O PSV da pragmática conquista europeia

quarta-feira, 8 de maio de 2019

O PSV da pragmática conquista europeia

Historicamente, a maior rivalidade da Holanda é aquela em que figuram Ajax e Feyenoord. Ainda assim, o PSV Eindhoven sempre esteve ali, à espreita. Foi na década de 1980 que os Boeren assumiram a condição de protagonistas, rivalizando mais diretamente com os amsterdameses do Ajax. Porém, não foi apenas a disputa por troféus que colocou os rivais em oposição, mas também suas ideias de jogo. O ápice talvez tenha sido a Copa dos Campeões de 1987-88.

Guus Hiddink PSV
Foto: Reprodução - Twitter @psveindhoven/ Arte: O Futebólogo

Turbulência nas Terras Baixas


A escolha de um esquema tático que não o puro 4-3-3, com muita movimentação, será quase sempre tratada como heresia na Holanda. O país nunca deixará de ser lembrado pelo legado de duas grandes figuras: Rinus Michels e Johan Cruyff. Com o Ajax dos anos 70, a dupla consagrou o famigerado Futebol Total, que passou a ser marca nacional. 

Assim, muita gente torceu o nariz quando Guus Hiddink, um ex-jogador de pouco sucesso e então auxiliar técnico, assumiu o comando do PSV, em 1987. Era um nome inexperiente e que admitia a hipótese de relativizar o 4-3-3. Uma loucura. Até o Feyenoord campeão europeu de 1969-70, que não apelava tanto ao lado estético quanto o mais famoso Ajax, tinha traços do característico estilo holandês.

Mas isso tudo era parte de um plano ambicioso. O presidente Jacques Ruts, que assumiu a cadeira em 1983, permanecendo até 1993, acreditava que era pensar pequeno demais projetar apenas conquistas esporádicas. O holandês entendia que era possível superar o domínio dos gigantes do país e estava disposto a aceitar quaisquer métodos para a consecução desse fim. Foi preciso, entretanto, superar crises.

Hiddink PSV Champions League
Foto: Getty Images/ Arte: O Futebólogo

Primeiro, com Ruud Gullit. Se o craque já havia sido o centro de uma polêmica quando trocou o Feyenoord pelo PSV, voltou a ser o pivô de uma turbulência quando decidiu que precisava sair da Holanda para continuar evoluindo. Acabou indo ao Milan, não sem antes ocasionar mudanças estruturais no departamento de futebol dos Boeren. Depois, o problema foi o goleiro Hans van Breukelen, que sofreu um período de queda técnica forte e acabou tendo problemas psicológicos em decorrência disso — mas daria a volta por cima.

O curioso é que Gullit deixou o clube garantindo que se continuasse no país jamais teria a oportunidade de conquistar a Europa, embora o PSV já estivesse obtendo consideráveis êxitos nacionalmente, com dois títulos holandeses na década. Ledo engano.

Acima de tudo o resultado


A primeira medida de Hiddink, após sua efetivação, foi garantir que não haveria nenhuma primadona em sua esquadra. Depois do que havia acontecido com Gullit, despachou o habilidoso ponta René van der Gijp para o Neuchâtel Xamax. Em compensação, trouxe um jogador, por excelência, batalhador. Um dos ícones da melhor seleção dinamarquesa de todos os tempos, Soren Lerby, que se projetara no Ajax, foi contratado ao Monaco.

A ele se juntaram o poderoso centroavante Wim Kieft, dono da Chuteira de Ouro da Europa em 1982, e o versátil atacante Hans Gillhaus. E, como se ainda faltasse fibra ao meio-campo da equipe, retornou de empréstimo o aplicadíssimo Berry van Aerle, o escolhido na missão de ser o primeiro volante da equipe. Eles se juntaram a um grupo de jogadores que se dividia entre atletas experientes e confiáveis e jovens que pediam passagem.

O capitão era o belga Eric Gerets. Lateral titular de seu país nas Copas do Mundo de 1982 e 1986, superara um escândalo de suborno e era um dos jogadores mais confiáveis, um líder por sua boa técnica e determinação. Ele era acompanhado por outro dinamarquês de qualidade insuspeita: Frank Arnesen. Companheiro de Lerby por anos, era o jogador mais mais criativo do meio. Porém, não se engane, nunca deixou de deixar no campo uma gota de suor sequer.


Um time tão batalhador também tinha suas armas fatais. Vindo do Ajax, um jovem zagueiro Ronald Koeman revelava ao mundo a qualidade técnica necessária para ser lembrado como um dos melhores defensores da história do esporte bretão. Se alguém recebia determinadas licenças para atuar além de sua posição esse era ele. Koeman era o responsável pela saída de bola e as cobranças de falta. Além dele, o garoto Edward Liskens pediu passagem, se aproveitando dos vários problemas físicos com os quais Arnesen foi obrigado a conviver.

Hiddink não negou o Futebol Total, mas ofereceu seu contributo. Se era necessário ser um pouco mais pragmático, oferecendo um jogo esteticamente menos apelativo, que assim fosse. No fundo, seu objetivo era a vitória. E, com algumas adaptações, mas sem trair sua própria essência, era possível. Talvez essa tenha sido a lição que em alguns momentos de sua trajetória, a Holanda não entendeu. Quando foi preciso se retrair e apenas reagir ao adversário, o PSV foi cirúrgico.

Uma campanha com sobressaltos


Campeão nacional e classificado à disputa da Copa dos Campeões da Europa, o PSV entrou com um desejo público de vitória. Fazia 15 anos que um clube holandês não vencia o certame e os Boeren viviam à sombra dos títulos de Feyenoord e Ajax. Apesar do pouco tempo como treinador efetivo, Hiddink entendeu qual seria a única fórmula possível para uma improvável vitória: dominar quando fosse possível e resistir sempre que necessário.

A campanha começou da melhor forma possível. Convincentemente, o time de Eindhoven bateu os turcos do Galatasaray na partida de ida, na primeira fase. O problema é que o 3 a 0 em casa deu a sensação de que seria fácil demais passar pelos Leões de Istambul. Na volta, os donos da casa fizeram dois a zero na etapa inicial. O PSV teve de se aguentar por mais de um tempo, reforçando a marcação com a entrada de mais um volante, em um susto totalmente desnecessário.

O importante é que aprendeu a lição, reafirmando o ensinamento central daquela temporada: o objetivo era a vitória. Ao êxito contra os turcos se seguiu a única eliminatória fácil. O Austria Vienna não viu o que o atingiu. Em casa, perdeu por 2 a 1, com Van Aerle e Gillhaus indo às redes pelos holandeses. No Philips Stadion, um 2 a 0 confirmou a supremacia do PSV, que avançou e teve pela frente um imponente Bordeaux.


Os girondinos contavam com um ótimo time, com peças como as dos selecionáveis Jean Tigana, Jean-Marc Ferreri, José Touré e do iugoslavo Zlatko Vujović — treinados por Aimé Jacquet, o selecionador que levaria a França ao título Mundial de 1998. A lesão de Arnesen no início do jogo foi o prenúncio de uma eliminatória dura. Dois lances de bola parada deram o tom do primeiro encontro entre as equipes, na França. 1 a 1. Na volta, os Boeren seguraram o ímpeto dos visitantes e confirmaram seu avanço pelo critério do gol fora de casa, em um empate sem gols.

Um detalhe, entretanto, foi além dos 180 minutos. Koeman elogiou uma entrada do atacante Gillhaus em Tigana, que afastou o francês de parte da eliminatória. A Uefa o suspendeu por três partidas, alegando que sua atitude feria o espírito esportivo preconizado pela entidade. Esse foi um drama à parte para quem estava tão perto das finais. Na primeira partida das semifinais, no Santiago Bernabéu, o PSV arrancara um improvável empate contra o Real Madrid, treinado pelo holandês Leo Beenhakker e que contava com as estrelas de Hugo Sánchez, Emilio Butragueño e Míchel.

Eventualmente, a punição foi revertida para um jogo. Koeman ficou fora da volta, no Philips Stadion. Novamente, o PSV aceitou sua condição de underdog. Com a vantagem conferida pelo gol anotado na Espanha, resistiu, em outro 0 a 0. E avançou.


Outra vez a maldição de Béla Guttman


Após passar solidamente por duros testes, o PSV finalmente chegou a uma eliminatória como favorito. Os holandeses não contavam com Arnesen e os portugueses do Benfica se ressentiam da falta de Diamantino. Mas era claro que os lusitanos haviam enfrentado eliminatórias menos desafiadoras (contra Steaua Bucareste, Anderlecht, AGF Aarhus e Partizani, da Albânia). Daí vinha a ideia de que o PSV chegava à final com mais chances.

Contra si, o Benfica também tinha o peso da Maldição de Béla Guttman. O húngaro, treinador do clube nas décadas de 1950 e 60, conquistou duas vezes a Copa dos Campeões da Europa, pediu um aumento, viu sua pretensão ser recusada, deixou o clube e jurou que em 100 anos os Encarnados não voltariam a conquistar um título europeu. Folclore à parte, essa história tem vindo à tona muitas e muitas vezes.

PSV Van Breukelen
Foto: Reprodução - Twitter @ChampionsLeague/ Arte: O Futebólogo

A final, em Stuttgart, foi tensa, especialmente no primeiro tempo. Na etapa final, o PSV se soltou e chegou perto de marcar em algumas ocasiões. Porém, coube às penalidades máximas a definição do resultado. Em uma disputa bem jogada, foram cobrados doze pênaltis. Onze chegaram ao fundo das redes, mas o último, cobrado pelo lateral António Veloso, parou em Van Breukelen, em um momento de redenção.

“Meu time provou essa noite que tem nível europeu. Não temíamos especialmente o Benfica nessa final. Mas, por acaso, eu havia adotado uma tática prudente no primeiro tempo. Na continuação, arriscamos mais e creio que não teria sido injusto se tivéssemos marcado um gol antes do final dos noventa minutos. Sermos favoritos desde o princípio nos prejudicou [...]”, falou Hiddink após o título. 


Lerby fez coro às declarações de seu comandante: “Tivemos dificuldades para impor nosso jogo contra um time português muito defensivo. No segundo tempo, merecíamos com sobras um gol, assim teríamos evitado a tensão dos pênaltis”.

Aquela temporada foi mágica para o PSV, que também conquistou o Campeonato Holandês e a Copa da Holanda. 

Enquanto Béla Guttman foi mais uma vez fatal para o Benfica, Gullit pagou pela descrença nas hipóteses de seu antigo clube. Para alguns jogadores, o título coroou um belo final de carreira. Para outros, sinalizou um passo fundamental rumo a longos anos de sucesso. Já Hiddink pôde construir uma carreira respeitável, sempre lembrado por sua capacidade de adequar as suas ideias às necessidades de seu momento, e o PSV seguiu para uma nova realidade, marcada por conquistas constantes.

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