram, criando oito franquias e as disponibilizando para investidores.

Fomentada por empresários, ícones desportivos e pela indústria cinematográfica do país (incluindo atores da famigerada Bollywood) a Indian Super League ascendeu e tem objetivos muito bem delineados. Em curto prazo, a meta dos organizadores é angariar novos fãs. O início se mostrou muito promissor (público superior a 70 mil pagantes para o confronto entre Atlético de Kolkata e Mumbai City), mas pode ter sido apenas uma empolgação efêmera.

Em longo prazo, a busca maior é o estabelecimento de uma liga competitiva e forte no país e o desenvolvimento de base, visando o objetivo maior: a classificação da Índia para a Copa do Mundo de 2026. Para alcançar suas metas, a Indian Super League “ressuscitou” craques aposentados e contratou outros em final de carreira para atrair interesses e ajudar a promover o interesse público. Além disso, os clubes e a federação têm buscado parcerias com equipes europeias para aprender com seus trabalhos com jovens. Nesse sentido, já está sendo feito um trabalho integrado com o FC Metz, da França.

Outros clubes europeus envolvidos no futebol hindu são a Fiorentina, detentora de 15% do FC Pune City, o Atlético de Madrid e o Feyenoord, com participações em Atlético de Kolkata e Delhi Dynamos FC, respectivamente.

Com jogadores do quilate de Nicolas Anelka, Luis García, Elano, Alessandro Del Piero (foto), Robert Pirès, David Trezeguet e Fredrik Ljungberg, a liga pode não ter grande nível, mas sem sombra de dúvidas chama atenção. Arsène Wenger, treinador do Arsenal, acredita na evolução do futebol hindu.

“Se você olhar a história do futebol (...) parece que ele cresce em todos os lugares. É como um vírus que se multiplica, então não imagino por que não vá decolar. Levou um tempo nos Estados Unidos, mas agora é muito popular. Ele (o futebol) enfrenta o críquete na Índia, mas sempre há espaço para um segundo esporte. Eu sei que as pessoas de lá assistem a Premier League e estou convencido que, com uma enorme população, vai decolar,” disse o treinador dos Gunners.

No que tange ao Campeonato em si, ele é composto por oito equipes que se enfrentam em dois turnos, em aproximadamente dez semanas. Após os enfrentamentos, as quatro melhores equipes qualificam-se para as semifinais (duas partidas) e os vencedores avançam à final, disputada em partida única.

Clubes que disputam o campeonato

Figura conhecida do público brasileiro, o Secretário Geral da FIFA, Jérôme Valcke, também acredita no sucesso do futebol na Índia: “A Índia tem grande potencial. A ISL (Indian Super League) está ajudando. Temos que assegurar que estamos juntos com uma meta – desenvolver o futebol na Índia e ajuda-la a disputar uma Copa do Mundo em breve.” Atualmente o país ocupa a 158ª posição no Ranking da FIFA.

Com aporte financeiro e um projeto ambicioso, a Indian Super League pode representar o avanço do futebol em mais uma fronteira. Considerando o tamanho da população do país, é muito difícil que, feito o bom trabalho, o esporte não se desenvolva. Entretanto, isso só comprovaremos no futuro; no presente, resta-nos acompanhar a evolução do campeonato e matar as saudades de tantos e saudosos craques do futebol mundial que lá se encontram.
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