quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Influenciado por Jorge Mendes, Wolverhampton tenta voltar à Premier League

Na atualidade, é difícil que o fã do futebol inglês reconheça no Wolverhampton Wanderers um importante time da Terra da Rainha. No entanto, os Wolves já conquistaram o título da primeira divisão em três ocasiões, a FA Cup em quatro turnos e a League Cup duas vezes. O clube das West Midlands chegou até mesmo a uma final da UEFA Cup, perdendo-a, em 1972, para o Tottenham. É claro: tudo isso faz muito tempo e há cinco anos não se vê o famoso uniforme negro-alaranjado na disputa da Premier League. Porém, com o toque do megaempresário Jorge Mendes, já se vislumbra o retorno da equipe à elite do futebol bretão.



O português já pode ser visto como o segundo idioma da esquadra inglesa. Do Porto chegaram o treinador Nuno Espírito Santo, o jovem volante Rúben Neves, o zagueiro Willy Boly, e o atacante Diogo Jota – que pertence ao Atlético de Madrid, mas representou os Dragões no último ano. Já em seu desembarque, esses encontraram duas crias da base do Benfica, Hélder Costa e Ivan Cavaleiro, ambos também com passagem pelo Monaco. Do Rio Ave, chegou o beque Roderick Miranda, outro Encarnado em sua formação, e, do Al-Hilal, o brasileiro Léo Bonatini, outrora destaque no Estoril.

Nas palavras de Laurie Dalrymple, diretor dos Wolves, Jorge Mendes é apenas um “parceiro conhecido [...] alguém de quem, devido à amizade com os donos, ouvimos opiniões e pegamos conselhos”, como reiterou ao Guardian. No entanto, a mesma reportagem indicou que o empresário português e o grupo Fosun International, que comprou o clube inglês, têm negócios em comum e que Mendes foi o grande responsável pelo ingresso do referido conglomerado no futebol.

O periódico revela, ainda, que outra empresa controlada pelo presidente da Fosun comprou ações da Gestifute, de Jorge Mendes. Não é preciso falar muito mais para concluir que hoje há enorme influência do lusitano no Wolverhampton, certo?

A despeito disso, é provável que os torcedores do clube não estejam ligando nem um pouco para o mistério e a obscuridade que rondam essa parceria. Isso porque, controvérsia a parte, o time vem jogando o fino da bola, despontando como um dos fortes candidatos ao acesso. Segundo publica o jornal O Jogo, já existe até mesmo um canto para o treinador Nuno Espírito Santo vindo das bancadas do Molineux Stadium. Em 12 jogos, o time soma 26 pontos e lidera a Championship, com oito vitórias, dois empates e duas derrotas.

No topo da artilharia da competição já aparece o nome de Jota. O ponta esquerda formado no Paços de Ferreira já foi às redes sete vezes. Pouco abaixo, Bonatini também se destaca, com cinco tentos anotados, além de ter construído mais quatro assistências. Nesse quesito, aliás, o líder da competição é Cavaleiro, com cinco. Os Wolves têm o segundo melhor ataque do certame e a terceira melhor defesa, dados que os levam a ter o melhor saldo de gols do torneio. Não há margem para dúvidas de que o momento vivido pelo clube é especial.

Para alcançar tais êxitos, Nuno Espírito Santo entrou na onda percebida na Premier League e tem alinhado sua equipe no esquema tático 3-4-3, oferecendo liberdade para seus talentosos e rápidos atacantes. Pelo caminho, já deixou importantes rivais, como o Aston Villa. É de se ressaltar, todavia, que quando enfrentou Cardiff e Sheffield United, os dois times que o perseguem na tabela, perdeu. Apesar disso, como é fácil perceber pelo prelúdio deste texto, trata-se de uma equipe em formação, que incorporou atletas novos, e tem agradado o treinador português:

“Foi um resultado muito bom e um desempenho fantástico – parabéns aos garotos! Penso que jogamos um futebol muito bom – estivemos totalmente em controle do jogo [...] Todos estão evoluindo, quem entra no time está aproveitando sua chance e estamos crescendo juntos”, disse o comandante ao site oficial do clube, após o triunfo contra o Aston Villa.



Alguns dados ajudam a entender como o time tem jogado. Agressivo, é o segundo com maior número de desarmes por jogo, o sexto que mais interceptações faz e o sexto que menos faltas comete. Ou seja: tem índices de aproveitamento na recuperação da bola elevados. Além disso, é o quarto com melhor aproveitamento de passes, com 80,8%, também o quarto com mais passes curtos ofertados, em média, e o quinto que menos aposta nas bolas longas.

É fácil perceber diante desse quadro que o Wolverhampton procura recuperar a bola a todo custo e trabalhá-la com cuidado e volume de jogo, sem precipitações e buscando evitar a prática do famigerado jogo de chutões, que ainda hoje caracteriza o futebol inglês nas divisões inferiores. O time também aposta na rapidez de seus atacantes, sendo responsável pelo maior número de gols marcados em contragolpes, até o momento. É, em síntese, uma equipe, que pressiona muito seus rivais e gere a bola conforme a situação: contra defesas fechadas, trabalha-a e cria o espaço; quando tem terreno para correr, promove contragolpes em velocidade.



Com jogadores jovens e habilidosos, que ainda precisam se provar no cenário do futebol mundial, o Wolverhampton larga bem na temporada e se lança como um candidato ao acesso à Premier League. A influência de Jorge Mendes é indiscutível, percebe-se seu toque em várias negociações concluídas pelo clube, o que inclui o treinador (que foi seu primeiro cliente da carreira). Entretanto, até agora, vem se obtendo êxito. Na esteira, do sucesso não se questiona muito o que é feito nos bastidores. Certo ou errado, no momento, o torcedor dos Wolves só quer comemorar, pois a cada rodada vai se tornando mais concreta a chance de sair do ostracismo.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Carlos Soler, a joia de um Valencia que se reinventa

As duas últimas temporadas do Valencia registraram os piores resultados dos Che desde a temporada 1987/88. Nesse período, o clube viveu de tudo, foi campeão espanhol duas vezes, levantou duas taças da Copa del Rey, conquistou uma UEFA Cup e foi duas vezes vice-campeão da UEFA Champions League. Diante disso, nota-se quão decepcionantes foram os citados últimos anos. No entanto, o time buscou uma solução rápida. Ainda antes do final da campanha de 2016/17 fechou contrato com o treinador Marcelino Toral, o responsável pelo ressurgimento do Villarreal. Além disso, naquele momento, já havia no mínimo um motivo para se acreditar no renascimento valenciano, o despontar do meia Carlos Soler.



É conhecida a capacidade do Valencia de produzir bons jogadores, basta que se citem nomes como Isco e David Silva para afirmar essa realidade. Esse é o patamar de qualidade que, aos 20 anos, Soler aspira chegar. Qualidade técnica para tanto já se nota no garoto que desde os sete anos defende a camisa blanquinegra. Curiosamente, em seu início, tratava-se de um atacante de velocidade, faro de gol e qualidade para dar o último passe, como é bem descrito pelo próprio clube em seu site oficial. Hoje, afirmado como meio-campista, vai revelando qualidade para fazer história com a camisa de seu time.

Carlos ascendeu aos profissionais em momento complicado. O Valencia viveu completa desordem na última temporada e a oportunidade acabou vindo em meio ao caos. Mostrando a maturidade de um veterano, Soler foi conquistando seu espaço no time rapidamente. Fez 23 partidas em seu ano de debute, 19 delas como titular. Não precisou de tempo para se adaptar, embora tenha entrado em uma verdadeira fogueira. Os Che tiveram três treinadores na última campanha e decepcionaram. O jovem foi a centelha de esperança em dias melhores que surgiu em tão difícil contexto.

Seu desempenho foi, por isso, recompensado com a convocação para a Euro Sub-21 de 2017, ao final da temporada europeia. Era o quarto mais moço da relação do treinador Albert Celades e um dos dois que nunca havia representado a Seleção Espanhola em tal escalão. Diante desse quadro, foi naturalmente reserva, mas, convenhamos, não há desprestígio algum em ser suplente de uma Fúria que alinhou, em seu meio-campo Marcos Llorente, Saúl Ñíguéz, Dani Ceballos e Marco Asensio, e ainda tinha disponíveis peças como Mikel Merino ou Denis Suárez.

Na própria época do chamado, o comandante hispânico falou que era, sim, uma surpresa a inclusão de Soler, mas se tratava de um prêmio por sua forte arrancada como profissional:

“É o único jogador que não esteve conosco até agora. É a maior novidade, mas gostamos muito dele e gostamos há muitos anos, pelo que faz em seu clube. Pensamos que pode nos ajudar e confirmar as expectativas sobre ele. Não podemos ignorar a realidade do dia a dia e Soler é um desses casos”, disse Celades em entrevista coletiva após a convocação.

Facilidade na condução de bola, corrida com a cabeça erguida e acurácia nos passes, tanto longos quanto curtos, são algumas das marcas do novo xodó da torcida do Valencia. Na atual temporada, em oito jogos, já colaborou com quatro assistências e anotou um tento. Isso tudo não sendo um jogador tão ofensivo, expondo na qualidade para organizar o jogo o que tem de melhor. É mais um meia marcado pelas qualidades que consagraram o futebol espanhol nos últimos tempos.

Curiosamente, com a chegada de Marcelino Toral e de reforços como Gonçalo Guedes e Geoffrey Kondogbia, Soler tem atuado, com frequência, como meia pelo lado direito. Só atuou pelo miolo da meia-cancha quando o comandante não pôde contar com o mencionado Kondogbia, o qual forjou parceria importante com o capitão Dani Parejo. Esse é outro ponto que conta a favor de Soler. Dos primeiros passos como atacante à afirmação como pivote e uso alternativo pelo flanco destro, o valenciano tem oferecido um vasto leque de possibilidades, o qual tem sido muito bem utilizado.

A expectativa no desenvolvimento e futuro de Soler é grande. Como haveria de ser diferente? O garoto entrou no time em momento de profunda necessidade, correspondeu e hoje é titular absoluto de uma equipe que se acertou. Sim: o Valencia de Marcelino é um time que funciona e prova maior não há do que os próprios resultados.

Nesse momento, em que o brilho de Simone Zaza, Parejo, Guedes e Rodrigo tem sido visto, o time já balançou as redes 21 vezes em oito jogos, número que torna o clube o segundo melhor ataque da competição. Aliás, os Che são justamente os vice-líderes do Campeonato Espanhol até o momento e, junto a Barcelona e Atlético de Madrid, o único time invicto. Soler entrou em momento de dificuldade, foi bem e colhe os frutos hoje, jogando em um time acertado e ganhando ainda mais holofotes.

A forma como Carlos se adaptou bem ao futebol profissional foi tão impressionante que até rivais passaram a o elogiar. Em março último, quando se adentrava a fase final do Campeonato Espanhol de 2016/17, Diego Simeone, treinador do Atleti, não conseguiu não enaltecer o futebol do garoto:

“Gosto muito do menino Soler, no meio, é um jogador com juventude, valentia, desenvoltura, que deu jogo e muita chegada de segunda linha ao time”, disse em entrevista coletiva que antecedeu o segundo jogo entre os madrilenos e o Valencia, na campanha 2016/17.

Soler apareceu como surpresa positiva em momento duro, conquistou espaço e hoje é uma joia de brilho raro e intenso a cintilar em meio a um grupo que vem se destacando e fazendo o torcedor valenciano sonhar grande - como outrora, em um tempo não tão distante, fizeram times comandados pela qualidade de gente da estirpe de Pablo Aimar, Silva e David Villa.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Harry Winks, mais um atleta com a marca de Pochettino

No último domingo (08), o treinador da Seleção Inglesa, Gareth Southgate, promoveu a estreia de mais um jovem talento do país. Aos 21 anos, o meio-campista Harry Winks, que vem sendo maturado no Tottenham, ganhou oportunidade diante da lesão de Fabian Delph. Atuando ao lado de Jordan Henderson, foi bem, ajudando o jogo inglês a fluir melhor. Menos de um ano antes da Copa do Mundo, o garoto cujo desenvolvimento vem sendo cuidadosamente medido por Mauricio Pochettino, o comandante dos Spurs, pode ter colocado uma pulga atrás da orelha de Southgate.



Embora estivesse apenas estreando, não sendo sequer titular habitual de seu clube, Winks mostrou enorme personalidade com o manto do English Team. É bem verdade que, tendo representado as cores de seu país nos escalões sub-17, 18, 19, 20 e 21, a alva camisa da Terra da Rainha não lhe é estranha, o que não diminui a grandeza de seu debute. O atleta foi quem mais passes ofereceu na partida inteira, com 99 e um acerto de 96%. No entanto, estes toques poderiam ter sido meramente burocráticos, passes laterais sem qualquer dificuldade. Não obstante, tal não foi a realidade.

O meio-campista mostrou desenvoltura em campo. Foi, ao lado de Marcus Rashford, o atleta que mais criou oportunidades de gol em todo o encontro, com três. Isso, repise-se, atuando em uma posição interior, atrás de Alli, do citado Rashford e do centroavante Harry Kane. Além disso, ao lado de Henderson, foi, com 9,6%, o jogador que mais teve a posse da bola durante o encontro contra a fraca Seleção da Lituânia. Como se já não fosse o bastante, Winks se aventurou ainda mais ao ataque, chutando duas bolas à meta do goleiro Ernestas Setkus. O garoto foi, para muitos, o destaque da partida.

A estreia, em si, é um prêmio particular para Pochettino. Winks foi o 12º jogador a, sob a batuta do treinador argentino, estrear pelos Three Lions. Nos tempos em que comandou o Southampton, emplacou as convocações de Luke Shaw, Jay Rodríguez, Calum Chambers, Rickie Lambert, Adam Lallana; já pelo Tottenham, levou Eric Dier, Kieran Trippier, Harry Kane, Ryan Mason, Dele Alli, Danny Rose e, agora, Harry Winks. Certamente, há algo de especial no trabalho desenvolvido pelo técnico. Na última semana, o recém-aposentado Lambert falou sobre o comandante:

“Quando você vê Harry Kane, entende porque ele está tão bom agora. Mauricio viu Harry, trabalhou as suas deficiências e o melhorou como um jogador. Ele [Pochettino] trabalha muito com os detalhes. O ano em que joguei sob o comando de Mauricio foi o melhor futebol que já joguei. Tendo um ataque com Adam Lallana e Jay Rodríguez, fomos brilhantes como time, indo à frente”, disse ao Daily Mail.

Certa vez, Pochettino usou de sua própria experiência como jogador (tempo em que foi comandado por ninguém menos que Marcelo Bielsa no Newell’s Old Boys) para explicar seu apreço pela utilização de jovens: “jovens têm fome, energia e potencial e eles querem mostrar que têm qualidade suficiente, é perfeito, especialmente se você tem bons colegas, que podem lhe dar bons conselhos. Eu tinha 18 anos quando venci meu primeiro título pelo Newell’s Old Boys”, revelou ao Guardian.

Pochettino foi lançado ainda muito jovem e teve um mestre que estuda os detalhes à exaustão. Sabe, pois, a importância das oportunidades e do trabalho com afinco como elemento básico para a evolução individual de cada atleta. Talvez seja exatamente esse o motivo pelo qual se dedica tanto ao lançamento e amadurecimento de seus garotos. É claro também que, embora o Tottenham tenha dinheiro para fazer investimentos, esse tem limites e não é possível fazer loucuras, o que aumenta a necessidade de se aproveitar os produtos que vêm da base.

Quanto a Winks, o técnico argentino tem constantemente elogiado o garoto, que vem ganhando a cada dia mais espaço na sua esquadra, após ter se recuperado de grave lesão no tornozelo. Chamado por alguns de Little Iniesta, o inglês vai se formando um meio-campista completo, como bem descreve Mauricio:

“Para mim, ele é o meio-campista perfeito, que pode ser box-to-box e volante [...] Ele tem a qualidade e a capacidade para jogar, cumprir as demandas do jogo e lê-lo [...] É muito inteligente [...] Winks é completamente diferente de nossos outros meio-campistas [...] Ele pode ajudar a abrir defesas? Sim”, disse o comandante em entrevista coletiva que antecedeu a partida contra o Huddersfield.

Na Premier League, a reserva ainda é a tônica das aparições do jovem. Todavia, não há nenhuma dúvida de que já é visto como alternativa que pode ser utilizada em qualquer momento e circunstância. A facilidade que tem para manejar a bola, a distribuir e se movimentar o torna peça de valia. Certamente, o treinador inglês percebeu isso na última Data FIFA. Sendo a tendência atual o ganho de maiores chances no Tottenham, Winks não deve ser descartado como possibilidade real para o English Team, mesmo porque se tem algo que Southgate não pode duvidar é de que ele tem trabalhado duro diariamente.

Mais uma vez, um garoto começa a se consolidar no futebol pelas mãos de Pochettino. Nada disso pode ser atribuído ao acaso. Com moderação, tempo de adaptação e ética de trabalho, paulatinamente Winks vai construindo sua reputação como futebolista. Sem deixar de ser grato ao maior responsável por essa transição:

“Ele [Pochettino] é um grande treinador, mas é um grande homem também. Ele é alguém que sempre está lá para lhe dar conselhos e espalhar confiança pelo campo. Ele dá confiança a todos, para ir lá e mostrar o que têm. Para um jogador, isso é o mais importante [...] Ele não só me ajudou física e tecnicamente, ele me ajudou mentalmente e isso é algo que nunca poderei lhe agradecer o suficiente”, disse o jovem ao Guardian.

Enquanto o jogador vai ganhando holofotes, seu treinador segue, incansavelmente, trabalhando. Não fosse essa a realidade, não haveria tantos expoentes aptos a confirmar a competência do argentino. Harry é o ícone atual de um processo que tem seus primeiros sucessos com Lallana e passou por gente como Kane e Alli, até chegar a si. Winks é mais um produto com o “selo Mauricio Pochettino de qualidade”. Quem será o próximo?

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

As vicissitudes da carreira de Igor Belanov

O mais tradicional prêmio individual da história do futebol é, indiscutivelmente, o Ballon d’Or, láurea oferecida pela revista France Football. Originalmente entregue apenas a jogadores europeus, foi recebido por três diferentes mãos soviéticas em sua história. Duas dessas são constantemente reverenciadas: Lev Yashin e Oleh Blokhin. No entanto, o terceiro elemento não goza desse mesmo estatuto. Saindo de baixo e terminando a carreira no ostracismo, Igor Belanov viveu também um período de brilho intenso, em uma carreira de muitas reviravoltas.



De origem ucraniana, mas representante da União Soviética, Belanov começou sua carreira na cidade de Odessa, banhada pelo Mar Negro. Defendendo as cores do modesto SKA Odessa, clube cuja maior glória é um título da copa que precedeu a Copa da Ucrânia, ganhou rápido destaque local e passou a representar o Chornomorets, maior clube da região. Vivia-se, então, a transição entre os anos 70 e 80.

A partir de então, passou a disputar a Soviet Top League, mas sem qualquer chance de título. Os campeonatos que disputou pelo clube tiveram como vencedores Dynamo Kyiv, Dinamo Minsk, Dnipro e Zenit. No entanto, em 1984, o Chornomorets terminou o ano em quarto lugar, seis pontos distante do campeão, apenas. Igor chamou atenção e, como é praxe na Ucrânia, foi observado e contratado pelo Dynamo Kyiv, que havia trazido de volta o icônico treinador Valeriy Lobanovskyi. Iniciava-se, ali, o segundo de três atos vitoriosos do treinador no comando kievano e Belanov seria parte importante do processo.

Atuando ao lado do já veterano, mas não menos excepcional, Blokhin, brilhou. Meia-atacante de virtudes atléticas destacadas e capacidade de finalização privilegiada, rapidamente começou a somar grandes atuações. Em sua primeira Soviet Top League com o Dynamo, em 1985, foi o vice-artilheiro do clube, com 10 tentos em 31 jogos. De quebra, levou para casa seus primeiros troféus, conquistando campeonato e copa soviéticos. Não obstante, não foram essas conquistas que começaram a construir a reputação internacional do craque.

O título da Soviet Cup carimbou o passaporte do Dynamo Kyiv para a disputa da UEFA Cup Winners’ Cup de 1985/86. Já tendo conquistado o certame disputado em 1974/75, os ucranianos (e, especialmente, Blokhin e Lobanovskyi, dois remanescentes) buscavam o bicampeonato. Assim, depois de passar por Utrecht, Universitatea Craiova, Rapid Wien e Dukla Prague, chegaram a final, que seria disputada em Lyon e teria o Atlético de Madrid como adversário.

Comandado por Luis Aragonés, o time espanhol apostava muitas de suas fichas na figura do atacante uruguaio Jorge da Silva. Todavia, os Colchoneros não foram páreo para o poderio técnico-físico-tático do Dynamo, que impôs três bolas a zero no score daquela noite. Belanov foi, ao lado de Blokhin, Oleksandr Zavarov e Frank Lippmann (do Dynamo Dresden), um dos artilheiros do torneio, com cinco gols anotados. Não é difícil concluir, ademais, que nesse período o odessense chegou à Seleção da URSS e disputou a Copa do Mundo de 1986.

No México, viveu muitas emoções. Tendo enfrentado França, Hungria e Canadá no Grupo C do Mundial, os soviéticos avançaram em boa forma, assegurando o primeiro lugar. A despeito disso e contra a maioria dos prognósticos, a URSS pereceu diante da boa geração belga de então, cuja base era formada por atletas do competente time do Anderlecht. Porém, não sem uma dose adicional de tristeza para Belanov, autor de um hat-trick na partida que terminou 4x3 para os Rode Duivels, na prorrogação. 

Campeão europeu com o Dynamo e autor de quatro gols na Copa do Mundo, Belanov passou a ser tido em alta conta e, naquele que se confirmou o ano de Diego Maradona, foi eleito o Ballon d’Or de 1986, uma vez que não eram admitidos jogadores de outros continentes, ainda que atuassem na Europa. Bateu Gary Lineker e Emilio Butragueño. Escolha surpreende a parte, o prêmio coroou o especial momento do jogador.



Sua trajetória seguiu sendo exitosa com a camisa do clube kievano. À sua estante, Belanov adicionou o título soviético de 86 e a Soviet Cup de 87. No entanto, viveu outro ponto baixo em sua carreira. Importante selecionável, disputou a Euro de 1988.

Líder do Grupo 2 da competição, batendo Holanda e Inglaterra e empatando com a Irlanda, a URSS avançou às semifinais e eliminou a Itália, que apostava muitas de suas fichas na dupla da Sampdoria, formada por Roberto Mancini e Gianluca Vialli; chegou à final, o que não acontecia desde 1972. Novamente, teve de confrontar a Holanda, naquele que se tornou um jogo inesquecível.

De um lado, o icônico Rinus Michels comandava o talento de Frank Rijkaard, Ruud Gullit e Marco van Basten; do outro, Lobanovskyi, de volta ao comando soviético, alinhava Belanov e o goleiro Rinat Dasaev. Dessa vez, a Oranje venceu, van Basten marcou um dos gols mais fantásticos de todos os tempos a mais um conto do ludopédio foi escrito. Entretanto, esquece-se, muitas vezes, um trecho dessa história: Belanov colocou uma bola na trave do goleiro Hans van Breukelen e, pior, desperdiçou uma penalidade máxima. Sua carreira ainda daria outra reviravolta.

Depois de flertar com o Osasuna, o atacante fechou contrato com o Borussia Mönchengladbach, em 1989; custou o equivalente a 132 milhões de pesetas, conforme noticiou o jornal El País. Era ainda um atleta bem cotado: três anos antes havia sido eleito o melhor jogador da Europa, conquistara títulos com seu clube e fora finalista da Euro de 1988. Sucesso garantido? Não mesmo. Belanov não foi sombra de seu melhor na Alemanha. O jornalista Ian Farrell, na revista inglesa When Saturday Comes, escreveu que o soviético se mostrou “despreparado para a vida no oeste e sem o comando de Lobanovskyi”.

No novo país, pouco jogou e, consequentemente, quase não marcou gols. Mas não foi só isso: em 1991, teve seu contrato rescindido, após sua esposa ter se envolvido em furto a uma loja. Do Gladbach, passou ao Eintracht Braunschweig, clube em que disputou a segunda e a terceira divisões germânicas. Ainda retornou brevemente ao Chornomorets e encerrou a carreira, melancolicamente, no Metalurg.

Lembrado por muitos como o maior outsider a vencer o Ballon d’Or em toda a história do prêmio, Igor Belanov foi um grande jogador, mas acima de tudo protagonizou uma carreira com altos representativos e baixos igualmente impactantes. É mais um personagem cuja memória não se separa da história da URSS. O sucesso individual baseado na coesão coletiva do Dynamo Kyiv, o fato de ter sido um expoente das virtudes soviéticas e a saída tardia e malsucedida para a Alemanha só reiteram que a carreira de Belanov carrega junto a si muito mais elementos do que a simplesmente a trajetória de um futebolista.

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