1996, 98 e 2003: a história acidentada do Brasil na Copa Ouro

Afirmar que a maior parte do mundo vislumbra no Brasil o “País do Futebol” é um clichê, mas não chega a ser uma afirmação pachecal. A tradição de quem mais venceu a Copa do Mundo pesa e, quando a Canarinho entra em campo, sempre há holofotes e interesse. Há histórias que, não obstante, não passam tanto por um critério de tempo, mas de lugar. O onde conta também. Nos anos 1990 e início dos 2000, a Concacaf tentou aumentar o prestígio da Copa Ouro; convidou a Seleção Brasileira.

Kaká Copa Ouro 2003
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebologo

1996: Afirmação futebolística na América


A Copa Ouro de 1996 aconteceu em um momento crucial para o futebol dos Estados Unidos. Era a primeira edição da competição da Concacaf disputada após o Mundial de 1994, amplamente considerado um sucesso. A média de espectadores nas partidas do certame foi de 69.174 pessoas, um recorde que não foi batido nas edições seguintes e dificilmente será algum dia.

Era importante manter o interesse gerado dois anos antes. As Olimpíadas de Atlanta estavam no horizonte, mas a cena esportiva estadunidense também seria marcada pela disputa da primeira edição da Major League Soccer. O país cumpria uma condição que a FIFA exigiu ao confirmá-lo sede do Mundial de 1994: tentar estabelecer uma liga forte. A primeira partida estava marcada para 6 de abril, tempo suficiente para recolocar as pessoas em contato com o soccer. O desafio era concorrer com os esportes estabelecidos no país, basquete, beisebol, futebol americano e hóquei.

A Concacaf não podia perder o bonde e deixar passar a chance de aumentar o interesse futebolístico no mercado consumidor norte-americano. Nada parecia mais lógico do que buscar a presença da última campeã do mundo na Copa Ouro. O Brasil foi convidado e aceitou. A competição representava uma oportunidade para o treinador da Canarinho, Zagallo. Depois de superar uma polêmica envolvendo a concessão de vistos, viajou.

Romário 1994
Foto: Neal Simpson/Getty Images/Arte: O Futebólogo

“Ao invés de trazer Romário, Bebeto, Dunga e o restante de suas lendas veteranas, os brasileiros preencheram seu elenco com jogadores jovens que formarão uma grande parte do elenco das Olimpíadas de verão [...] o treinador Zagallo não convocou ninguém acima de 22 anos para a Copa Ouro. Ele ainda deixou de fora três de seus melhores jovens —o atacante Ronaldo, o meia Juninho e o defensor Roberto Carlos — todos estrelas na Europa. Mesmo com uma equipe jovem, o Brasil é o favorito”, esclareceu o Washington Post.

A Copa Ouro decorreu entre os dias 10 e 21 de janeiro, enquanto o Pré-Olímpico, sediado na Argentina, foi de 18 de fevereiro a 6 de março. Entre os selecionados por Zagallo estavam nomes como os de Dida, Zé Maria, Flávio Conceição, Caio Ribeiro, Amaral, Zé Roberto e Sávio. Lesionado, Amoroso ficou fora. “Foi aqui que conquistamos a Copa do Mundo de 94. Aqui, daremos a largada para vencer a Olimpíada de Atlanta”, falou Zagallo.

Na fase de grupos, o Brasil enfrentou Canadá e Honduras. “Não me consola o fato de que o Brasil não vem com força máxima”, disse o treinador dos Canucks, Bob Lenarduzzi, ao Washington Post. “Às vezes, quando está em plena forma, o Brasil encara jogos como estes como um inconveniente. Mas esses caras estão com fome; eles têm algo a provar”.


O treinador canadense tinha razão. Na estreia da Canarinho, sua equipe penou. André Luiz, Caio, Sávio e Leandro Machado marcaram para o Brasil, Tomasz Radzinski descontou: 4 a 1. No dia seguinte, o título da Folha deixou o ocorrido ainda mais explícito do que o placar: “Brasil bateu em 15 minutos o Canadá”. Lenarduzzi confirmou sua tese: “Os jovens do Brasil se esforçaram mais do que os jogadores da equipe adulta”.

Na segunda partida, o triunfo brasileiro foi ainda mais pungente. Caio e Jamelli, duas vezes cada, além de Sávio, condenaram Honduras, que já tinha sofrido ao ouvir o hino do Panamá no lugar do seu próprio, a um massacre: 5 a 0.

O Brasil foi às semifinais e enfrentou os EUA, que tinham um time completo. Foi um repeteco do que se viu no Mundial, dois anos antes. Jogo duro. Brasil 1, EUA 0. Dessa vez, sem Bebeto, Marcelo Balboa completou um cruzamento de Sávio, marcou contra e levou a Canarinho à decisão. Outra nota da partida foi o desmaio do zagueiro Narciso, após dividida com o estadunidense Roy Lassiter.


O México, com Jorge Campos, García Aspe, Luis García e Blanco, liderado por Bora Milutinovic, aguardava o Brasil. Em um gramado encharcado, os jovens brasileiros não tiveram chance. Dida fez muitas defesas, mas não evitou a derrota por 2 a 1. “Foi uma experiência muito legal porque foi meu primeiro torneio fora do Brasil pela seleção. Ficamos quase um mês nos Estados Unidos e jogamos no Coliseu, estádio onde foi disputada a Olimpíada de 84, em Los Angeles”, lembrou Jamelli, à ESPN.

O título não foi alcançado, mas foi um bom teste para o Pré-Olímpico, conquistado pela Canarinho. Nas Olimpíadas, no entanto, tinha um Nwankwo Kanu no meio do caminho; no meio do caminho, tinha um Nwankwo Kanu.


1998: falhe de novo, falhe melhor


Ainda era Zagallo quem dava as cartas no comando da Seleção, quando os brasileiros renovaram o visto para os EUA e tiveram a segunda chance de vencer a Copa Ouro. Em 1998, a Canarinho voltou a utilizar a competição da Concacaf como preparação, desta vez para o Mundial da França. Foram feitos testes. O principal foi a utilização de um ataque com Edmundo e Romário, chamados de Bad Boys, pela Folha. Menos badalados, Sylvinho, Doriva, Marcos Assunção e Sérgio Manoel estavam entre os selecionados.

A Copa Ouro aconteceu entre os dias 1º e 15 de fevereiro. O Brasil ficou no Grupo A, com Jamaica, Guatemala e El Salvador. Logo na estreia, houve problemas.

Edmundo Copa Ouro 1998
Foto: AFP/Getty Images/Arte: O Futebólogo

O empate por 0 a 0 contra os jamaicanos, treinados por Renê Simões, foi tratado como vexame pela imprensa nacional, ainda que o país caribenho estivesse classificado para a Copa do Mundo. Poderia ter sido pior, caso a arbitragem não tivesse ignorado um pênalti cometido pelo zagueiro Gonçalves. A expulsão de Júnior Baiano, após agressão grotesca a um adversário, sintetizou o que se viu. Na sequência, mais dificuldades.


O segundo jogo foi contra a Guatemala. Em mais um confronto em que a Canarinho não mostrou a que veio, tendo posse de bola improdutiva e sofrendo com a energia dos guatemaltecos, Romário abriu o placar num pênalti sofrido por ele mesmo, quando já se havia disputado mais de meia hora da etapa final do confronto. Nos acréscimos, após escanteio, veio o merecido empate, com Juan Plata, mais tarde ovacionado pela torcida de seu país. O Brasil não jogou nada; a Guatemala fez história.

No último jogo, para não fazer papel ainda mais ridículo, a Seleção Brasileira precisava vencer El Salvador. Enfim, convenceu e liquidou a fatura logo cedo. Foi a única ocasião em que a dupla formada por Edmundo e Romário rendeu frutos. Com menos de 20 minutos de jogo, eles já haviam marcado um tento cada. Com a vantagem, o Brasil abrandou o jogo. Zagallo fez testes. Lançou Russo e Sérgio Manoel, também Elber. O goleador do Bayern entregou mais dois gols. A sensação era mais de alívio do que de festa, apesar do 4 a 0.


O Brasil foi às semifinais, mas como vice-líder de seu grupo, superado pela Jamaica. De novo, os Estados Unidos aguardavam a Canarinho. E a tendência histórica se repetiu. O jogo terminou 1 a 0. Porém, quem levou a vitória foram os ianques, com um golaço de Predrag Radosavljević, o popular Preki, que acertou o ângulo superior direito do goleiro Taffarel. Era a primeira vez que o USMNT vencia a Seleção Brasileira; o primeiro gol contra o quadro verde e amarelo em 68 anos.

A derrota foi a cara do desempenho brasileiro. “Mais uma vez tive um monte de oportunidades nos meus pés, mas não pude concluir bem”, falou Romário no intervalo do jogo. Zagallo tentou justificar o desempenho pífio de seu time. “Somos bons, mas não somos invencíveis. Essa mentalidade tem que mudar. Os outros estão evoluindo, têm mais tempo de trabalho e não têm a obrigação de vencer”, registrou a Folha.


Restou à Canarinho a disputa do terceiro lugar, outra vez contra a Jamaica. Quando a bola rolou, as arquibancadas apoiaram massivamente os caribenhos, mas Romário voltou a marcar e o Brasil ganhou por 1 a 0. Foi um triunfo que não teve gosto nenhum para a Seleção.

2003: hat-trick (de derrotas)


No dia 19 de junho de 2003, recém-pentacampeão da Copa do Mundo, o Brasil iniciou aquela que seria sua pior participação na Copa das Confederações. Treinado por Carlos Alberto Parreira, o selecionado não era o principal. O comandante testou jogadores como o os zagueiros Fábio Luciano e Edu Dracena, os volantes Eduardo Costa e Dudu Cearense, o meia Adriano Gabiru e os atacantes Ilan e Gil. A Canarinho ficou na fase de grupos, superada por Camarões e Turquia.

Três semanas depois, iniciou sua terceira corrida pelo título da Copa Ouro. Liderado por Ricardo Gomes, o time tinha idade olímpica. O mais velho entre os escolhidos era o zagueiro Luisão, com 22 anos; o mais novo, o meia Carlos Alberto, de 18. Era um time recheado de estrelas em potencial, como Diego Ribas, Robinho, Thiago Motta, Júlio Baptista e Kaká, capitão do time e que ainda não tinha sido vendido ao Milan. A ideia era dar cancha para a disputa do Pré-Olímpico, no início de 2004.

Luisão Thiago Motta Brasil Honduras Copa Ouro 2003
Foto: Getty Images/Arte: O Futebólogo

O Brasil dividiu o Grupo A com o México, um dos países-sede junto com os EUA, e Honduras. A Seleção estreou diante dos donos da casa, no icônico Azteca. Ricardo Gomes alinhou uma equipe muito promissora, com Gomes; Maicon, Luisão, Alex e Adriano; Paulo Almeida, Júlio Baptista, Diego e Kaká; Robinho e Ewerthon. Na hora H, quem brilhou foi o centroavante Jared Borghetti, autor do único gol da partida.

Apesar da derrota na estreia, o selecionado verde e amarelo superou Honduras na partida seguinte, 2 a 1, ignorando o trauma da eliminação na Copa América de 2001, e avançando aos mata-matas como segundo colocado. “Marcamos um gol e criamos oportunidades de ampliar. Infelizmente, a chuva deixou o campo bastante pesado”, disse Maicon, autor de um dos gols, como reportou a Folha.


Nas quartas de finais (a competição inchou), a Canarinho encontrou a Colômbia, outra convidada, que também havia disputado a Copa das Confederações e era treinada pelo histórico Francisco “Pacho” Maturana. Com um elenco sem estrelas e formado majoritariamente por atletas que atuavam no próprio país, os Cafeteros tentaram equilibrar o jogo com entradas ríspidas, mas não conseguiram parar Kaká, autor dos dois gols da partida.

Como de praxe, a Canarinho encontrou os EUA nas semis. Foi mais um jogo apertado, decidido com um gol de diferença. Até então, os estadunidenses, treinados por Bruce Arena e apostando suas principais fichas no talento de Landon Donovan, não haviam concedido um gol sequer. Abriram o placar com Carlos Bocanegra. No último minuto do tempo regulamentar, Ewerthon, que saíra do banco, fez boa jogada. Parou em Kasey Keller, mas Kaká aproveitou e empatou a contenda.

O jogo foi para o gol de ouro, a famigerada morte súbita. Aos 10 minutos do primeiro tempo da prorrogação, a bola bateu na mão do zagueiro Cory Gibbs, dentro da área. Diego converteu a penalidade e garantiu o avanço do Brasil à decisão, onde o México estava, outra vez, à espera.


Na final, a Canarinho não jogou bem. Não fosse pelo ótimo desempenho do goleiro Gomes, a situação poderia ter sido pior. O outro Gomes, o treinador Ricardo, bem que tentou alterar o panorama. No intervalo, trocou Robinho, um dos piores da Seleção na competição, por Carlos Alberto. Não deu certo. Nada deu. Mesmo sem Rafa Márquez, os mexicanos tinham um time equilibrado, com figuras como Ricardo Osório, Pavel Pardo, Jesús Arellano e ele, Borghetti.

A grande sacada do treinador Ricardo La Volpe, contudo, veio do banco. Travado, o jogo foi para a prorrogação. Enquanto a altitude da Cidade do México e os 30 graus pesaram para o Brasil, o frescor de Daniel Osorno bastou para El Tri. Passados oito minutos de prorrogação, o atacante recebeu bola dentro da área brasileira, superou dois marcadores e fuzilou, de canhota, a meta de Gomes. Mais um vice para a conta da Canarinho.

Apesar da derrota, o otimismo com a ótima geração que se apresentou ali era evidente. “Chegamos lá três dias antes do início sem trabalho algum. A partir dessa competição nosso jogo ficou mais padronizado e isso me deixou muito confiante”, falou Ricardo Gomes, às vésperas do Pré-Olímpico. Porém, sem Kaká, o Brasil não se classificou aos Jogos de Atenas, superado pelo Paraguai.


Levando em conta os resultados, dois vice-campeonatos e um terceiro lugar, não parece que o Brasil protagonizou fracassos na Copa Ouro, até mesmo por, em duas oportunidades, ter levado times sub-23. Talvez não seja mesmo o caso de tratar a situação como vexame. No entanto, a relação da Canarinho com a competição foi tumultuada. Não vieram novos convites e, conforme os calendários do futebol de elite foram inchando, a possibilidade de retorno se tornou mais remota.

É possível afirmar: ao menos no futebol masculino, Brasil e Copa Ouro não combinam.

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