Como o Ararat Yerevan levou à Armênia ao topo do futebol soviético em 1973

Poucas referências aludem ao futebol da Armênia. A principal remete a Henrikh Mkhitaryan, jogador de mais elevado cartaz internacional do país, em muitos anos. Não apenas por suas qualidades como meio-campista, também por ter desfalcado suas equipes em mais de uma ocasião, em visitas ao Azerbaijão. O motivo foi o histórico conflito de Nagorno-Karabakh. Anos antes de Henrikh nascer, a tensão já era palpável. O local foi o único no Cáucaso que não acompanhou adequadamente os eventos de 1973.

Ararat Yerevan 1973
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Spartak não, Ararat


Em 1935, as rédeas da União Soviética estavam nas mãos de Josef Stalin, seguras com a firmeza de quem não apenas virava as costas para quem não concordasse com suas ideias, mas determinava o destino de tais pessoas. O Stalinismo estava no auge da repressão, à beira do abismo que foi o Grande Terror, sucessor de outra tragédia, a Grande Fome, esta afetando mais especificamente a Ucrânia. Símbolos, que normalmente já carregam grande valor, na época, tinham mais ainda.

Nesse contexto, o Spartak Yerevan foi fundado, ligado à Sociedade Esportiva Spartak local, vinculada ao seu braço principal, em Moscou. O nome remetia ao gladiador Espártaco, líder da revolta de escravos da Roma Antiga, aproximadamente 70 anos a.C. Sua imagem, no contexto socialista e revolucionário, foi difundida como a de um grande guerreiro libertador, capaz de desafiar a ordem dominante. Essa imagem se encaixava no que Stalin tentava transmitir ao planeta sobre si mesmo.

Embora os Spartak não tivessem ligações institucionais com esferas do poder soviético, como eram os casos de Dínamo, CSKA, Lokomotiv, Torpedo ou Zenit, conectados, respectivamente, à polícia secreta soviética, ao Exército, à ferroviária, à fábrica de automóveis, e à companhia energética estatais, carregavam a imponência que o Stalinismo esperava que emanasse do cenário esportivo. Times que remetessem a Espártaco eram bem-vindos, mesmo que houvesse manifestações anti-Stalin dentro dos estádios.


No entanto, o líder político faleceu em 1953 e seu sucessor, Nikita Kruschev, deu início a um longo processo que ficou conhecido como Desestalinização. O objetivo era desvincular a imagem da URSS de seu antigo líder. Ruas e cidades que aludiam a ele tiveram seus nomes modificados; monumentos foram removidos. Foi um processo de apagamento, cuja intenção era construir uma imagem forte para a União Soviética, mas despersonalizada. Sua força emanaria da própria nação, não de um líder.

Em muitas partes da URSS, o efeito mais intenso do processo foi a inflamação de nacionalismos. Um dos mais pujantes se verificou na Armênia. Em 1965 aconteceu uma das maiores demonstrações disso, com as Manifestações de Yerevan. Foi o primeiro levante popular registrado na União Soviética, mobilizando mais de 100 mil protestantes em frente à Ópera de Yerevan, no 50º aniversário do início do Genocídio Armênio. A resposta foi a construção de um memorial, em homenagem às vítimas do massacre.

Dois anos antes, o esporte registrara outra manifestação. Spartak era um nome vinculado ao Stalinismo e já não era tão necessário manter aparências. Por isso, o clube mudou. Estreitando seus laços com o Cristianismo, religião mais tradicional da Armênia desde o Século IV, passou a se chamar Ararat Yerevan. A referência remonta à Arca de Noé, que, com o recuo das águas e o fim do dilúvio, encalhou no Monte Ararate, em região fronteiriça entre Armênia, Irã e Turquia.

Ararat Mount
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Nikita Simonyan volta às origens


No dia 8 de junho de 1958, uma das maiores gerações de futebolistas soviéticos começou sua corrida em busca do título da Copa do Mundo. Com 13 minutos disputados, a URSS já vencia a Inglaterra, gol de Nikita Simonyan. O craque do Spartak Moscou vivia o ocaso de sua carreira, aos 32 anos. Era um dos principais nomes, o capitão, de um time que não contou com Igor Netto, lesionado, e que tentava sobreviver a problemas gravíssimos de bastidores.

Além da ausência de Netto, pesava a remoção de outros três jogadores da convocação, Boris Tatushin, Mikhail Ogonkov e o mais talentoso entre eles, Eduard Streltsov, cuja trágica história rendeu um livro escrito pelo jornalista Jonathan Wilson. “Sem esses quatro jogadores, em 13 dias nós jogamos cinco jogos, sem substituições. Como resultado, chegamos às quartas de finais e perdemos para a Suécia 2 a 0. Na minha opinião, embora tenha havido muitas críticas direcionadas a nós, sinto que foi uma grande conquista do mesmo jeito”, falou Simonyan, ao These Football Times.


Um ano após o Mundial, o atacante, maior artilheiro da história do Spartak Moscou e do Campeonato Soviético (160 e 133 gols respectivamente), pendurou as chuteiras e começou sua carreira como treinador, na direção do próprio clube moscovita. Em 1962, venceu seu primeiro título nacional e, no período, também comandou a URSS. Saiu em 1965, voltando dois anos depois, para uma nova sequência de cinco anos.

Com tamanha vinculação à União Soviética e ao Spartak, um fato importantíssimo da biografia de Simonyan vivia à margem: ele era etnicamente armênio.

“É impossível esquecer essa página da minha história. Nossos garotos e eu levamos alegria à nossa nação. Sempre tive e terei memórias desses dias. Se não estou enganado, treinei e joguei pelo Spartak por mais de 23 anos. Dado que eu vivia em Moscou, o Spartak se tornou muito querido em meu coração. E o Ararat também é, porque é do meu país de origem, do meu povo. Tenho muita tristeza por meu pai ter falecido e não ter presenciado esse triunfo e o que fizemos pelo povo armênio”, falou Simonyan ao Armenpress.

Nikita Simonyan Ararat
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Contratado pelo Ararat Yerevan em 1973, chegou a um clube cuja biografia não registrava grandes feitos até então. Sua maior conquista era o título da segunda divisão, em 1965. No entanto, já havia um bom trabalho sendo empreendido por Nikolay Glebov. Nos anos anteriores, os armênios terminaram o Campeonato Soviético em 2º e 4º lugares.

O grupo tinha muitos jogadores jovens. “Eu jogava pelo time júnior da Armênia. As Spartakiadas eram organizadas na URSS. Era como nossos Jogos Olímpicos. Nosso time se tornou o campeão da Spartakiada em 1971. O treinador do Ararat, Glebov, escolheu alguns jogadores do nosso time”, contou Armen Sargsyan, também ao Armenpress.

O garoto se juntou a um elenco que contava com o goleiro Alyosha Abramyan e os defensores Alexander Syomin e Aleksandr Kovalenko. Além deles, foram pinçados destaques da região: Levon Ishtoyan e Oganes Zanazanyan, do Shirak Leninakan; Nazar Petrosyan, da Escola Republicana de Yerevan; Arkadi Andreasyan e Eduard Markarov, do Neftchi Baku. 

Todos seriam convocados em algum momento. Simonyan encontrou terreno fértil para trabalhar.

Mais uma nação levanta o caneco soviético


Exceto pelo Campeonato Soviético de 1964, vencido pelo Dinamo Tbilisi, os outros títulos da competição haviam terminado em mãos russas e ucranianas, o que não chega a ser surpreendente. Mesmo quando o quadro georgiano triunfou, o Estado pôde se vangloriar, dado que todas as equipes ligadas ao Dynamo Sports Club tinham conexões com a polícia secreta, seja a NKVD, a MVD ou a KGB. Nem mesmo o Zorya Voroshlovgrado (mais tarde Zorya Luhansk), campeão em 1972, escapava, tendo surgido a partir de uma série de fusões de clubes ligados ao partido regional e à fábrica nacional de trens a vapor.

Logo na rodada inaugural do Campeonato Soviético de 1973, no dia 7 de abril, ficou claro que o Ararat deveria ser levado a sério. O time recebeu o Dynamo de Kiev. Na imensidão do Estádio Hrazdan, mais de 64 mil pessoas viram Andreasyan, duas vezes, e Nikolai Kazaryan, garantirem a vitória armênia. Oleg Blokhin descontou para o quadro ucraniano.

Um adendo: naquele ano, empates terminavam com disputas de pênaltis. O vencedor levava um ponto para casa; o perdedor, nada. A primeira experiência do Ararat nessa situação aconteceu logo na segunda rodada. O time recebeu o Zorya e ficou no 1 a 1, para decepção de uma multidão superior a 70 mil presentes. Nos pênaltis, deu Ararat. 

Até o fim da temporada, os representantes de Yerevan empatariam mais seis vezes, vencendo duas disputas penais e perdendo quatro.

Cada jogo era como uma decisão. O torneio tinha 16 equipes, a maior parte delas muito tradicional. O nível de dificuldade era tanto que equipes como CSKA e Zenit lutaram contra o rebaixamento, enquanto o Dinamo Minsk descendeu.


Depois da empolgação da estreia, ajustes se revelaram  necessários. Na quarta rodada, o Ararat sofreu sua primeira derrota, em visita ao Dinamo Minsk; na sétima e na oitava, foi batido mais duas vezes, agora para Zenit e Torpedo. A partir daí, porém, entrou nos eixos e passou 10 rodadas sem perder, vencendo oito partidas e empatado duas (sendo contudo superado nos penais em ambas ocasiões).

Houve vitórias marcantes, como o 4 a 0 diante do Pakhtakor Tashkent, ou o 3 a 0, ante o Dinamo Tbilisi, mas resultados mais magros eram a regra. A sequência de triunfos foi interrompida pelo Karpaty Lviv. Viria também da Ucrânia a última derrota armênia, dois jogos mais tarde. O Dynamo de Kiev foi à desforra e conseguiu devolver o 3 a 1 da rodada inaugural.

O fato é que o Ararat não perdeu nenhuma das últimas nove partidas do Campeonato Soviético. A sorte virou: foram sete vitórias e dois empates, com um triunfo e uma derrota nas penalidades. Os homens do Cáucaso entraram na última rodada, diante do Zenit, campeões — e mesmo assim bateram o quadro de Leningrado. Outra vez, mais de 70 mil pessoas abarrotaram o Hrazdan para celebrar.

Andreasyan Ararat
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Com 13 gols, Andreasyan foi o principal goleador da equipe. Apenas Blokhin (18) e Anatoliy Kozhemyakin (16), do Dinamo Moscou, foram mais prolíficos.

Era a primeira conquista de primeiro nível de um time da Armênia, que se tornava a quarta república soviética contemplada. Mas os símbolos, com toda a sua importância, eram ainda maiores. O triunfo também mostrou que era possível vencer preservando uma identidade local. O que o Spartak Yerevan não chegou perto de conseguir, o Ararat alcançou. Com Nikita Simonyan, que se confirmou além de homem soviético e ídolo do Spartak Moscou, um orgulhoso armênio.

Nem Blokhin conseguiu para o Ararat


Paralelamente à disputa do Campeonato Soviético, o Ararat também se apresentou na Copa Soviética de 1973. A primeira rodada aconteceu ainda no princípio de março, um período em que as temperaturas médias de Yerevan já haviam subido o suficiente para que se pudesse jogar futebol. Naquele mês, os termômetros registraram média de 4.8ºC.

O adversário inicial foi o modesto Alga Frunze (mais tarde Alga Bishkek), do Quirguistão, que não foi páreo para os armênios, apesar dos dois placares magros: 1 a 0. No entanto, logo na rodada seguinte, as coisas começaram a esquentar. A rivalidade entrou em campo: o Neftchi Baku, do Azerbaijão, cruzou o caminho dos homens liderados por Simonyan.

Logo no início do Século XX, após a capitulação do Império Otomano e o colapso da Rússia Czarista, as três repúblicas do Cáucaso — Armênia, Azerbaijão e Geórgia — declaram independência, mas entraram em conflitos ao redor de três regiões: Nakhichevan, Zangezur e Karabakh. Diversos massacres étnicos ocorreram na época. As sangrentas disputas cessaram com a tomada da região pela União Soviética, que preferiu dar o controle de Karabakh aos azeris turcos em detrimento do armênios cristãos, maioria no local.


Os enfrentamentos ficaram adormecidos até o final dos anos 1980, mas a tensão nunca cessou. No campo e bola, o Ararat eliminou o Neftchi, vencendo as duas partidas da  eliminatória: 1 a 0 e 3 a 1. Dali em diante, os armênios fizeram uma disputa particular contra ucranianos. Bateram Zorya e Dnipro, nas quartas e semifinais. Na decisão, o Dynamo de Kiev os aguardava.

No Estádio Central Lenin, em Moscou, o que se viu foi um jogo duríssimo. Quando o relógio se aproximou dos 45 minutos do segundo tempo, os kievanos venciam por 1 a 0, gol de pênalti marcado por Viktor Kolotov, o capitão dos ucranianos.

“Poucos minutos antes do final do jogo, quando um número significativo de espectadores estava deixando o estádio, uma grande onda de alegria estourou. O gol de Ishtoyan trouxe todos de volta. Eles não viram o gol, mas presenciaram nosso triunfo. Vencemos a Copa Soviética em 1975 também, mas em 73 foi diferente”, afirmou Sargsyan.


Quem também não viu o gol de empate, nem o da virada anotado na prorrogação outra vez por Ishtoyan, foram os viventes de Nagorno-Karabakh. Para evitar manifestações armênias de cunho nacionalista na região, foi proibida a exibição da partida decisiva. Os que ousaram tentar meios alternativos para acompanhar correram o risco de ser investigados pela KGB. Nada disso impediu os festejos no estádio e em Yerevan.

“Kovalenko fez um passe no final do tempo regulamentar. Naquele momento, ouvi alguém dizer ‘bola perdida’. Depois que Nikolai Kazaryan chegou até o goleiro e Ishtoyan marcou o gol, tivemos a vantagem psicológica. Nossa fé nos deixou muito mais perto da vitória”, recordou Andreasyan, ao Armenpress.

Em 1973, o Ararat concentrou o melhor do futebol soviético. Não fosse a recusa da URSS a viajar para o Chile, que sofrera o golpe de estado liderado por Augusto Pinochet, craques do elenco armênio poderiam ter tido a chance de jogar a Copa do Mundo de 1974. Andreasyan, por exemplo, foi titular na partida de ida diante dos chilenos, em Moscou.

O mundo ainda presenciou a qualidade do Ararat na Copa dos Campeões de 1974-75. Depois de eliminar os noruegueses do Viking e os irlandeses do Cork Celtic, o time parou nas quartas de finais, diante do Bayern de Munique — não sem muita luta. O placar agregado registrou vitória marginal para os bávaros, 2 a 1. O Ararat só cedeu no final da partida de ida (2 a 0). Em casa, venceu: gol de Andreasyan.


Simonyan já deixara o clube, mas o quadro de Yerevan seguia em boas mãos: era Viktor Maslov, um dos revolucionários do futebol soviético, que o liderava. Ele conduziu o time ao título da Copa Soviética de 1975, enfim amarrando todo aquele enredo. 

Dali a cinco anos, Hamlet Mkhitaryan daria seus primeiros chutes vestindo as cores do Ararat, um time campeão. O sobrenome soa familiar? Sim, ele teve um filho famoso chamado Henrikh.

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