quarta-feira, 10 de março de 2021

A influência de Viktor Maslov na evolução do futebol

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Não é sempre que bom trabalho e reconhecimento caminham juntos. Nos mais diversos campos, há exemplos de mestres cuja influência e expertise somente foram aclamadas postumamente. Mais, há ainda aqueles por sobre os quais é mantida uma fina cortina de fumaça, ainda que a sua importância esteja estampada para onde quer que se olhe. No âmbito do futebol, o russo Viktor Maslov, cujas ideias ficaram especialmente evidentes nos anos 1960, pode ser identificado como uma dessas figuras.

Viktor Maslov Tactician Russia 4-4-2
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Torpedo: a porta de entrada


Era vivido o dia 27 de abril de 1910, quando Moscou deu as boas-vindas àquele que viria a se tornar uma de suas referências no futebol. Em meio à primavera, anos antes de o Império Russo se defrontar com diversos eventos históricos fundamentais para a formação da União Soviética, Maslov veio ao mundo. Inevitavelmente, viveria uma vida atravessada por acontecimentos de grande expressão.

Seria a Segunda Guerra Mundial o evento responsável pela aposentadoria do então meio-campista Viktor Maslov, que não tardaria a dar seus primeiros passos como treinador. Naquela altura, o ano de 1942, o russo já havia estabelecido fortes laços com uma equipe em especial. E não foi com o RDPK Moscou, clube em que despontou como atleta, mas perto dali, na própria capital.

O primeiro contato com o Torpedo Moscou aconteceu nos anos 1930. Pelo clube moscovita, Maslov não chegou a alcançar conquistas, mas capitaneou a agremiação por três anos, entre 1936 e 1939. E foi junto aos alvinegros que recebeu a chance de liderar desde os bancos de reservas, imediatamente após o término de sua passagem como jogador. Mesmo sem ter o melhor material humano disponível, o comandante alcançou feitos importantes.

O primeiro Campeonato Soviético do pós-guerra foi jogado em 1945. O Torpedo fez excelente campanha, terminando em terceiro lugar — embora muito atrás do vice CSDK (atual CSKA) e do campeão Dynamo de Moscou. Sua primeira passagem pelo clube, cuja origem está ligada a trabalhadores da fábrica automotiva AMO, encerrou-se em 1948. Sem títulos, mas com mais um quarto e um quinto lugares na liga, além de um vice-campeonato da Copa Soviética, em 1947.

Viktor Maslov Torpedo
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Maslov voltaria ao Torpedo, sua casa, algumas vezes. A primeira, em 1952. A ocasião seria coroada com título de copa, alcançada após vitória ante o Spartak, 1 a 0. Era o primeiro caneco de Viktor. Um ano depois, ele voltaria a se despedir do time, apenas para retornar ao final da década, em 1957. Ali, começou a ficar evidente que, para além de uma pessoa muito identificada com o clube, Maslov tinha uma percepção peculiar e necessária ao esporte.

A consagração definitiva viria em 1960, com o título do Campeonato Soviético. Não mais havia forma sensata de duvidar das capacidades do treinador. Antes de chegar próximo do olimpo do futebol local, ele ainda teria uma passagem breve, entre 1962 e 1963, pelo modesto SKA Rostov-on-Don, terminando a liga em um inesperado e aplaudido quarto lugar. 

Então, em 1964, era a hora de viajar para Kiev e passar, de vez, à eternidade.

Desenvolvendo o jogo


Conquanto tenha vivido muitos dias de vitórias durante sua carreira como treinador, o verdadeiro impacto de Maslov no futebol se pautou nas práticas que propôs que seus times executassem. Naquele momento histórico, os anos 1960, o mundo estava terminando de efetivar a transição do esquema WM (uma espécie de 3-2-2-3) para o 4-2-4, aclamado após o título mundial do Brasil, em 1958. Por sua vez, o russo já vislumbrava o próximo passo.

Eram sobretudo dois os pontos que chamavam a atenção de Viktor: o modo como Zagallo deixava de ser um ponta esquerda nos momentos em que a Canarinho precisava se defender, fazendo as vezes de meio-campista; e, acima de tudo, a forma como Didi regia as ações do escrete verde e amarelo. Assim, Maslov foi além. E, como acontece em grande parte das revoluções, encontrou detratores.

O homem soviético criou a primeira versão de um esquema que seria amplamente utilizado mundo afora. Era o 4-4-2. Maslov notou que o equilíbrio que o Brasil encontrava com o recuo de um ponta poderia ser ampliado se o ponteiro do lado contrário agisse da mesma forma. Ainda assim, a vantagem de ter um homem a mais na faixa central só se mostrou efetiva porque Viktor introduziu dois outros conceitos-chave: a pressão alta pela recuperação da bola e a marcação por zona.


Potencializando os efeitos de um esporte cada vez mais profissionalizado, atentando para as áreas de nutrição, preparação e recuperação físicas, Maslov encontrou uma forma de sufocar seus adversários. Além da superioridade física de seus atletas assegurar mais fôlego, era possível pressionar agressivamente o portador da bola porque, através da marcação por zona e tendo um jogador a mais na faixa central, seus times não perdiam a forma e mantinham superioridade numérica em zonas cruciais para o desenvolvimento do jogo.

“Ele foi o primeiro técnico do Dynamo que realmente deu ênfase à preparação física dos jogadores”, disse Volodymyr Muntyan, em A Pirâmide Invertida. “O sistema 4-4-2 introduzido pelo Vovô era apenas uma ordem formal; tudo era intercambiável no decorrer do jogo”, completou József Szabo.

A pressão deveria ser feita por aqueles que estivessem mais próximos das ações com bola, em detrimento de longas perseguições individuais que, por definição, obrigavam o marcador a deixar sua posição original. Outra importante mudança foi a atribuição de funções ofensivas aos laterais, antes limitados às tarefas de defesa, em resposta ao recuo dos pontas.

De uma tacada só, Maslov deixava seu time melhor posicionado e mais apto a recuperar a bola. Além disso, com mais dois meio-campistas pelos flancos, fez-se possível dar liberdade ao pensador da equipe — o Didi de Maslov. Em 1966, Sir Alf Ramsey ficaria famoso por ter aplicado tais princípios ao time da Inglaterra que venceria o Mundial, tendo em Bobby Charlton seu zênite. Aquele time receberia a alcunha de Wingless Wonders. Contudo, anos antes, Viktor Maslov já aplicava a mesma fórmula.

Alf Ramsey England Wingless Wonders
Foto: Sports Illustrated/Arte: O Futebólogo

Tais questões levaram o jornalista Jonathan Wilson, em A Pirâmide Invertida, a considerar o russo “o pai do futebol moderno”, indicando que tanto ele quanto o inglês vislumbravam que “jogar com quatro atacantes podia tornar muito difícil a recuperação da bola”. 

Maslov via o futebol como um organismo vivo e em constante mudança: “O futebol é como um avião. Conforme a velocidade aumenta, também aumenta a resistência do ar, então é necessário melhorar a aerodinâmica”, teria dito em fala reproduzida pelos ingleses do Guardian.

Vencendo em Kiev, Moscou e Yerevan


Apesar de ter triunfado no comando de Torpedo e SKA Rostov-On-Don, Maslov só concluiu sua afirmação no futebol soviético a partir de 1964, ao chegar ao Dynamo de Kiev. O momento de seu desembarque foi marcado por transição no elenco kievano. Jogadores como o goleiro Oleg Makarov, os defensores Vladimir Erokhin e Anatoly Suchkov, e o meio-campo Yuri Voinov haviam deixado o clube fazia pouco tempo.

O treinador pôde montar um time à sua maneira. E soube dançar conforme a música. À época, Maslov nutria boas relações políticas com Volodymyr Shcherbytskyi, dirigente do departamento ideológico do comitê central do Partido Comunista Ucraniano. Assim, conseguiu ajuda extra para levar os melhores ucranianos disponíveis para o Dynamo.

Naquela altura, Viktor Maslov já era conhecido como “Vovô”. A alusão era feita em sinal de respeito e admiração. Diferentemente de vários de seus pares e contemporâneos, o soviético não era um líder autocentrado. Suas preleções eram frequentes, mas costumavam ser rápidas e objetivas. Além disso, o comandante não só permitia como estimulava a participação de seus atletas, que inclusive o convenceriam a não os substituir em mais de uma ocasião.

“Maslov era extraordinariamente simples na comunicação. Ele não evitava palavras fortes, se a essência não chegasse até nós. Ainda hoje, ouço sua voz um pouco rouca, irônica e, ao mesmo tempo, firme, sem tolerar objeções. Uma vez que estivéssemos indo para os vestiários para o jogo, ele nos parava de repente na porta e dizia: ‘Vocês sabem que o estádio está cheio. O porquê de as pessoas terem vindo vê-los’”, contou o antigo meio-campista Viktor Serebryannikov, aos ucranianos do Fakty, em 2001.

Viktor Maslov Dynamo Kiev
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Se havia dúvidas a respeito da eficácia das idéias de Maslov, elas finalmente foram pulverizadas. Já em seu primeiro ano no comando do Dynamo, conseguiu levar o time ao título da Copa Soviética. Dois anos mais tarde, em 1966, conquistou o doblete, levantando troféus de liga e copa. Também em 1967 e 1968, guiaria o time rumo ao tricampeonato soviético. 

No período, conseguiu materializar com perfeição o seu 4-4-2, mesmo porque tinha em Andriy Biba o seu tão desejado Didi. Apenas ele se via desincumbido das tarefas mais duras de pressão e marcação.

Internacionalmente, o Dynamo de Maslov também ganharia fama ao eliminar o Celtic da Copa dos Campeões da Europa de 1967-68, ocasião em que os escoceses eram os campeões vigentes, treinados pelo lendário Jock Stein.

Viktor Maslov também viveria polêmicas, como quando decidiu tirar Valeriy Lobanovskyi do time. Apelidado de “Fio”, o jogador era um habilidoso ponta, driblador e individualista. Portanto, não se encaixava na proposta do chefe, que chegou a pedir ao jogador para se adaptar — oferta prontamente recusada. O curioso é que o atleta rebelde se tornaria um treinador disciplinador, cujo trabalho fez uso de muitos dos conceitos desenvolvidos por Maslov.

Valeriy Lobanovskiy
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Em 1970, o casamento entre o treinador e o Dynamo chegou ao fim. Não foi da forma mais bonita, com as lideranças governamentais instruindo o clube a demiti-lo durante a viagem para um jogo em Moscou, o que evitaria manifestações favoráveis ao treinador em Kiev. Ele tomou ciência da demissão no hotel e foi convidado a deixar o ônibus da equipe. Com lágrimas nos olhos, segundo contou seu antigo assistente, Mykhailo Koman.

Em seus atos finais, Maslov retornou ao Torpedo entre 1971 e 1973, vencendo a Copa Soviética de 1972. E, por último, levou também os armênios do Yerevan Ararat ao título da copa nacional. Ainda relativamente jovem, viria a falecer em 1977, aos 67 anos.

Influenciando pessoas e o jogo


Viktor Maslov, de fato, acabou influenciando muitas pessoas, desde seus jogadores até outros treinadores. No já mencionado A Pirâmide Invertida, Jonathan Wilson colheu o depoimento de Biba: “Da parte dele, ele nos via primeiro como pessoas com qualidades e defeitos, e só depois disso como futebolistas. Conduzia suas relações com os jogadores de tal forma, sendo tão sincero conosco, que era impossível ter qualquer sentimento ruim em relação a ele”.

O legado de Maslov raramente é reconhecido. Em parte, a falta de informações mais precisas a respeito do futebol praticado na União Soviética explica o fenômeno. Com efeito, o fato é que as ideias do comandante acabaram se materializando também no trabalho de outros treinadores. Se houve influência direta, não se pode concluir. Certo é que seu pensamento foi diversas vezes replicado, em vários contextos.

Pode-se dizer que o Feyenoord, de Ernst Happel, e o Ajax, de Rinus Michels, incorporaram conceitos como a marcação zonal e a ideia de pressão. Tal ideário também se materializou no trabalho de Osvaldo Zubeldía, no Estudiantes de La Plata do final dos anos 1960 e início dos 70. Também o inglês Graham Taylor, de destacada passagem pelo Watford e que chegou a dirigir a Inglaterra, revelou ter lido sobre o russo e aplicado algumas de suas ideias.

Viktor Maslov Russia
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Por derivação, outros nomes acabariam também influenciados. Caso claro é o de Arrigo Sacchi, cuja inspiração no Futebol Total, de Michels, é amplamente reconhecida. Em última instância, até mesmo nomes como Pep Guardiola e Jürgen Klopp terão absorvido conceitos cuja origem remete ao russo Viktor Maslov. 

Também é curioso notar que, depois de ter dado trabalho ao treinador enquanto jogador, Lobanovskiy, que se tornaria o maior treinador da história do Dynamo, reconheceria abertamente a importância de seu antigo mestre:

“Creio que Maslov foi o melhor treinador. Ele parecia estar à frente de seu tempo. No fim das contas, o Dynamo de Kiev jogava conforme o 4-4-2 antes da Copa do Mundo de 1966, quando o inglês Ramsey o usou pela primeira vez, como costuma ser reconhecido. Maslov criou sua própria imagem do jogo, seu modelo. Ele disse ao jogador Lobanovskiy: ‘Você precisa mudar seu jogo. Porque hoje o seu âmbito das ações para o time é pequeno demais, você não se encaixa no nosso modelo de jogo’ [...] Maslov sofreu por um tempo e me deixou sair. Ele convidou Puzach, que, brilhantemente, se encaixou no seu modelo e percebeu as exigências do futebol moderno”, falou ao Fakty.

Durante sua trajetória, Maslov enfrentou críticas, brigou com poucos atletas e foi amado por outros tantos. Venceu títulos e deixou sua marca no esporte, influenciando o jogo de modo indelével, sobretudo a nível tático. Que o reconhecimento de seus feitos seja raro, o fato é que o futebol que se conhece na modernidade é todo ele uma derivação de algo que o russo começou a desenvolver nos anos 1940, 50 e 60, quando conquistou notoriedade.

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