terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

O sonho tcheco e o presente de grego

2004 é um ano lembrado por muitos dos amantes do futebol por ter sido atípico. Foi nele que alguns campeonatos, mundo afora, acabaram conhecendo vitoriosos improváveis. A Copa do Brasil foi vencida pelo Santo André, a Libertadores da América partiu para as mãos do Once Caldas, a UEFA Champions League voltou ao Porto e até a League Cup, na Inglaterra, teve desfecho inesperado, vencida pelo Middlesbrough. É claro: esse foi também o ano em que a Eurocopa, disputada em Portugal, acabou conquistada pela Grécia, com seus pragmáticos e incansáveis heróis. Entretanto, enquanto a memória não permite esquecer que os gregos bateram, surpreendentemente, os anfitriões na final, muitas vezes acaba guardada a sete chaves a recordação da equipe batida nas semifinais, uma geração brilhante de tchecos.


Foto: Alamy

Depois de comandar a seleção tcheca sub-21, o treinador Karel Brückner recebeu uma missão importante: deveria conduzir o selecionado principal às glórias. Seu ingresso se deu em 2001, após a malfadada trajetória da equipe nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2002, que os eslavos acabaram acompanhando de longe. Apesar disso, havia confiança a respeito do futuro. Um punhado de jovens de imenso potencial caminhava em direção ao núcleo duro daquele time, composto por jogadores experientes e talentosos - dentre os quais um se destacava ainda mais e acabaria eleito o melhor jogador europeu de 2003, Pavel Nedvěd.

Talento, juventude e experiência: a mistura perfeita

Desde as eliminatórias para a disputa do certame continental, sabia-se que os tchecos tinham muita lenha para queimar. Vitórias contundentes como o 3 a 1 perante uma geração holandesa em transição confirmavam que Nedvěd e companhia chegavam com fome; o país que havia batido na trave em 1996, sendo vice-campeão daquela edição, queria conquistar o primeiro título posterior à separação que ocorreu com a Eslováquia, em 1993. Os eslavos alcançaram um recorde formidável no Grupo 3 das qualificatórias: sete vitórias e um empate em oito jogos. Foram 23 gols marcados (a segunda melhor marca de todos os grupos) e apenas cinco concedidos.

Ao mesmo tempo em que Brückner levava consigo a maturidade de Nedvěd, Tomáš Galásek, Karel Poborský, Vladimír Šmicer e Jan Koller, também carregava a energia de uma turma que ainda construía um nome no cenário internacional, gente como Petr Čech, Tomáš Rosický e Milan Baroš. Os pés tchecos sempre pareciam saber o que fazer com a bola, controlando-a, usando-a para iludir e também a enviando, com perfeição, à cabeça de Koller, o centroavante grandalhão (2,02m).

Foto: Getty Images


Importante notar também que havia muita gente que se conhecia bem. Koller e Rosický eram companheiros no Borussia Dortmund; Šmicer e Baroš no Liverpool; Zdeněk Grygera e Galásek no Ajax. O jogo tcheco também podia ter muitas alternativas. Além da bola aérea de Koller, contava com a velocidade de Baroš, o passe e visão de jogo de Rosický, as investidas fulminantes de Nedvěd ou os dribles de Poborský. E se a bola acabasse indo na direção da meta eslava, lá estava Čech, pronto para afastar o perigo com suas seguras mãos.

Superioridade no Grupo da Morte

A despeito de tudo isso, a missão tcheca não seria fácil. O sorteio colocou a nação no grupo que acabou conhecido como o da morte. Embora a Letônia não fosse uma real ameaça, o iminente reencontro com a Holanda seria um jogo duro e, mais ainda, esperavam-se dificuldades na partida contra a última vice-campeã mundial, a Alemanha.

Como era de se esperar, os comandados de Brückner bateram os letões - com um quê de indolência. Apesar do domínio dos favoritos, foi necessário Māris Verpakovskis, em lance de indecisão da zaga e de Čech, abrir o placar para os azarões, para acordar a República Tcheca. Esta acabou por virar, com Baroš, em jogada brilhante de Poborský, e Marek Heinz (que substituíra Grygera no segundo tempo). Passada a ansiedade da estreia, o show começou, mas parecia que tudo seria um pesadelo.

Choque de realidade e reviravolta contra a Holanda

Foto: sport
Bastaram apenas quatro minutos para os espectadores do Estádio Municipal de Aveiro presenciarem a inauguração do placar daquela noite de verão. De cabeça, o zagueiro Wilfred Bouma colocou a Holanda em vantagem logo no início do encontro. 15 minutos mais tarde, foi a vez de Ruud van Nistelrooy ampliar para a Laranja. Porém, aquela equipe tcheca era superior. Já provara uma vez nas eliminatórias e voltaria a o fazer. Arrojado, o treinador promoveu uma alteração logo aos 25 minutos, dois após Koller diminuir a desvantagem, assistido por Baroš. Šmicer veio para o lugar de Grygera e os eslavos fizeram o que de melhor sabiam: atacaram.

O veterano Edgar Davids, ainda acertou a trave do goleiro Čech, que também parou Nistelrooy. Contudo foram os tchecos que voltaram a mover o placar. Primeiro, após jogada espetacular. Com a costumeira precisão, Nedvěd lançou Koller no ataque. O grandalhão fez um trabalho de pivô formidável, ajeitando a pelota de peito para Baroš, que chutou como se deve; pegou na veia e afundou o goleiro Edwin van der Sar. Pintura. 

Depois, o holandês John Heitinga acabou expulso e Nedvěd acertou um míssil na trave do arqueiro neerlandês. Este, pouco depois, defendeu outro petardo, mas nada pode fazer para evitar o passe de Poborský que deixou Šmicer à vontade para chutar para o gol vazio. 3 a 2 e classificação antecipada.

No último encontro do grupo, mesmo com time quase todo reserva, a República Tcheca ainda bateu uma Alemanha que, em crise de identidade, parou na fase de grupos: 2 a 1, novamente com gols de Heinz e Baroš. A seguir vieram os mata-matas. Os tchecos já ali encantavam e eram considerados potenciais vencedores da Euro.


Repertório contra a retranca

Como campeão do Grupo D, o levante de Brückner teve o benefício de enfrentar a vice-líder do Grupo C, Dinamarca. Embora o treinador dos escandinavos fosse Morten Olsen, um dos bastiões da Dinamáquina, que encantou nos anos 80, a essência daquele time condizia muito mais com os predicados de um Thomas Gravesen, marcador duro. A forte defesa dos daneses suportou um tempo. Mas, como dito, os eslavos tinham repertório e, quando a vitória não vinha na criatividade e virtuose, podia também vir à força. Então, aos 49 minutos, Poborský cobrou escanteio na cabeça de Koller, 1 a 0. Martin Laursen era alto, 1,90m, mas a desvantagem para o centroavante tcheco era desleal.

Aos 63, a bola voltou a encontrar o fundo das redes dinamarquesas, dessa vez à moda tcheca: Baroš foi lançado, também por Poborský,  nas costas da defesa rival e tocou sutilmente por cima do goleiro. Atordoada, a Dinamarca voltou a sofrer dois minutos depois, novamente com Baroš. O atacante do Liverpool foi novamente lançado em velocidade, dessa vez por Nedvěd, invadiu a área e fuzilou Thomas Sørensen. Com três bolas a zero, o sonho ficava cada vez mais palpável.

Azar e pernas cansadas

Do outro lado do chaveamento, porém, a Grécia também fazia história. Após avanço no Grupo A, condicionando a eliminação de Espanha e Rússia, os comandados do alemão Otto Rehhagel, suplantaram o favoritismo francês nas quartas de finais, com um modesto e efetivo 1 a 0. Se a Dinamarca já havia sido um adversário forte na defesa (sofrera dois gols na fase de grupos), a Grécia seria um novo desafio duro para a República Tcheca.

Dito e feito. Sem trair sua essência naquela competição, os helênicos seguraram os tchecos. Houve espaço para drama também. Aos 40 minutos, os eslavos perderam sua grande referência moral, seu capitão, o camisa 11, o melhor jogador da Europa. Nedvěd se machucou após dividida com Kostas Katsouranis. Entrou Šmicer em seu lugar. Embora fosse bom, estava longe de ser capaz de substituir Pavel, sobretudo naquele momento de sua carreira. O desolamento de Nedvěd no banco de reservas foi o prenúncio de uma noite de tristeza para seu país.

Koller tentou. Baroš também. A prorrogação foi inevitável e os tchecos estavam exaustos. Assim, o gol de prata, marcado de cabeça por Traianos Dellas foi a consequência fatal daquele encontro. “Precisamos aceitar a derrota, a vida é assim. Não temos porquê ficar envergonhados. Pelo contrário, devemos ficar orgulhosos, ainda nesse jogo, com seu final ruim”, refletiu Brückner após o jogo.



O encanto intenso provocado por aquele time da República Tcheca, contudo, passou à história (assim como a vitoriosa Grécia). A hipnose provocada pelo leque de jogadas, dribles, chutes, criatividade inata não foi esquecida. Nem a eficiência de Koller, ou a velocidade de Baroš, o artilheiro da competição, com cinco gols. A equipe voltaria ao cenário internacional na Copa do Mundo de 2006, sem o mesmo fôlego, todavia. Parou ainda na fase de grupos, vendo o avançar de Itália e Gana. O time era quase o mesmo, mas o ânimo e o ímpeto, não. 2004 era mesmo a grande chance. 

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Afastado por um corte

O curioso, e mal orientado, que se aventurar na pesquisa a respeito dos nomes que mais vezes representaram a seleção argentina de futebol pode se surpreender. Muitas são as vozes que não hesitam em colocar o meio-campista Fernando Redondo no grupo dos maiores hermanos de todos os tempos. Porém, seu registro aponta apenas 29 aparições com a camisa da Albiceleste. Como? Isso mesmo. E esse não é o fato mais impressionante dessa trajetória.


Foto David Cannon/ALLSPORT


Entre 1994 e 2000, o elegante, hábil e refinado meia - El Princípe - representou as cores do Real Madrid, após despontar com a camisa do Argentinos Jrs., passar um frutífero tempo no Tenerife (o mais estável de toda a história dos Tete) e jogar a Copa do Mundo de 1994. Seus feitos durante o período em que representou os Merengues são tão impressionantes, que não é raro se notar referências ao meio-campista com o melhor ‘5’ que os madrilenos já alinharam em toda a sua história. 

Redondo era grande. Possuía o que de mais importante se pode esperar de um jogador argentino: definia a técnica e era por ela definido; controlava o ritmo dos jogos; driblava quando necessário; finalizava bem com a canhota e ainda tinha personalidade, a qual lhe tomou um lugar maior na história. Não por sua culpa.

Foto: Getty Images
Se nos convidassem a fazer uma lista de jogadores argentinos de potencial brutal e que nunca cumpriram totalmente as expectativas criadas, talvez precisemos de um bom tanto de papel. Ariel Ortega, Javier Saviola, Andrés D’Alessandro… Trata-se de um rol extenso e que nada tem a ver com Redondo. O meio-campo brilhou intensamente durante a carreira. É lembrado com carinho pelos aficionados de todos os times por onde passou, mesmo no final de seu caminho, quando as lesões já o impediam de atuar com frequência. A seleção argentina, entretanto, pouco contou com sua qualidade. 

O capitão da esquadra rioplatense que conquistou o título da mais controversa Copa do Mundo de sempre, a de 1978, foi o treinador dos hermanos justamente no período em que o talento de Redondo era mais indiscutível, entre os Mundiais de 1994 e 98. Daniel Passarella foi um líder nato dentro dos gramados; fora deles se apresentou um tanto quanto intransigente. El Caudillo queria ordem, mas perdeu ao procurá-la em espaços que não eram de sua alçada. Não fosse por isso, aquele que para muitos é considerado o melhor defensor argentino da história poderia ter mantido seu nome incólume, respeitado acima de quaisquer questões.

O problema do período foi que, na ânsia de construir um núcleo duro de jogadores empenhados em alcançar o máximo coletivamente, sem vaidades, Passarella foi longe demais. Baniu brincos e deixou claro que cabelos longos seriam motivo de cortes. Uma das marcas que melhor distinguiam Redondo dentro da cancha era justamente suas esvoaçantes madeixas. Segundo reportou o Clarín, anos mais tarde, em 2015, a questão entre treinador e atleta foi a “briga mais singular e ridícula da história da seleção”. A matéria ainda relatou que para o comandante “brincos e cabelos longos são perigosos porque os jogadores se distraem durante os jogos tocando-os muitas vezes”.

Foto: Getty Images
Houve muita gente que acatou as ordens, Gabriel Batistuta acabou sendo o mais representativo dessa categoria. Mas, à exemplo de Claudio Caniggia, Redondo se negou. Em 1995, o treinador teria, inclusive, viajado a Madri para convencê-lo a entrar no espírito que pretendia para a seleção e voltar a representar a Albiceleste. Na ocasião, o meia se encontrava barrado no Real Madrid, por ter se negado a atuar pelo lado esquerdo. Passarella ofereceu palavras brandas, afagou o ego de seu atleta, mas ao final pediu que cortasse o cabelo. Pedido feito e declinado. 

A versão que foi ao público indicou que o jogador teria se negado a jogar pela esquerda também na seleção. Redondo, o mentiroso da história, ficou fora da Copa América de 1995 e do Mundial de 1998.

Muitos jogadores acabaram apoiando o camisa 5, dentre eles Diego Maradona, que se apresentou certa vez com uma mecha loira nos cabelos. A polêmica perdurou, dividiu o país. Para alguns, as exigências d’El Caudillo eram discriminatórias e beiravam o facismo, outros, todavia, entendiam que qualquer atleta tem deveres para com o seu país e, se tivesse que cortar o cabelo para honrá-los, teria de assim proceder.

O saldo dessa história é uma derrota geral. A seleção argentina deixou de contar com um de seus jogadores mais geniais da história; privou-se da qualidade de alguém que, de acordo com o Diario AS, nas palavras do ícone do Manchester United, Sir Alex Ferguson, possuía “imãs nas chuteiras”. A imagem de intolerância de Passarella nunca mais mudou, bem como a mágoa de Redondo. Obviamente, a Albiceleste se ressentiu da ausência de seu craque. 

A Copa América de 1995 acabou ficando com o anfitrião Uruguai, de geração nada brilhante. Em 1998, foi um esquadrão da Holanda que condenou os argentinos, nas quartas de finais. Naquele momento, Redondo acabara de se sagrar campeão europeu com o Real Madrid; talvez fosse a dose extra de talento que o time precisava para ir adiante e lutar pelo tricampeonato mundial. Em seu lugar jogava o bom, porém muito mais limitado, Matías Almeyda. Ironicamente, outro cabeludo - o treinador afrouxara seus limites.

Foto: Reuters


Passarella ainda tentou chamar o astro em 1997, mas ouviu uma recusa. Desde o momento em que saiu como “mentiroso”, Redondo entendeu que não havia ambiente para si na seleção: 

“A ideia do Mundial foi o que me fez pensar mais, mas está claro que não a qualquer preço [...] eu não sou dos que hoje dão um abraço e amanhã uma punhalada [...] Passarella não me inspira confiança, é capaz de qualquer coisa”, disse ao El País, em abril de 1998.

Talvez tenha também sido irredutível demais, ainda assim, o seu lado na história, é mais fácil de se justificar. Após a queda para a Laranja, seguiu-se a saída de Passarella do comando da Albiceleste. Entrou Marcelo Bielsa em seu lugar. El Loco até chamou Redondo, inicialmente. Mas para o atleta seu tempo havia passado e, já com problemas físicos, lutando contra seus joelhos, abdicou da seleção.

O 5 terminou seu vitorioso caminho no Real Madrid em 2000, após mais um título continental. Foi ao Milan e viveu um inferno astral, marcado por muitas lesões, que eventualmente colocaram fim a sua carreira. No período, chegou a renunciar ao recebimento de salários. Redondo tinha uma maneira de enxergar as coisas e as liberdades de cada um, Passarella outra. Ambos foram defendidos e atacados por suas decisões. Ficou, eternizada, contudo, a expectativa: como teria sido a vida da seleção argentina com um princípe de imãs nos pés em campo?

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O ano de afirmação de Leon Bailey

Na última década, o Genk, da Bélgica, assumiu a condição de fornecedor de talentos para clubes economicamente mais poderosos da Europa. No período, a Luminus Arena presenciou o despertar de vários talentos e acabou perdendo gente da estirpe de Thibaut Courtois, Kevin De Bruyne, Christian Benteke, Kalidou Koulibaly, Sergej Milinkovic-Savic e Wilfred Ndidi. Quem também deixou o clube recentemente foi um garoto habilidoso e que tem sido decisivo na Bundesliga, o jamaicano Leon Bailey, de 20 anos.


Foto: Getty Images


Não é fácil chamar a atenção em uma liga amplamente dominada por um só clube. O Bayern de Munique é o atual pentacampeão alemão e já há quem confirme o hexa, considerando que os bávaros têm quase 20 pontos de vantagem em relação aos seus perseguidores. Apesar disso, a disputa que se apresenta entre o segundo e o oitavo colocados tem sido interessantíssima, com poucos pontos separando os adversários na busca de uma vaga na UEFA Champions League da temporada 2018/19. Um desses clubes, é o Bayer Leverkusen. Cada vez mais encaixado, o time do treinador Heiko Herrlich tem contado com o enorme destaque de Bailey, após seis meses de adaptação.

O prodígio do Bayer chama atenção do mercado da bola desde 2015, quando começou a ser apontado como potencial reforço do Chelsea. A transferência para os Blues acabou não acontecendo naquela ocasião e o meia continuou seu desenvolvimento no futebol belga. Naquele ano, a temporada 2015/16, o jogador marcou seis gols, criou sete assistências e foi eleito a revelação da Jupiler League, isso tudo com 18 para 19 anos. Seu talento permaneceu ligado ao clube por mais meia campanha, na qual fez oito gols e ofereceu 10 passes para gols.

Foto: Getty Images
A chegada ao Leverkusen, ao custo de €13,5 milhões, contudo, não foi fácil e demandou um período de adaptação. Ao todo, disputou 10 jogos, todos como reserva, sem marcar ou assistir. É bem verdade que, como um todo, o ano do clube rubro-negro foi muito ruim, terminando a Bundesliga apenas no 12º lugar, no que foi o fim da passagem do treinador Roger Schmidt pela equipe.

Superada a temporada 2016/17, muita coisa mudou na vida de Bailey. Contando com a confiança de seu novo comandante, foi titular já na primeira partida do ano, contra o Bayern. Das 21 rodadas já disputadas na Bundesliga 2017/18, o jovem só deixou de ser utilizado em três delas, apenas duas por opção técnica, quando ainda eram decorridas a terceira e a quarta rodadas do certame. Pudera: diante de seu desempenho o mínimo a se esperar é sua constante utilização. Em 21 jogos (incluindo-se a Copa da Alemanha), foi goleador 10 vezes e assistente em outras cinco ocasiões.

Porém, não é só isso o que conta. O canhotinho tem qualidades que o tornam alguém com muito poder de decisão. Embora seu drible seja um diferencial, a qualidade para criar ocasiões de gol e a finalização são dois trunfos importantíssimos. Em um momento em que a estrela de Julian Brandt tem oscilado, a de Bailey segue cintilando. Para a direção, tudo tem seguido um caminho natural. O diretor de futebol do clube, o ex-atacante Rudi Völler, confirmou que a contratação do jamaicano foi pensada tendo em vista essa temporada; o planejamento traçado vem rendendo ótimos frutos.

Confortável por ambos os flancos do campo, o garoto tem mostrado um leque grande de jogadas. Contra o Schalke 04, por exemplo, marcou um belo gol partindo da ponta direita para o centro e finalizando no ângulo superior direito do goleiro dos Azuis Reais. Por outro lado, na partida contra o Borussia Mönchengladbach foi lançado nas costas da defesa dos Potros, pela esquerda, abusou de sua velocidade e fuzilou o arqueiro Yann Sommer.

Foto: PATRIK STOLLARZ/AFP/Getty


Para mais, apesar de ter lances de notório individualismo, abusando de sua habilidade, Bailey não é um jogador egoísta, tendo além de muitas assistências uma média representativa de 1,9 passes chave criados por jogo. Após a goleada por 4 a 1, contra o Hoffenheim fora de casa, empolgado, Herrlich falou sobre seu pupilo: “Leon Bailey pode fazer qualquer coisa no momento”.

A perseverança é uma de suas marcas e uma das qualidades que seu treinador não-raro destaca. Em entrevista à DW, reproduzida pelo site oficial da Bundesliga, o jamaicano relatou que desembarcou na Europa aos 12 anos, com apenas um casaco, em pleno inverno no Velho Continente. Muito por conta disso, ao contrário do que acontece com muitos jovens, Bailey não parece se deslumbrar com o sucesso atual: “nós não tínhamos muito dinheiro, tínhamos que viver fora do orçamento e às vezes tínhamos pão e atum como café da manhã, almoço e jantar”, relatou. 

Naturalmente, tem sido cobiçado por outras equipes, apesar de ter contrato com o Leverkusen até 2022. Na última janela de transferências, o Chelsea reapareceu como um dos interessados na contratação do jovem. Apesar disso, o garoto tem mantido os pés no chão em suas declarações. Embora não negue que seu sonho é jogar a Premier League, foi enfático ao dizer no último mês de janeiro que “a mudança para o Bayer foi a escolha certa” para o seu desenvolvimento.

Cada vez mais decisivo, o veloz, insinuante, solidário e goleador prospecto do Bayer Leverkusen vai se confirmando um dos melhores jogadores da Bundesliga em 2017/18. Qualquer aspiração de seu clube, hoje, passa por seus pés, não importando o lado em que é escalado. O jogador que deixou a Jamaica aos 12 anos, e passou por Áustria e Eslováquia, antes de se profissionalizar na Bélgica, tem se entregado a cada bola como se fosse a última, traçando uma caminho de evolução constante, mas sem atropelos.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

A tragédia que moldou o maior craque inglês

O ano de 2018 marca o aniversário de 60 anos de uma das maiores tragédias que já acometeram um clube de futebol, em todos os tempos. Ainda que não tenha sido tão fatal quanto o acidente de Superga, que vitimou um time inteiro do Torino, ou não some mais mortes em relação à desgraça que se abateu sobre a Chapecoense, o Desastre de Munique deixou cicatrizes incuráveis no time do Manchester United; transformou também, para sempre, a vida do maior craque inglês de todos os tempos, um dos poucos sobreviventes.


Foto: Getty Images


Desde abril de 2016, o nome dele está eternizado nas arquibancadas do estádio Old Trafford. A homenagem se deu em função do aniversário de 60 anos da estreia do jogador pelos Red Devils. Trata-se de uma honraria concedida àquele que, já faz algum tempo, é tratado como Sir, mas nunca conseguiu deixar de se perguntar: “por quê eu? Por quê eu sobrevivi?”, como revelou em sua autobiografia, parcialmente reproduzida pelo Telegraph.

O número de pessoas do círculo íntimo da convivência de Bobby Charlton que atesta que ele nunca mais foi o mesmo após a tragédia é grande, o que inclui seu irmão e também ex-atleta Jack Charlton. Como haveria de ser diferente? Naquele 1958, o Manchester United era um dos times mais promissores do planeta. Comandado por Sir Matt Busby, um elenco jovem e talentoso havia conquistado o Campeonato Inglês, em 1956/57, após brilhar nas categorias de base. Era a época dos Busby Babes. Charlton, talvez o mais promissor da equipe, tinha 19 para 20 anos.

A consequência da glória nacional foi o carimbo no passaporte para a disputa da ainda incipiente Copa dos Campeões, que apenas começava a desenhar a hegemonia do Real Madrid. De cara, os ingleses atropelaram seus vizinhos irlandeses do Shamrock Rovers, por 9 a 2 no placar somado dos dois jogos. Na sequência, vitimaram o Dukla Praga, após uma vitória por 3 a 0 e uma derrota por 1 a 0. Tudo caminhava bem, quando se desenhou o confronto seguinte, válido pelas quartas de finais.

A promissora vitória por 2 a 1, na primeira partida contra o Estrela Vermelha, em casa, mantinha em alta as esperanças em Manchester. Na oportunidade, Charlton marcou seu primeiro gol na competição, ajudando os Red Devils a encaminhar sua classificação à fase seguinte. A volta, contudo, seria dura: em Belgrado, um caldeirão esperava os ingleses. Além disso, a logística não era simples. Não era possível viajar de Manchester à capital da Iugoslávia sem fazer ao menos uma parada para reabastecimento. Diante disso, Munique acabou sendo uma escala necessária.

Na ida, tudo correu perfeitamente bem. Naquele gelado 05 de fevereiro, o United abriu uma vantagem por 3 a 1 contra os anfitriões e até cedeu o empate. No entanto, colocou a classificação na bagagem de volta para a Inglaterra. No dia seguinte, começou a viagem de retorno, com a esperada parada em Munique. 

Foto: Getty Images
Após o sucesso no primeiro trecho, com combustível no tanque, o avião se preparou para deixar a Baviera. O piloto tentou uma vez, mas parecia que não estava tudo bem - a aeronave não estava respondendo da forma esperada. Na segunda vez, novamente se notaram anomalias. Diante disso - e de uma nevasca -, foi anunciada a decisão de adiar a viagem para o dia seguinte. Porém, o piloto confiou que o problema poderia ser contornado. Na arrancada, não se levaria o motor ao limite, o que levaria a uma demora maior para se alcançar a velocidade necessária para a decolagem. Porém, a extensão da pista permitiria o sucesso da tentativa, pensou o especialista. Veio a terceira tentativa.

O avião saiu da pista, se chocou com uma grade e uma casa, e explodiu. 20 pessoas morreram no ato, três mais tarde. Oito atletas faleceram, dois sobreviveram, mas não mais voltaram aos gramados e outros sete seguiram adiante, dentre eles Charlton. Fisicamente, praticamente saiu ileso. Psicologicamente, nunca mais foi o mesmo. Não é que tenha desenvolvido quadros de depressão ou de outras enfermidades ligadas ao lado emocional. Cresceu em si a responsabilidade de fazer valer sua segunda chance na vida, honrando a memória de seus companheiros e amigos.

“Eu não disse muito na volta para casa, e tinha que me convencer, na companhia dos meus, de que o futebol poderia, novamente, ocupar o centro da minha vida. É claro que logo eu saberia disso. O que demoraria um pouco mais para entender é que nada mais seria tão simples”, relatou.

À sua maneira, Charlton ergueu a cabeça e foi à luta. Com sua habilidade e capacidade para marcar gols ajudou o Manchester United a conquistar mais dois títulos ingleses, passado um período de reconstrução da equipe. Também foi o grande astro inglês na conquista da Copa do Mundo de 1966, e além de um título da FA Cup, levou os Red Devils à conquista da Copa dos Campeões, exatas dez temporadas após o fatídico acidente. O clube acabou sendo o primeiro inglês a levantar o cobiçado troféu, uma honra que coube ao capitão, Bobby.

Foto: Getty Images
Conforme o tempo foi passando, Charlton foi deixando de ser um jovem talentoso e se confirmando uma referência, dentro e fora dos campos. A elegância em campo andando lado a lado com a decência e o caráter fora dele. Em um time que tinha o charme do controverso George Best e o talento de Dennis Law, cabia a Bobby a missão de ser líder, exemplo. Tal papel foi exercido com a distinção de um gentleman

Uma carreira que poderia ter terminado em Munique se findou com 758 jogos disputados e 249 gols - durante anos o craque foi o líder de tais estatísticas, superado recentemente por Ryan Giggs e Wayne Rooney, respectivamente. Por muitos anos foi seu também o recorde de tentos marcados pelo English Team.

A sorte de estar sentado no lugar certo na hora errada, como o ícone costuma dizer, o levou a viver uma trajetória inesquecível, marcante para jogador, clube e nação. Se hoje o Manchester United é a potência que é, muito se deve a Charlton e ao acidente que acabou mudando tudo. É impossível prever o que teria acontecido na carreira do craque na ausência do sinistro. O que se pode dizer, baseado em relatos e em sua carreira, é que durante o tempo em que esteve em campo, Bobby foi um exemplo. A vida lhe deu uma segunda chance e ele a agarrou. Sem a leveza e o sorriso de antes, mas com o respeito a tudo o que o desastre significou.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...