Em 1992-93, o Feyenoord se impôs à categoria de Bergkamp e Romário

“Enquanto Amsterdã sonha, Roterdã trabalha”. Versões desta frase, popular entre torcedores do Feyenoord, ajudam a explicar a rivalidade do time com o Ajax, historicamente a mais relevante da Holanda. De meados dos anos 1970 em diante, ela ficou desequilibrada. Os ajacied passaram o trator por cima do rival, cujas conquistas rarearam. Também o PSV Eindhoven cresceu em importância e as estrelas preteriram o Feyenoord. Porém, gigantes podem dormir, mas sempre acordam — isso ficou evidente em 1992-93.

Feyenoord 1992-93
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Os grandes conhecem o caminho da vitória


No dia 6 de maio de 1970, Willy van Hanegem viveu um dia memorável. Esteio do meio-campo do Feyenoord, subiu ao gramado do San Siro, em Milão, e ajudou o time a conquistar o primeiro título europeu de uma equipe de seu país. Nos anos seguintes, seria um dos representantes do Stadionclub na seleção holandesa de 1974, vice-campeã do mundo, em meio à dominância do Ajax. Era um dos responsáveis por equilibrar o time.

“Vocês me colocam no mesmo patamar de Cruyff e Keizer? Eles eram muito bons! Recentemente, assisti imagens minhas com a Laranja. Foi então que percebi que passava 90 por cento das bolas com a parte externa do meu pé. Não notava que era tão extremo, eu fazia tudo pelo instinto [...] Nunca pensei nisso, sempre fiz automaticamente”, disse certa vez ao Volkskrant, em demonstração de humildade.

Van Hanegem foi o escolhido pela diretoria do Feyenoord para assumir o time em 1992. Fazia oito anos desde o último título nacional do clube, uma conquista icônica, marcada pela presença de Johan Cruyff na equipe — que se mudara ao rival em vingança contra as pessoas do Ajax que o consideravam velho para cobrar tudo o que exigia e queriam lhe impor o teto salarial do restante da equipe.

Willy Van Hanegem Feyenoord
Foto: Beeld ANP/VI Archive/Arte: O Futebólogo

O craque comandou em campo um grupo que já tinha jovens talentos construindo carreiras de sucesso, caso de Ruud Gullit. Este seria o nome de uma nova desilusão para a torcida do Feyenoord, porém. Em 1985, depois de passar boa parte da última temporada lesionado e já afirmado na seleção holandesa, trocou o clube pelo PSV. Era um sinal dos tempos; impulsionado pelo dinheiro da Philips, o clube de Eindhoven era o futuro, enquanto o de Roterdã ficava cada vez mais para trás.

O novo treinador viveu e, por que não, sofreu com isso tudo de perto. Depois de encerrar a carreira em 1983, no próprio clube, foi auxiliar técnico de Thijs Libregts e Ab Fafié, até 1986. Depois, trabalhou no Utrecht e nos pequenos USV Holland e Wageningen. Quando do retorno, não tinha tanta experiência nos bancos, mas, aos 49 anos, era um dos viventes que mais sabia do que se tratava o Feyenoord, para além do fato de que conhecia os caminhos da vitória.

Só se tinha olhos para Ajax e PSV


Não eram apenas os títulos que distinguiam os principais competidores do Feyenoord, mas também seus jogadores e treinadores de renome.

Em 1987-88, o PSV Eindhoven provou que era, sim, um gigante holandês. Com Guus Hiddink na casamata e Ronald Koeman na zaga, venceu o Benfica e conquistou a Copa dos Campeões. No ano seguinte, começou a construir uma relação histórica com o futebol brasileiro, contratando Romário. O Baixinho foi tricampeão holandês, sendo o artilheiro do certame em duas das três vitórias; rendeu com Hiddink e também com seu sucessor, Bobby Robson.

Guus Hiddink PSV
Foto: Getty Images/Arte: O Futebólogo

Por sua vez, o Ajax passou por duas revoluções. Depois de obter êxito em sua retaliação, Johan Cruyff retornou ao time de sua vida, como treinador. Entre 1985 e 88, reconstruiu o senso de Futebol Total, em uma versão mais moderna em relação à de Rinus Michels, devolvendo o clube às suas origens. Teve, além disso, papel crucial no desenvolvimento e afirmação de jovens como Marco van Basten e Frank Rijkaard. Esse time conquistou a Recopa Europeia, em 1986-87.

Depois da saída de Cruyff para o Barcelona, os ajacied foram ofuscados pelo PSV. Apesar de Leo Beenhakker ter conduzido o clube ao título holandês de 1989-90, evitando uma hegemonia do rival de Eindhoven, foi somente com Louis van Gaal que o Ajax voltou a estar na crista da onda. O jovem resistiu aos protestos de uma torcida que queria Cruyff de volta e se consolidou.

Louis van Gaal Ajax
Foto: EPA/Arte: O Futebólogo

Van Gaal, diferentemente de Johan, acreditava mais no coletivo do que no indivíduo — o que geraria atritos memoráveis com grandes craques. Apesar disso, encontrava-se com seu antecessor no ponto original de sua ideia: “O princípio básico é a posse de bola”, falou ao livro Brilliant Orange, de David Winner. O expoente da primeira versão do Ajax de LvG foi Dennis Bergkamp. Transformado em meia, ou um schaduwspits (atacante sombra), foi o único jogador capaz de rivalizar com Romário. Outra vez, o clube representava a vanguarda. Assim, o Ajax venceu a Copa da Uefa de 1991-92. 

Ninguém falava do Feyenoord.

Nem mesmo vice e sem reforços


Depois da conquista de 1983-84, nem vice-campeão o Feyenoord foi. Até a temporada 1992-93, o Stadionclub ficou com o terceiro lugar quatro vezes e essa foi a parte boa. A ruim foi o 11º posto de 1989-90 e o oitavo da temporada seguinte. Quando da contratação de Willy van Hanegem, técnicos entravam e saíam do De Kuip a todo momento. De 1984 até 92, foram sete, desconsiderando duas passagens do ídolo Wim Jansen, que se tornou diretor. Nem mesmo outro ídolo como Rinus Israël foi capaz de recolocar o time nos trilhos.

O cenário só não era pior porque o quadro de Roterdã venceu a Copa da Holanda duas vezes seguidas, em 1990-91 e 1991-92 — ambas contra equipes de menor porte na decisão, Den Bosch e Roda.

Van Hanegen recebeu uma equipe com bons valores, mas inativa no mercado de transferências. O único reforço que o treinador recebeu no início da temporada 1992-93 foi o atacante nigeriano Michael Obiku, que vinha se destacando no Chipre, defendendo o Anorthosis. Na janela do inverno europeu, em janeiro, o grandalhão John van Loen, do Ajax, também viria. Ninguém mais.

Obiku Feyenoord
Foto: Pro Shots/Arte: O Futebólogo

Havia referências importantes em todos os setores, começando pelo gol, defendido pelo gigante Ed de Goey, de 1,98m. Com passagem pelas equipes de base da seleção holandesa, chegara ao clube em 1990, proveniente do rival local, Sparta Rotterdam. No período, seria uma das escolhas habituais da seleção principal, disputando as Copas do Mundo de 1994 e 98, além das Eurocopas de 1996 e 2000.

Na zaga, atuava o veteraníssimo John Metgod. O beque vencera a Eredivisie pelo AZ Alkmaar no começo dos anos 1980, acumulava experiências internacionais, representando Real Madrid, Nottingham Forest e Tottenham, e dava seus últimos chutes. Enquanto isso, quem equilibrava o meio-campo era Peter Bosz, volante contratado na temporada anterior.

Os grandes talentos da equipe atuavam no setor ofensivo. Formado no Ajax e lançado por Cruyff, Rob Witschge era jogador da seleção e o principal criativo do time. Seria difícil imaginar um talento como o dele trocando um rival pelo outro diretamente. De fato, não aconteceu. Witschge foi contratado em 1990, junto ao Saint-Étienne, depois de uma passagem rápida pelos Verts.

Taument Blinker Feyenoord
Foto: Pro Shots/Arte: O Futebólogo

Os outros nomes entusiasmantes da equipe eram Gaston Taument, ponta do lado direito, e Regi Blinker, dono do flanco canhoto. Também convocados frequentemente à época, eram ambos cria da casa e tinham excelente relação pessoal, compartilhando a origem surinamesa. Um tinha 22 anos, o outro 23; viviam a melhor forma de suas carreiras, embora isso ainda não fosse evidente.

“Havia uns oito garotos surinameses no grupo, bastante. Éramos espertos o suficiente para não dominar o vestiário. Falávamos surinamês entre nós, mas conversávamos com os holandeses também [...] aos poucos, gírias passaram a ser comuns. Era possível ouvir Ed de Goey ou John Metgod falando suas primeiras palavras em surinamês. Nosso treinador, Willem van Hanegem era apelidado De Kromme. Conosco, era chamado de Kron Futu, surinamês para pés ou pernas tortos”, contou Blinker, ao Volkskrant.

Além de resolverem muitas coisas sozinhos, os garotos alimentavam bem o centroavante húngaro József Kiprich, o homem-gol da equipe. A equipe tinha muito valor, é verdade. Só não contava com um Bergkamp ou Romário.

Um início agridoce


A temporada holandesa de 1992-93 começou com sabor amargo para o Feyenoord. Na decisão da Supercopa, enfrentou o PSV, treinado pelo jovem Hans Westerhof, e perdeu. Não foi de Romário o tento solitário da decisão. Este coube a Erwin Koeman, que retornara à Holanda depois de um período vitorioso nos belgas do Mechelen. Apesar disso, o Stadionclub não baixou os braços. Quatro dias depois, na estreia da Eredivisie, visitou o Twente, que alinhava Ronald De Boer, e mostrou o que valia: 5 a 0. Os gols foram marcados por Taument, duas vezes, Kiprich, Bosz e Blinker.


O triunfo em Enschede deu início a uma sequência de 11 partidas de invencibilidade, com sete vitórias e quatro empates (um deles diante do PSV). Foi justamente o excesso de igualdades que deu um caráter de urgência ao confronto da 12ª rodada. 

O Feyenoord entrou em campo na segunda posição, dois pontos atrás do PSV e dois à frente do próprio Ajax, que visitava Roterdã. Na hora da verdade, o time de Van Hanegem sucumbiu. Edgar Davids, Stefan Pettersson e Marc Overmars marcaram os tentos do triunfo dos Godenzonen.

Era o início de novembro e, paralelamente, meio aos trancos e barrancos, perdendo fora e vencendo em casa, o Feyenoord também superava as primeiras fases da Recopa Europeia, eliminando, em sequência, os israelenses do Hapoel Petah Tikva e os suíços do FC Luzern. Na Copa da Holanda, as coisas corriam bem, obrigado. Os roterdameses eliminaram o Go Ahead Eagles com um sonoro 7 a 0.


A resposta à derrota no dérbi foi positiva, triunfo maiúsculo diante do Den Bosch, 5 a 1. O problema é que a alegria durou pouco. Já na rodada seguinte, o MVV Maastricht conseguiu uma virada impressionante, em pleno De Kuip, 4 a 3. Logo depois, o empate com o Vitesse, 2 a 2, não parecia nada bom, mas o time acordou. Foram mais 14 rodadas de invencibilidade (10 vitórias e 4 empates). 

 Ao final da sequência, o Feyenoord liderava a Eredivisie.

O mais importante é vencer o campeonato do restante


Um incômodo persistia. O Stadionclub não vencia seus rivais. Durante o racha positivo, voltou a enfrentar o PSV e conseguiu um empate suadíssimo, 1 a 1. Romário abrira o marcador para os homens de Eindhoven, na ocasião visitantes, bem no início da disputa. Aos 45 do segundo tempo, literalmente, o meio-campista Dean Gorré resgatou a equipe de Roterdã.

A sequência positiva do Feyenoord acabou contra o Ajax, que se impôs outra vez. Em Amsterdã, Ronald De Boer, de retorno, Marciano Vink, Wim Jonk, duas vezes, e Pettersson marcaram para os ajacied; Blinker e Obiku descontaram. O 5 a 2 não foi desmoralizante apenas no placar, permitiu que o PSV voltasse à liderança do campeonato, quando o Feyenoord já não estava vivo nem na Recopa, eliminado pelos moscovitas do Spartak, nem na Copa da Holanda, massacrado outra vez pelo Ajax, 5 a 0 — com hat-trick de Davids.


Em meio a um cenário de desolação, contudo, o Feyenoord teve forças para se reerguer. Quem pagou o pato, de novo, foi o Den Bosch, goleado: 5 a 0. A inflamada torcida do Time do Povo não voltou a experimentar o dissabor da derrota. Na penúltima rodada, Taument, John de Wolf e Obiku garantiram um triunfo diante do Willem II. Concomitantemente, o Vitesse bateu o PSV. Na hora da verdade, o Feyenoord recuperou seu lugar na ponta da tabela.

Dado como perdido várias vezes, frustrado pela incapacidade de o Stadionclub vencer seus rivais, o título foi confirmado com pompa e circunstância. Os homens liderados por Willy Van Hanegem viajaram a Groningen e voltaram de lá com um glorioso 5 a 0. Eram os campeões, mesmo sem contar com grandes craques. Bergkamp foi o artilheiro, com 26 gols, Romário o vice, com 22. Kiprich foi o melhor marcador do Feyenoord, com 18, mas ficou com o prêmio mais importante.


“A aceitação foi uma razão importante para justificar nosso título. Ninguém olhava para a cor da pele. A única coisa que pensávamos que era importante era: ‘Ele sabe jogar futebol? Ok, então podemos tê-lo aqui e jogar juntos”, acrescentou Blinker.

Van Hanegem extraiu o melhor de um elenco que era, a olhos vistos, inferior aos de Ajax e PSV. O problema é que não houve continuidade. A direção do Feyenoord até foi generosa com o treinador, contratando o sueco Henrik Larsson e segurando os principais jogadores do time. Bastou apenas para a conquista de duas Copas da Holanda, não para renovar o título nacional. Este voltaria ao De Kuip apenas em 1998-99. Um ponto, entretanto, fora provado: um gigante, mesmo em dificuldades, nunca pode ser subestimado.

Comentários

  1. Ótimo trabalho... Gosto demais do futebol holandês. Fale mais vezes, por favor!! Um abraço!!

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    1. Valeu pelo comentário, Júnior! Pode deixar, seguiremos dando espaço para os holandeses!

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