segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A afirmação de Sergi Roberto

É usual que quando pensemos em jogadores que se mostram valiosos a seus treinadores por serem versáteis, concluamos que tais peças não são exímias em nenhuma das posições em que atuam. Em boa parte desse tipo de caso, a premissa é verdadeira, mas em Barcelona tem se notado um exemplo que não se amolda a ela. Meio-campista central em sua origem, o catalão Sergi Roberto vem suprindo muito bem a lacuna deixada por Dani Alves na ala direita Blaugrana, afirmando-se no time de Luis Enrique.



Aos 24 anos, o jogador finalmente vem mostrando verdadeira utilidade para a esquadra Culé. Assim, tem recebido o necessário reconhecimento. Outrora apontado como uma promessa destinada a ser lembrada dessa forma e, fatalmente, deixar o clube em algum momento, Sergi deu a volta por cima e a cada dia vem mostrando maior importância. Se a concorrência por uma vaga no meio-campo é pesadíssima no Barcelona, a da lateral direita, por onde vem brilhando, não o é e o atleta vem agarrando com unhas e dentes suas oportunidades por esse setor.

Tendo dado seus primeiros passos no futebol profissional do Gimnástic de Tarragona, o jovem chegou a ser disputado por Real Madrid e Barcelona quando garoto. Contudo, aos 14 anos fez sua escolha e partiu para La Masía. Na capital catalã cresceu, desenvolveu-se e já na temporada 2010-11 ganhou suas primeiras oportunidades como profissional, sem sequer ter 20 anos completados, sendo lançado por um certo Pep Guardiola.

Apesar disso, até 2013-14 seguiu sendo mais utilizado pelo Barcelona B e quando finalmente foi integrado ao quadro de profissionais do clube não mostrou grande futebol. Foi somente na última campanha, quando passou a ser usado como lateral direito que o atleta deslanchou. Assim, hoje sem a concorrência de Dani Alves, Sergi vai se afirmando, até mesmo porque Aleix Vidal, com quem disputaria posição, ainda não encontrou no Camp Nou o bom futebol que levou o clube a contratá-lo junto ao Sevilla.

Contestado em algum momento (assim como o treinador Luis Enrique por apostar em sua adaptação pela lateral), Sergi Roberto vem atuando de forma extremamente consistente, afastando a imediata necessidade de uma nova contratação para a ala direita. Como já jogava Alves, o espanhol tem muita liberdade para avançar ao ataque e o tem feito com enorme qualidade. Impressiona também o sendo de posicionamento que demonstra, sobretudo sendo meia por formação.

Além disso, tendo sido canterano do Barça e, portanto, sendo treinado por Luis Enrique no time B catalão, o meia-lateral entende com propriedade a proposta de jogo de seu atual-velho comandante, tendo qualidade na troca de passes e na pressão exercida pelo time, dando, ademais, muita profundidade ao jogo blaugrano.

"Jogamos muito bem pelas alas e isso é muito importante quando se tem pela frente equipes que se fecham atrás (...) Não há um lateral direito melhor para o Barcelona, disse Luis Enrique, após a goleada catalã contra o Sporting Gijón.

Tendo vivido muitos anos à sombra de Xavi, com quem era comparado e apontado como modelo a ser reproduzido, Sergi vem impedindo, com sucesso, que a torcida Culé sofra com a ausência de Daniel Alves, por muitos anos importante peça do time, tanto pela qualidade individual quanto pelo bom entendimento que desenvolveu com Lionel Messi. A desconfiança que permeou sua face durante bom tempo, a aparente descrença em seu próprio talento e a pressão vinda de comparações injustas não têm sido mais vistas.

Neste início de temporada, no Campeonato Espanhol, nenhum outro jogador do Barcelona criou mais oportunidades de gol que o jovem catalão, com 13, quatro destas convertidas em assistências. Isso tudo mantendo uma média global de 88% de aproveitamento nos passes. Mostrando esse desempenho, o atleta ganhou suas primeiras oportunidades com a Seleção Espanhola.

“Estou jogando quase sempre na lateral. Vou ter mais oportunidades nessa posição. Tentarei dar meu máximo (...) Onde eu puder jogar mais minutos, será melhor para mim. Estou desfrutando cada vez mais minha nova posição”, disse o atleta ao AS no início de setembro.

Titular praticamente indiscutível no time de Luis Enrique, pedra angular de sua ressurreição, Sergi Roberto é hoje um jogador novo em relação ao que chegou das categorias de base do Barça. Não só pelo novo posicionamento, mas muito mais pela confiança em si mesmo e no desenvolvimento de seu futebol.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Times de que Gostamos: Ipswich Town 1980-1981

Após contar um pouco da história do Newcastle de meados da década de 90, que chegou perto de conquistar a Premier League em mais de uma ocasião, mas bateu na trave, trago um pouco sobre o Ipswich Town, que, a despeito de uma longa estadia na segunda divisão inglesa no presente, venceu a UEFA Cup no início dos anos 80 e quase conquistou o título inglês.


Na primeira linha: Wark, Beattie, McCall e O'Callaghan;
Na linha central: Bobby Robson (treinador), Mürhen, Mariner, Brazil, Thijssen, Hunter, Ferguson (assistente técnico);
Assentados: Butcher, Osman, Sivell, Mills, Cooper, Burley, Gates.


Time: Ipswich Town

Período: 1980-1981

Time base: Cooper; Mills, Osman, Butcher, McCall (Burley); Wark, Thijssen, Mühren; Gates; Brazil e Mariner. Téc.: Bobby Robson

Conquista: UEFA Cup

O período compreendido entre meados dos anos 70 e a Tragédia de Heysel, que impôs aos clubes ingleses pesada suspensão de participação nas competições europeias – o que durou cinco anos –, foi extremamente frutífero para o futebol do país; Grandes times de Liverpool, Nottingham Forest, Aston Villa e Tottenham viveram momento excelente. Nesse contexto, um clube modesto na cidade de Ipswich, localizada no nordeste inglês, também deu as caras.

Trabalho caseiro, de longo prazo e com tempero holandês

Treinado pelo famoso Bobby Robson, que chegara à equipe em 1969 e permaneceria até 1982, quando assumiu a Seleção Inglesa, o time tinha um misto de características que o tornava único à época. A despeito do estilo mais direto, pragmático e objetivo comum aos atletas formados nas Ilhas Britânicas, havia uma pitada de talento holandês no meio-campo dos Tractor Boys.

Membro do fantástico Ajax dos anos 70, o holandês Arnold Mühren chegara em 1978 à Inglaterra e era o jogador mais criativo do time. Próximo a si contou com a presença de um compatriota: Frans Thijssen, seu ex-companheiro no Twente e, ocasionalmente, na Seleção Holandesa. A dupla acrescentou uma dose de fluidez a um jogo que já era extremamente consistente. Não obstante a presença dos neerlandeses, na temporada 1980-81, o jogador de maior destaque do meio acabou sendo o volante escocês John Wark, artilheiro máximo da equipe na temporada em comento, com 36 tentos.

É de se ressaltar a interessante postura adotada pelo clube. Nos 13 anos em que dirigiu o Ipswich Town, Bobby Robson contratou apenas 14 atletas, tendo sempre preferido apostar em seus jovens prospectos (campeões da FA Youth Cup em 1973 e 1975).

Em 1980-1981, o time que já havia conquistado um título da FA Cup (em 1977-78) protagonizou uma bela campanha na UEFA Cup e conquistou-a, alcançando o pico máximo de um trabalho longevo e muito bem executado.

Para poder disputar a competição continental, primeiramente, o clube teve que fazer uma campanha de respeito em solo inglês. Assim, a despeito do bom momento de outras equipes, conseguiu um honroso terceiro lugar na Football League, ficando sete pontos atrás do Liverpool, o campeão.

Campeão da UEFA Cup e vice-inglês

Já na disputa vitoriosa da competição europeia, o Ipswich teve pela frente o grego Aris Thessaloniki, o Bohemians Praha, de Antonín Panenka, o Widzew Lódz, que à época possuía alguns jogadores na Seleção Polonesa (dentre eles Zbigniew Boniek), o Saint-Étienne do craque holandês Johnny Rep e do gênio francês Michel Platini, o Colônia e, por fim, o melhor time do AZ Alkmaar de todos os tempos, que viria a conquistar a Eredivisie na mesma temporada.

Treinados por Robson, os campeões atuavam, basicamente, em um esquema 4-3-1-2, com uma defesa tradicional, com dois beques e dois laterais, alinhando três meias capazes de se alternar nas funções de criação e marcação, um pouco mais avançado outro meia que era praticamente um atacante e, à frente, dois atacantes com muito poder de fogo. Em 2003, em entrevista à revista Four Four Two, Bobby Robson explicou o formato de seu time:

"Jogávamos com dois atacantes, sem pontas, com Eric Gates atrás dos dois da frente, dois meias semiabertos, com Arnold Mühren e Frans Thijssen, e Johnny Wark na função de contenção".

Vale mencionar também que o clube chegou a beliscar o título inglês em 1980-81, terminando a competição em segundo lugar, atrás do Aston Villa, que viria a conquistar a European Cup no ano seguinte. Prova do grande equilíbrio da equipe é o fato de o mesmo ter tido o melhor ataque do Campeonato Inglês, com 77 gols, e a quarta melhor defesa com 43 sofridos, atrás dos 40 dos Villans, e dos 42 de West Bromwich, 4º colocado, e Liverpool, 5º.

Um elenco histórico e vitorioso

No gol, os Blues contavam com a importante referência de Paul Cooper (foto). Arqueiro formado no Birmingham, o inglês chegou ao Ipswich em 1974, permaneceu até 1987 e se transformou em um dos jogadores com mais aparições pelo clube em toda a sua história. Conhecido pela especial precisão na defesa de penalidades (defendeu oito de 10, na temporada em 1979-80), fez mais de 440 partidas pelo clube na liga inglesa e mais de 550 considerando todas as competições. É membro do Hall of Fame do time, assim como quase todo o restante de seus companheiros do memorável início da década de 80.

Usualmente na lateral esquerda, mas também pela direita em caráter eventual, o reservado Mick Mills (foto) foi o capitão da equipe, o principal apoio moral do elenco. Conhecedor do clube, que o formou e a quem defendeu entre 1966 e 1982, o inglês era a voz do treinador Bobby Robson em campo. Jogador importante da Seleção Inglesa, que representou mais de 40 vezes, é o recordista de partidas pelo Ipswich, com 741.

Na outra lateral a titularidade variava. Meio-campista defensivo de origem, Steve McCall era uma alternativa para a esquerda, deslocando Mills para a direita. No entanto, a principal opção era escocês George Burley, este, sim, originalmente ala pela direita. Entretanto, em 1980-81 sofreu com muitos problemas de lesões e atuou menos do que o esperado. Ambos são jogadores históricos do clube, tendo sido formados na base do mesmo, defendendo-o por longo período – Burley entre 1973-85 e McCall entre 1979-1987.

A zaga titular do time foi composta por outros dois atletas criados no próprio Ipswich Town. De um lado, atuou Russell Osman; do outro, Terry Butcher. Com menos de um ano de idade de diferença entre si, os beques trouxeram da base impressionante entrosamento e características diferentes que se completavam. O primeiro era mais baixo (1,83m) e mais rápido; por sua vez, o outro tinha a seu favor impressionante estatura (1,93m), força e precisão no jogo aéreo, inclusive no ofensivo. Ambos tiveram trajetória na Seleção Inglesa, embora Butcher tenha atuado por muito mais tempo, disputando três Copas do Mundo.

Tristemente, a dupla de zagueiros só obteve todo o seu espaço em razão das muitas e constantes lesões de Kevin Beattie, lembrado como um dos melhores defensores já produzidos pelo futebol inglês e vencedor do prêmio de melhor jovem da Inglaterra em 1974. Em 1981, cansado de seus muitos problemas físicos, pendurou as chuteiras, aos 27 anos. Para Bobby Robson, Beattie foi um dos melhores jogadores ingleses com que trabalhou: “Shearer e Bryan Robson foram meus melhores jogadores ingleses, embora pudesse ter sido Kevin Beattie, não fossem as lesões”, disse ao DailyMail, em 2007.

Na meia-cancha residiam as maiores virtudes dos Tractor Boys. Talento, poder de decisão, força, capacidade para ditar o ritmo do jogo – tudo isso era visto na intermediária do Ipswich.

Como dito, mais recuado atuou simplesmente o artilheiro do time na temporada: John Wark (foto). O volante não era dos jogadores mais rápidos e nem, tampouco, dos mais técnicos. Entretanto, possuía grande noção tática, força de espírito e perícia nas finalizações. Tamanha era sua compreensão do jogo, que chegou a ser improvisado tanto como zagueiro quanto como atacante, tendo sido, ainda, eleito o melhor jogador do time em quatro anos distintos. Cria da casa, defendeu o Ipswich em três períodos distintos, tendo tido passagens por Liverpool e Middlesbrough.

Postado imediatamente à frente de Wark atuou o duo holandês da equipe: Mühren e Thijssen (foto). Enquanto o primeiro chamava atenção pela impressionante visão de jogo, com muita qualidade no passe, o segundo, eleito o melhor jogador do ano na Inglaterra em 1981 pela PFA (Professional Footballers’ Association), destacava-se pela movimentação constante e destreza com a bola em seus pés. Os jogadores tiveram papel crucial na mudança de estilo de jogo da equipe, que, a partir de suas chegadas, deixou de lado a ligação direita e passou a trabalhar melhor a bola no solo. Em 1982, Mühren partiu para o Manchester United e, em 1983, Thijssen para o Nottingham Forest.


Curiosamente, com já foi ressaltado, o Ipswich Town não atuava nem no 4-4-2 tradicional, com duas linhas de quatro atletas, e nem, tampouco, no 4-3-3, com pontas. Muito disso se deveu à atuação de Eric Gates, que se postava a frente dos meias e atrás dos atacantes. Mais um dos vários atletas formados no Estádio Portland Road, o meia-atacante tinha muita habilidade e finalizava bem de média distância. Até a chegada da dupla vinda dos Países Baixos, o inglês mostrava dificuldade para entrar no time, uma vez que não era um meio-campista e também não atuava tão bem mais adiantado. Com a parceria de Mühren e Thijssen, e a mudança de esquema tático e estilo de jogo, Gates desenvolveu ótimo futebol e se afirmou como titular.

Na ponta final do time atuou uma dupla muito prolífica e de grande sucesso. Mais veloz, um pouco mais técnico e dono de maior capacidade para se movimentar que seu parceiro, o escocês Alan Brazil (mais uma cria da casa) foi outro bom jogador do time dos Blues, tendo sido eleito o melhor jogador do time no ano de 1982. É interessante ressaltar que, posteriormente, atuou em Tottenham e Manchester United, mas nunca mais viveu dias de grande sucesso. Seu parceiro, o alto e forte Paul Mariner, era o típico centroavante inglês, o jogador alvo. Excelente cabeceador e um finalizador digno com os pés, era um matador e chegou a ganhar muitas oportunidades na Seleção Inglesa. Em seus 337 jogos pelo Ipswich, marcou 136 gols, média de 0,4 tento por partida.

O time do nordeste da Inglaterra era de fato muito bom, mas só existiu em função da presença de Bobby Robson, ou melhor, Sir Bobby Robson (foto). Com trabalho extremamente longevo e bem estruturado, aposta em jovens e contratações pontuais de mercados menos movimentados, o treinador conseguiu transformar o modesto clube. 

Em 1969, quando chegou ao time, este havia acabado de retornar da Segunda Divisão. Quatro temporadas após, já disputava títulos. Em 1982-83, a primeira campanha sem o treinador, que marchou para o English Team, o time já foi apenas o nono colocado, contrastando claramente com os dois últimos anos sob sua direção, em que foi vice. 

Robson foi indiscutivelmente o grande responsável pelo sucesso do time, pela forma de trabalhar, por ter percebido a necessidade de mudança ao contratar sua dupla de holandeses e por ter conduzido um grupo de jovens formados no próprio clube aos postos mais altos da Europa.

Ficha técnica de alguns jogos importantes nesse período:

Oitavas de final da UEFA Cup 1980-1981: Ipswich Town 5x0 Widzew Lódz

Estádio Portman Road, Ipswich

Árbitro: Robert Wurtz

Público 20.445

Gols: ’22, ’45 e ’78 Wark, ’42 Brazil, ’70 Mariner (Ipswich Town)

Ipswich: Cooper; Mills (Beattie), Osman, Butcher, McCall; Wark, Mühren, Thijssen; Gates; Brazil (O’Callaghan) e Mariner. Téc.: Bobby Robson

Widzew Lódz: Mlynarczyk; Mozejko, Grebosz, Zmuda, Plich; Jezewski, Rozborski; Pieta (Romke), Boniek, Tlokinski, Smolarek. Téc.: Jacek Machcinski

Quartas de final da UEFA Cup 1980-1981: Saint-Étienne 1x4 Ipswich Town

Estádio Geoffroy Guichard, Saint-Étienne

Árbitro: Nicolae Rainea

Público 36.919

Gols: ’16 Rep (Saint-Étienne); ’28 e ’57 Mariner, ’47 Mühren e ’75 Wark (Ipswich Town)

Saint-Étienne: Castaneda; Janvion, Gardon, López, Battiston; Larios, Zanon, Platini; Paganelli, Rep, Roussey (Zimako). Téc.: Robert Herbin

Ipswich: Cooper; Mills, Beattie, Butcher, Osman; Wark, Mühren, Thijssen; Gates; Brazil e Mariner. Téc.: Bobby Robson

Final da UEFA Cup 1980-1981: Ipswich Town 3x0 AZ Alkmaar

Estádio Portman Road, Ipswich

Árbitro: Adolf Prokop

Público 27.532

Gols: ’30 Wark, ’47 Thijssen e ’55 Mariner (Ipswich Town)

Ipswich: Cooper; Mills, Osman, Butcher, McCall; Wark, Mühren, Thijssen; Gates; Brazil e Mariner. Téc.: Bobby Robson

AZ Alkmaar: Treijtel; van der Meer, Spelbos, Metgod, Hovenkamp; Jonker, Arntz, Nygaard (Welzl), Peters; Tol e Kist. Téc.: Georg Keβler

30ª rodada da Football League 1980-1981: Aston Villa 1x2 Ipswich Town

Estádio Villa Park, Birmingham

Público 47.495

Gols: ’45 Brazil e ’90 Gates (Ipswich Town); ’90 Shaw (Aston Villa)

Aston Villa: Rimmer; Swain, Williams, McNaught, Gibson; Cowans, Mortimer; Bremner, Shaw, With, Morley. Téc.: Ron Saunders

Ipswich Town: Cooper; Mills, Osman, Butcher, McCall; Wark, Mühren, Thijssen; Gates; Brazil e Mariner. Téc.: Bobby Robson

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

O heroico início de temporada do Hull City

A temporada 2015-2016 da Championship, segunda divisão do futebol inglês, ficou marcada pelos retornos de Middlesbrough, Burnley e do Hull City à Premier League. No entanto, a despeito da alegria pelo acesso, no caso do último se instalou perigosa crise e, rapidamente, os Tigers passaram a ser apontados como candidatos fortíssimos ao rebaixamento. Contra tudo isso, o clube começou bem a temporada atual.



Atualmente, há problemas graves de relacionamento entre torcida e os proprietários do clube. Em primeiro momento, a família Allam, que controla-o, tentou mudar o nome do mesmo para Hull Tigers, mas, não conseguiu, tendo a modificação sido recusada pela FA, entidade que controla o futebol na Inglaterra; pouco tempo depois, modificou sua política com relação aos sócios-torcedores, gerando ainda mais a ira dos torcedores. O ponto máximo da crise foi o pedido de demissão do treinador Steve Bruce, extremamente popular entre os adeptos, às vésperas do início da Premier League.

No momento em que se iniciou a competição, o clube era o único que não havia feito qualquer contratação para a temporada, tendo perdido um de seus destaques, Mohamed Diamé, para o Newcastle. Na partida inaugural, contra o Leicester City, atual campeão da EPL, com muitos lesionados, o clube seguiu com técnico interino e sequer conseguiu compor o banco de reservas, levando apenas dois jogadores profissionais e um grupo de juniores. Foi aí que a esquadra começou a mostrar brio.

Contra os comandados de Claudio Ranieri, os Tigers lutaram bravamente e conseguiram vencer, 2x1, com gols de Adama Diomandé e Robert Snodgrass, dois de seus melhores jogadores. Passadas quatro rodadas, ocupa a oitava colocação, tendo vencido ainda o Swansea City, fora de casa, perdido pela margem mínima para o Manchester United (somente sofrendo o gol da derrota aos 92 minutos) e empatado com o Burnley, fora de casa.

“Créditos aos meus jogadores, eles foram heroicos. É preciso estar comprometido com o que se trabalha e ter algum tipo de identidade. Penso que os jogadores do Hull City atuaram magnificamente em todos os setores”, disse em entrevista coletiva um orgulhoso Mike Phelan, treinador interino do clube, após a derrota para os Red Devils.

Acabaram chegando novas e úteis contratações e a crise vem sendo mitigada. Para o gol, desembarcou David Marshall, ex-Cardiff e um dos melhores arqueiros da temporada 2013-2014 na Inglaterra, os meio-campistas Markus Henriksen, um dos pilares da Seleção Norueguesa, e Ryan Mason (foto), ex-Tottenham, com passagem pelo English Team e contratação mais cara da história do clube, além do forte centroavante Dieumerci Mbokani, ex-Norwich. Bons nomes para um clube que não conta com grande orçamento e elenco enxuto. 

No campo, vê-se um time impressionantemente aplicado. Os destaques individuais são os citados Snodgrass e Diomandé, além do centroavante uruguaio Abel Hernández e do goleiro Eldin Jakupovic. Entretanto, impressiona a forte marcação que o clube imprime e nesse sentido Tom Huddlestone e Jack Livermore têm sido vitais. O esquema tático aproxima-se de um 4-5-1 e, na prática, apenas Hernández (foto) permanece mais à frente quando o clube é atacado. 

Somente contra o Burnley o clube teve mais posse de bola que o adversário, tendo chegado a apenas 33% contra o United e obrigando o Leicester City, equipe habitualmente reativa, a permanecer mais tempo com a pelota. Não à toa concedeu apenas três gols na competição até o momento, marca que só é superada por Everton e Tottenham, que concederam dois . 

O time tem mostrado total consciência do que precisa fazer para permanecer na elite do futebol inglês e muita grandeza, superando aos poucos a crise e trazendo o torcedor, que reconhece tudo isso, para seu lado. Outra mostra de que é fortíssimo enquanto coletivo é o fato de que já marcou três gols em bolas paradas (todos em cobranças de escanteios). Isso é vital, sobretudo diante de um quadro em que o clube enfrenta dificuldades para criar chances de gols; é apenas o quarto que menos as construiu.

De mais a mais, segue sendo treinado por seu interino e não há sinalização quanto à possibilidade contratação de outro comandante. Até onde vai o Hull City?

Com um início de temporada muito bom e totalmente inesperado, o clube vai dando passos importantes para afastar os prognósticos que garantiam seu rebaixamento ao final da temporada e tem conseguido reconquistar seu torcedor, totalmente descrente em relação à direção, mas identificado com o poder de luta que a equipe tem demonstrado. Por isso, é impossível não considerar heroico o início de temporada dos Tigers.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O dilema de Ranieri

Na temporada 2015-16, uma grande surpresa emocionou no futebol inglês. Após 132 anos de vida, com muita humildade e entrega, o Leicester City superou rivais que possuíam orçamentos muito mais generosos que o seu e, com uma proposta muito bem definida, venceu a Premier League. Embora seja evidente que a realização do sonho só foi possível com a aplicação de todos os jogadores do elenco, enquanto coletivo, três peças se destacaram sobremaneira: o onipresente N’Golo Kanté, o talentoso Riyad Mahrez e o matador Jamie Vardy. Destes, só o primeiro saiu, mas sua ausência vem sendo muito sentida e inspira atenção.



O time que o treinador italiano Claudio Ranieri projetou na campanha vitoriosa possuía identidade, um selo, uma marca. Com muita aplicação tática, o tradicional 4-4-2, com dois volantes, dois meias abertos pelos flancos e dois atacantes se mostrou inapelável, sabendo sofrer e impor sofrimento. Quando atacado, apostava suas fichas na recuperação da bola, ou forçando seu adversário ao erro ou confiando na especial capacidade de Kanté (foto) para retomá-la.

A seguir, do volante francês ou de seu companheiro de setor, o inglês Danny Drinkwater, era feita rápida transição, buscando a velocidade de Mahrez ou Marc Albrighton pelos flancos, com o objetivo final de encontrar a constante e intensa movimentação e rapidez de Vardy e do nipônico Shinji Okazaki. Esse estilo ficou facilmente definido com uma palavra: verticalidade.

Pois bem, aquela que talvez tenha sido a principal engrenagem do time (Kanté) partiu. Hoje o Leicester tenta repetir a fórmula de seu sucesso, mas tem encontrado dificuldades. Nos primeiros quatro jogos que disputou, perdeu para o recém-promovido Hull City, empatou com o Arsenal, venceu o Swansea City e foi massacrado pelo Liverpool, 4x1.

Em todos os jogos, o time visto em campo foi basicamente igual ao de 2015-16, mas um fato não passou sem notícia: no primeiro jogo, Ranieri apostou em Andy King no lugar deixado vago por Kanté; no segundo em Nampalys Mendy – contratado para repor a saída do volante francês –; e nos últimos dois em Daniel Amartey (foto abaixo). Por mais que não tenham atuado mal, nenhum deles alcançou desempenho parecido com o de N’Golo. O resultado? Os Foxes ficaram muito expostos. Em quatro jogos, sofreram sete gols, média de 2,3 por jogo, a qual contrasta brutalmente com a de 0,94 da temporada passada.

“Eu não quero falar sobre Kanté. Só há um – não há outro no mundo. Ele se foi e agora temos que seguir em frente”, lamentou Ranieri após a vitória do Leicester contra o Swansea.

É claro, tudo não passa de um começo e era esperado que o time precisasse de tempo para se readaptar. Não obstante, em uma liga tão competitiva como é a Premier League, esse prazo é curto. Tem se mostrado necessário um maior preenchimento do setor de meio-campo, o qual tem sido dominado pelo dos adversários.

Além disso, em outra análise, na partida contra o Hull City, claramente um clube menos qualificado, o Leicester teve mais posse de bola durante o jogo e não soube o que fazer com ela, uma vez que não é essa sua característica. Esse expediente deverá ser utilizado por outras equipes durante a competição e o time precisa saber lidar com ele.

Não há tempo para lamentar a saída de Kanté. É preciso, contudo, perceber o quão importante o francês era. Em mais de uma ocasião, no último ano, o Leicester aparentou jogar com 12 jogadores, tamanha era a capacidade de seu volante para ocupar espaços, apresentar-se para o jogo e desarmar. Não é absurdo dizer que o atleta fazia o trabalho de mais de um jogador e é por isso que o time enfrenta dificuldades atualmente. Também é essa a razão, que tem levado muitos a apontarem a necessidade de fortalecimento do meio-campo, possivelmente com o sacrifício de Okazaki.

Hoje, é muito difícil enxergar o Leicester brigando pelo título e muitos são os fatores. Além da própria dificuldade para se reencontrar, os Foxes viram alguns de seus adversários (sobretudo os rivais de Manchester) se reforçarem muito, gastando milhões. Ranieri tem o seu grupo nas mãos e deverá conseguir recolocá-lo nos trilhos. Entretanto, para isso precisa superar o dilema que vive: preservar a identidade vencedora do time e esperar que o mesmo se acerte ou buscar reequilibrá-lo de outra forma? A pergunta parece simples. Contudo, respondê-la vem se mostrando tarefa árdua.
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