quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Times que Gostamos: Espanyol 2005-2007

Depois de falar do supercampeão Torino, do período entre 1942 e 1949, trato do ótimo time que o Espanyol, rival local do Barcelona, montou em meados dos anos 2000 e conquistou resultados expressivos.


Em pé: Luis García. Riera, Torrejón. Moisés. Jarque, Iraizoz;
Agachados: Rufete, Zabaleta, De la Peña, Tamudo, David García


Time: Espanyol

Período: 2005-2007

Time Base: (Iraizoz) Kameni; Pablo Zabaleta, Dani Jarque, Alberto Lopo (Torrejón), David García (Chica); Eduardo Costa, Moisés Hurtado (Fredson), Rufete (Juanfran), Riera (de la Peña); Luis García e Tamudo (Pandiani). Téc.: Miguel Ángel Lotina/Ernesto Valverde

Conquista: Copa del Rey (2005-2006)

Sempre à sombra do Barcelona, o Espanyol conquistou muito pouco em sua história centenária. Em 114 anos de existência, os Blanquiazules nunca conseguiram a láurea maior do futebol espanhol – La Liga. Apesar disso, em quatro ocasiões levantaram o troféu da Copa del Rey, 1929, 1940, 2000 e 2006, quando, ao bater o Zaragoza, por 4x1, confirmou ao país que possuía uma equipe (com muito talento feito em suas categorias de base) segura na defesa, com bom toque de bola e atacantes mortais à frente.

Graças ao referido título, o “primo pobre” da cidade de Barcelona quase conquistou sua maior glória da história. Classificado para a disputa da Copa da UEFA, e com um time ainda melhor do que o da temporada anterior, o clube catalão foi deixando grandes equipes para trás – casos de Ajax, Benfica e Werder Bremen – e só parou nas cobranças penais, finalmente batido pelo Sevilla, que se sagrava ali bicampeão da Copa da UEFA.

Protegendo a meta, os catalães contaram com dois goleiros de perfis diferentes. Na maior parte da temporada 2005-2006, o clube foi protegido por Gorka Iraizoz, goleiro basco. Mais alto que seu concorrente, o arqueiro, que chegou à Barcelona em 2002, destacava-se mormente pelo posicionamento e tranquilidade.

Por outro lado, o camaronês Carlos Kameni (foto), opção mais frequente em 2006-2007, tinha como pontos fortes a elasticidade e a rápida resposta aos ataques adversários. Apesar de ambos terem tido períodos de titularidade, nunca ficou exatamente claro quem era a opção principal do clube, que viu-os revezar durante as duas temporadas.

Pela lateral direita, os catalães contavam com a juventude, explosão física e grande presença do lateral argentino Pablo Zabaleta (foto), então um jovem que havia capitaneado sua nação no título do Mundial Sub-20 de 2005. Apesar de ser hoje mais centrado e menos explosivo, já demonstrava, na época, boa técnica e enorme disposição e dedicação.

Pelo lado oposto, na primeira temporada, o titular foi David García, lateral de técnica apenas razoável, mas de boa marcação e muito espírito de equipe – além de forte identificação com o clube, onde foi revelado e jogou por 11 anos. Todavia, na temporada seguinte começou a perder espaço para o jovem Javi Chica, que, embora tenha se firmado na carreira como lateral direito, jogou algumas vezes pelo flanco canhoto.

O miolo de zaga também sofreu algumas modificações durante o biênio, mas uma coisa era certa: a titularidade de Dani Jarque (foto). Atleta da base do Espanyol, era um dos zagueiros espanhóis mais promissores da época e uma das grandes referências da equipe. Além de boa técnica, tinha muita liderança e marcava seus gols. Tragicamente, faleceu em 2009 quando a equipe fazia sua pré-temporada na Itália. Frequente opção nas Seleções de Base da Espanha, era amigo pessoal de Andrés Iniesta, que o homenageou ao marcar o gol do título mundial de 2010. Anteriormente, já havia sido homenageado por Cesc Fàbregas.

Na primeira temporada, o beque teve a companhia de Alberto Lopo, jogador de estilo de jogo mais físico e menos técnico, que, contudo, complementava bem o setor. Com sua saída para o Deportivo La Coruña em 2006, Marc Torrejón, outra cria do clube e detentor de qualidades superiores às de Lopo, assumiu a titularidade

O meio-campo era protegido pelo brasileiro Eduardo Costa (foto), volante que é lembrado por sua boa capacidade de destruição e inicial construção dos lances ofensivos. Ajudando na proteção da defesa, o brasileiro contou algumas vezes com a parceria de outro jogador tupiniquim, o meio-campista Frédson. Não obstante, Costa compôs o setor, sobretudo, com o espanhol Moisés Hurtado, outro jogador criado no clube e que era adepto da forte marcação, a qual lhe proporcionava muitos cartões. Em 2006-2007, o clube também contou, por vezes, com os préstimos de Jônatas, volante ex-Flamengo.

Na maior parte das partidas, o Espanyol atuou com dois meio-campistas abertos pelos flancos. Criado no Real Madrid e hoje lateral direito do Atlético de Madrid, Juanfran foi a peça que preencheu o lado direito do meio-campo catalão na temporada 2005-2006, sempre com muita velocidade. Pelo outro lado, o versátil Luis García, jogador que podia fazer qualquer função do meio-campo para frente era a principal opção. Pelo centro da meia-cancha, Ivan de la Peña, cria do Barcelona, era o grande pensador e passador da equipe, mas, em função das muitas lesões e de problemas físicos, teve de permanecer ausente em boa parte do biênio, mormente na temporada 2006-2007.

Para a temporada 2006-2007, o clube perdeu Juanfran que havia sido contratado por empréstimo e, para sua vaga, contratou o experiente Francisco Rufete, ídolo no Valencia e que muito se destacou com preciosas assistências. Pelo flanco canhoto, Albert Riera, que estava emprestado ao Manchester City, ascendeu com grande destaque, conduzindo Luis García (foto) mais para o centro do ataque.

No centro do ataque, duas opções fortíssimas e goleadoras disputavam ferrenhamente a titularidade. De um lado, a lealdade de Raúl Tamudo (foto), capitão, ídolo e cria do clube, que defendeu por mais de 10 anos, chegando inclusive à Seleção Espanhola; do outro, o explosivo andarilho uruguaio Walter Pandiani. O primeiro foi a principal escolha, o que não quer dizer que o último não tenha tido enorme importância para o sucesso da equipe, como prova a artilharia da Copa da UEFA de 2006-2007, que teve o sul-americano como líder, com 11 gols.
Durante esse período, a equipe foi treinada primeiramente por Miguel Ángel Lotina e depois por Ernesto Valverde. Havia também outros jogadores, além dos citados, que tiveram participações relevantes entre 2005 e 2007. Para a zaga, o clube contou com a experiência de Mauricio Pochettino (foto), hoje treinador do Tottenham; para as laterais o francês Didier Domi e o espanhol Jesus Maria Lacruz; no meio-campo havia a experiência de Ito e Moha; e no ataque, já muito poderoso, a juventude de Coro.


Ficha técnica de alguns jogos importantes nesse período:

Final da Copa del Rey 2005-2006: Espanyol 4x1 Zaragoza

Estádio Santiago Bernabéu, Madrid

Árbitro: Luis Medina Cantalejo

Público 78.000

Gols: ‘1 Tamudo, ’33 e ’88 Luis García, ’73 Coro (Espanyol); ’28 Ewerthon (Zaragoza)

Espanyol: Kameni; Zabaleta, Jarque, Lopo, David García; Eduardo Costa, Fredson (Moisés), Ito (Coro), De La Peña; Luis García e Raúl Tamudo (Pandiani). Téc.: Lotina

Zaragoza: César Sánchez; Álvaro, Gabriel Milito, Delio Toledo (Valbuena); Ponzio, Celades (Movilla), Zapater, Óscar (Sávio), Cani; Ewerthon e Diego Milito. Téc.: Víctor Muñoz

Semifinal (Jogo de Ida) da Copa da UEFA 2006-2007: Espanyol 3x0 Werder Bremen

Estádio Olímpico Lluís Companys, Barcelona

Árbitro: Tom Ovrebo

Público 40.250

Gols: ’20 Moisés, ’50 Pandiani, ’88 Coro (Espanyol)

Espanyol: Iraizoz; Lacruz, Jarque, Torrejón, David García; Moisés, Rufete (Coro), Riera, De la Peña (Jônatas); Pandiani (Ito) e Tamudo. Téc.: Valverde

Werder: Wiese (Reinke); Owomoyela, Pasanen, Naldo, Baumann (Vranjes), Fritz; Jensen, Frings, Diego, Hunt; Klose (Hugo Almeida). Téc.: Thomas Schaaf

Final da Copa da UEFA 2006-2007: Espanyol 2x2 Sevilla (1x3 nos pênaltis)

Estádio Hampdem Park, Glasgow

Árbitro: Massimo Busacca

Público 48.000

Gols: ’18 Adriano e ‘105 Kanouté (Sevilla); ’28 Riera e ‘115 Jônatas (Espanyol)/ Kanouté, Dragutinovic e Puerta marcaram de pênalti, Daniel Alves perdeu (Sevilla); Pandiani marcou de pênalti, Luis García, Jônatas, Torrejón perderam (Espanyol).

Espanyol: Iraizoz; Zabaleta, Torrejón, Jarque, David García; Moisés, De la Peña (Jônatas), Rufete (Pandiani), Riera; Luis Garcia e Tamudo (Lacruz). Téc. Valverde

Sevilla: Palop; Daniel Alves, Javi Navarro, Dragutinovic, Adriano (Renato); Poulsen, Martí, Maresca (Jesús Navas), Puerta; Luis Fabiano (Kherzakhov) e Kanouté. Téc. Juande Ramos

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Faz sentido ir jogar na China?

Nomeada por muitos como o "Novo Eldorado do Futebol", a China tem atraído o interesse e a curiosidade do público brasileiro em função da sua enorme atividade em terras tupiniquins, neste início de ano. Grandes destaques do futebol nacional, jogadores do quilate de Diego Tardelli, Ricardo Goulart e Dario Conca, foram seduzidos pelas promessas de salários milionários no oriente. Apesar disso, é de conhecimento público que o Campeonato Chinês é fraco e tem um índice baixo de qualidade. A pergunta que fica é: vale a pena jogar na China? A resposta mais sensata: depende.



Hoje, para jogadores com carreira consolidada e já sem grandes aspirações ou projetos talvez faça muito sentido. A trajetória dos jogadores de futebol é curta – o que não é novidade para ninguém – e uma mudança para a terra das muralhas mais famosas do planeta pode representar a independência financeira dos atletas para toda a vida dos mesmos (evidentemente, se bem administrada). Esse é o grande ponto da escolha pelo futebol chino.

Por outro lado, o jogador tem que saber que o ostracismo o aguarda. Por melhor que o atleta possa ser, o campeonato ainda é muito fraco, não dá visibilidade alguma e pode se transformar em uma experiência frustrante. Ademais, as diferenças culturais podem ser fulcrais em uma não adaptação do jogador. Seja pelo lado da alimentação, pelos costumes, pelo idioma ou até mesmo pelo estilo dos treinamentos, a possibilidade de o jogador não se encontrar na China é real e casos recentes como o dos atacantes Nicolas Anelka e Didier Drogba atestam a real possibilidade disso ocorrer.

Outro ponto que pode determinar o fracasso de uma experiência pela China é o não pagamento dos vultuosos salários prometidos, algo que ocorreu tanto com Drogba quanto com Anelka.

“O clube está profundamente chocado (com a negociação). Drogba continua a ser um membro do Shanghai Shenhua e o contrato entre as duas partes é válido. Estamos reunindo provas para entregar a Fifa e assim proteger os nossos interesses,alegou a direção do clube há época em que Drogba assinou contrato com o Galatasaray. Dois anos após a declaração, nada foi provado.

Sem embargo, também pode ser que nada disso aconteça. Conca, que atuou no Guangzhou Evergrande durante três anos, sempre recebeu devidamente seus ordenados e nessa semana até aceitou retornar ao oriente, se transformando no nono jogador mais bem pago do futebol mundial, segundo o jornal espanhol MARCA.

Pensando em outra esfera – a dos jogadores jovens ou em ascensão – a opção pelo futebol chinês pode ser pior. Apesar das cifras recebidas serem milionárias, o risco de estagnação técnica e esquecimento é real. Pensemos o exemplo de Ricardo Goulart. Vencedor da Bola de Ouro do prêmio Bola de Prata da revista Placar, o jogador de 25 anos chegou à Seleção Canarinha em 2014 e foi considerado por muitos o melhor jogador do Brasileirão do referido ano. Vale a pena ir para a China?

A não ser que se destaque muito, de forma assombrosa, as chances de permanência no escrete verde-amarelo são ínfimas. É difícil acompanhar o que se passa no ermo futebol chinês e, mais do que isso, não é possível considerar tudo o que se passa no Campeonato Chinês. Com adversários sabidamente carentes tecnicamente, o sucesso no mundo chino pode não representar absolutamente nada em termos de futebol internacional e Seleção Brasileira. É claro que as cifras são tentadoras, mas, tomando por base um plano de carreira, é uma escolha que pode arruinar muitos planos.

Para mais, uma não adaptação a vida na China pode ser muito pior do que aparenta. Os clubes, duros na queda, dificultam ao máximo uma eventual saída de seus jogadores, antes do término de seus contratos.

Pensando na situação por outro prisma, a China é um país com bilhões de habitantes e um potencial enorme para evolução futebolística, desportivamente falando. De fato há uma intenção para que o futebol no país evolua e ainda que muito lentamente já e perceptível a mudança. Em 2013, o Guangzhou Evergrande conquistou a AFC Champions League (torneio continental da Ásia) e na presente edição da AFC Asia Cup, a Seleção Chinesa liderou o Grupo B – que contou com Uzbequistão, Arábia Saudita e Coreia do Norte –, mas teve o azar de enfrentar a boa e anfitriã Seleção Australiana, na fase seguinte, sendo eliminada com derrota por 2x0.

Além disso, há um projeto no país que pretende adicionar o futebol ao currículo das escolas do país. O projeto – idealizado após uma pesada derrota da Seleção Chinesa contra uma equipe sub-21 da Tailândia, 5x1 – visa a construção de campos de futebol em cerca de 20.000 escolas pelo país, com previsão de conclusão para 2017, segundo a revista The Economist. Aliás, o plano também se estende ao ensino superior, com o esporte, a partir de 2016, se tornando um dos focos de avaliação dos estudantes nos processos de seleção dos mesmos.

Para além das intenções estatais, o país também conta com incentivos da iniciativa privada, que construiu a Evergrande International Football School (foto), o maior centro de treinamento de jovens do mundo. A escola tem aproximadamente 167 ares, ou 16.700 m².

Definitivamente, há uma grande intenção do país em evoluir. O que pode tomar dimensões assustadoras, uma vez que a nação conta com um público potencial enorme e, com o tamanho de sua população, há grande possibilidade de promoção de um trabalho de formação frutífero e contínuo, o que certamente poderia colocar a China no mapa do futebol.

Hoje, de forma geral, a não ser pelo dinheiro, a China pode não ser um grande negócio – desportivamente falando – mas é inegável o desejo de evolução do país e fazer parte desse projeto pode ser interessante. Há enormes dificuldades e barreiras nessa mudança, mas, para já, uma mudança para o futebol chinês apresenta-se, a cada dia, como uma opção de carreira menos assustadora, embora não seja, ainda, uma grande escolha.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Times que Gostamos: Torino 1942-1949

Retomando a série “Times que Gostamos”, após falar sobre o Feyenoord da temporada 1969-1970, Campeão Europeu, trato do fantástico time do Torino da década de 40, que encantou o mundo e teve um final trágico.


Em pé: Castigliano, Rigamonti, Mazzola, Ossola, Loik, Menti, Bacigalupo.
Agachados: Grezar, Gabetto, Maroso, Ballarin


Time: Torino

Período: 1942-1949

Time Base: Bacigalupo; Ballarin, Maroso; Grezar, Rigamonti, Castigliano; Loik, Mazzola; Menti, Gabetto, Ossola. Técs.: András Kuttik, Luigi Ferrero, Mario Sperone, Roberto Copernico, Leslie Lievesley e Ernest Erbstein.

Conquistas: Pentacampeonato Italiano e uma Coppa Itália.

“Os heróis permanecem imortais nos olhos dos que acreditam neles. E assim as crianças acreditarão que o Torino não morreu: só está ausente,” essas foram as palavras do jornalista e historiador italiano Indro Montanelli no dia 6 de maio de 1949, um dos dias mais tristes da história da Itália e, sobretudo, do futebol.

Dois dias após um funesto acidente, o elenco daquele que poderia ter sido o maior time italiano da história – e certamente é um dos maiores – foi homenageado em um dos funerais mais comoventes de todos os tempos. Contando com a presença de mais de 500.000 pessoas, que saíram em procissão, as homenagens ao Grande Torino foram prestadas e resumem-se nos dizeres de uma placa e nos milhares de flores e lágrimas presentes: “Torino Football Club, em memória de seus camaradas, à glória do esporte italiano e de todos os que morreram em um desastre aéreo trágico – 4 de maio de 1949.”

Virtual pentacampeão italiano, com o registro impressionante de 483 gols marcados e 165 sofridos em cinco temporadas, o Torino decidiu participar de um evento em homenagem a Francisco Ferreira, histórico jogador do Benfica e, diz-se, amigo de Valentino Mazzola, o grande craque do esquadrão italiano, e admirado pelo presente Granate, Ferruccio Novo.

E foi na volta de Lisboa que o sinistro ocorreu. Voando em baixa altitude em função do mau tempo, o piloto do avião que levava os craques de volta a Turim não conseguiu evitar o choque da aeronave com os muros da Basílica de Superga, localizada na colina Superga. Havia 31 pessoas no avião, foram 31 mortos.

Morria ali um esquadrão revolucionário e um dos motivos de orgulho do povo italiano como um todo. Um time que, em certa ocasião, goleou a Roma por 7x0 fora de seus domínios e, ao invés de hostilidades, conseguiu uma enorme saudação da torcida adversária, que, de pé, aplaudiu o futebol dos rivais e que, além disso, quase conseguiu ver todos os seus jogadores com a Seleção italiana. Em 1947, em amistoso contra a Hungria, o treinador italiano Vittorio Pozzo alinhou 10 jogadores do escrete Granate, deixando apenas o goleiro Valerio Bacigalupo (foto) de fora para evitar lançar uma equipe de atletas de um time apenas.

A nefasta curiosidade sobre a viagem à Lisboa é que ela só aconteceu em função da enorme qualidade técnica do Torino, que havia empatado com a Internazionale e, com o resultado, assegurado o título italiano com quatro rodadas de antecipação. Caso o encontro tivesse sido desfavorável à equipe de Turim, a mesma não teria viajado para enfrentar o Benfica.

Estes são apenas alguns feitos do primeiro grande esquadrão do futebol mundial pós-guerra. Campeão Italiano na temporada 1942-1943, conseguiu manter-se em alta nos dois anos seguintes, quando, em função da Segunda Guerra Mundial, o torneio foi suspenso, levantando outros quatro troféus nos anos que se seguiram.

Avançado para seu tempo, o time é comparado aos grandes que praticaram aquilo que mais tarde ficaria conhecido como Futebol Total – sobretudo o grande escrete húngaro da década de 50 e o holandês dos anos 70 – fazendo uso do famigerado esquema WM (idealizado por Herbert Chapman, treinador do Arsenal nos anos 30), que traduzia-se em um esquema tático semelhante à um 2-3-5 – ou 3-2-5 – , com dois zagueiros, dois meio-laterais, um centromédio, dois meia-atacantes, dois pontas e um centroavante. Entretanto, a tática só funcionava em função da enorme dedicação dos atletas, que tinham que atentar para a recomposição defensiva.

E a fusão de inteligência tática com enorme qualidade técnica foi a responsável maior pelos resultados do time. O curioso é que, durante a importante década de 40, o time teve muitos treinadores, o que, em momento algum, diminuiu o desempenho da equipe.

No gol, o time contou com a proteção do arqueiro Bacigalupo, que fez quase 150 jogos pelo time e frequentou a Seleção Italiana; na defesa contou com Aldo Ballarin e Virgilio Maroso, ambos com mais de 100 jogos pelo escrete; o meio-campo tinha as presenças de Mario Rigamonti, que era o principal responsável por dar um maior suporte aos dois zagueiros, e de Giuseppe Grezar e Eusebio Castigliano, os construtores do jogo; o ataque tinha as presenças dos velozes pontas Franco Ossola – pela esquerda – e Romeo Menti – pela direita – e do centroavante Guglielmo Gabetto, um dos mais prolíficos da história do futebol italiano. Por trás desse trio, Ezio Loik e Valentino Mazzola davam vida à criação de Grezar e Castigliano.

Considerado um dos maiores jogadores da história do futebol italiano (senão o maior) e mundial, Valentino Mazzola (foto) era o capitão e grande referência dos Granate. Muita visão de jogo, habilidade, e uma capacidade de finalização assombrosa, o colocam no pedestal dos mitos. Típico meia-atacante, foi descrito por Rigamonti, seu companheiro, como “meio-time”: Ele sozinho é meio time. A outra metade é feita pela junção do resto de nós,” disse o centromédio.

Mazzola também é lembrado como o pai de outro jogador de grande importância no futebol italiano, Sandro Mazzola, craque da Internazionale nas décadas de 60 e 70 e da Seleção Italiana, a qual defendeu mais de 70 vezes, e também por ter sido a inspiração para o apelido de José João Altafini, o Mazzola brasileiro, ídolo do Palmeiras e que participou da primeira conquista mundial da Seleção Brasileira. Outra curiosidade sobre o craque é sua fama de “arregaçar as mangas” quando a equipe não vivia um bom momento no campo, em sinal de dedicação.

É importante dizer, ainda, que como toda história trágica sempre conta com alguns personagens safos, dois jogadores, por sorte, ficaram de fora da excursão à Lisboa e não estavam no acidente. Sauro Tomà tinha, além de uma lesão no joelho, que acompanhar sua esposa, que estava às vésperas de parir o primeiro filho do casal, e Luigi Giuliano que era um membro recém saído das categorias de base da equipe e não conseguiu o passaporte antes da viagem.

Outro caso importante de ser lembrado é o do craque húngaro Lászlo Kubala, que havia sido convidado pelo Torino para representar o time no amistoso, havia aceitado, mas não viajou em função de uma doença contraída por seu filho.

Desde a Tragédia de Superga o Torino voltou a conquistar o Campeonato Italiano em 1976, mas nunca foi o mesmo, tendo como realidade uma senda irregular de descensos e acessos.

* Devido à dificuldade em reunir dados da época, este post não contará com registros e fichas técnicas de partidas da época.
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