sábado, 12 de agosto de 2017

O desafio de Richarlison é grande, mas tem sentido e motivos para dar certo

Ele era um dos destaques do heróico Fluminense de 2017, um time com poucos recursos financeiros, muita juventude e um treinador experiente e tarimbado. Ainda assim, nada mais do que um garoto de 20 anos. O atacante Richarlison apostou alto ao aceitar se mudar para o Watford, clube inglês de modestas pretensões e que por pouco escapou do rebaixamento na Premier League 2016/17. Há razões, no entanto, para pensar que o jogador formado no América Mineiro pode ser bem-sucedido na Inglaterra.



O planejamento do Watford para a temporada que acaba de se iniciar começou com a contratação do treinador português Marco Silva. Reconhecido pelo trabalho desenvolvido no Estoril e tendo boa participação na tentativa de salvamento do Hull City, no último ano (apesar da evolução, o rebaixamento acabou sendo inevitável), o jovem, de 40 anos, chegou tido em alta conta.

Esse é o primeiro indício de que o caminho escolhido por Richarlison pode lhe render bons frutos. Silva tem o português como língua mãe e especial apreço pelo desenvolvimento de equipes jovens. Conhece as dificuldades relativas à adaptação dos atletas e, nem por isso, deixa de lhes conceder oportunidades. O comandante é lembrado, dentre outras razões, por ter sido o responsável pela afirmação do meia João Mário, quando treinou o Sporting CP.

“Desde que começamos [o trabalho], observamos e analisamos jogadores que podem jogar nos lados. Ele [Richarlison] joga em três posições no ataque e é um jovem, mas realmente um jogador talentoso. Ele tem as características que penso que precisamos”, disse Marco Silva ao site oficial do Watford.

Não é apenas o técnico dos Hornets que pode ser fundamental para a adaptação de Richarlison ao time. A presença do experiente goleiro Gomes, desde 2008 na Inglaterra (exceto por um breve período de seis meses em que defendeu o Hoffenheim), pode ser de grande ajuda. Aos 36 anos, também surgiu no futebol mineiro e passou por escalão inferior ao principal na Seleção Brasileira. Embora já fosse Campeão Brasileiro, partiu para a Europa ainda jovem, aos 23 anos. 13 após, certamente tem o que compartilhar com seu novo companheiro.

De forma mais ampla, o clube também tem apostado na contratação de jovens apostas. Além de Richarlison, chegaram peças como Will Hughes e Nathaniel Chalobah, jogadores da Seleção Inglesa Sub-21. Muito disso, deve-se ao fato de que a equipe que o português encontrou estava envelhecida. Mesmo com as incorporações citadas, o Watford ainda é o terceiro clube com a maior média de idade da Premier League. Em julho, Marco Silva já havia comentado ao site oficial dos Hornets, que escolhera o clube “pelo futuro” e pela “ambição de crescimento”. 

A presença de jogadores experientes, por outro lado, diminui a pressão sob os ombros dos garotos. As referências da equipe são justamente os atletas mais rodados, como Gomes, os atacantes Troy Deeney e Stefano Okaka e o zagueiro Younès Kaboul. Richarlison ingressa em um contexto de pressão inferior àquela que enfrentaria caso tivesse partido para um clube de pretensões maiores.

Como ressaltado por Marco Silva, no campo, o brasileiro deve, a princípio, ser utilizado pelas pontas, abusando de sua explosão física, além da boa capacidade de finalização. Diante da forte concorrência que enfrenta, dificilmente ganhará oportunidades como referência. Deeney, Okaka e o também recém-chegado Andre Gray são especialistas da função e largam na frente por uma posição no comando do ataque do Watford.

Inserido no atual Eldorado do futebol europeu, a Premier League, Richarlison jogará já aos 20 anos no mais alto nível. Enfrentará grandes craques e poderá se desenvolver. Evoluindo e se dando bem em seu novo clube, vê um brilhante caminho pela frente.

Tudo parece indicar que, brevemente, o atacante ganhará a titularidade da equipe. 

Já na primeira rodada do Campeonato Inglês, entrou pouco após o retorno das equipes, passado o intervalo. Atuando pela ponta esquerda, viveu a primeira amostra do que seu futuro lhe reserva. Não foi propriamente bem na partida, mas não se escondeu. Em 41 minutos, chutou duas vezes ao gol do Liverpool, participando da jogada do gol que selou o resultado final, empate por três a três. Na ocasião, finalizou bola sem ângulo após escanteio, obrigou o goleiro Simon Mignolet a fazer defesa e a bola sobrou para o zagueiro Miguel Britos equalizar o placar.

Desde seus primeiros minutos em campo representando os Hornets, Richarlison mostrou aos torcedores presentes no estádio Vicarage Road, o que se pode esperar dele: muita luta, força e entrega. Envergando a camisa 11, promete dar continuidade a sua evolução. Há motivos para pensar que a escolha pelo Watford em detrimento de outros clubes que tiveram seus nomes ligados à contratação do atacante brasileiro, como por exemplo Ajax e Chelsea, foi boa; Difícil e desafiadora, pois o objetivo da equipe é apenas permanecer na primeira divisão, mas acertada.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Davy Pröpper chega ao Brighton para liderar uma dura missão

O futebol holandês passa por um período claro de transição, com o processo de mudança de gerações, deixando para trás as figuras que conduziram a Oranje ao vice-campeonato mundial em 2010 e promovendo o ingresso de caras novas. Nesse sentido, um jogador que tem ganhado espaço desde 2015 é o meio-campista Davy Pröpper. Para dar continuidade a sua afirmação, o jogador aceitou o desafio de ser a principal referência técnica de uma equipe de modestas pretensões em um dos contextos mais competitivos do planeta bola.



Ausente da disputa da primeira divisão inglesa desde a temporada 1982/83, o Brighton & Hove Albion retorna com uma missão bem clara: evitar o rebaixamento. Para isso, tem buscado reforços importantes, escolhendo-os com muito cuidado.

Entrando em sua quarta temporada no clube, o treinador Chris Houghton sempre soube que seria preciso encorpar seu elenco. Para isso, antes de contratar Pröpper já havia assinado com o goleiro Mathew Ryan, titular da meta da Seleção Australiana, e de outras peças importantes como o experiente lateral esquerdo do selecionado austríaco, Markus Suttner, ex-Ingolstadt, e do meio-campista alemão Pascal Groß, que tem passagem por equipes de base da Seleção Alemã e também chega do Ingolstadt.

“Gostaríamos de começar a temporada e terminar a janela de transferências com um elenco que sintamos ser capaz de fazer o suficiente”, falou o comandante ao Sky Sports.

A despeito disso, a contratação que traz maior impacto é, indiscutivelmente, a do meia holandês. Formado no Vitesse, foi referência do time que, treinado por Peter Bosz (atualmente no Borussia Dortmund), alcançou a quinta colocação na Eredivisie, em 2014/15, e carimbou sua passagem para Eindhoven, onde representou o PSV, por duas temporadas. 

No último ano, marcou seis tentos e criou sete assistências, em 34 jogos no holandês. Sua melhor campanha no país, contudo, foi na temporada 2015/16, em que alcançou a marca de 10 gols e seis assistências. Vale lembrar que o atleta foi contratado para substituir Georginio Wijnaldum, que fora vendido ao Newcastle, e se saiu bem.

Versátil, Pröpper não é craque, mas se trata de um jogador completo e que pode ser meia central ou ofensivo, organizando o jogo tanto em posicionamento mais recuado quanto mais próximo do ataque. Além disso, tem algo que pode ser muito importante para o Brighton: um potente chute de longa distância, capaz de tirar o time de apuros, eventualmente. O holandês não é o jogador que deixará a cancha com percentuais de aproveitamento de passes de 85%, 90%, mas, inserido em um clube que provavelmente se preocupará primeiramente em se defender, isso não importa tanto.

“Será muito difícil, mas penso que iremos bem (...) Sou um meio-campista box-to-box, que pode atacar e defender e penso que meu passe é bom”, disse o meia ao Sky Sports.

Importante notar também a influência de seu jogo em termos defensivos. Na edição 2016/17 da Eredivisie, o atleta fez 1,5 desarme por jogo em média e 1,4 interceptação, o que se encaixa na descrição oferecida pelo próprio, com um todocampista

O fato é que: em decorrência de suas qualidades para organizar o jogo, ditar o ritmo das ações e se oferecer como alternativa a seus companheiros, o meia chega com a missão de ser referência para o time. Dessa forma, a experiência é uma aposta pessoal para a própria carreira do jogador. Caso se saia bem, permanece no radar da Seleção Holandesa e cria a possibilidade de uma transferência para um centro maior.

O negócio se apresenta bom para as duas partes: o Brighton recebe um jogador, que, aos 25 anos, tem experiência e motivação para ser bem-sucedido na Inglaterra, e Pröpper ganha a oportunidade de se destacar no mais alto nível. Os valores envolvidos na negociação também não foram exorbitantes (aproximadamente €13 milhões), ou seja, estão dentro da realidade vivida pelos Seagulls.

Depois de superar um período de profunda instabilidade, com muitos acessos e descensos, desde 2011/12 o clube do sudeste inglês conhece uma realidade de segurança: habitualmente mais próxima da chegada à Premier League do que de eventual retorno à League One. O time bateu na trave algumas vezes na tentativa de chegar à elite. Foi terceiro colocado da Championship em 2015/16, sexto em 2013/14 e quarto em 2012/13. Conhece as dificuldades existentes para chegar a esse nível e, certamente, tem ciência do quão dura será a luta pela permanência no mais alto nível do futebol no país. 

Para isso, foi ao mercado com cautela e a princípio encontrou boas soluções. Pröpper, que foi também a contratação mais cara da história do time, apresenta-se como a melhor delas. Resta saber se isso será o suficiente.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Sneijder chega ao Nice para ser a cereja do bolo

Há duas temporadas, o Nice vem surpreendendo na disputa da Ligue 1. Primeiro sob o comando de Claude Puel e, desde 2016/17, do suíço Lucien Favre, Les Aiglons têm conseguido terminar o Campeonato Francês em posições privilegiadas. É curioso perceber que a equipe apostou nesses anos na recuperação de jogadores controversos, porém experientes e com talento indiscutível: Hatem Ben Arfa e Mario Balotelli. O italiano segue por lá e será novamente companheiro de uma grande estrela, mas dessa vez se trata de alguém que não precisará ser recuperado: aos 33 anos, Wesley Sneijder chega ao clube buscando novos desafios.



Para muitos o melhor jogador do mundo em 2010, ano em que conquistou a UEFA Champions League pela Internazionale e conduziu a Holanda ao vice-campeonato Mundial, Sneijder desembarca na França após viver quatro anos e meio de profunda idolatria e alguns títulos com a camisa do Galatasaray. Em 175 partidas, anotou 46 tentos e proveu 44 assistências, marcou golaços e decidiu clássicos; foi brilhante. Chega ao Nice ainda com status de craque, longe de ser um ex-jogador em atividade.

O contexto de sua chegada é também muito positivo. A terceira colocação na última Ligue 1, após a troca de um comando que vinha de quatro anos de evolução, revelou organização por parte da esquadra, que teve muitos destaques individuais — até mesmo Balotelli. O curioso é notar que Sneijder, que vestirá a camisa 10, vem para substituir seu substituto no Galatasaray. Como? Isso mesmo. O empréstimo do marroquino Younès Belhanda, junto ao Dynamo Kyiv, venceu e o atleta foi na sequência vendido ao clube turco. Em 2016/17 foi o principal meia ofensivo do time francês, pelo qual marcou três tentos e criou seis assistências, em 31 jogos de Ligue 1.

Não obstante, se Belhanda saiu, o restante dos ótimos meio-campistas do time permancem até agora (a janela de transferências só se encerra ao final de agosto). Sneijder encontra terreno fértil para se acomodar na equipe. 

Os voluntariosos Wylan Cyprien e Jean Michaël Seri, esteios do setor, ainda estão no estádio Allianz Riviera, reformulado para receber a disputa da última edição da Euro. Em 2016/17, o primeiro anotou nove gols e o segundo sete, o que ajuda a entender de que tipo de jogador se fala — são volantes de muito boa saída para o ataque, bom passe e que se infiltram com facilidade nas defesas adversárias. Quem também segue no clube é o jovem francês Vincent Koziello, que aos 20 anos assumiu a tarefa de substituir Cyprien quando este sofreu lesão e terminou a temporada como titular. Não há dúvidas de que Sneijder chega a um clube em que terá liberdade para criar e companheiros de qualidade com quem dialogar.

À frente, também foram mantidos jogadores importantes, casos do meia Valentin Eysseric e do atacante Alassane Plèa, atletas versáteis e criativos, capazes de dividir com o holandês as responsabilidades no setor de criação. Do meio-campo adiante, o time do Nice se confirma muito técnico e, certamente, tal característica pesou no momento em que Sneijder decidiu firmar pela equipe e partir para o sul da França.

Aliás, deve ser feito um alerta para quem pensa que o holandês está acabado: em 2016/17 foi simplesmente o líder de assistências da Liga Turca, com 15 passes para gols em 28 partidas. Foi também o atleta que, em média, mais passes chave ofertou por partida, 2,7. Não há margem para dúvidas: Sneijder chega para dar o toque final a um time já muito organizado e estruturado, vem para ser seu líder técnico.



Elenco também se fortalece com mais experiência e juventude

O time, que viu o zagueiro Paul Baysse partir para o Málaga, o empréstimo do lateral direito português Ricardo Pereira, junto ao Porto, vencer e está próximo de vender o lateral esquerdo Dalbert à Internazionale, já havia marcado sua presença no mercado, antes de oficializar a chegada de seu novo camisa 10. Sem custos, chegou do Lyon o experiente e polivalente ala Cristophe Jallet, que, aos 33 anos, oferece muitas soluções a Lucien Favre. Contudo, o negócio mais interessante (Sneijder à parte) foi a chegada do talentoso ponteiro direito Allan Saint-Maximin.

Aos 20 anos, o atleta da Seleção Francesa Sub-20 fez o caminho inverso no que concerne ao Monaco: deixou o principado para ganhar mais oportunidades; na temporada 2016/17 havia sido emprestado ao Bastia. Contratado por €5 milhões pelos monegascos em 2015, vindo do Saint-Étienne, chega ao nice pelo dobro: €10 milhões. Les Aiglons apostam pesado no atleta, que encantou pela velocidade, destreza na condução de bola e habilidade para se livrar de seus marcadores. É um diamante a ser lapidado.

O caminho que o Nice traça é interessante e se mostra sólido. Há equilíbrio entre jogadores experientes (além de Sneijder, o brasileiro Dante e Balotelli já venceram a UEFA Champions League) e jovens em forte evolução. Se na maior parte do tempo Lucien Favre fez trabalho interessantíssimo no comando do Borussia Mönchengladbach, seu último clube antes de chegar à França, isso se repete.

Em um contexto de chegada de Neymar ao Paris Saint-Germain, é praticamente impossível imaginar o clube do sul da França lutando pelo título. Contudo, considerando que equipes como Monaco, Olympique de Marseille, Lille e Lyon passam por reconstrução, é possível, sim, imaginar o Nice brigando por posições na parte de cima da tabela, repetindo os bons desempenhos dos últimos anos. A chegada de Sneijder consigna tal realidade.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O emocionante Feyenoord campeão da UEFA Cup em 2002

O século XXI não tem sido muito amistoso com o torcedor do Feyenoord. Embora tenha conquistado o título holandês da temporada 2016/17, o clube de Roterdã ainda não havia vencido nenhuma edição do nacional no período. Ainda assim, no já distante ano de 2002, contra os prognósticos, De club aan de Maas conquistou a UEFA Cup, predecessora da Europa League. Durante a competição, deixou pelo caminho clubes como Rangers, o rival PSV Eindhoven, a Internazionale e, na final, o Borussia Dortmund. Aquele não era um time de espetáculo, mas brilhava pela consistência, em uma trajetória emocionante.



Na disputa da Eredivisie 2000/01, o PSV havia sido atroz. Em 34 partidas, somou 25 vitórias e oito empates — ou seja, só perdeu em uma ocasião. Eram tempos em que o clube contava com jogadores da estirpe do sérvio Mateja Kežman, de Mark van Bommel, Johann Vogel e Ruud van Nistelrooy. Naquele ano, o vice-campeonato ficou com o Feyenoord, de Jerzy Dudek, Bonaventure Kalou e Jon Dahl Tomasson. Ambos se classificaram para a disputa da UEFA Champions League de 2001/02, da qual caíram na Fase de Grupos, assegurando a terceira colocação de seus grupos e chegando à disputa da UEFA Cup.

Naquele momento, o Feyenoord passara por mudanças importantes. Dudek partira para o Liverpool e peças importantes chegaram. Para conduzir o time, empilhando gols, foi contratado junto ao Benfica o centroavante Pierre van Hooijdonk, que seria assessorado devidamente por um garoto, fruto das categorias de base da equipe: um jovem de nome Robin van Persie, à época, ponta esquerda. Outra incorporação importante feita foi a do meio-campista nipônico Shinji Ono, parceiro de Hidetoshi Nakata e Shunsuke Nakamura em uma das mais especiais gerações da Seleção Japonesa.



Ainda assim, tal realidade não indicava a proximidade da conquista de títulos. A campanha ruim na UEFA Champions League e a instabilidade na Eredivisie (que terminaria na terceira colocação) testemunhavam nesse sentido, igualmente. No entanto, a UEFA Cup revelou o contrário. Se o time não era exemplo de equilíbrio nas demais competições, havia pelo menos um alento: no ataque van Hooijdonk vinha dando conta do recado, saindo-se melhor do que a encomenda. E foi o goleador a principal figura em um título improvável e inesquecível para o torcedor do Feyenoord.

Leia também: Times de que Gostamos: Feyenoord 1969-1970

Um daqueles andarilhos da bola, que por onde passa deixa sua marca, o artilheiro brilhou. No entanto, foi outro contratado quem deu início à saga do club van het volk

Na estreia, já na terceira fase da competição, Ono marcou o gol que colocou o Feyenoord em vantagem contra o Freiburg, do volante Sebastian Kehl. Hooijdonk ficou de fora daquela partida. Na volta, na Floresta Negra, o goleador voltou e foi decisivo, marcando golaço de falta, em cobrança histórica.



Sem alarde, empatando por dois a dois, o clube avançou à fase seguinte. O importante, nesse caso, foi a capacidade de reação, algo que marcaria toda a trajetória do time. Os alemães chegaram a abrir vantagem de dois gols, que lhes classificaria, mas o Feyenoord foi atrás do resultado. “Mostramos nossa classe e voltamos para empatar”, disse o treinador Bert van Marwijk após o encontro. A seguir o desafio foi contra os escoceses do Rangers e a história foi parecida.

O primeiro jogo aconteceu no estádio Ibrox, em Glasgow, e Ono voltou a marcar pelos holandeses, em chute de longa distância que desviou na metade do caminho. Contudo, os escoceses chegaram ao empate, em penalidade convertida por Barry Ferguson. A emoção ficou por conta da volta, tendo o estádio De Kuip como casa. 

Na oportunidade, o Rangers saiu na frente, mas van Hooijdonk voltou a brilhar. Novamente de falta, o holandês abriu caminho para a vitória e, como se fosse replay, o goleador marcou mais uma vez de bola parada; o Feyenoord foi para o intervalo com a vantagem. Pouco após a redonda voltar a rolar Kalou sentenciou os escoceses, 3 a 1, após cruzamento de quem? Pierre van Hooijdonk. A partida ainda teria mais emoções, mas não muitas: Ferguson voltou a marcar de pênalti, dando números finais ao encontro. Naquela altura, a saga dos holandeses estava apenas começando.



Antagonista do ano anterior e rival histórico, o PSV foi o adversário do Feyenoord nas quartas de finais. Aquele time já não contava com van Nistelrooy, mas, para seu lugar contratara o grandalhão Jan Vennegoor of Hesselink. A ida aconteceu em Eindhoven e, finalizando rebote de chute de Tomasson, o artilheiro dos visitantes abriu o placar. Entretanto, logo após a volta do intervalo, Kežman equalizou o placar, que assim permaneceu, 1 a 1. O verdadeiro drama veio a seguir.

Em Roterdã, o Feyenoord saiu atrás no placar. Mark van Bommel abriu a contagem para o PSV com um chute de rara felicidade, de longa distância. Não obstante, aquela competição só poderia ter um herói e, de cabeça, van Hooijdonk empatou a partida nos acréscimos, aos 48 do segundo tempo. A disputa só foi resolvida nas penalidades e teve final feliz para os donos da casa, colocando o estádio De Kuip em êxtase. O Feyenoord não só estava nas semifinais da UEFA Cup como acabara de eliminar um de seus principais rivais. Porém, os desafios só aumentavam.



Contra uma Internazionale em entressafra, que tentava recolocar Ronaldo em forma após a recuperação da segunda lesão no joelho, o time holandês voltou a ser cirúrgico e eficiente. O capitão Paul Bosvelt iniciou jogada e passou a van Hooijdonk que cruzou; para a infelicidade do lado Nerazzurri de Milão, o colombiano Iván Córdoba marcou contra, naquele que foi o único tento da partida de ida das semifinais. A confiança e a crença no título começavam a se tornar verdadeiros.

No segundo jogo, já com Ronaldo e Clarence Seedorf entre os titulares, a Inter foi valente, mas ficou pelo caminho. Após cruzamento de van Persie, van Hooijdonk abriu o placar para De club aan de Maas. Pouco depois, Tomasson aproveitou rebote de chute de Kalou e ampliou o placar, 2 a 0. 

Acontece que os italianos não se deram por vencidos. Aos 83 minutos, Cristiano Zanetti diminuiu e, aos 89, Mohamed Kallon empatou o jogo, prendendo a respiração do público, naqueles eternos e derradeiros minutos. Foi isso. O 3 a 2 no placar agregado colocou o Feyenoord na final. O rival seria o Borussia Dortmund, que brigava a ferro e fogo com Bayern de Munique e Bayer Leverkusen pelo título alemão.



No dia 08 de maio, justamente no estádio De Kuip, em sua casa, os holandeses receberam os aurinegros. Com a conquista da Bundesliga assegurada, o clube, que alinhava atletas da qualidade de Amoroso, Ewerthon, Tomáš Rosický, Jan Koller e Jens Lehmann, chegou a Roterdã na condição de favorito. No entanto, rapidamente o castelo de cartas dos germânicos se desfez. O experiente Jürgen Kohler derrubou Tomasson na área e foi expulso. Pierre van Hooijdonk assumiu a cobrança e abriu o marcador para os donos da casa. Pouco depois, o goleador holandês voltou a aprontar… De falta ampliou o placar, que persistiu até o intervalo, 2 a 0.

A despeito disso, a partida estava longe de uma decisão final e, logo na volta dos vestiários, Patrick Paauwe fez pênalti em Amoroso, que cobrou sem hesitações e diminuiu o placar. Três minutos depois, porém, Ono recuperou bola disputada no meio-campo, lançando Tomasson nas costas da defesa aurinegra. O dinamarquês fuzilou Lehmann e aumentou a vantagem do Feyenoord. Contudo, Koller ainda marcou um belíssimo gol para o Borussia, aos 58 minutos. Houve pressão dos alemães (até mesmo seu goleiro chegou a ir à área holandesa) pelo empate até o final do certame, mas o final daquela trajetória já estava marcado, só poderia ser um, e o 3 a 2 não mais saiu do placar.



“Duas vezes na partida, comecei a pensar que a vitória era nossa, mas foi muito difícil para nós. Queríamos colocá-los sob pressão, como o homem a mais, mas, de repente, tivemos pressão contra nós. Realmente tivemos que lutar até o final”, refletiu o treinador van Marwijk após o encontro, ao site da UEFA.

A vitória do Feyenoord ajudou a solidificar uma discussão muito cara na Holanda. Jogando sempre no 4-4-2, com Kalou de um lado, van Persie do outro e dois atacantes mais centralizados (embora ambos se movimentassem muito), o clube provava que o país não precisava viver arraigado à tradição do 4-3-3, consolidada com os êxitos e brilho dos anos 70. Para muitos, fugir à regra se tratava de verdadeira heresia, mas diante das constantes mudanças pelas quais passa o futebol, foi necessário. Em solo doméstico, o PSV já havia se dado conta disso e vivia bom momento, que se prolongaria pela década inteira.

Como se tornou comum após o sucesso do famigerado “Caso Bosman”, o time campeão da UEFA Cup começou a se desmembrar já na temporada seguinte, com a partida de Tomasson para o Milan. O desmanche, todavia, viria com o término da campanha de 2003/04, quando van Hooijdonk (que foi o artilheiro tanto da UEFA Cup quanto da Eredivisie em 2001/02) partiu para o Fenerbahçe, Kalou rumou ao Auxerre, Emerton ao Blackburn e Bosvelt ao Manchester City. Quem também saiu foi o treinador Bert van Marwijk. Para onde? O vencido Borussia Dortmund.
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