quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Quando o Dinamo Tbilisi orgulhou a Geórgia e conquistou a Europa

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No mínimo, soa curioso falar em uma grande equipe de futebol vinda da Geórgia. Sobretudo após a desfragmentação da União Soviética, os clubes de outras nações que não a Rússia e a Ucrânia acabaram marginalizados. A falta de um campeonato competitivo, além da perda de apoio financeiro de instituições públicas, ocasionou um enfraquecimento que parece incontornável, conforme os anos passam. Nem sempre foi assim. Nos anos 1970 e 80, o Dinamo Tbilisi foi um dos suprassumos do futebol soviético, dando-se a conhecer também continentalmente.

Dinamo Tbilisi Winners' Cup 1981
Foto: Sakinformi Photo Collection/ Arte: O Futebólogo


O melhor do futebol soviético


Os êxitos do Dinamo Tbilisi começaram a ser verificados em 1976. Ali, os georgianos já haviam conquistado o título soviético uma vez, em 1964. Contudo, sem conseguir uma continuidade, o que mudou na segunda metade da década seguinte. Um dos nomes importantes para o sucesso da equipe nesse momento histórico foi o do treinador Nodar Akhalkatsi. Ele assumiu o comando naquele 1976 e alcançou sucesso imediato.

Aquele era um momento de prosperidade para o clube também fora das quatro linhas. Apoiado por Eduard Shevardnadze, presidente do Partido Comunista Georgiano, o time tinha inaugurado o estádio Boris Paichadze também em 1976. Foi assim que a esquadra de Tbilisi começaria a alcançar uma das maiores médias de público da Europa, com aproximadamente 66 mil pessoas marcando presença nas partidas da equipe da liga soviética.

No dia 3 de setembro daquele ano, o Dinamo subiu ao gramado do estádio Central Lênin, em Moscou. Na oportunidade, enfrentou os armênios do Ararat Yerevan, na disputa pelo título da Copa Soviética. Inapelavelmente, os georgianos massacraram seus vizinhos caucasianos: 3 a 0. De cabeça, o mais talentoso dentre os presentes, David Kipiani, colocou o time na frente. Após, Piruz Kanteladze aumentaria de pênalti, e Revaz Chelebadze desferiria o golpe de misericórdia.


Essa foi a primeira demonstração de que coisas grandes deveriam ser esperadas dos homens de Tbilisi.

É ponto pacífico o fato de que aquele time uniu as principais características do futebol soviético. Ao mesmo tempo em que conseguia praticar um jogo mais objetivo, pautando em toques rápidos e imposição física, características associadas a russos e ucranianos, era capaz de vencer partidas a partir de habilidades individuais, que prevaleciam junto aos povos georgianos e armênios. 

Ou seja: havia mobilidade, técnica e forte ética de trabalho; nas palavras de Jonathan Wilson, em Behind The Curtain, “aquele era um grande time capaz de um jogo fluído, técnico, da mais alta categoria”.

Quando da conquista da copa nacional de 1976, já compunham a estrutura da equipe importantes destaques. O talentoso defensor, e que viria a capitanear o time em seus mais altos voos, Alexander Chivadze, já marcava presença na retaguarda georgiana; Kipiani já era o pensador; e Vladimir Gutsaev um dos prolíficos atacantes. Nos anos seguintes, mais três peças cruciais chegariam de um dos rivais locais, o Torpedo Kutaisi: o goleiro Otar Gabelia, o incansável volante Tengiz Sulakvelidze e o atacante Ramaz Shengelia. Por sua vez, Vitali Daraselia, um dos mais jovens, já estava no clube desde 1975, mas assumiria protagonismo paulatinamente.

O time foi sendo moldado para atuar em um esquema tático que pode ser entendido como um 1-3-3-1-2. À presença de um líbero era adicionada a de três defensores. Adiante, havia um volante destruidor e dois meio-campistas multifuncionais. Além deles, situava-se Kipiani, o camisa 10, regendo toda a obra georgiana e servindo Gutsaev e Shengelia. Esse jeito de jogar vinha sendo usado no Leste Europeu, vindo a ser empregado também por nomes como Valeriy Lobanovskyi, no Dynamo de Kiev.

Emoções domésticas e surpresa europeia


O Dinamo Tbilisi continuaria em sua senda de vitórias nos anos que se seguiram. Em 1978, o time se superiorizaria ao homônimo de Kiev, que, naquela altura, apostava muitas de suas fichas em Oleg Blokhin, o Ballon d’Or de 1975. Vencera, pela segunda vez, o Campeonato Soviético e tivera o vice-artilheiro do certame, Shengelia (15 gols), este também assegurando o prêmio de jogador soviético do ano (láurea que, um ano antes, coubera a Kipiani).



Esse triunfo levou o Dinamo à disputa da Copa dos Campeões da Europa. Na edição de 1979-80, o time viveria um dos grandes momentos de sua história. Dizer que o clube foi apenas até a segunda fase da competição continental não é dar a devida dimensão aos seus feitos. Isso porque, na fase inicial, o time teve pela frente a força do Liverpool — que dois anos antes havia sido campeão. E o êxito foi impressionante.

Em Anfield Road, os georgianos venderam caro a derrota, 2 a 1. Na volta, mostraram todo o seu arsenal ao garantir um imponente 3 a 0, que causou barulho junto à imprensa britânica — gols de Gutsaev, Shengelia e Chivadze. Adiante, o time pararia no Hamburgo, que, na altura, contava com o melhor jogador da Europa, Kevin Keegan — 6 a 3, no placar agregado. 


Naquele momento, aliás, o time já levantado mais um caneco. Novamente, subira ao lugar mais alto do pódio da Copa Soviética, batendo o Spartak Moscou nos pênaltis, após um empate sem gols. O triunfo garantiu a classificação para a Recopa Europeia de 1980-81, uma competição em que, enfim, os georgianos brilhariam intensamente, pulverizando as dúvidas a respeito de suas qualidades.

Luta continental


As duas primeiras fases da disputa continental foram tranquilas para o Dinamo Tbilisi. O primeiro duelo foi contra os gregos do Kastoria: empate sem gols fora, vitória por duas bolas a zero em casa. O desafio seguinte opôs os homens do Leste Europeu aos irlandeses do Waterford United. A classificação à terceira fase veio com um placar agregado confortável, 5 a 0. Apesar disso, o confronto seguinte prometia dificuldades.

Em mais uma ocasião, os georgianos tiveram pela frente o representante da Inglaterra. Dessa vez, o adversário foi o West Ham. Defendendo aquele que foi seu último título de relevo, os Hammers, entretanto, não viviam o mais glorioso momento de sua história. Apesar de serem os campeões vigentes da FA Cup, encontravam-se na segunda divisão. Ainda assim, contavam em seus quadros com o selecionável Trevor Brookings e com Frank Lampard, o pai daquele que seria um dos maiores ídolos da história do Chelsea. Mas não teve para ninguém.


Em Boleyn Ground, os anfitriões foram varridos pelo Dinamo: 4 a 1. Chivadze, Gutsaev e Shengelia, duas vezes, marcaram para os visitantes indigestos; David Cross descontou para os ingleses. Na volta, o West Ham até venceu, mas o 1 a 0 foi insuficiente. O sonho dos soviéticos estava mais vivo do que nunca. As semifinais, ante o Feyenoord, eram tudo o que separava o time da capital da Geórgia da final europeia.

Ainda que os holandeses não estivessem em um ano particularmente bom (terminariam a Eredivisie em quarto lugar, 15 pontos atrás do campeão AZ Alkmaar), representavam um time histórico e que já havia vencido até mesmo a Copa dos Campeões da Europa. Em Tbilisi, o Dinamo fez o dever de casa, contando com um herói mais afeito ao papel de anti-herói. Sulakvelidze, o volante e cão de guarda do time, marcou duas vezes na vitória por 3 a 0, que teve, ainda, gol de Gutsaev.


Na volta, o Stadionclub tentou, mas não reverteu a vantagem georgiana. Feyenoord 2, Dinamo, finalista, 0. Curiosamente, a decisão acabaria sendo um confronto entre equipes inseridas no contexto da Cortina de Ferro. Os soviéticos teriam que superar os alemães orientais do Carl Zeiss Jena, que tiveram um caminho mais complicado até a final, superando a Roma, de Falcão, o Valencia, de Mario Kempes e campeão vigente, os galeses do Newport County e o tradicional Benfica.
 

O pódio que ninguém viu


No dia 13 de maio de 1981, data em que o mundo foi confrontado com o horror do atentado contra o Papa João Paulo II, as equipes subiram ao gramado do Rheinstadion. Em Dusseldorf, do lado ocidental da Alemanha, poucos acompanharam a grande final. Os dados oficiais dão conta de que o estádio, com capacidade para 55 mil pessoas, foi ocupado por apenas 4.750 espectadores. Somente cerca de 100 georgianos foram liberados para viajar à Alemanha.

Dinamo Tbilisi Carl Zeiss Jena
Foto: Sakinformi Photo Collection/ Arte: O Futebólogo

O escasso público foi uma pena, porque, dentro das quatro linhas, presenciou-se um jogo de alto nível. Se os georgianos contavam com Kipiani, Daraselia, Shengelia e Chivadze em grande forma, os alemães apostavam fichas em Lothar Kurbjuweit, um dos grandes defensores de seu tempo e campeão olímpico em 1976 — além do veteraníssimo goleiro Hans-Ulrich Grapenthin. 

O placar só foi aberto aos 63 minutos. Uma eficaz troca de passes pela ponta esquerda deu origem ao cruzamento aproveitado por Gerhard Hopper. Era o 1 a 0 para o Carl Zeiss Jena. Só que a vantagem germânica durou apenas quatro minutos. A resposta soviética veio rápido. Shengelia desbravou o meio-campo rival antes de passar a Gutsaev, na ponta direita. O atacante fuzilou a meta de Grapenthin, conforme o treinador georgiano mandara, mediante um chute rasteiro. 

O título seria confirmado aos 86 minutos, quando Daraselia assinou uma pintura, ao driblar dois marcadores, antes de também finalizar rasteiro: 2 a 1, e festa em Tbilisi. Conta-se que os festejos na Geórgia foram tão intensos que nenhum crime foi cometido naquela noite, sendo que, em média diária, eram notificados 150 assaltos na região. Segundo Kipiani diria, em fala reproduzida pela revista inglesa The Blizzard, o tento de Daraselia “foi o gol mais importante da história do futebol da Geórgia”.


Ao final daquele ano, Shengelia sucederia Chivadze, conquistando o prêmio de jogador soviético do ano. Aquela foi sua segunda láurea, a quarta, em cinco anos, atribuída a jogadores do Dinamo Tbilisi.

Traumas, ao final


Vitoriosos em casa e no continente e em grande momento, os georgianos eram cotados para formar a base da seleção da URSS para a disputa da Copa do Mundo de 1982. Essa impressão foi reforçada quando, às vésperas do certame do mundo, o Dinamo fez bonito, outra vez, na Recopa. Classificados como campeões vigentes, foram até as semifinais, perdendo para o Standard de Liège, que depois seria derrotado pelo Barcelona.

Dinamo Tbilisi Moscow
Foto: Givi Kikvadze/Arte: O Futebólogo

De fato, foram muitos os jogadores chamados ao Mundial da Espanha. Sulakvelidze, Chivadze, Shengelia e Daraselia foram os nomes escolhidos. Então, em um momento que deveria celebrar os êxitos do time, começou a derrocada do Dinamo. Frustrado com a ausência no Mundial, Kipiani decidiu pendurar as chuteiras aos 30 anos:

“Eu tinha dois sonhos, ganhar um troféu europeu e jogar a Copa do Mundo. Consegui o primeiro, mas o segundo está fora do meu alcance, porque estaria muito velho em 1986. Assim, não há razão para continuar jogando”, disse. Ali, o time georgiano perdeu seu cérebro. 

De forma ainda mais dramática, perderia também seus pulmões. Ao final de 1982, Daraselia sofreu acidente de trânsito fatal. Para os supersticiosos, um aviso. O meio-campista, campeão da Recopa no dia 13 de maio de 1981, que envergou a camisa 13 no Mundial de 1982, e faleceu em 13 de dezembro de 1982, também demorou 13 dias a ser encontrado, após o sinistro.

Destroçado, o Dinamo foi apenas o 16º no Campeonato Soviético de 1983, ficando uma posição acima da zona do descenso. Exceto por um quinto lugar em 1986, o time só faria campanhas de meio de tabela nos anos seguintes, até abandonar a liga e iniciar seu império no fraco Campeonato Georgiano — perdendo relevância e sendo, cada vez mais, lembrado apenas pelo brilho dos anos compreendidos entre o final dos anos 1970 e início dos 1980.

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